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segunda-feira, 13 de junho de 2022

Guiné 61/74 - P23345: Humor de caserna (55): O anedotário da Spinolândia (VI): no Cumbijã ouvi o nosso general a utilizar mais do que uma vez "a palavra que imortalizou Cambronne", para recriminar um oficial superior (Vasco da Gama, ex-cap mil cav, CCAV 8351, Cumbijã, 1972/74)


Guiné > Região de Tombali > Cumbijã > CCAV 8351 (1972/74) > Da direita: para a esquerda, o cap mil  cav Vasco da Gama, o general Spínola, o cap inf José Malheiro,  da CCaç 3399, de Aldeia Formosa, e o  comandante do BCaç 3852 (Aldeia Formosa, 1971/73). Spínola visitiu três vezes a CCAV 8351 (em Aldeia Formosa, Cumbijã e Nhacobá). 

Foto (e legenda): © Vasco da Gama (2009). Todos os direitos reservados Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. É uma boa história, um bom naco de humor de caserna, que nos ajuda a compreender melhor  a personalidade e a conduta do gen Spínola enquanto foi comandante-chefe e governador geral da Guiné, entre meados de 1968 e meados de 1973.

Foi contada aqui há mais de 13 anos pelo comandante dos Tigres do Cumbijã, cap mil cav  Vasco da Gama, CCAV 8351 (Cumbijã, 1972/74), os bravo de Nhacobá. 


Visita do General Spínola a Cumbijã em 14 de abril de 1973

por Vasco da Gama


Vasco da Gama
(...) Terminei o último capítulo da história da minha Companhia com o relato de um ataque ao arame no dia 9 de Abril de 1973, a um arremedo de aquartelamento que era o Cumbijã: duas fiadas de arame farpado, quinze ou vinte tendas de campanha, valas para protecção de eventuais ataques e uma cozinha de campanha. (...)

No dia 14 de Abril de 1973, mais uma vez recebemos a visita do General Spínola.

Parei este texto neste parágrafo, vai para mais de quinze dias. Problemas da vida pessoal, mas fundamentalmente o medo de não saber expressar, ou fazê-lo de forma menos correcta, os sentimentos acerca do General Spínola, homem controverso que suscitou, e pelos vistos continua a suscitar, sentimentos de amor e desamor, tão depressa acusado como louvado, que na guerra tentava encontrar soluções ou pela via diplomática junto de Senghor, ou invadindo países vizinhos, como aconteceu com a Operação Mar Verde, autor de "Portugal e o Futuro" (mais vale tarde que nunca), abandonando o Guileje ou pelo menos não lhe dando hipóteses de uma defesa racional, recusando o convite de Marcello Caetano para ministro do Ultramar em finais de 1973, recusando-se também e juntamente com o General Costa Gomes a fazer parte da Brigada do Reumático que foi prestar vassalagem a Caetano. 

Este homem, que foi também o primeiro Presidente da República,  após o dia da libertação – 25 de Abril de 1974  , este homem heterodoxo, será no decurso da história que vou escrevinhando acerca da minha Companhia, analisado apenas e só através de um discurso substantivo que se limitará a descrever a vivência que os Tigres do Cumbijã com ele tiveram.

No dia 14 de Abril de 1973 recebemos então a visita do General Spínola. Recordo-me da primeira pergunta que me fez:

−É do quadro ou miliciano?

Recordo-me da resposta imediata e eventualmente atrevida que lhe dei:

− Neste buraco?… Sou miliciano.

Vi nele o esboço de um sorriso, seguido de nova questão:

− Falta-lhe alguma coisa?

− Tudo |

− Tudo, o quê?

Seria fastidioso continuar esta conversa em discurso directo, pelo que os meus camaradas e amigos que são conhecedores das condições desumanas em que vivíamos, facilmente adivinharão o que durante alguns minutos lhe fui solicitando: 
  • cimento para construirmos casernas;
  • chapas de bidão cortadas;
  • apoio da Engenharia para que as coisas andassem mais rapidamente;
  • arcas frigoríficas a petróleo, pois não tínhamos direito a uma cerveja fresca;
  • um gerador;
  • e obuses, já que o apoio da artilharia quando éramos atacados nos era dado ou por Mampatá ou Aldeia Formosa, não tenho a certeza. 

A sua resposta ficou célebre entre os Tigres:

− Terá tudo isso na próxima LDG. Os obuses já estão tratados, o resto, repito, chega a Buba na próxima LDG, incluindo as arcas frigoríficas, nem que tenha de as ir buscar à messe dos oficiais de Bissau.

A parte final da frase obviamente era escusada, mas não imaginam a alegria que todos os soldados, e não só, sentiram ao ouvi-la. 

O General Spínola era exímio neste tipo de tiradas e nunca o ouvi a recriminar nenhum soldado, mas vi-o zangado com um grande do quadro, utilizando por várias vezes no seu discurso a palavra que imortalizou Cambronne (***), apesar da minha presença. 

Visitar-nos-ia ainda em Nhacobá, mas aí não houve tempo para discursos.

Só quero acrescentar que na LDG seguinte o prometido chegou! (...)

[ Seleção / revisão e fixação de texto para efeitos de publicação deste poste: LG]
___________

Notas do editor:


(***) Pierre Jacques Étienne Cambronne (1770 – 1842), francês, general de brigada do Primeiro Império, 1º Visconde de Cambrone, ficou célebre pelas palavras que terá  proferido na batalha de Waterloo, em 1815, à frente dos granadeiros da Velha Guarda de Napoleão.  Em inferioridade numérica,  cercado pelas pelas tropas do general inglês Charles Colville,  quando instado a render-se, com honra, ficou na história com a sua réplica: "La Garde meurt et ne se rend pas!" (A Guarda morre e não se rende!)... E terá acrescentado:  "Merde!", um típico vocábulo vernáculo dos gauleses... 

A expressão "a palavra que imortalizou Cambronne" (neste caso, "merde")  é um eufemismo, um figura de estilo com que se disfarçam as ideias desagradáveis ou as palavars grosseiras por meio de expressões ou palavaras  mais suaves...

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Guiné 63/74 - P15116: Caderno de Memórias de A. Murta, ex-Alf Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (20): De 5 a 21 de Agosto de 1973

1. Em mensagem do dia 12 de Setembro de 2015, o nosso camarada António Murta, ex-Alf Mil Inf.ª Minas e Armadilhas da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, Nhala e Buba, 1973/74), enviou-nos a 20.ª página do seu Caderno de Memórias.


CADERNO DE MEMÓRIAS
A. MURTA – GUINÉ, 1973-74 

20 - De 5 a 21 de Agosto de 1973


Da História da Unidade do BCAÇ 4513:

AGO73/05 – Durante a Op. “OUSADIA SATÂNICA”, na região (GUILEGE 3 E 8-93) foi detectado GR IN NEST (grupo inimigo não estimado) progredindo no sentido S/N que ao aperceber-se da presença das NT, após breves disparos, se pôs em fuga, não tendo resultado a perseguição que lhe foi movida. Dada a ausência absoluta de guias para a região do UNAL era fundamental conseguir-se capturar algum elemento IN que pudesse servir de guia. Chuvas intensas e constantes prejudicaram toda esta acção.

AGO73/06 – No prosseguimento da Op. “OUSADIA SATÂNICA”, surgiram alguns casos de doença entre as NT (paludismo, esgotamento, etc.) que obrigaram a fazer regressar uma das CCAÇ até BOLOLA para promover as evacuações. Três horas depois novos casos de doença surgiram e dada a impossibilidade de prosseguir a operação, por o objectivo ainda estar muito distante, não haver guias, se ter perdido o trilho e as NT se encontrarem esgotadas pelo esforço e pelas chuvas que continuam a cair insistentemente, foi determinado o regresso das forças a BUBA. [Sublinhados meus].

AGO73/07 – As forças empenhadas na Op. “OUSADIA SATÂNICA” foram autotransportadas para os respectivos aquartelamentos.


Do Resumo dos Factos e Feitos do BCAÇ 4513: [Tudo em maiúsculas no original]

D – Por determinação do CCFA o BCAÇ 3852 que já havia terminado a comissão, desloca-se para BISSAU a fim de embarcar para a Metrópole. O BCAÇ 4513/72 assume a responsabilidade do Sector S-2, com as suas companhias sediadas em A. FORMOSA, BUBA e NHALA, além de duas companhias de reforço sediadas respectivamente em MAMPATÁ e CUMBIJÃ. É durante este período que chega ao sector o BCAÇ 4516, que substitui na missão de intervenção na área de CUMBIJÃ-NHACOBÁ o BCAÇ 4513/72. A missão do Batalhão agora de quadrícula, abrange todo o Sector S-2, com excepção da subsector de CUMBIJÃ atribuída ao BCAÇ 4516.


Das minhas memórias:

7 de Agosto de 1973 – (terça-feira) – O regresso a “casa”. 

Era o tão aguardado regresso a casa: Nhala, finalmente. Ainda que quase todos combalidos, ainda que com um futuro de muito esforço pela frente, ainda que sujeitos a actividades de risco, nada importava, se pudéssemos sempre regressar a casa. Por poucos dias ainda estaríamos em sobreposição com a CCAÇ 3400 do BCAÇ 3852 que viemos render, mas depois tudo ficaria por nossa conta. Era uma sensação indescritível, que nos incutia confiança e optimismo. Quando cheguei a Nhala vi que a cobertura da minha palhota-estúdio/fotográfico tinha sido arrancada em parte, por maldade de um macaquinho domesticado pela população (segundo me disseram). Em plena época das chuvas o efeito no material e nos equipamentos foi devastador e definitivo. O que numa situação normal me causaria profunda tristeza, naquelas circunstâncias somente me deu pena. Às urtigas o “estúdio”! O importante era que tinha regressado a casa.

Às 00h01 do dia 10, (preciosismo da tropa), o Sector S-2 passou para a responsabilidade do BCAÇ 4513. Era como se nos houvessem devolvido os territórios que tinham sido sempre nossos. Para os protegermos, protegendo-nos a nós, ainda teríamos muitas canseiras mas, no final regressaríamos a casa. Já não era sem tempo: tínhamos chegado ali em Abril e só então, já entrados em Agosto, parecia termos destino definitivo. Havia que limpar os lustres e os espelhos, mudar os cantos à casa, arejar e sermos felizes. Patacoadas... No resto dos dias nem sempre foi assim.

Carta para a Metrópole:

Com data de 10 de Agosto, em carta para a namorada, depois de pedir desculpa pela longa ausência de correspondência e como que a justificar essa ausência, dou nota de detalhes das operações atrás referidas a caminho do Unal, que se me haviam apagado completamente da memória, mas também do meu optimismo em relação ao regresso a Nhala. (...).

”Estou há três dias em Nhala e, desta vez, creio que será definitiva a minha estadia aqui, a menos que, novamente surjam alterações imprevistas. Estou a recompor-me lindamente dos efeitos causados por estes últimos tempos. [Sobre a ida ao Unal]: Houve uma altura em que se supôs que já lá não iríamos, até que o Comandante do Batalhão foi a Bissau falar com o Spínola para que ele autorizasse o nosso regresso aos locais que nos tinham distribuído ao princípio, ou seja, a minha Companhia vinha para Nhala, e as outras iriam para os respectivos sítios, enquanto Cumbijã e Nhacobá seriam ocupados pelo Batalhão novo que está a chegar. O General autorizou os nossos regressos, mas pouco depois impôs como condição a nossa ida ao Unal. [Não tenho a menor ideia desta informação].
(...) Todas as companhias estão desfalcadas de pessoal por doença e, o meu grupo, por exemplo, tinha passado de 21 para 7 homens apenas.
(...) [Sobre a primeira operação, “Ousadia”]. Saída no dia 1 do destacamento de Cumbijã para o mato. Algumas horas a andar à chuva e dormida no mato. Noite perturbada pelo ruído de barcos a motor no estreitíssimo rio que teríamos que atravessar, mas não podemos denunciar a nossa presença. Partida de manhã (cerca de 250 homens). Depois de algum tempo a andar, caímos numa emboscada junto ao tal rio.
(...)  [Depois do regresso a Cumbijã], descansámos o resto do dia mas, no dia seguinte, fazem-nos sair em viaturas até Buba, onde também descansámos o resto do dia. Nessa altura eu já não aguentava mais e resolvi não alinhar no dia seguinte. [Inicia-se a operação “Ousadia Satânica”].
(...) Chegaram a pouco mais de meio caminho e houve novo contacto com os turras, quando os nossos surpreenderam uma enorme coluna apeada de carregadores, fortemente defendida por militares. Houve “festa rija” e o pessoal prosseguiu, chegando a andar cerca de 30 km. Como já tinham dormido no mato duas noites, e já se tinham acabado as rações de combate, além de andarem já com mais doentes nas macas, resolveram regressar. [A seguir faço comentários a uma reportagem passada aqui na televisão sobre a inauguração – não sei de quê -, feita pelo Ministro do Ultramar na Guiné. Ao cenário montado para a cerimónia, chamo-lhe uma fantochada que envolveu cerca de 3000 homens (não visíveis) na protecção e que, ainda assim, na véspera, entre eles houve um soldado pára-quedista morto e vários feridos].

[Acabo a carta dizendo que eram 24 horas e estava a escrever ao livre, de vez em quando sobressaltado por disparos na cercadura do aquartelamento].

“(...) É que os rapazes que estão de vigia nos postos são da Companhia “velhinha” que nós viemos render e, como daqui a 6 dias vão embora por terem terminado a comissão, estão excitadíssimos e não param de dar tiros”.


Da História da Unidade do BCAÇ 4513:

AGO73/08Regressou a CUFAR o Exmo. Coronel CURADO LEITÃO, Comandante do CAOP-1. que fizera PC (Posto de Comando) em A. FORMOSA durante a Op. “OUSADIA” e Op. “OUSADIA SATÂNICA”. [Sublinhados meus].

AGO73/09 – (...)

AGO73/10 – A partir das 00.01 o Sector S-2 passou à responsabilidade do BCAÇ 4513.

AGO73/12 – Em 121315AGO73, GR IN estimado em 40 elementos foi interceptado por forças da 1.ª CCAÇ na região (XITOLE 2 F 0-20). O IN reagiu com armas automáticas e RPG sem consequências para as NT. O IN sofreu 3 ou 4 feridos a avaliar pelos rastos de sangue. Foram capturados 3 elementos da população, um dos quais DEMBA DJASSI, de 17 anos, aluno da ESCOLA PREPARATÓRIA MARECHAL CARMONA DE BISSAU, confessou estar voluntariamente com o GR IN. Foram todos enviados à REPINFO/CCHEFE. Foram apreendidas 2 GR/RPG ao IN.

AGO73/14 – Deslocamento para Buba do Comando e CCS/BCAÇ 3852 e CCAÇ 3399.

AGO73/15Chegada ao Cumbijã do 1.º escalão do BCAÇ 4516, constituído pela sua 1.ª CCAÇ.


Das minhas memórias: 

15 de Agosto de 1973 – (quarta-feira) – Os que partem e os que chegam.

Começou o movimento extraordinário de colunas auto entre A. Formosa/Buba/A. Formosa. De saída, passou no dia anterior para Buba parte do BCAÇ 3852. Deviam ir felizes, imagino, mas exauridos por uma comissão muito prolongada para além do tempo normal. Nesta data (15), passaria no sentido Buba/A. Formosa a 1.ª CCAÇ do novo batalhão (BCAÇ 4516) com destino ao Cumbijã. Fui com o meu grupo fazer a protecção à coluna na picada Nhala/Mampatá. Saímos cedo e instalámo-nos perto de Samba-Sabali, creio, sob uma chuva gelada. Gelada, mas pior que todas as outras que antes nos flagelaram. (Seguem-se umas fotografias de um dia assim, mas no aquartelamento de Nhala, submetido a verdadeiro dilúvio).

Foto 1 - Aproximação do dilúvio. Cada um foge como pode.

Foto 2 - Começa o dilúvio. Seria assim também para quem estivesse no mato.

Foto 3 - Fotografia na direcção da luz, que era cada vez menos embora se estivesse a meio da tarde.

Foto 4 - Fotografia feita para o lado oposto, que era a saída para a fonte. Parecia noite.

Voltando à mata de Samba-Sabali. Foi uma espera longa e martirizante e, apesar de estarmos habituados à chuva, nunca antes tínhamos passado tanto frio. Recordo bem que tive de sair da mata para ficar na picada em pé, de braços e pernas abertos, por não suportar o contacto da roupa gelada com a pele. E foram horas assim. Num aerograma para a Metrópole refiro que estava um céu de chumbo, dia escuro, e de chuva tão prolongada e fria que, apesar de serem 15 horas, tinha as mãos azuis.

Só mais tarde e com menos chuva, passou então a coluna. Como era hábito, o meu pelotão estava invisível na mata e eu junto à picada a dar sinal da nossa presença e de que tudo estava bem.

Fiquei a ver passar aqueles rostos assustados, ainda sem saberem que iam para o inferno. Às tantas, entre todos aqueles soldados anónimos, reconheci um e tive um “baque”. Fitei-o sempre até perder de vista a sua viatura e, julgo, ele também me reconheceu. Era o Manel. O Manel era um rapazinho do interior, - Beiras ou Norte -, do nosso querido Portugal que, como tantos outros, era analfabeto. Isto nos anos 1972/73 do século XX e em plena Europa Ocidental, etc., etc. (Tinha acrescentado mais uma notas mas nem as transcrevo, porque se o tema já na época me era insuportável, ainda hoje me deixa furibundo. Podem-me vir falar do colégio de Bissau, de Luanda ou de Lourenço Marques, para as elites já se vê, mas neste rectângulo de 1 por 2 metros, fora das grandes cidades e do litoral, poucos completavam a instrução primária. Era o atraso, a miséria e o desamparo que imperavam. Sei do que falo, pois fiz a minha instrução primária por várias escolas do Norte e do Centro e fiquei marcado por tanta miséria que vi. Cheguei a ir descalço sobre a neve para a escola da Praia de Esmoriz, (1961-62), quase 2 km, em solidariedade com os desgraçados dos meus companheiros que era assim que andavam sempre. Fi-lo à revelia dos meus pais que achavam que eu não resolveria nada com a solidariedade. Mas fi-lo, e depois ainda tinha de dar parte do meu pão com marmelada quando na escola enxameavam a pedir uma “bucha”. Mais a Norte, do concelho de Paredes, nem quero falar).

Voltando ao Manel: era um analfabeto especial, não sendo único. Só sabia que era Manel, não sabia a data de nascimento, não sabia dizer de onde era, tão só o lugarejo onde nascera, não sabia para que lado era o Porto, Lisboa ou o mar. Não sendo doente mental, era tão primário e básico que o seu intelecto não devia ser superior ao de uma criança de menos de dez anos (dessa época). Para saber mais dele, pedi ajuda aos seus novos companheiros na tropa que me explicaram tudo, enquanto ele, com um sorriso de menino, se limitou a ouvir sem abrir a boca. Eram os seus amigos que o traziam no comboio para Tomar e, no sentido inverso, o deixavam na estação mais próxima do seu lugarejo, bem como lhe resolviam todos os pequenos problemas que se lhe deparavam na sua nova vida.

Quando formámos batalhão em Tomar e eu dei a formação de Especialidade ao que seria o meu pelotão, ele integrava-o como muitos outros analfabetos. (Em Nhala cheguei a ter uma classe de alunos que começaram pelo ABC e outros para fazerem a 4.ª classe). Salvo erro, dei como inaptos três soldados nessa Especialidade de Tomar, ele obviamente incluído, não sem alguma resistência dos superiores que viam escassear os homens que, para canhão, serviam perfeitamente. A minha ideia era safá-los da Guiné, nessa altura com a pior reputação em termos de guerra, e quando se dizia que os próximos batalhões iriam para Angola e Moçambique. Agora constato que, com as boas intenções, apenas prolonguei em muitos meses o seu tempo de tropa. Não recordo se tive oportunidade de o procurar após a instalação em Cumbijã.

O novo batalhão, agora a chegar, foi flagelado em Bolama com 8 foguetões. Houve 6 mortos e 15 feridos, quase todos da população. O meu batalhão escapou à regra, porque houve flagelações antes e depois de te termos lá estado.


Da História da Unidade do BCAÇ 4513: 

AGO73/17 – Em 172230AGO73, GR IN NEST dinamitou a estrada MAMPATÁ-COLIBUIA, numa extensão de 40 metros na região (GUILEGE 4 G 6-21) local situado entre os dois pontões destruídos anteriormente. NT reagiram com fogo de artilharia e morteiro.

AGO73/18A CCAÇ 3400 foi deslocada para BUBA, para seguir para BISSAU. [De Buba partiu, juntamente com a CCAÇ 3398, em LDG para Bissau no dia 19 e, para a Metrópole, em 8 de Setembro. (Da H. da U. do BCAÇ 3852)].

[Finalmente iria abandonar a minha palhota e passar a dispor de instalações boas e quase novas. Passaria a dormir numa cama de madeira, ter casa-de-banho, tudo paredes meias com a messe e o bar. O que é que se poderia querer mais? Sorte...].

AGO73/19 – Apresentou-se em A. FORMOSA vindo de BISSAU no NORDATLAS o novo Comandante do Batalhão – TEN COR INF.ª C. A. S. R.
- Chegaram a A.FORMOSA, vindos de BUBA o Comando e CCS/BCAÇ 4516 e a sua 2.ª CCAÇ.
- Em 191500AGO73, forças da CART 6250, quando procediam ao levantamento de minas NT na região (XITOLE 4G 7-22) encontraram cerca de 30 cargas trotil em petardos de 200gr, abandonados pelo IN aquando da sabotagem da estrada em 172230AGO73.

AGO73/20 – (...)

AGO73/21 – Comandante do Batalhão deslocou-se a NHALA e BUBA.
- Chegou de BUBA a 3.ª CCAÇ/BCAÇ 4516.
- Em 211815AGO73 GR IN NEST flagelou durante 25 minutos o destacamento de CUMBIJÃ da direcção de NHACOBÁ com cerca de 40 GR CAN S/R 82 da região (GUILEGE 6 A 2-34) e 30 GR MORT 82 da região (GUILEGE 6 A 7-54) causando 1 morto e 3 feridos ligeiros às NT. NT reagiram com fogo de Artª e Mort. [Sublinhei a negrito].


Das minhas memórias: 

21 de Agosto de 1973 – (terça-feira) – Grande flagelação a Cumbijã).

Apenas chegados há quatro meses ao Sector e parecia já ter decorrido uma vida, tal a intensidade com que se viveu esse curto período de tempo. Este dia não fugiu à regra. Em Nhala recebemos o novo Comandante do Batalhão, a quem foi apresentado o pessoal e mostradas as instalações. Pessoa simpática e acessível, no final deixou-se fotografar com alguns dos graduados presentes.

Foto 5 - O novo Comandante do Batalhão Ten Cor C. A. S. R. ao centro com o Comandante da Companhia Cap. B. C. e um grupo de alguns graduados. Eu sou o primeiro da direita à frente. (Fotografia adquirida em Nhala)

Não era sem tempo a sua vinda para o Batalhão, substituindo o Comandante Interino Major D. M. sobre quem, até à data, tinha pendido toda a responsabilidade dos atribulados meses antecedentes.

Chegou de Buba com destino ao inverosímil aquartelamento de Nhacobá a 3.ª CCAÇ do novo BCAÇ 4516. Nem quero pensar no choque que deve ter sido para estes “periquitos”.

Cumbijã foi mais uma vez flagelada mas, agora, com uma brutalidade inusitada, havendo um morto a registar e vários feridos. Mereciam melhor sorte, estes infaustos valentes. Em carta de 23-08-1973 para a Metrópole, dou conta de mais este duro golpe para a CCAV 8351 de Cumbijã, e refiro ter sofrido um morto a Companhia do Cap. Vasco da Gama que ainda devia estar na Metrópole de férias. Dos feridos, um em estado grave, digo que pertenciam à nova Companhia ali instalada há uns dias apenas, (1.ª CCAÇ do BCAÇ 4516). (...).

Este ataque certeiro a Cumbijã, sempre o supus, devia ter sido o resultado do aperfeiçoamento, ao longo das anteriores flagelações, dos militares de IOL (Informação, Observação e Ligação) do PAIGC formados na ex-URSS. Isto sabia-se mas faltavam elementos que o confirmassem. Dizia-se que conseguiam pôr uma granada de canhão dentro do espaldão dos nossos obuses. Só precisavam de um bom ponto de observação próximo do alvo. Certo dia, no regresso do mato com o meu grupo vi, acima das copas altas das árvores, uma palmeira que sobressaía em altura das demais e que tinha algo de diferente que, de longe, parecia um serrote vertical. Andámos às voltas até chegar junto dela e, nunca visto, tínhamos à nossa frente um tronco enorme com degraus desde o chão até ao topo. Eram travessas de madeira pregadas ao tronco pelo centro, fazendo um “degrau” para cada lado. Isto aconteceu nas imediações de Cumbijã. Era, de certeza, um posto IOL. Já não recordo mas, devo ter destruído o escadório ou registado a sua posição para a comunicar ao Comandante de Companhia.

Resumindo este 21 de Agosto, diria que foi muito marcante para todos: para nós do BCAÇ 4513 porque, várias vezes flagelados em Cumbijã sem consequências, pensámos então com alívio, mas sem gáudio, obviamente, que sorte tivemos de já não estarmos lá; para os “periquitos” do novo Batalhão porque, mal chegados, apanharam um susto que os deve ter deixado em pânico e a maldizer a sorte; e para a CCAV 8351 que, repito, tem sido martirizada no seu próprio aquartelamento, para não falar das acções espinhosas em que esteve envolvida. Aproveito para, a todos esses bravos Tigres do Cumbijã, render a minha sincera homenagem: aos seus mortos e aos que resistiram e ainda resistem.

(continua)
____________

Nota do editor

Poste anterior da série de 8 de setembro de 2015 > Guiné 63/74 - P15087: Caderno de Memórias de A. Murta, ex-Alf Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (19): De 26 de Julho a 4 de Agosto de 1973

terça-feira, 14 de julho de 2015

Guiné 63/74 - P14877: Caderno de Memórias de A. Murta, ex-Alf Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (11): De 23 a 24 de Maio de 1973

1. Em mensagem do dia 7 de Julho de 2015, o nosso camarada António Murta, ex-Alf Mil Inf.ª Minas e Armadilhas da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, Nhala e Buba, 1973/74), enviou-nos a 11.ª página do seu Caderno de Memórias.


CADERNO DE MEMÓRIAS
A. MURTA – GUINÉ, 1973-74 

11 - De 23 a 24 de Maio de 1973

23 de Maio de 1973 - (quarta-feira) - Cumbijã

Mais uma vez tenho o grupo de reserva. Ontem à noite mandei uma mensagem para Aldeia Formosa para saber se continuamos aqui: afirmativo. Continuamos, portanto, (...).

De manhã recebi correspondência para o meu pelotão e cerveja, mandada pelo nosso Cap. B. da C. que nos levantou um bocado o moral, sobretudo pelas suas palavras, e bem que precisávamos, pois há nove dias que saímos de Nhala e vivemos quase como animais. Junto à encomenda que nos enviou, vinha um aerograma que dizia:

“Meu caro Murta: 
Estava ansioso por saber notícias vossas, embora soubesse que não tem havido problemas com o nosso pessoal. (...) Já falta pouco para isso acabar e tentarei dentro das limitações recebê-los cá o melhor possível. Poderá parecer-lhe estranho, mas todo o pessoal daqui [Nhala] sofre visivelmente com a vossa situação. Se precisar de alguma coisa diga para aqui (...). Envio-lhe 5 cx. de cerveja por pelotão e 500$00. Das cervejas ofereço particularmente 2 a cada homem. O resto será vendido em cantina. O dinheiro será para financiar de momento o pessoal completamente teso, ao menos para cerveja. Depois apresentará contas. Desculpe não poder mandar mais nada mas nas condições de limitação económica em que nos encontramos, foi o que se pôde arranjar. Coragem, que é pouco mais.
Peço-lhe que transmita um voto de apoio e noção da situação a cada um dos seus homens. Um grande abraço do vosso melhor amigo, B. da C.".

[Ainda pensei não publicar esta carta, por respeito e protecção do recato do autor. Mas, se o fizesse, não se perceberia quão benéfica ela foi junto dos meus soldados e até em mim, tão carenciados de uma palavra amiga. Para se perceber melhor devo dizer que, a caminharmos para o décimo dia sem tomar banho e sem mudar de roupa, tínhamos que cumprir com as obrigações operacionais, suportar o calor inclemente, comer insuficientemente e quando calhava e, no final, não nos podíamos refrescar com uma cerveja por falta de dinheiro... É fácil de entender como seria o estado físico e psicológico de todos, propício, ainda, a atritos e quezílias que agravavam ainda mais o estado geral. Outros estariam na mesma situação ou, até piores, ali e por toda a Guiné, mas a mim o que importava era defender o meu grupo de combate, sabendo que havia alternativas àquela situação desumana, tal como se veio a verificar.

Depois desta atitude nobre e solidária do nosso comandante de Nhala, outras se seguiriam no futuro, já com a Companhia toda reunida mas sofrendo, periodicamente, da escassez de tudo, devido à falta de reabastecimentos. Certo dia relembrei-lhe que a falta de tabaco na Cantina de Nhala, estava a raiar o insuportável. (Quem não fuma não poderá entender isto!). Disse-lhe, ainda, que o pessoal estava em vias de se recusar a sair para o mato, amotinando-se. E que eu próprio, que comprava o tabaco por grosso e não à unidade, estava a ficar sem ele pois estava, já há algum tempo, a distribuí-lo aos fumadores do meu pelotão para serenar os ânimos. Em pouco tempo uma avioneta fretada foi a Buba deixar-nos o tabaco e outros bens essenciais. Toda a Companhia pareceu refrescada por um bálsamo. Poderia dar outros exemplos da generosidade e solidariedade do nosso capitão, mas eles surgirão a seu tempo.

Com estas palavras de gratidão e, porque não dizê-lo, de homenagem genuína, poderão ficar confusos aqueles que conheceram o modo infausto como ele acabou a comissão, mas esses derradeiros acontecimentos em nada beliscam ou anulam, tudo o que eu disse atrás sobre o homem de carácter íntegro e de grande formação humana. Com fraquezas, naturalmente, como qualquer ser humano].

************

Desde que aqui chegámos a Cumbijã que me tem doído a cabeça. (...). Hoje já não suportava mais e resolvi pedir ao Cap. Horta (?) para ir ao médico a Aldeia Formosa. Tenho o sistema nervoso arrasado e grande fraqueza geral. Meti-me na coluna que vinha de Nhacobá com a Engenharia e, caso curioso, a dor de cabeça começou a passar-me com a aplicação de álcool puro na cabeça. Já tenho o organismo cheio de Acetalgina.

À saída de Mampatá houve um acidente mortal: um rapazito da Engenharia, (são rapazitos e quase crianças muitos dos assalariados - quase todos capinadores -, caiu da viatura em que seguia, sentado no taipal, e bateu com a cabeça no chão tendo morte imediata. Embora não me impressionasse nada, porque já nada me impressiona, fazia pena o pobre do rapaz. Atravessado na estrada, braços debaixo do ventre, coberto de pó, (...). Levámo-lo connosco para Aldeia Formosa.

À chegada a Aldeia Formosa falei com o médico, que me deu um medicamento para os intestinos. Tomei banho e vesti uma farda que me emprestou o camarada alferes José Maia da 3.ª CCAÇ. Depois de jantar ouvi música e fui para o quarto dos oficiais onde dormi. Qual quê?!... Até à uma da madrugada diverti-me com as canções e os disparates dos meus camaradas de Aldeia Formosa. Era disto que eu precisava. Quase todos eles estão marcados pela situação. São crianças barulhentas e todos estão completamente “apanhados”.

[Para além do Maia, sempre sereno, recordo com saudade o António Marques da Silva com a sua boa disposição, o Amado João e a sua bonomia, e o Manuel Mota que era o cúmulo da irreverência].

Eu em Aldeia Formosa num domingo de Julho de 1973, vindo de Cumbijã para tratar de papéis. 

Aldeia Formosa - 1974, vendo-se à esquerda a pista, ao centro o quartel e à direita a tabanca.

Aldeia Formosa - 1974: Porta de armas vista do interior do quartel.

Aldeia Formosa - 1974: Edifício do Comando ao centro.

Aldeia Formosa - 1974: Aspecto da pista.

Aldeia Formosa - 1974: Tabanca e paiol.


24 de Maio de 1973 – (quinta-feira) – A. Formosa / Cumbijã

Levantei-me tarde, tomei o pequeno-almoço e escrevi para casa. Fui novamente falar com o alferes médico e ele receitou-me uma série de medicamentos. Às 11 horas regressei a Cumbijã integrado na escolta da água. O meu grupo continua hoje de serviço e, até agora, sem problemas. Os rapazes estão um bocado mais bem-dispostos, embora continuem sujos. À noite tive momentos altos de boa disposição, (era disto que eu precisava!), com o Cap. Vasco da Gama (de Buarcos) e restantes graduados da sua Companhia. Discutiu-se alegremente e bebeu-se muito uísque. A Companhia do Cap. Vasco da Gama sai amanhã de manhã para se instalar definitivamente em Nhacobá, aliás, foi esta companhia (a 51 de CAV), quem teve maior participação na expulsão do PAIGC.

Perto das 0 horas, depois de ter dormido, mal, durante umas duas horas, acordei com o barulho dum temporal que, de repente, se aproximava. Estava a dormir numa tenda grande de campanha superlotada, e tivemos que sair de emergência para ir esticar os cabos que a sustentavam de pé, de modo que o vento ciclónico não a arrancasse do chão. Em breve começou a chover, mas por pouco tempo e, até o vento, subitamente, deixou de soprar. A tempestade passou ao lado. Mesmo assim deixou-me com os nervos arrasados, pois se as condições já eram precárias, depois do breve temporal ficaram piores.

************

[É notório, e ao mesmo tempo curioso, que estes meus registos da época estejam tão focados nos problemas do pessoal e nos meus próprios, passando de leve as referências às actividades operacionais. Dou-me conta disso ao transcrever, agora, apontamentos que nunca relera. Mas isso tem uma explicação: se me dissessem, naquela altura, que mais tarde iria sentir a falta das notas com resenhas militares, eu fartar-me-ia de rir com tamanho disparate. Na minha cabeça, e na dos outros por certo, a guerra ficaria ali enterrada para sempre com os seus aspectos burlescos e trágicos, mal virássemos costas no regresso à Pátria. E assim foi durante 40 anos. Até conhecer a nossa Tabanca Grande e mergulhar nas histórias de quantos por lá passaram, surpreendendo-me e alentando-me a contar as minhas].


Da História da Unidade do BCAÇ 4513 e Resumo dos Factos e Feitos

Maio/73, 25 - De acordo com as ordens do COMCHEFE, pelas 22h00 inicia-se o movimento de retirada da região de NHACOBÁ até CUMBIJÃ. No entanto mantem-se os patrulhamentos constantes na região e as acções de segurança aos trabalhos de Engenharia. (!!!).

Do meu diário:

25 de Maio de 1973 – (sexta-feira) - O abandono de Nhacobá

Hoje o meu grupo esteve de reserva e logo de manhã tivemos autorização para irmos a Mampatá tomar banho e, embora tivéssemos que vestir a mesma roupa, isso deixou-nos bem-dispostos.

De vez em quando, como já vem acontecendo há vários dias, ouvem-se para os lados de Guilege os rebentamentos produzidos pelas bombas largadas pela nossa aviação.

À tarde, um rapaz do meu grupo, o Celso, foi acometido de qualquer ataque (supõe-se cardíaco) que o deixou inanimado e quase sem respiração. Foi evacuado para Aldeia Formosa.

Cerca das 16h30, chegaram aqui as viaturas da 51, carregadas com o material da Companhia que tinha seguido de manhã para Nhacobá. O Cap. Vasco da Gama ficou com o pessoal instalado lá, sendo arrasados os abrigos e tudo trazido de novo para Cumbijã. Não sei bem o que se passa, mas isto está tornar-se feio. Consta-se que Guilege foi ontem tomada pelo PAIGC depois de as nossas tropas terem abandonado tudo. Hoje, a decisão de abandonar Nhacobá, coincide com os boatos de que aquilo ia ser atacado em massa e, também, com a chegada de um Brigadeiro aqui a Aldeia Formosa.

A minha situação aqui continua sem alteração à vista, embora eu entupa os ouvidos aos “crânios” expondo-lhes os meus problemas. Há 11 dias que saí de Nhala com o pessoal e não vejo hipótese de rendição. Estamos a ficar com os camuflados podres, a desfiarem-se e, desde há muito que cheiram a azedo e salgado da transpiração acumulada.

Cerca das 23h30 chegou a CCAV 51 abandonando, em princípio, Nhacobá. Poucas horas depois, quando o meu pessoal já tinha entregado as tendas aos verdadeiros proprietários, desencadeou-se um violento temporal, apanhando-os a dormir ao ar livre. Isto vem agravar claramente a nossa situação.

(continua)

Texto e fotos: © António Murta
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Nota do editor

Postes anteriores da série de:

16 de março de 2015 > Guiné 63/74 - P14373: Caderno de Memórias de A. Murta, ex-Alf Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (1): Embarque para a Guiné, 16 de Março de 1973

8 de abril de 2015 > Guiné 63/74 - P14446: Caderno de Memórias de A. Murta, ex-Alf Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (2): Partida para Bolama, IAO e visita do General Spínola

5 de maio de 2015 > Guiné 63/74 - P14570: Caderno de Memórias de A. Murta, ex-Alf Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (3): Reunião com o Gen Spínola e início do IAO em Bolama

12 de maio de 2015 > Guiné 63/74 - P14603: Caderno de Memórias de A. Murta, ex-Alf Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (4): Segunda semana de campo

19 de maio de 2015 > Guiné 63/74 - P14637: Caderno de Memórias de A. Murta, ex-Alf Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (5): A caminho de Nhala

2 de junho de 2015 > Guiné 63/74 - P14691: Caderno de Memórias de A. Murta, ex-Alf Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (6): Chegada a Nhala

9 de junho de 2015 > Guiné 63/74 - P14720: Caderno de Memórias de A. Murta, ex-Alf Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (7): Levantar minas. Ponte interrompida

16 de junho de 2015 > Guiné 63/74 - P14755: Caderno de Memórias de A. Murta, ex-Alf Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (8): Início de Maio de 1973 – Os devaneios e a crueza da guerra

16 de junho de 2015 > Guiné 63/74 - P14755: Caderno de Memórias de A. Murta, ex-Alf Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (8): Início de Maio de 1973 – Os devaneios e a crueza da guerra
e
7 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14844: Caderno de Memórias de A. Murta, ex-Alf Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (10): 20 a 22 de Maio de 1973

terça-feira, 7 de julho de 2015

Guiné 63/74 - P14844: Caderno de Memórias de A. Murta, ex-Alf Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (10): De 20 a 22 de Maio de 1973

1. Em mensagem do dia 3 de Julho de 2015, o nosso camarada António Murta, ex-Alf Mil Inf.ª Minas e Armadilhas da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, Nhala e Buba, 1973/74), enviou-nos a 10.ª página do seu Caderno de Memórias.


CADERNO DE MEMÓRIAS
A. MURTA – GUINÉ, 1973-74 

10 - De 20 a 22 de Maio de 1973

20 de Maio de 1973 – Da História da Unidade BCAÇ 4513:

20 - A CCAÇ 18 e a CART 6250 patrulham e reconhecem uma das diversas tabancas de NHACOBÁ. Permanecem ali e cerca das 20h00 são flageladas com Morteiro 82, sem consequências.

- O Comandante interino do Batalhão deslocou-se a NHACOBÁ para apreciar a evolução dos trabalhos de estrada.


Do meu diário – notas curtas.

20 de Maio de 1973 – (domingo). Mampatá.

Mampatá. Serviço ao aquartelamento. O problema de se comandar uma Companhia (?). O camarada Esteves foi evacuado para Aldeia Formosa por suposta fractura no ombro, motivada por lançamento de dilagrama.
[Recordo uma manhã em que um alferes de Mampatá se levantou cedo para ir com o grupo para os lados de Cumbijã, tendo eu ficado na cama mais um bocado. Quando me levantei estava a passar para Aldeia Formosa uma evacuação e, na altura, disseram-me que se tratava do alferes saído há pouco para o mato e que dormia no mesmo “quarto” que eu. Não recordo o nome Esteves].

Dia sem incidentes (?) na “frente”, apesar do estado psíquico das NT. (Vários dias a dormir no mato e a comer ração de combate). Casos de insolação tratados em Aldeia Formosa. Pessoal excitado por longa permanência no mato não tem energia, mas quer por tudo entrar em Nhacobá. Soube-se que os “cabeças” pretendem que se entre lá de qualquer forma. Na retaguarda há expectativa, ansiedade e revolta muda. Grupos dos “velhinhos” com cerca de 18 dias além da comissão normal. Vão ter muito que esperar.

Recebi à noite directiva de Aldeia Formosa para avançar com o meu GC e com o GC “velhinho” da CCAÇ 3400, para Cumbijã. Um grupo de Colibuia passa a substituir o meu na segurança à retaguarda. Más perspectivas para amanhã.

Hoje, dia sem incidentes. Apenas à noite o rumor distante dos obuses.


21 de Maio de 1973 – Da História da Unidade BCAÇ 4513: 

21 - Forças da CCAÇ 18 estabelecem contacto IN armado de AAutm, RPG e MORT 60 tendo sofrido 1 morto, 1 ferido grave e 2 feridos ligeiros e causado 5 mortos ao inimigo.

- Às 21h15 a CCAV 8351 e a 3ª CCAÇ são flageladas em NHACOBÁ com MORT 60 e 82 e RPG da direcção (GUILEGE 3 D 5-36/3 E 4-34/2 E 7-38) sem consequências.

- O CMDT INTº do Batalhão deslocou-se a NHACOBÁ para apreciar a evolução dos trabalhos de estrada.


Do meu diário – notas curtas: 21 de Maio de 1973 – (segunda-feira). Cumbijã.

Cumbijã. Em princípio ainda não é desta vez que iremos para a frente (Nhacobá). O meu grupo ficou hoje aqui em Cumbijã de reserva e o grupo “velhinho” da CCAÇ 3400 de Nhala ficou de serviço.

Hoje os grupos na frente entraram em Nhacobá e houve recontro grave: morreu um soldado da 18 (Aldeia Formosa) e houve vários feridos graves, entre eles, um alferes com estilhaços na garganta.

O dia foi cansativo e aqui as condições são más: esta base, erguida a punho pela 51, não estava preparada para tanta tropa. Penaliza os que estão de passagem e, mais ainda, os que nos hospedam e tiveram de a construir. Contamos passar cá mais um dia. À noite Guilege foi atacada bem como Nhacobá, onde ainda não temos tropas fixas. Pela primeira vez ouvi tão perto um ataque de canhão e morteiro. Durou uns quinze minutos, tendo entrado em acção, como resposta, os obuses de Cumbijã, assim como o 14 de Colibuia.

Foto 1: 1973 - Cumbijã: Eu, acabado de chegar com o meu grupo de um patrulhamento onde cacei uma galinha-do-mato. E deixei fugir o seu par... Esse camuflado tresandava e, se me rio, deve ser a pensar no jantar melhorado.

Foto 2: 1973 - Cumbijã: Após um temporal, soldados da minha Companhia (2.ª CCAÇ) junto de coisas pessoais destruídas.

Foto 3: 1973 - Cumbijã: O alferes A. C. P. observa os estragos com o pessoal.

Foto 4: O alferes A. C. P. (e o alferes T. B. por trás dele), tentam animar o pessoal.

[Quando entrei em Cumbijã pela primeira vez, em data anterior a esta, foi-me explicado no terreno por um camarada da CCAV 8351, como foi erguer e ocupar aquele espaço agreste, traiçoeiro e minado, quase encavalitado nos terrenos do PAIGC: ia ser, e foi, o aquartelamento mais próximo de Nhacobá, e essa proximidade conferiu-lhe um alto risco de confrontos e flagelações. Isso teve custos altos, inclusive de vidas humanas, mas não afectou o ânimo dos que esticaram o arame farpado, abriram valas, ergueram postos de vigia e acomodações, estando sempre prontos para a sua defesa e para as incursões a que eram obrigados um pouco por toda a zona. Daí que, desde o primeiro dia, tivesse ganho um sentimento de admiração e respeito pelos Tigres de Cumbijã e em especial pelo seu comandante, Cap. Vasco da Gama que, soube eu na altura, tanto era capaz de dizer “não” aos seus superiores na defesa da sua Companhia, como era capaz de a galvanizar para a realização daquilo que, de facto, tinha de ser feito. Perturbava-me reparar que, apesar disto tudo, a “51” – como nós a chamávamos – não era poupada nas missões conturbadas daquela época. Às vezes parecia-me que era bem ao contrário. Aliás, é justo referir que de igual modo aconteceu com os “Unidos de Mampatá” (CART 6250) e com a CCAÇ 18 de Aldeia Formosa com quem, mais de uma vez, partilhei o chão de Nhacobá sob a inclemência das flagelações. Não digo isto, hoje, para ser agradável a quem quer que seja, mas porque é de toda a justiça que o diga, e por ter sabido sempre que o acolhimento que me dispensaram e aos demais grupos de reforço, quer em Mampatá quer em Cumbijã, foi o melhor possível para aquelas circunstâncias.

Esta época difícil marcou-me para sempre. Na qualidade de “periquito” e posto pela primeira vez perante tropa com esta tarimba, - experimentada e sacrificada -, (devo referir que a CCAÇ 3400 de Nhala nos confessou que tinha passado toda a comissão sem problemas), comecei a pôr-me “em guarda”, endurecendo e preparando-me para tudo. Foi por estas alturas e nos tempos que se seguiram que comecei também a conhecer-me melhor. [Grande confissão!]. Fui descobrindo, aos poucos, coragens ignoradas - daquelas que, devido às situações, não dá para confundir com fanfarronices ou bravatas -, maior sentido de responsabilidade e, até, maluqueiras de que não sabia ser capaz. Muita dessa “renovação” da personalidade e amadurecimento, ficou-me até hoje. Para o bem e para o mal].


22 de Maio de 1973 – (terça-feira) – Cumbijã

Hoje o meu grupo de combate ficou de serviço ao aquartelamento mas, por falta de pessoal, teve que fazer também de reserva. O pessoal está a ficar esgotado e desmoralizado: refeições fora de horas, excesso de trabalho, excesso de calor e falta de higiene. Ninguém tem outra roupa para vestir, nem um simples sabonete e uma toalha. Nem dinheiro: do que trouxe, já emprestei ao meu pessoal mais 1.500$00.

Hoje entrámos em Nhacobá para trazer o pessoal da Engenharia e as tropas que lá se encontravam. Aquilo é pequeno [? A base militar e a tabanca não era um conjunto pequeno], e bem no interior da floresta, com uma enorme bolanha do outro lado (oposto ao da nossa entrada). A orla da mata do outro lado da bolanha e na nossa frente, não controlamos. É daí que flagelam as tropas em Nhacobá.
Agora está tudo calmo, embora inspire respeito e recomende precauções. Os soldados já trouxeram de lá recordações (roncos), galinhas, cabras e fruta, só falta trazer o arroz que se encontra em grande quantidade em recipientes toscos.

Meteu-me bastante pena [!] ver a maquinaria revolver aquelas terras, destruir as galerias, abrigos e instalações subterrâneas na parte militar. Para ali se fazer mais um destacamento nosso. É evidente que o interesse é só estratégico e talvez estejam a pensar prosseguir com a estrada que ali chegou, para destinos mais ousados: talvez o Unal ou mais além, tudo controlado pelo PAIGC.

À noite, mas desta vez mais cedo, houve novo ataque IN com canhões aos locais de ontem. Mais uma vez, as nossas peças a responder.

Foto 5: 1973 - Nhacobá: Um aspecto da tabanca bem no interior da floresta e o alferes A. C. P.

Foto 6: 1973 - Nhacobá: Aspecto da tabanca vendo-se alguns recipientes onde guardavam o arroz.

Foto 7: 1973 - Nhacobá: Abrigo antiaéreo subterrâneo camuflado por um “telhado” de palhota.


 Fotos 8 e 9: 1973 - Nhacobá: Entrada de abrigos pouco antes de serem destruídos pelas máquinas da Engenharia.

Foto 10: 1973 - Nhacobá: Orla da mata junto à grande bolanha. À esquerda o Furriel J. C. a comer com o Furriel M. C.


Fotos 11 e 12: 1973 – Nhacobá: Vista da grande bolanha a partir da orla da mata. Era do outro lado, na orla que se vê ao fundo, que os guerrilheiros nos atacavam, sobretudo com canhões e morteiros, sempre que nos pressentia em Nhacobá.

(Continua)

Texto e fotos: © António Murta
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Nota do editor

Último poste da série de 30 de junho de 2015 > Guiné 63/74 - P14813: Caderno de Memórias de A. Murta, ex-Alf Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (9): 16 a 19 de Maio de 1973

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Guiné 63/74 - P10819: Banalidades da Foz do Mondego (Vasco da Gama) (XVI): O "Mau agoiro"; O cadáver adiado; Encontro com a má fortuna; A regra ou excepção?

1. Mensagem do nosso camarada Vasco da Gama (ex-Cap Mil da CCAV 8351, Os Tigres de Cumbijã, Cumbijã, 1972/74), com data de 13 de Dezembro de 2012.


BANALIDADES DA FOZ DO MONDEGO - XVI

O “ MAU AGOIRO “ ; O CADÁVER ADIADO ; ENCONTRO COM A MÁ FORTUNA; A REGRA OU A EXCEPÇÃO?

Confesso que não lera o P10786*, mas ao receber um comentário do fundador deste nosso Blogue, eivado de tristeza e de desconforto, deu-se-me um aperto no coração, pois se há algo com que não pactuo é com a leveza com que se classifica o trabalho das outras pessoas e, neste caso particular, a forma imerecida, indevida e injusta como se passa a “certidão de óbito” a um espaço vivo, repositório de enorme saber, consultado por “tudo que é gente” com um número enorme de leitores, onde a liberdade de expressão é um direito, onde tantos de nós conseguiram ultrapassar o silêncio que a nós se colara durante tantos e tantos anos e aqui, pela primeira vez, como foi o meu caso, conseguiram começar a falar da guerra da Guiné e onde receberam palmadas amigas nas costas e afectos tão importantes que nos ajudaram a deitar cá para fora o que tanto nos incomodava.

Que fique claro, esse espaço chama-se LUÍS GRAÇA % CAMARADAS DA GUINÉ a quem presto homenagem na pessoa do seu fundador o Camarada Luís Graça! Quer isto dizer que estou em total acordo com tudo o que é publicado? Não senhores, não estou e manifestei-o há tempos quando Camaradas meus foram insultados pela publicação de um texto vindo de um qualquer blogue e, que fique bem claro, não tenho nada contra a publicação da história de qualquer Companhia, mas apenas contra os insultos à laia de apresentação que caíram sobre camaradas meus na Guiné que comeram o pão que o diabo amassou.

Adianto até que, ao contrário do que pensava, não mereci da parte do Luís Graça uma qualquer resposta à minha intervenção, ele que havia sido o editor de tal publicação!
Quer isto dizer que nunca me aborreci com ninguém? Não, sofri pelo menos uma desilusão de quem apregoa amplas liberdades, mas que, quando alguém emite opinião diferente da sua, corta relações pessoais!

Mas que culpa tem o Blogue? Nenhuma! E se, Luís Graça, não viste nenhuma coruja pousar sobre a nossa Tabanca à meia noite, o Blogue não morrerá em breve, segundo S. Cipriano, para desanuviar!

O meu Camarada Alberto Branquinho que sempre leio com gosto e atenção, refere que a expressão “cadáver adiado que procria” é usada pelo poeta algarvio António Ramos Rosa para nos ensinar que todos nós somos falíveis, fugazes, efémeros mas o HOMEM, tal como o BLOGUE LUÍS GRAÇA & CAMARADAS DA GUINÉ, continuará a andar por aí.

Sem me querer armar aos cágados dizer que esta expressão é retirada de um poema de Fernando Pessoa, intitulado:

D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL

Louco, sim, louco, porque quis grandeza 
Qual a Sorte a não dá. 
Não coube em mim minha certeza; 
Por isso onde o areal está 
Ficou o meu ser que houve, não o que há. 
Minha loucura, outros que me a tomem 
Com o que nela ia. 
Sem a loucura que é o homem 
Mais que a besta sadia, 
Cadáver adiado que procria? 

Lidos os comentários fui então ao Poste Má Fortuna do meu camarada e amigo José Dinis! O cenário deste episódio é em tudo idêntico a outros já relatados pelo autor; os actores principais são os mesmos, o Cap. Trapinhos e os dois primeiros sargentos e a conclusão também a mesma: roubaram à tripa forra.

Alguns camaradas dizem ter sido esta a regra, outros que este tipo de comportamento terá sido excepção. Deixo o assunto para quem apresente provas… e há tantos estudiosos!

Não sei se houve da parte do Zé Dinis coragem para lhes ter dito na cara o que agora escreve e, se sim, a minha admiração! Não, não me venham com essa dos galões pois quando há razão e provas… venha quem vier!

Curiosamente, após os quatro meses que fiz de estágio em Angola e no retorno a Mafra, onde pouco ou nada aprendi, havia da nossa parte, os então tenentes de proveta, uma conversa recorrente: como será o primeiro sargento? Se forem assim estamos feitos, se forem assado estamos safos!

Era o medo da entrega da Companhia no final da comissão que nos preocupava, emprenhados que estávamos com histórias e histórias que se contavam de sargentos que se ofereciam para fazer comissão atrás de comissão! Mas se lá, no Ultramar, ganham não sei quantas vezes mais… diziam uns.

Não é só o que ganham de ordenado é também o que ganham por fora, contavam outros e havia sempre um camarada que ouvira dizer que fulano ou beltrano ou sicrano enriquecera num instante, enfim à boa maneira portuguesa.

Eu que vivi no mato com os meus homens, tinha a secretaria em Aldeia Formosa, onde diariamente nos deslocávamos para ir buscar os géneros e só muito mais tarde, creio que em finais de 1973 vieram para o Cumbijã, já com outras condições de habitabilidade! O primeiro sargento da minha CCav 8351 chamava-se António Joaquim Redondeiro, já falecido, em quem sempre acreditei, que sempre, sem titubiezas, me apresentava o que eu pedia, pois ser economista tem algumas vantagens, que me abraçou a chorar quando tivemos a saga de Nhacobá, que sempre soube ter o pré no primeiro dia de cada mês, que nunca atrasou um mapa e que era respeitado por todos nós!

Aqui deixo a sua fotografia a modos de homenagem


Foste a regra ou foste a excepção? 

Um bom Natal para toda a malta da Tabanca Grande!
Vasco Augusto Rodrigues da Gama
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 11 de Dezembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10786: História da CCAÇ 2679 (57): Encontro com a má fortuna (José Manuel M. Dinis)

Vd. último poste da série de 19 de Agosto de 2012 > Guiné 63/74 - P10279: Banalidades da Foz do Mondego (Vasco da Gama) (XV): Que a ânsia de números e o bater de recordes não maltrate as pessoas

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Guiné 63/74 – P6321: Banalidades da Foz do Mondego (Vasco da Gama) (X): As minhas (in)Congruências ou as minhas (in)Coerências?

1. O nosso camarada Vasco da Gama, ex-Cap Mil da CCAV 8351, Os Tigres de Cumbijã, Cumbijã, 1972/74, enviou-nos, em 5 de Maio de 2010, a seguinte mensagem:

BANALIDADES DA FOZ DO MONDEGO X
AS MINHAS (in)CONGRUÊNCIAS OU AS MINHAS (in)COERÊNCIAS ?

Da revolta interior contra o que me obrigara ir combater para a Guiné, até ao regresso a Portugal já livre dos pesadelos horrorosos, tinham passado vinte e dois longos meses de sofrimento.

Desembarquei no Figo Maduro, estava Agosto de 1974 quase no fim, fui com os meus camaradas para o RALIS (?) onde entreguei o que havia a entregar, meti-me num táxi, disse aos três camaradas da minha região, o Lopes da Esperança, Alhadas, o Piscas de um local pequenino com um nome engraçado -Perna de Pau – e o Preto da Tocha e “ordenei”: vamos embora que eu pago o transporte.

O nosso embarque da Guiné para Portugal foi marcado de um momento para o outro, pelo que não houve tempo de a maior parte da malta avisar os seus familiares, o que foi aliás, o meu caso.

Vinte quilómetros antes de chegarmos à Figueira da Foz, seriam sete e pouco da manhã, telefonei aos meus pais a dizer que daí a pouco estaria em casa e que fossem avisar a minha mulher, morávamos então em casa dos meus sogros ausentes em África, que o Vasquito estava a chegar.

Lá os consegui convencer que não era nenhuma brincadeira e passado pouco tempo estava com a minha outra família, a que nunca quereria ter abandonado, a única que havia tido antes da partida para a Guiné.

De mim, camaradas, vão sabendo alguma coisa pelo nosso Blogue ou nalguma comezaina onde nos vamos juntando; o Lopes enviuvou mas está bem na vida, reformado, mas no activo ajudando o filho na oficina.
O Preto continua na faina marítima, não tendo perdido o vício da sua garrafa de tinto, que substitui pelo garrafão quando o mar está mais bravo e o meu camarada Piscas suicidou-se, como vos contei há uns tempos. Atirou-se para debaixo de um comboio, abandonado pela família e pela “querida pátria” que ele um dia, convictamente, defendera nessa Guiné.

Cheguei da Guiné confuso e desenvencilhei-me dos camuflados, das botas, dos quicos, enfim de tudo a que cheirasse a tropa e à Guiné. O outro diria Guiné jamais (jámé)…

Não quero ouvir falar mais na tropa e no tempo que perdi, agora que estou num Portugal livre!

Vamos ser um grande país, confiava à minha mulher perante a aprovação do meus pai.

Vou terminar as cadeiras que me faltam e agora sim, vamos combater pela nossa Pátria, pela Democracia, pela Liberdade, por um Portugal melhor sem Salazares nem Caetanos...
O curso terminei e empreguei-me… o resto falaremos noutra altura…

O “jámé” Guiné, foi substituído pelo Guiné “for ever” e hoje, dia nenhum a leitura do nosso Blogue falha. Pode falhar tudo, mas o nosso Blogue é sagrado.
O bichinho da Guiné morde-me cada vez com mais intensidade e a minha outra família, a que me havia sido imposta numa guerra que eu odiava, é cada vez mais verdadeira e está cada vez mais presente.
Foi com eles que lutei, foi por eles que lutei, foi com eles que vivi vinte e dois meses no mato profundo, sempre juntos, sem população, sem instalações e sujeitos a constantes ataques.

Cumbijã era um deserto de terra queimada coberto por minas e todos nós a viver em barracas de lona… Quando regressávamos das patrulhas muitas das vezes não havia água para o banho, mas havia a força suficiente para amassarmos blocos com os nossos pés, pois tínhamos de fazer por nós próprios habitações com o mínimo de dignidade.
Tínhamos uma meta a atingir e conseguimos fazer as nossas casernas. Cada grupo de combate tinha o seu palácio feito pelos Tigres.

É também por eles que hoje aqui venho! Pela minha outra família, que de imposta passou a verdadeira.

Aconteceu o 25 de Abril e passado muito pouco tempo sabíamos das festas e convívios que as N.T. faziam praticamente por todo o lado com o P.A.I.G.C. Li já algumas dezenas de postes onde camaradas nossos ilustram fotograficamente esses encontros.

Curiosamente os nossos soldados nessas fotografias aparecem sempre desarmados e quase sempre trajando despreocupadamente, enquanto os guerrilheiros estão sempre bem ataviados e armados até aos dentes.

Abraçam os guerrilheiros como se fossem amigos de longa data, quase sempre numa posição que dá a ideia de alguma subserviência que eu não aceito.

Trocam-se quicos e bandeiras e lenços e botas e mais não sei o quê….

Sabem, camaradas, a minha Companhia de Cavalaria “Os Tigres”, manteve-se no Cumbijã até ao dia 25 e 26 de Junho, tendo seguido para Buba nesses dois dias, partindo a 27 para Bissau. Pois dois meses após o 25 de Abril nunca por nunca o P.A.I.G.C. se aproximou do nosso aquartelamento.

Vi um grupo quando comandava a coluna Cumbijã - Aldeia Formosa, espalhado num dos lados da estrada, mandei parar a coluna, todos nós estávamos armados e apenas eu me apeei e perguntei ao chefe do grupo: Tudo bem?
O homem acenou a cabeça afirmativamente, cumprimentou-me, mas nunca me passaria pela cabeça convidá-los a visitarem o meu aquartelamento.

Sei que logo após a nossa saída, o quartel havia ficado entregue aos milícias e a dois pelotões da C.Cav. 8350 do Guileje, na altura comandada pelo Capitão Vieira, hoje coronel reformado, os guerrilheiros entraram, devidamente autorizados, eventualmente para convencerem as milícias de que…

Ainda bem que não nos “visitaram” nesse período.

Dou-vos a minha palavra de honra que não saberia o que fazer!
Entregar o meu aquartelamento ao P.A.I.G.C., feito pelas nossas mãos, depois de tanto trabalho, de tanta emboscada, de tantos embrulhanços, de ataques ao arame?

Conviver com fraternidade com os guerrilheiros?

O que diriam os meus mortos e os meus feridos, alguns dos quais vieram a morrer em Portugal? O que diria a minha família de combatentes com quem lutei e por quem lutei?

Não tive que resolver esse problema…felizmente.

Mas como é que este gajo, que foi assumidamente contra a guerra colonial, ainda tem dúvidas? Que os meus camaradas me ensinem a responder à pergunta, caso contrário fico-me pelas minhas (in)congruências ou pelas minhas (in)coerências.
Legendas das fotos:
1. Cumbijã renovado: instalações 5 estrelas.
2. Alô; Alô, aqui posto de comando.
3. O Cumbijã que os Tigres encontraram: um deserto de minas. O Alf. Beires, o Alf. Abundâncio e eu próprio tratando de uma anti carro.
4. Amassando blocos para a construção das casernas.
Fotos: © Vasco da Gama (2010). Direitos reservados.

Do meu Buarcos, cada vez mais lindo, segue um abraço de amizade para toda a nossa Tabanca Grande.

Vasco da Gama
Cap Mil da CCAV 8351
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Nota de M.R.:

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Guiné 63/74 - P4320: Convívios (124): 13º Almoço/Convívio da CCAV 8351 “Os Tigres de Cumbijã”, em Viana do Castelo (Magalhães Ribeiro)


















Já dizia um velho sábio anónimo que: “A vida é um intervalo entre o dia do nosso nascimento e o dia da nossa morte e que devemos aproveitá-lo o melhor possível”.
Outro velho ditado muito popular e actual diz que: “Tristezas não pagam dívidas”.
Vem isto a propósito das confraternizações anuais dos diversos batalhões, companhias e pelotões, que se vão sucedendo, ano após anos, entre os camaradas de cada um deles, acrescidas, em tempo passado recente, pelas nossas estimadas esposas, a que se vieram juntando, posteriormente, os nossos queridos filhos e os tão adorados netos.
Alguns, têm já a felicidade de serem bisavós.
São os ciclos da vida, progressivos, implacáveis e irreversíveis, com muitos momentos de felicidade entremeados pelas vicissitudes da vida pessoal, individual, que no seu universo vai dando origem ao nosso envelhecimento.
Velhice esta que, sendo então inevitável, devemos enfrentar com serenidade e sabedoria, tirando o melhor partido e proveito nos “entretantos”.
Num destes “entretantos”, decorreu em Viana do Castelo, na Quinta da Presa, em 9 de Maio p.p., o Almoço/Convívio da CCAV 8351 – Os Tigres de Cumbijã.
Adjectivos classificativos que me surgem para retratar este “bando” de Cumbijã: Alegria, Camaradagem, Fraternidade, Felicidade, Cumplicidade e União.
Esta malta alimenta-se razoavelmente bem e dança melhor que ninguém.
Este ano fomos convidados, para esta festa pelo Comandante desta “rapaziada” - Capitão Vasco da Gama -, o periquito desta Companhia - o José Casimiro Carvalho -, nosso camarada tertuliano, que depois transitou para a CCAV 8350 “Os Piratas de Guileje” e eu - o periquito de Mansoa.
A certa altura apareceu o João Reis Melo, também nosso camarada do blogue, perfazendo assim 4 tertulianos nesta festa.
A actuação de um rancho folclórico da região, a meio da tarde, fez com que quase toda a gente saltasse para o terreno e desse ao pé, inclusive, o comandante desta “rapaziada” – o Capitão Vasco da Gama -, que ainda não estando a 100% recuperado de um problema de saúde, não regateou um esforço que equivaleu, na minha avaliação pessoal, a umas 50 completas.
Deus permita que para o ano, este animado pessoal, se não for de modo ainda melhor, que, pelo menos, mantenha a pedalada que apresentou no presente evento.
A finalizar deixo aqui registado um grande abraço Amigo para todos os TIGRES e um agradecimento notável ao Cap. Vasco da Gama, pelo modo simpático com que me acolheram, e à minha esposa, no seio da vossa rara e fabulosa companhia.
Muito obrigado,
(Magalhães Ribeiro)

Uma companhia envelhecida, pelo tempo, mas renovada para o que for preciso.
















Tigres e familiares misturaram-se com os elementos do grupo folclórico e dançaram a preceito sem preconceitos.



O João Melo Reis, recebe o seu certificado de presença,sob o olhar atento do Furriel Tigre Costa (organizador do evento).

O "Zé Bazuca" também teve direito ao seu "diplomazinho", bem como todos os Tigres.















Os 4 camaradas bloguistas (MR, Vasco da Gama, João Melo e Casimiro Carvalho)












Não podia faltar o bolo comemorativo da praxe, que foi devida e irmamente retalhado, e dividido por todos.

O Capitão Vasco da Gama "arranca" para um pé de folclore com uma animada esposa de um dos Tigres.


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