quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Guiné 63/74 - P5570: Votos de Feliz Natal 2009 e Bom Novo Ano 2010 (26): Um novo ano bem melhor do que o que passou (Joaquim Mexia Alves)

1. Mensagem de Joaquim Mexia Alves* (ex-Alf Mil Op Esp/RANGER da CART 3492, (Xitole/Ponte dos Fulas); Pel Caç Nat 52, (Ponte Rio Udunduma, Mato Cão) e CCAÇ 15 (Mansoa), 1971/73), com data de 29 de Dezembro de 2009:


Meus caros Camarigos
Passou um ano e já outro ano está a começar!


Penso neste ano que passou em relação à nossa Tabanca Grande e vou-me apercebendo de várias coisas, pelo menos para mim, pois que felizmente não pensamos todos da mesma maneira.

Mas em primeiríssimo lugar quero tirar o chapéu, ou mais do que isso, agradecer ao Luís Graça, ao Carlos Vinhal, ao Virgínio Briote e ao Eduardo Magalhães Ribeiro o trabalho, a dedicação, que dedicaram a todos nós, aos nossos escritos, frutos das nossas memórias e também imaginação, pois então, e também, ou tão mais importante ainda, a paciência para lidarem com incompreensões, com impaciências, com pequenas revoltas, com pequenas ou grandes quezílias, com eles, ou entre atabancados, mas que no fundo acabam sempre por sobrar para eles.

É que muitas vezes a sua intervenção nesses pequenos problemas, (gerados porque somos diferentes e por isso pensamos diferente), vão muito para além dos textos, e transformam-se em contactos pessoais, carregados de sentido e amizade, para que a harmonia prevaleça.

Pela minha parte, e apesar de ser pessoa que rapidamente esqueço irritações e zangas, (as quais muitas vezes também sou rápido em comprar), quero desde já pedir desculpa a qualquer um que se tenha sentido ofendido por algo que escrevi, ou sugeri, na certeza de que se o fiz, não foi com esse sentido, mas tentando mostrar o meu ponto de vista que, reconheço, nem sempre será o mais correcto e verdadeiro.

Dito isto, quero ainda dizer, ou melhor, dizer escrevendo, que haverá sempre alguns assuntos que levantarão sempre crispações, irritações, até talvez zangas mais ou menos longas, assumidas ou não.

É lógico que se falarmos de Guileje, da guerra perdida ou ganha, da política ligada à guerra, etc., etc., sempre encontraremos clivagens, sempre encontraremos razões para discutirmos mais ou menos acesamente e, como tal, pontos de rotura e confronto, o que nem sempre nos torna mais calmos e sensatos.
(Estou a falar para mim e de mim, obviamente).

Mas não será por isso, que fique bem claro, que deixaremos de focar e discutir tais assuntos, apenas, julgo eu, devemos tentar perceber se as nossas intervenções vão acrescentar algo mais ao que já foi dito, ou se apenas são achas para um "fogo que arde sem se ver”.
E ao discuti-los que saibamos partir para a discussão na certeza de que aquilo que nós damos como certo e correcto, nem sempre é o certo e correcto para os outros.

Todos nós, julgo eu, já passámos por essa experiência de, ao falarmos com ex-camaradas de armas que estiveram ao nosso lado em determinada situação, percebermos que, estando no mesmo sítio à mesma hora e perante os mesmos factos, temos noções diferentes do que se passou.

Temos sempre que perceber, (e isso todos nós sabemos), que aquilo que para mim, longe de determinada situação parece errado, para aquele ou aqueles que a viveram, é a decisão mais correcta e acertada, ou seja, temos de calçar as botas dos outros, para que eles também calcem as nossas.

Estou a pensar, obviamente, em voz alta para mim, que bem preciso por vezes de pensar melhor, de ser mais sensato nos meus juízos, nos meus pensamentos, nas minhas certezas.

Uma coisa é certa: quem passou pelo que nós passámos, tornou-se irmão de sangue, mesmo que o não tenha derramado, e isso é ligação para toda a vida.
Só nós sabemos falar esta linguagem de ex-combatentes, e se já havia poucos que a entendessem, cada vez haverá menos.
Não será nos nossos tempos, creio eu, que se fará a História verdadeira da guerra de África, (nem sei se alguma vez se fará), mas o que escrevemos aqui, o que contamos ali, as fotografias que vamos recordando e que ficam para recordação, ajudarão com certeza, a tornar essa História mais verdadeira e sentida.

Tanto paleio afinal, para desejar aos meus camarigos todos um Novo Ano bem melhor do que o que passou, e sobretudo que neste Novo Ano possamos encontrar todos a forma melhor de lutarmos pela nossa dignidade e pelos nossos direitos, sobretudo os daqueles que ainda vivem escorraçados e desprezados pela Pátria que tão bem serviram com as suas vidas.

Abraço forte e camarigo para todos
Joaquim Mexia Alves
__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 17 de Dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5484: Votos de Feliz Natal 2009 e Bom Novo Ano 2010 (6): Guerra à guerra... (Joaquim Mexia Alves)

Vd. último poste de 31 de Dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5568: Votos de Feliz Natal 2009 e Bom Novo Ano 2010 (25): 'Ousemos lutar para ousar vencer' (Hélder Sousa)

Guiné 63/74 – P5569: Histórias do Eduardo Campos (2): CCAÇ 4540, 1972/74 - Somos um caso sério (Parte 2): 5 meses como operador de mensagens em Cufar




1. O nosso camarada Eduardo Ferreira Campos, ex-1º Cabo Trms da CCAÇ 4540, Cumeré, Bigene, Cadique, Cufar e Nhacra, 1972/74, enviou-nos a segunda parte da sua história, que vem complementar a primeira publicada em 25 de Dezembro, no poste P5534:


CCAÇ 4540 – 72/74
SOMOS UM CASO SÉRIO
PARTE 2

CADIQUE-CUFAR



Dois dias após o desembarque em Cadique, eu e o Nelson (Rádio Telegrafista) fomos chamados ao Capitão da Companhia para nos informar que um de nós teria de ir para Cufar. Tinha sido criado o COP 4 na referida localidade e seria necessário pessoal de transmissões para formar uma equipa.


O dilema do Capitão era quem iria ser o felizardo que iria sair dali (palavras dele) e, como não queria ficar com problemas de consciência, sacou de uma moeda perguntando-me: “Cara ou coroa?” Por muito mórbido que pareça a moeda foi lançada em cima dum caixão, que viajava connosco desde Bigene como se de mantimentos se tratasse.


Deus e a moeda estiveram comigo e, nesse mesmo dia, vi-me enfiado num Sintex rumando através do rio Cumbijã, para Cufar.


Quando lá cheguei fiquei surpreendido com o que vi, já que os militares e a população viviam misturados e as instalações militares eram dispersas e pequenas. No entanto o que estava reservado para mim, era uma tenda de campanha e um colchão insuflável, que, pouco tempo depois, já não funcionava. Por aqui fiquei cerca de 5 meses.



Foto 11 – Cufar: Junto às tendas do pessoal de transmissões do COP 4





Foto 12 – Cufar: Junto a um bombardeiro T 6



Consultada a minha já fraca memória e não tendo encontrado o meu bloquinho de apontamentos, onde registava essas andanças, ainda consigo recordar-me de alguns elementos da CCaç 4740 (Leões de Cufar), do Pel Rec Fox e do Alf Mil Murta (Pel Obus 14), bem como da pista de aviação (uma das melhores do Sul do TO).

O COP 4 era comandado por oficiais pára-quedistas, sendo o seu Comandante o saudoso Tenente-Coronel Araújo e Sá, de quem eu guardo muito boas recordações, já que,  sendo um homem duro e exigente, era também um militar de uma correcção extraordinária, humano e sempre bom Camarada, a que juntava um feitio extremamente rigoroso.


Trabalhei com ele muito de perto, sendo a minha especialidade radiotelegrafista, em Cufar passei a desempenhar as funções de Operador de Mensagens, pois não havia nenhum, e, diariamente, quase 24 horas por dia, lidava com ele, mesmo durante a noite entrando no seu quarto: “Meu Comandante, mensagem Relâmpago, Zulu.”, e a reposta era quase sempre: “Lê ou deixa.”


Nunca suportei muito bem a rotina da vida militar, como quase todos aqueles jovens que se encontravam na Guiné, mas foi precisamente este homem, um militar, que me ensinou alguns modos de comportamento e de decisão pessoais, que hoje imensamente prezo na minha vida.


Não posso formar sobre a sua personalidade, como é óbvio, uma opinião de carácter estritamente militar, mas uma coisa eu sei, é que era normal ouvir os seus homens dizerem, a todo o momento, que ele era detentor de invulgar e extraordinária competência militar.


Além deste vulto militar, tive também o grato prazer de conhecer, naturalmente, outros oficiais e sargentos, que na época constituíam a fina-flor dos pára-quedistas, como por exemplo: o Major Calheiros, Capitão Terras Marques, Pessoa, Valente dos Santos, Cordeiro e o Sargento Barros.



Foto 13 – Cufar: Natal (da esqª para a dirª). Eu, o “Eiras” (um homem da CCaç 4740 - Leões de Cufar) e o “Porto” do COP 4 (Nota-se nesta foto a falta que a ASAE já fazia naquele tempo)



Em termos de flagelações, Cufar também sofreu algumas, com mísseis (ou foguetões, como nós dizíamos), que caíram muito perto da pista de aviação e, um deles inclusive, teve o seu impacto dentro do aquartelamento, embatendo numa árvore e não explodindo.


Recordo-me, ainda, de um ataque do PAIGC com armas ligeiras, muito perto da vedação, em que eu estava dentro de uma vala e um militar da companhia açoriana, me pediu para encher carregadores de G3.


Eu estava tão entusiasmado a ver as balas tracejantes a atravessarem o espaço, que não tive tempo para lhe satisfazer tal pedido.



Foto 14 – Cufar: Local onde caiu míssil que não explodiu


Em Cufar apareceu um dia, uma delegação da NATO, para inspeccionar se nós, os militares portugueses, estaríamos a utilizar equipamento da mesma organização. Aqui deixem-me rir um pouco!

Entretanto chegou um pira, Operador de Mensagens, que me libertou muito do trabalho que vinha tendo, e me permitiu, inclusive, ir a Bissau passar uma semana de férias.


Foi o próprio Comandante a falar no assunto: “Você merece.” - disse ele. E lá fui para Bissau.


Era frequente estarem estacionados na pista de Cufar, um helicanhão e alguns helicópteros, que regressavam a Bissau ao final da tarde e foi num desses helis que fiz a viagem.


Fiquei surpreendido com a forma dos helis voarem muito rente às copas das árvores e perguntei à enfermeira, que viajava também no helicóptero, o porquê daquilo? Resposta dela: “Foi abatida, ou caiu, uma DO no Norte, perto de Binta.”.


A partir daí, a viagem pareceu-me durar uma eternidade.


No regresso a Cufar, uma semana depois, era para viajar num NordAtlas, mas olhando para o que se tinha passado com a DO e o modo como voavam os helicópteros, resolvi untar as mãos do responsável e lá me safei de voar outra vez. Acabei por regressar numa LDG, numa viagem com a duração de 24 horas a ração de combate, cansativa, mas mais segura (digo eu).



Foto 15 – Junto ao Canhão S/R com um camarada do COP 4





Foto 16 – Cufar –NordAtlas



Foto 17 – Cufar: Com outros camaradas de transmissões do COP 4






Foto 18 – Cufar: Pose... só para a fotografia claro…



Foto 19 – Cufar



Foto 20 – Cufar: Preparando a filmagem da chegada dos piras (estilo Steven Spielberg)



Foto 21 - Cufar: Heli Alouette III




Foto 22 – Cufar: Dentro da vala






Foto 23 – Cufar: Abrigo



Foto 24 – Cufar: NordAtlas






Foto 25 – Cufar: Canhão sem recuo



Foto 26 – Cufar: Vala com pessoal das transmissões COP 4



Foto 27 – Cufar



Cufar era uma placa giratória de apoio logístico para o Sul e, por esse motivo, originava um movimento muito fora de vulgar, quer em meios aéreos, quer em viaturas e pessoal militar.


Apesar de estar ausente da minha Companhia, eu vivia intensamente os seus problemas e estava ao corrente dos mesmos, porque o meu trabalho no COP 4 me dava acesso a quase todas as informações, e porque o que nos separava era apenas o rio.


Em Maio ou Junho de 1973, apareceu em Cufar um tenente de transmissões, destinado a chefiar o pessoal das transmissões do COP 4.


Mal vi o tal tenente conheci-o logo, era o Tenente V…. Pensei para comigo: “Estou feito!”


Não é que o homem  era o mesmo que,  no Regimento de Transmissões do Porto,  passava a vida a escalar-me para reforços, quando estava de oficial de dia ?! Ou eram as botas, ou a camisa, ou isto e aquilo… nunca saí para a rua quando ele estava de oficial de dia.


De imediato fui ter com o Comandante Araújo e Sá e pedi para regressar a Cadique. Ele bem tentou demover-me dizendo: “Tu não estás bom da cabeça, queres ir para aquele inferno!”


Mas lá acabou por aceitar e, no dia seguinte, regressei a Cadique.


Um abraço Amigo,
Eduardo Campos
1º Cabo Telegrafista da CCaç 4540



Fotos: © Eduardo Campos (2009). Direitos reservados.

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Notas de M.R.:


Vd. último poste desta série em:


Guiné 63/74 - P5568: Votos de Feliz Natal 2009 e Bom Novo Ano 2010 (25): 'Ousemos lutar para ousar vencer' (Hélder Sousa)

1. Mensagem do nosso amigo e camarada Hélder Sousa (ex-Fur Mil de Transmissões, TSF, Bissau e Piche, 1970/72) que já circulou na nossa rede interna, e que foi dirigida à lista dos seus muitos, centenas, de amigos, incluindo os membros da nossa Tabanca Grande:

Caros amigos

Agora que já passou a época das prendas de Natal, talvez o ambiente seja mais propício para se falar das coisas da Vida.

Lembro-me que quando fui estudante profissional ter visto, em 1969, salvo erro, uma edição de poesia da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências de Lisboa em que, entre outros, vinha lá um poema, cujo autor não me lembro e cujo tema pode parecer que não é apropriado, mas acho que pode ter algum paralelismo, e que era assim:

Foi Carnaval!
Todos tiraram as máscaras,
Já ninguém se conhece!


Ou seja, enquanto Tarzan, Zorro, Napoleão, Espanhola, Bombeiro, Enfermeira, Bailarina, Super-Homem, etc. eram sempre reconhecidos e identificados mas, passada a ocasião, voltava-se ao mesmo anonimato, à mesma indiferença.

Com o Natal passa-se um fenómeno semelhante. Diz-se amiúde Boas festas mas, de quê?, de quem?, porquê? E é ver pessoas que durante um ano inteiro se entretêm a fazer a vida num inferno aos que os rodeiam (ou aos que governam), a colocar aquele ar pungente, bonzinho, paternalista, 'amigo', desejando um 'bom Natal', 'festas felizes', etc.

Quantas vezes o 'motivo' da Festa não é totalmente excluído da mesma? Quem se lembra, neste espaço de civilização judaico-cristã, que se comemora exactamente o nascimento do Filho de Deus?

Que, por esse acontecimento, o nascimento d'O que nos iria redimir, é aberto, iniciado, um ciclo de vida que, segundo esses ensinamentos civilizacionais, nos levará à via da salvação?

Também nas civilizações pré-cristãs esta época era motivo de grandes festejos.

Não se esqueçam que o nosso povo tem um ditado que diz "pelo Natal, um pulinho dum pardal", referindo-se ao crescimento dos dias, já que o Solstício de Inverno ocorre poucos dias antes, a 21 de Dezembro.

Ora acontece então que, sendo o Solstício o acontecimento que marca 'o Sol parado', ou seja, o momento em que se inverte a predominância das trevas sobre a luz, em que os dias passarão a ganhar cada vez mais espaço em detrimento da noite, em que a Vida inicia um novo ciclo de crescimento até à Primavera com toda a sua pujança, culminando no Verão, voltando depois a completar o ciclo com a Ordem Natural das coisas, pode-se encontar aqui também uma proposta de orientação para os tempos que se aproximam.

Seja então o Natal cristão, seja a Ordem dos ciclos da natureza, temos a exaltação dum Início. O começo da caminhada para a remissão dos pecados, o começo dum novo ciclo de Vida.
Que seja pois encetada com todo o entusiasmo, com toda a coragem, com toda a confiança, a caminhada que cada um terá que fazer no Novo Ano que se avizinha e que, para variar, não se augura promissor.

Será a nossa determinação em "ousar lutar para ousar vencer" que poderá marcar a diferença!

Que tenham tido então umas Festas Felizes! Que tenham então um Novo Ano pleno de satisfação!

São os meus votos!

Beijos e abraços, conforme os casos.

Hélder Sousa

2. Comentário de L.G.:

Hélder, obrigado pelo teu presente de Natal, que tiveste, ainda para mais, a gentileza de ir expressamente entregar no meu local de trabalho. E que foi, nada mais nada menos, um exemplar da História de Portugal em Sextilhas, autografada pelo seu autor, o Manuel Maia. Agradeço a ambos. Quero desejar-te as melhoras da tua esposa e, se me permites, um Melhor Ano, em 2010, para todos nós.

Retomo a tua reflexão teológica e sócio-antropológica e interrogo-me também: por que é que o último ano é sempre (?) um annus horribilis ? ... No nosso actual ciclo de vida, é já difícil aspirar que o próximo ano seja melhor do que o anterior... Afinal,.estamos a envelhecer desde que... nascemos. Mas sejamos optimistas, por princípio!... Ou, melhor, por anti-conformismo!...

"Ousemos, pois, lutar par ousar vencer"... (Mesmo que a frase, já tão estafada, tenha velhas reminiscências maoístas e quiçá confucianas... Mas, afinal, tudo o que dizemos ou escrevemos, está inevitavelmente conotado ideologicamente... Quer queiramos ou não, acabamos todos por pensar no quadro da nossa dupla matriz histórico-cultural, helenística e judaico-cristã)...

Celebremos, antes, a vida, o início, o natal, o eterno retorno:

(..) Mas chegados ao fim do ano,
É costume fazer-se o balanço,
Se não da viagem,
Pelo menos do deve-e-haver
Das nossas vidas,
Da carga preciosa que transportamos connosco,
Que é a vida e o dever de a viver.
Que é o fogo da vida
E a obrigação de o alimentarmos,
O pequeno milagre
Ou o simples facto
De estarmos vivos,
De ainda estarmos vivos
E de estarmos juntos.

In: Luís Graça > Blogpoesia > 3 de Dezembro de 2005 >
Blogantologia(s) II - (21): O deve-e-o-haver de 2004


3. Comentário do Alberto Branquinho:

Helder

HOMBRE!! Que texto!

Era uma "coisa" assim que eu queria escrever, agora que passou o período em que o pessoal andava "alumbrado". É que muita gente não pensa. Vai na exurrada. Tive receio de escrever. Poderia ferir susceptibilidades (?!).

No entanto, enviei ontem um texto para o blogue, onde tento dizer isso mesmo, de forma muito resumida.

Quanto ao poema que citas de cor (e sem erros):

"CARNAVAL
Foi carnaval
Todos tiraram as máscaras
Já ninguém se conhece"


Está num livro de um só autor (José Fanha), chamado "Cantigas da dúvida e do perguntar" e foi, efectivamente, uma edição (em "plaquette") da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências de Lisboa. Foi vendido informalmente nas cantinas universitárias, a baixo preço, em 1970/1971, ainda esses ambientes fervilhavam de contestação ao regime político. Por curiosidade, nas primeiras páginas, onde, habitualmente, estão o ISBN, direitos de autor, etc., consta o seguinte texto:"Todos os direitos NÃO reservados incluindo os Estados Unidos da América".

Um abraço para o autor do texto (que merecia estar no blogue)
Alberto Branquinho

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Guiné 63/74 - P5567: Os amigos da Capela de Guileje (9): Reconstrução, quase pronta, da capelinha de Guileje, terra de fé e de coragem, nas palavras do saudoso Zé Neto (CART 1613, 1967/68)






Guiné-Bissau > Região de Tombali > Guileje > A capela da CART 1613 (1967/68), totalmente reconstruída, como parte do projecto "Memória de Guiledje", a inaugurar oficialmente no dia 20 de Janeiro de 2010.

Fotos: ©  Pepito/AD - Acção para o Desenvolvimento (2009). Direitos reservados


1. Em finais de Outubro, telefonou-me nosso amigo e camarada Camilo, de Lagoa (*). Anunciou-me que ia voltar à Guiné-Bissau, desta vez de avião. Da última vez, deixara o carro em Jugudul, na casa de um velho amigo.

Deve ter partido de avião a 30, e voltado um mês depois, em finais de Novembro. Acabara de fazer 65 anos (parabéns, Camilo!) no passado domingo dia 18 de Outubro. Os negócios ficaram por conta de filhos e genros. Ia dar uma mãozinho ao Pepito, ao Patrício Ribeiro e aos amigos da capela de Guileje (*).
- Vou ver se acabo a capela de Guileje. Mas a malta precisa de algum dinheirito. Até agora a mão de obra tem sido fornecida à borla pela empresa do Patrício [Impar Lda]. O dinheiro não cai do céu. Era preciso arranjar aí uma dúzia de camaradas, dispostos a entrar com 50 euros cada um...

Logo me prontifiquei a fazer um pedido aos camaradas e amigos da Guiné, à nossa Tabanca Grande, que estivessem dispostos a contribuir para este projecto, que sensibiliza a todos, de uma maneira ou de outra: a reconstrução da capela de Guileje, edificado no tempo da CART 1613 (1967/68). (**)

Alguns membros da nossa Tabanca Grande já me manifestaram a sua vontade e o seu interesse em comparticipar. Falta apenas abrir uma conta bancária, para esse efeito. Haja alguém, dos amigos da capela de Guileje, que assuma essa tarefa...

O nosso blogue abre o seu espaço a estas e outras iniciativas solidárias (como é o caso, por exemplo, do projecto Sementes: ainda recentemente o Zé Teixeira me fez o ponto da situação e me pediu o apoio do blogue para dar continuidade a esta bela iniciativa de levar água e sementes às corajosas e empreendedoras mulheres da Guiné-Bissau).

Entretanto, recebi a 17 do corrente, a seguinte mensagem do Pepito:

Luís: seguem para tua informação 2 fotos da capela. Já só falta pintar. abraço. Pepito

O museu "Memória de Guileje" (incluindo a capelinha) será oficialmente inaugurado no dia 20 de Janeiro próximo (***). Daremos em breve mais notícias sobre este evento.
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Notas de L.G.:

(*) Vd. poste de 16 de Junho de 2009 > Guiné 63/74 - P4534: Grupo dos Amigos da Capela de Guileje (2): António Camilo oferece 300 sacos de cimento e 150 litros de tinta

(**) Vd. primeiro e último  postes da série:

6 de Junho de 2009 > Guiné 64/74 - P4469: Grupo dos Amigos da Capela de Guileje (1): Já temos três: Patrício Ribeiro, António Cunha e Manuel Reis

24 de Setembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5004: Notícias dos nossos amigos da AD - Bissau (8): A viúva do Cap José Neto estará na inauguração da Capela de Guileje (Pepito)

(***) Vd. poste de 18 de Dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5494: Notícias dos nossos amigos da AD - Bissau (9): Inauguração do Núcleo Museológico Memória de Guiledje, em 20 de Janeiro de 2010

Guiné 63/74 - P5566: A guerra vista de Bafatá (Fernando Gouveia) (20): Memórias paralelas

1. Mensagem de Fernando Gouveia (ex-Alf Mil Rec e Inf, Bafatá, 1968/70), com data de 29 de Dezembro de 2009:

Caro Carlos:
Desejo que tenhas tido umas Boas Festas com toda a tua família, estendendo-se estes votos a todos os tertulianos.

Desta vez, apesar de enquadrada na série “A Guerra Vista de Bafatá”, não se trata de uma estória propriamente dita, mas antes um convite para uma exposição de fotografias, que fatalmente teria que acontecer.

A exposição abre no dia 04 de Janeiro e eu estarei lá presente nesse dia a partir das 17 horas.

Mais informo, que apesar de inicialmente não haver intenção de vender as fotos, estou a considerar isso (com um preço simbólico), e nesse caso o correspondente aos meus direitos de autor irão integralmente para as crianças da Guiné–Bissau por intermédio da ONGD “Ajuda Amiga”.

Um abraço
Fernando Gouveia


A GUERRA VISTA DE BAFATÁ

20 – Memórias paralelas


Vista da parte principal de Bafatá. No quarteirão, em primeiro plano situava-se a sede do Batalhão
Foto e legenda: © Fernando Gouveia (2009). Direitos reservados



Já em estórias anteriores referi que tive muita sorte na Guiné. Aliás em todo o tempo de tropa, como em estória futura relatarei. Dos cinco alferes, de Reconhecimento e Informações, que fomos mobilizados na mesma altura, dois com destino ao Q.G. e os outros, aos três Comandos de Agrupamento, considero que Bafatá foi o melhor que me podia ter calhado. Depois de ter ouvido os quatro camaradas que ficaram colocados nos outros locais, mais reforçada ficou essa minha ideia.

Bafatá, como todos sabem, era em 1968-70 uma zona de paz. Tive no entanto a minha pequena dose de guerra. Já aqui contei essa história*: Quinze dias em Madina Xaquili com condições inacreditáveis no que diz respeito a armamento e munições, o que me levou a conceber um plano de fuga caso houvesse um ataque e se acabassem as 16 granadas de Morteiro 60, de que dispunha. Esse ataque, com mortos e feridos, deu-se, como já contei, um mês depois de ter saído desse buraco. E por falar em buraco, sempre considerei o buraco da ponte do Rio Udunduma, por onde passei em Abril – 70, bem melhor que o de Madina Xaquili.

Podem crer camaradas, que se não tivesse vivido essa experiência de Madina Xaquili talvez nunca tivesse escrito texto algum para o Blog, apesar de considerar que a minha quota parte de ajuda no Agrupamento foi tão importante como a dos camaradas que todos os dias andavam de G3 nas unhas. Muita ajuda dei ao Coronel Hélio Felgas para delinear as suas Operações. Recordo o trabalho que deu o planeamento da “Lança Afiada” e só lamento a minha falta de coragem, naquela altura, para dizer ao Coronel que a Operação não ia dar em nada pois todo o pessoal IN iria atravessar o Rio Corubal, pondo-se a salvo. Dias depois sobrevoei a zona e o que se via lá em baixo era um frenesim na reconstrução de palhotas…

As minhas memórias de guerra foram deste tipo, mas paralelamente tenho outras que se reportam à minha estadia em Bafatá e mais concretamente à vivência extra quartel.

Por força de trabalhar no Agrupamento todo o dia até às oito da noite, praticamente só aos Domingos, é que me era possível passear a pé ou de jeep pelas tabancas, quer de Bafatá, quer as que ficavam próximas.

Morei cerca de um ano numa casa da tabanca da Rocha o que me ajudou a melhor contactar com a realidade civil africana. Como já anteriormente referi, “muitas fotos tirei (e gravações fiz) mas muitas mais ficaram por tirar”.

São estas últimas memórias, que face às de guerra propriamente dita, considero “Memórias Paralelas”. Assim e depois de um convite para expor algumas dessas fotos surge a concretização da exposição:

***/***/***/***/***


MEMÓRIAS PARALELAS DA GUERRA COLONIAL
GUINÉ 1968 – 70


Com um até para a semana camaradas, segue-se o convite para a exposição que vai estar patente, de 04 de Janeiro a 26 de Fevereiro próximos, no espaço “Vivacidade”, Rua Alves Redol, n.º 364 – B (traseiras do edifício), no Porto.

Fernando Gouveia

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Notas de CV:

(*) Postes de:

28 de Abril de 2009 > Guiné 63/74 - P4256: A guerra vista de Bafatá (Fernando Gouveia (2): Um alferes desterrado em Madina Xaquili, com um cano de morteiro 60 (I Parte)

8 de Maio de 2009 > Guiné 63/74 - P4305: A Guerra vista de Bafatá (Fernando Gouveia) (3): Um alferes desterrado em Madina Xaquili, com um cano de morteiro 60 (II Parte)

21 de Maio de 2009 > Guiné 63/74 - P4395: A Guerra vista de Bafatá (Fernando Gouveia) (4): Um alferes desterrado em Madina Xaquili, com um cano de morteiro 60 (III Parte)

28 de Maio de 2009 > Guiné 63/74 - P4429: A Guerra vista de Bafatá (Fernando Gouveia) (5): Um alferes desterrado em Madina Xaquili, com um cano de morteiro 60 (IV Parte)

6 de Junho de 2009 > Guiné 63/74 - P4470: A Guerra vista de Bafatá (Fernando Gouveia) (6): Um alferes desterrado em Madina Xaquili, com um cano de morteiro 60 (V Parte)
e
26 de Junho de 2009 > Guiné 63/74 - P4585: A Guerra vista de Bafatá (Fernando Gouveia) (7): Um alferes desterrado em Madina Xaquili, com um cano de morteiro (VI Parte)

Vd. último poste da série de 21 de Dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5513: A guerra vista de Bafatá (Fernando Gouveia) (19): Referências a lugares

Guiné 63/74 - P5565: O meu Natal no mato (30): Também lá estive... (Carlos Pinheiro, 1º Cabo Op Msgs, STM/QG Bissau, 1968/70)

1. Mensagem de Carlos Pinheiro, com data de hoje:
Luis Graça:

Também lá estive é o titulo, por acaso. Mas o que eu queria dizer é que já tenho feito alguns comentários aqui para a Tabanca e ultimamente têm sido publicados.

Porém, salvo erro no dia de Natal, também resolvi contar as peripécias de uma noite de Natal, a de 69, mas creio não ter sido publicada.

Se calhar não cumpri as regras da casa. E era isso que eu precisava saber. Raro é o dia em que não espreito o site e de vez em quando lá aparece um ou outro do meu tempo.

Quando for possivel agradeço mesmo que me forneçam as instruções, isto é as regras, para me passar a sentir também um tabanqueiro, porque ami cá sibe.

Um abraço

Carlos Pinheiro

Ex-1º Cabo Op Mensagens, mobilizado para o BCAÇ 1911 que nunca conheci (Veio no mesmo UIGE em que eu fui) e que passei os 25 meses (Out 68 a Nov 70) no Dest ST/QG/Bissau.

2. Também lá estive...
por Carlos Pinheiro

Companheiros, camaradas e amigos!

Como ex-combatente na Guiné, Outubro/68 a Novembro/70, e como leitor assíduo do, permitam-me, nosso blogue, nesta época natalicia há recordações que nos vêm mais à memória e o melhor, antes que seja tarde,  é passá-las para o papel.

Era véspera de Natal de 1969 e se bem que a guerra por vezes abrandasse, nunca parava. E havia sítios e posições que nunca podiam ser descuradas. Por exemplo, na minha guerra, no STM do QG de Bissau, que comunicava com o mato, com todos os COPs, todos os Agrupamentos, todos os Batalhões, todas as Companhias e até muitas outras subunidades, através das quatro redes de rádio (grafia) existentes, que comunicava com a metrópole, em grafia e em fonia e às vezes até por tele-impressor, com o BT na Graça que depois encaminhava as mensagens para os destinos, que comunicava com a Marinha e com a Força Aérea através de tele-impressor quando funcionava, a nossa guerra nunca podia parar. E as antenas colocadas ali bem perto, na Antula, eram o suporte e a garantia de que as mensagens chegavam aos seus destinos.

Nessa noite de Natal, depois de um jantar mais que atribulado que chegou a meter uma marcha até à messe de oficiais e ao "palácio das confusões" (messe de sargentos) onde os senhores estavam numa grande janta e o pessoal de serviço sem direito a nada, (a CCS/QG, vá-se lá saber porquê, tinha-se esquecido de nós),  depois deste pequeno incidente se ter resolvido,e sem que a nossa guerra tivesse alguma vez parado, nessa noite que devia ser de paz, recebemos uma mensagem zulu (relâmpago) duma unidade de que já não me recordo, e que tinha estado a ser flagelada, a pedir simente, vejam bem, um FRAPIL, porque no ataque tinham ficado sem gerador e dentro em pouco ficariam sem comunicações.

Já era tarde, talvez mais de meia-noite, quando isto aconteceu. Foi só chamar-se o motorista, ainda me lembro, o Mamadu Djaló que mais tarde foi motorista de táxi na cidade, que estava encostado no Unimog e pormo-nos a caminho do Batalhão do Serviço de Material, ali à Bolola, e entregar a mensagem ao oficial de dia para providenciar no sentido do solicitado chegar ao seu destino logo de manhã cedo. E assim foi. Lá foi um Allouette, bem cedinho, cumprir esta missão importante de que nós tivemos logo o reporte quando o FRAPIL foi instalado e começou a cumprir a sua missão.

Nessa noite os rádios nunca pararam, mas este caso foi de facto o mais relevante que aqui recordo com nostalgia.

Carlos Pinheiro
1º cabo Op Msgs
26/12/2009

3. Comentário de L.G.:

Meu caro Carlos: A gente (os editores do blogue) estão como tu e os demais camaradas do STM do QG de Bissau: não temos mãos a medir e não conseguimos publicar tudo o que chega à nossa caixa de correio... just in time.  Naturalmente que tu não és discriminado pelo simples facto de ainda não seres, formalmente, membro da nossa Tabanca Grande. Teremos, entretanto,  muito gosto em acolher-te na nosso grupo: afinal, tu também estiveste lá, és por direito próprio um camarada da Guiné... Manda-nos as duas fotos da praxe e promete respeitar as nossas dez regras de convívio  (disponíveis na coluna do lado esquerdo do nosso blogue)... E não te esqueças: uma vez camarada da Guiné, camarada da Guiné para sempre... Entre nós, pode haver amuos mas não há divórcios... Separações pode havê-las, sim, mas temporárias... E as nossas memórias são escritas  com humor, humanidade,  às vezes ainda com sangue, suor e lágrimas... Não são delitáveis (do inglês: to delete)... Até à próxima, camarada... Já agora, diz-nos donde és e/ou onde vives. Bom Ano. Luís Graça
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Nota de L.G.:

Guiné 63/74 - P5564: Em busca de... (106): Camaradas de António dos Anjos Maria, ex-Soldado da 1.ª CCAÇ/BCAÇ 4615/73 (Cacheu, 1973/74) (Tiago Mateus)

1. Mensagem de Tiago Miguel Mateus com data de 19 de Agosto de 2009:

Gostava de contactar com pessoas que estiveram na Guiné de 68 a 72, 73.
Gostava de conhecer alguém que tenha fotos de militares.
Tinha um tio que faleceu em 72, no rio Cacheu.

Chamava-se ANTÓNIO DOS ANJOS MARIA.

Era natural de Quinta de Belide, Colmeal, Góis.

Nunca o conheci, tenho uma foto dele na Guiné, fardado.

Gostava de contactar camaradas dele que até talvez o conhecessem, ou que tenham fotos.

Cumprimentos
Tiago Miguel Mateus
mateus.tiagomiguel@gmail.com


2. Comentário de CV:

Caro Tiago Miguel
Sobre o seu tio, recolhi estes elementos da Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974), 8.º Volume, Mortos em Campanha, Tomo II, Guiné - Livro 2:

Nome: António dos Anjos Maria
Número: 01096173
Posto: Soldado Atirador
Unidade: 1.ª CCAÇ/BCAÇ 4615/73
Unid. Mobiliz.: RI 16 - Évora
Estado civil: Solteiro
Pai: Manuel Maria
Mãe: Maria dos Anjos
Lugar: Quinra do Belide
Freguesia: Colmeal
Concelho: Góis
Local de Operações: Mansambo
Local de sepultura: Cemitério do Colmeal
Data do falecimento: 4 de Maio de 1974
Causas da morte: Acidente, afogamento

Sobre a Companhia de seu tio, recolhi os elementos constantes da pág. 193 da Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974), 7.º Volume - Fichas das Unidades, Tomo II, Guiné.

A 1.ª Companhia seguiu em 02NOV73 para Cacheu, a fim de efectuar o treino operacional e a sobreposição com a CCAÇ 3460, tendo assumido, em 23NOV73, a responsabilidade do subsector de Cacheu, com um pelotão destacado em Bianga.

Após desactivação de Bianga em 26AGO74, efectuou, em 02SET74, a desactivação e entrega do aquartelamento de Cacheu e recolheu seguidamente a Bissau, a fim de aguardar o embarque de regresso.


Fica agora com elementos que não tinha.

Há uma discrepância entre o 8.º Volume, Mortos em Campanha e o 7.º Fichas das Unidades, porque se o primeiro diz que a 1.ª CCAÇ operava em Mansambo o segundo refere Cacheu.

Como o camarada António Maria morreu afogado no Rio Cacheu, o 7.º Volume é que deve estar correcto.

Em tempos apareceu um camarada do BCAÇ 4615/73, Batalhão a que pertencia o seu tio, à procura de companheiros*.
O mail dele é: jlrodrigues.22@gmail.com

Temos no nosso Blogue um tertuliano da 3.ª Companhia, também do Batalhão 4615, que é o ex-Furriel Miliciano António Manuel Tavares Oliveira**.
O seu endereço é: antavol@hotmail.com

Sugiro que contacte os dois no sentido de começar as suas pesquisas.

Um abraço
CV
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 6 de Maio de 2009 > Guiné 63/74 - P4292: Em busca de... (72): BCAÇ 4615 (Teixeira Pinto 1973/74) (Francisco Teixeira)

(**) Vd. poste de 21 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5311: Tabanca Grande (189): António Manuel Oliveira, ex-Fur Mil da 3.ª CCAÇ/BCAÇ 4615/73 (Os Pifas), Bassarel, 1973/74

Vd. último poste da série de 27 de Dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5551: Em busca de... (105): Furriéis Mil Art Araújo, Santos e Tobias Queirós (Guileje e Gadamael, 1972/74) (Luís Paiva)

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Guiné 63/74 – P5563: Estórias do Mário Pinto (Mário Gualter Rodrigues Pinto) (32): O regresso (Mário G R Pinto)


1. O nosso Camarada Mário Gualter Rodrigues Pinto, ex-Fur Mil At Art da CART 2519 - "Os Morcegos de Mampatá" (Buba, Aldeia Formosa e Mampatá - 1969/71), enviou-nos a sua 32ª mensegem, em 29 de Dezembro de 2009:

Camaradas,

Resolvi retirar do baú das minhas memórias da guerra a estória do regresso à Metrópole da minha CArt 2519.

Regressamos no paquete Uíge, numa autêntica viagem de cruzeiro com paragem na bonita ilha da Madeira.

O REGRESSO

Às primeiras horas da manhã do dia 07MAR191971, atracou em Bissau a LDG proveniente de Buba, que trazia a bordo os últimos elementos da CArt 2519, com destino a Brá, para se juntar aos restantes camaradas que já há algum tempo, na cidade, gozavam finalmente a paz e as férias merecidas.

Digo férias e digo bem, porque a maior parte dos nossos camaradas tinham passado 22 meses e meio no mato, plenos de privações de todo o tipo, sem qualquer conforto, que, de alguma forma, Bissau sempre nos punha à disposição.

Em Brá aquartelados, esperamos ansiosamente o embarque marcado para 11MAR1971, o que não veio acontecer, pois o mesmo foi adiado para 6 dias depois (17).

O pessoal da Companhia todo reunido em Bissau, originou naturais momentos de euforia e de exageros, nomeadamente os inevitáveis festejos dos meus camaradas, que vieram colocar um grave problema ao Comandante (Capitão Barrelas), já que os nossos soldados tinham-se esquecido de alguns artigos do RDM, coisa que, em Bissau, era fatal à nossa malta, confrontados com a grande quantidade de oficiais e sargentos do QP, que estavam colocados na cidade e nela circulavam, por todos os cantos.

O tempo passado no mato (Vietname) e a falta de algumas normas a que se tinham vindo a desacostumar, não se compatibilizava com o rigor e disciplina que, como é sabido, se impunham aos militares que gravitavam nos quartéis da cidade, chocando, como é óbvio, com as rotinas e condutas habituais em Bissau.

Assim, surgiram alguns problemas com a PM, que a custo fomos resolvendo (diga-se de passagem com alguma cumplicidade dos mesmos) e, após um jantar de despedida da Companhia no "Solar dos 10", lá embarcámos de madrugada no dia 17 no paquete Uíge, rumo à tão ansiada Metrópole.

A vida a bordo apesar da ansiedade da chegada correu bem, com o pessoal todo animado esperando ver Lisboa a surgir no horizonte marítimo. A certo momento fomos informados que íamos fazer escala na Madeira, onde ficaríamos cerca de 6 horas para permitir o desembarque de uma Companhia de pessoal Madeirense.

Contamos os últimos pesos, ainda em nosso poder, para trocá-los por escudos ainda a bordo do navio.

Sim, porque como vocês se lembram toda gente fazia negócio com a malta, no câmbio da moeda. Na ida trocavam-nos os escudos por pesos, davam-se mil escudos e recebiam-se, em troca, mil pesos e, no regresso, davam-se mil pesos e, em troca, recebiam-se oitocentos escudos.

Como também nunca percebi como certos civis subiam a bordo à chegada a Bissau, para cambiar o dinheiro do pessoal?

Depois de vadiar umas horas na Madeira, lá retomámos a viagem fazendo a última refeição a bordo, já que no dia seguinte chegaríamos a Lisboa.

Pela manhã, bem cedo, avistamos terra e já ninguém segurava os homens. Até entrarmos na foz do Tejo e alcançarmos o cais de Alcântara foi uma alegria geral. A euforia era contagiante apoderando-se de todos nós, gritava-se, cantava-se e alguns até choravam. Cada um manifestava, a seu modo, a sua alegria de chegar são e salvo a Lisboa.

O cais que nos viu partir acabava de nos ver chegar, cheio com os nossos familiares e amigos, que também esperavam ansiosamente para nos abraçar.

Finalmente foi dada ordem de desembarque. Uma a uma as Companhias foram abandonando o paquete, descendo a escada que nos ligava a terra. Com os olhos ansiosos lá íamos procurando avidamente os nossos familiares, no meio da multidão que nos rodeava.

Foi a confusão geral naquele cais, correrias num vaivém frenético, procurando pais, tios, primos, namoradas, esposas e filhos… parecia que todo o mundo se tinha reunido naquele local, para nos abraçar. É impossível descrever o que ia na alma de cada um, mas tenho a certeza que era uma alegria imensa, aliada ao sentido de termos cumprido o dever a que tinhamos sido chamados, e a partida para um novo retomar da vida.

Seguiram-se as honras militares e o embarque, em viaturas, para Évora - RAL 3, Unidade Mobilizadora, onde no mesmo dia fomos desmobilizados, rumando cada um para o seu destino.

Assim se dispersou a CART 2519 em termos militares.

Por louvável iniciativa de alguns camaradas, foi feito o toque a reunir e todos os anos nos encontramos, para um salutar almoço de convívio, juntamente com os nossos queridos familiares.

Um abraço,
Mário Pinto
Fur Mil At Art

Fotos: © Mário Pinto (2009). Direitos reservados.
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Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em:

Guiné 63/74 - P5562: História da CCAÇ 2679 (31): Ataque à tabanca de Tabassi em 30NOV70 (José Manuel M. Dinis

1. Mensagem de José Manuel M. Dinis (ex-Fur Mil da CCAÇ 2679, Bajocunda, 1970/71), com data de 27 de Dezembro de 2009:

Ora viva!
Imagino-te, Carlos, depois das festas natalícias, com um bocadinho de dificuldade em chegares com os dedinhos ao teclado. Uma espécie de empanturrice que tolhe os movimentos. Por isso, peço desculpa se for inoportuna a mensagem, mas, consola-te com a proximidade da noite das grandes farras, durante a qual terás oportunidade para dançar em todos os estilos, desbaratando as gorduras excessivas, apurando o bom colesterol, deixando-te revigorado de músculos para o que der e vier. Jura, pá que não vais ficar agarrado ao computador! E depois, nos primeiros dias de Janeiro, vais às análises, e tranquilizas a família com os resultados.

Nesta perspectiva, quero fazer votos de que estejamos atleticamente melhor preparados, que durante o ano que termina. E que juntes muitas alegrias.

Votos extensivos aos atabancados e curiosos.

Peço aos prezados camaradas que, se algum tiver conhecimento de um alentejano, de nome Manuel António Espadinha Ourives, meritoso Foxtrot, o favor de nos pôr em contacto.

Abraços
J.D.


Tabassi, 30NOV70
JMMD

Sob o céu estrelado, imensamente abundante de astros, como não se vê em Portugal, mas inspiram saudades e desejos de viajar, adormeci sobre o luxo de um colchão insuflável, estendido sobre a erva fresca, virado para oeste, onde havia uma vala abrigo, para o que desse e viesse, a uns cinco, seis metros do arame que delimitava a aldeia na direcção poente e, logo a seguir, era a orla da mata densa, sombria, povoada por passarada e macacos, que, ao anoitecer, dormiam como gente.

Devia estar em sono profundo. Talvez sonhasse, porque era bom sonhar com alternativas às dificuldades. Mas, como não era meu costume recordar os sonhos, não posso afirmá-lo. Se, porém, seguia Morfeu na vigilância que exercia sobre as donzelas que dormiam e sonhavam, e nessa esteira me insinuava junto delas, não tive qualquer sucesso, nem o episódio durou muito tempo, pois, repentinamente, pum, despertei com um tiro, um tiro só, a romper com o silêncio escuro do princípio da noite. Que raio de merda, afirmava interrogativamente, enquanto me dirigia para o lado do disparo, do lado norte da aldeia.

Quando me aproximei do primeiro grupo daquele lado, logo o Virgílio Sousa se me dirigiu, num misto de nervoso e arrependido por ter disparado:

- Meu furriel, dizia incomodado, há ali turras a instalarem-se, eu estava de vigilância e ouvi muito bem os movimentos deles e galhos a quebrar.

Por mim não pressentia nada, e o silêncio era total. Respondi que seriam macacos num qualquer movimento. O Virgílio retorquia que não. Era dos melhores soldados e eu apreciava-o bastante. Dei-lhe a reprimenda pelo disparo infeliz, fiz-lhe ver que estávamos ali à conversa e não havia sinais do inimigo, o que contrariava a impressão dele, mas se viessem para atacar-nos, o tiro e a nossa conversa já teriam dado uma direcção, e já teríamos sido alvejados. Com ele estavam ainda o Orlando, o Pestana e o Pauleiro. Uma boa equipa. Estes últimos quase não falaram, mas pareciam alinhar com os argumentos do Virgílio. Uns minutos depois regressei ao colchão. Deixei a arma junto ao morteirete. O morteiro 60 naquela noite, ficava por minha conta, enquanto designara o Rodrigues para outra equipa, dada a falta de pessoal. Comigo ficavam também o Transmissões, o Enfermeiro e o Virgílio Fernandes. Voltei a adormecer, e profundamente.

Pum-pum-pum, tará-tá-tá, tará-tá-tá. O barulho era a sério. De supetão, abri os olhos, ergui-me, e corri. Na surpresa, ainda me agachei à aproximação de um rocket que soprava durante a passagem, e deixava um rasto que lhe dava identificação. Corri quatro ou cinco passadas, e bati de caras numa árvore. Merda, era no sentido contrário. Identifiquei assim a minha posição no terreno. Corri, então, em direcção à valeta, onde estavam os meus parceiros, já aos tiros para a periferia. A arma estava num extremo, na direcção norte. Disse ao Virgílio para ter atenção ao lado da bolanha, não fossem os gajos desencadear a norte e penetrar pelo sul.

Tabassi tinha defesas naturais: a norte e oeste, a floresta densa que se aproximava do arame, a sul, a bolanha e o cemitério conferiam-nos alguma segurança e desprezávamos a defesa por ali, no entanto, no momento, parecia-me um lado vulnerável. Em princípio, só se afigurava possível atacar a aldeia, a partir da direcção leste-oeste, a de mais fácil instalação para atacar, já que o coberto florestal não era tão denso, e a estrada de Bajocunda para Pirada seria ideal para colocar morteiros.

Afinal, disparavam rockets junto do arame.

Respirava-se um ar aquecido, uma mistura de terra e pólvora que me deixava apreensivo. À minha frente a visibilidade era boa. Peguei na G3 e reparei que no ângulo extremo do arame, onde se encontravam os linhas norte e oeste, havia uma saída de RPG. Dirigi para ali meia dúzia de tiros, não sei se demasiado alto, se demasiado baixo. As saídas continuavam a acontecer. A distância seria de uns quarenta metros. Daquele extremo para sul, junto do arame, não vi qualquer sinal de ataque. Mas do lado norte, na direcção para a estrada, mesmo sem visibilidade directa por interposição da tabanca, dava para ver e ouvir distintamente os reflexos e explosões das saídas e o rasto dos rockets, enquanto as armas ligeiras só causavam perturbação. Dei ao Transmissões essa indicação para quando se iniciasse o fogo de artilharia. Voltei ao meu lugar, e decidi-me pelo morteiro. Introduzi a mão, e senti o tubo limpo. Acariciei-o com a esperança de uma boa parceria. Havia ali um cunhete de granadas e estava a céu aberto, numa zona desmatada. Peguei numa granada, retirei-lhe as cargas propulsoras, porque a distância para o alvo era bastante escassa. Com a mão esquerda empinei o tubo, dei-lhe um ângulo de quase noventa graus, e direcionei-o. Pensei com os meus botões se a granada não iria rebentar atrás, pois já punha em dúvida se não excedera no ângulo. Porra, ajusta ligeiramente e vai à experiência, disse para mim. A granada voou e caíu ali perto, nitidamente perto, provocando uma explosão bem localizada. Fantástico, mais duas ou três do mesmo género, a ver, pensei com ar avalizador. Seguiram-se uns bons tiros e a posição inimiga perdeu actividade.

- Cabrões de merda, estão a querer fintar-me, e reagi, enviando mais fruta.

O ataque continuava de outras posições, num carnaval de metralha e rebentamentos. Entretanto, o Virgílio de Sousa viera anunciar-me que o Orlando e o Pestana estavam atingidos e inoperacionais. Perguntei-lhe qual era a situação e respondeu que o Pauleiro ficara a aguentar. Mandei-o regressar rapidamente e que poupasse munições. Disse ao Transmissões que comunicasse já termos dois feridos graves. O Enfermeiro, um piriquito deslocado de uma Companhia de Pirada, disse-me que ia para para junto dos feridos, mas ripostei-lhe para aguentar, que preferia um Enfermeiro vivo, a um gajo morto. A Artilharia fizera-se ouvir. Dirigi-me ao Rádio para chamar a atenção que visavam muito longe, e o ataque prosseguia, para esperarem mais um bocado e encurtarem a alça, tudo em português decentíssimo que não posso aqui reproduzir. Quando dei conta, o Enfermeiro desaparecera, tinha ido prestar os primeiros socorros e, felizmente, em boa hora o decidiu.

Voltei ao morteiro, agora para fazer tiros para a floresta ao longo do arame onde o IN se instalara. A coisa complicava-se por falta de visibilidade, mas tinha que ser, para abater ou provocar a debandada. Porra, acabaram-se as granadas. Mas junto do Viçoso, no lado oposto, junto da entrada, havia outro cunhete. Fui em correria. Quando regressava ao morteiro, o ataque tinha terminado. Mais umas palavrinhas para a Artilharia. Larguei o rádio, e avisei aqules dois que aguentassem ali, e o Virgílio que estivesse atento ao arame. Um tiro seria um sinal de ataque com certeza.

Fui à posição onde se registaram os feridos. Já ali estavam alguns elementos da posição mais próxima. Depressa reorganizei a defesa, deixei que três ou quatro providenciassem ao carregamento dos feridos para o interior da aldeia. Foram para a casa do chefe da tabanca. Havia que designar dois outros elementos para substituição. Depois dei a volta à aldeia para ver o pessoal. Estavam bem dispostos e ainda tinham bastantes munições. Até o piriquito alentejano, o Espadinha Ourives, demonstrava bom ar e confiança. O Antão Mendes veio ter comigo, com a cremalheira dental aberta, em sorriso largo e malandro, a contar que os gajos que estavam mesmo à frente dele, levaram com uma quantidade de dilagramas que se lixaram. Perguntei-lhe se tinha retirado as cavilhas às granadas, e respondeu que sim, pois claro.

- Grande coisa que fizeste, hoje era para os corrermos à pedrada, disse, afastando-me.

- O furriel está maluco, ouvio-o dizer, e devia continuar a descrever as cenas para quem queria mais informações.

Finalmente fui saber dos feridos. Fiquei arrepiado, até à espera do pior. À luz da vela e de uma mecha, o Enfermeiro desdobrava-se em cuidados. Fez um excelente trabalho, cuidou das feridas de cada um com grande dedicação e saber, salvando-os da morte. Deu um tremendo exemplo de camaradagem, primeiro, arriscando-se na deslocação durante o foguetório; depois, no local, dispensando os primeiros socorros à luz de um isqueiro, nas barbas do inimigo que ainda atacava; finalmente, na assistência nocturna até à evacuação. Sem descanso, sem dar mostras de cansaço, com tremenda escassez de meios. Subitamente, senti uma tremenda pressão sanguínea, que percorria as artérias em grande velocidade e grande tensão. Foi, durante um minuto, a minha descarga nervosa.

Recebi a informação de que o 3.º Pelotão vinha a caminho com outro Enfermeiro. Desloquei-me novamente às posições do lado de Bajocunda a prevenir a chegada eminente dos camaradas, não fosse acontecer um disparate. Fui lá eu, não mandei. Depois, junto do Rádio, fui informado que, aos primeiros alvores, devia ter os feridos prontos para evacuação, mas seriam levados em viatura para Bajocunda, e dali seriam transferidos para Bissau.

À frente, o Leal comandava o 3.º Pelotão, e dava exemplo de coragem e determinação para nos socorrerem. Foi uma grande alegria. Reforçámos as posições defensivas, pois seriam ainda umas duas da manhã e considerámos a possibilidade de novo ataque.

Aos primeiros alvores, saíu uma Secção para verificar as posições inimigas, sem mexer no que fosse, enquanto eu ficava junto dos feridos a ver como seriam tratados, sem intromissões desnecessárias. Como previsto, de Bajocunda chegaram as viaturas para os transportar. Alguém chegou-se a mim, referindo a existência de mortos na mata. Já não esperei mais, e logo me dirigi para o local. Alertei para ninguém me seguir, e aos que estavam por lá, para não se movimentarem. Quando ali cheguei, no sítio onde, inicialmente, detectara as saídas de RPG, estavam cinco corpos, um ainda vivo. Lembro-me muitas vezes do que pode ter sido a sua última manifestação: tocou-me na bota e fez um olhar surpreendente, absolutamente branco, o globo ocular ter-se-ia revirado, e parecia um berlinde leiteira. Morreu pouco depois. Pedi para me trazerem a corda e referi que não queria ali mais ninguém. Aproximavam-se civis com facas para cortar orelhas. Referi novamente que não queria ali mais ninguém, para além dos que estavam comigo, e dei ordem a dois Foxtrot para dispararem sobre os desobedientes. Quando me trouxeram a corda, mandei afastar o pessoal. Fiz um laço que coloquei num dos pés de cada um e, na posição de deitado, puxei por cinco vezes sem consequências. Nenhum dos corpos estava armadilhado. O terreno também não apresentava sinais de minas.

Durante a fuga acelerada, o IN teve a preocupação de levar o material passível de carregar. Ainda assim deixaram algum armamento. Já não corríamos qualquer perigo. Mandei vir um Unimog, e ajudei a carregar os turras, para serem enterrados em Bajocunda. Antes, alguém se me dirigiu:

- Furriel, olhe só as botas destes gajos, novinhas e em "calfe", enquanto eu ando com estas rotas e sem concerto. Posso tirar-lhe as botas?

- Claro que sim, podiam tirar as botas, os cintos, uma faca de mato, até uma pistola, que foi convenientemente guardada. Só não podiam ferir-lhes a dignidade.

Ainda recebi um cinto como recordação.

No interior do arame, perto da posição atingida pelo primeiro disparo IN, encontrei uma granada de morteiro, enfiada na terra arenosa, e que não rebentara. Provavelmente não atingiria o pessoal que já contava com dois feridos, mas foi uma grande sorte, e só eu usei o morteiro. Foi quando fiz fogo cruzado sobre umas moranças para aliviar a pressão do IN.

O comportamento do Pelotão foi de grande atitude, com reacção pronta, serena e eficaz. Sofremos duas baixas, resultantes do primeiro disparo do IN, que acertou, exactamente, numa árvore próxima da posição ocupada pelos Foxtrot, e estilhaçou em redor, atingindo aqueles dois com gravidade. O Pestana foi evacuado para Lisboa, enquanto o Orlando, um mês depois, apesar das marcas e de alguns estilhaços impregnados no corpo, pediu para regressar ao mato e ao Pelotão, continuando a usar o lança-granadas como arma. Guindou-se, dessa maneira, a um nível heróico, desprezando os serviços auxiliares, em favor da família em que se tornara o Foxtrot, contribuindo para a coesão e impondo-se à admiração dos restantes. Aguentou até ao final da comissão com raros queixumes, humilde, mas decidido e camarada.

À chegada a Bajocunda uma multidão apinhava-se para nos receber. O Lameirão deu uma buzinadela, e imediatamente o proibi de fazer festa. A presença de muitos civis deixou-me intrigado, a pensar, se estariam ali para nos vitoriar, se em derradeira homenagem aos mortos. Apeei-me e dirigi-me para o quarto. Deitei-me sobre a cama, ainda perplexo, a pensar sobre a infelicidade dos mortos, sobre a provável infelicidade dos feridos, e sobre a possível afectação do nosso comportamento futuro. Pensei sobre os senhores da guerra, no conforto dos gabinetes, naqueles que dominam as mentes, impingem-lhes missões de inaceitáveis sacrifícios e entendimentos, e manipulam grandes e insondáveis interesses sob o manto da razão e do progresso, mas não se preocupam com as vítimas, antes, aliviam as consciências com a atribuição de medalhas e pseudo-homenagens, que se resumem ao frete de um discurso. E o povo aceita e orgulha-se dos heróis, perpetuando os sistemas que o domina.

Alguns elementos do 2.º Pelotão - Foxtrot, de pé, da esquerda para a direita: Dinis, Abreu, Teresa e França. Em baixo: Lamarão (condutor), Rodrigues, Martins e Virgílio Sousa
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Notas de CV:

Vd. último poste da série de 8 de Dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5424: História da CCAÇ 2679 (30): Situação geral no mês de Outubro de 1970 (José Manuel M. Dinis)