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quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Guiné 61/74 - P23516: Humor de caserna (56): O anedotário da Spinolândia (VII): a outra alcunha do nosso general, Aponta,Bruno! (referência ao seu ajudante de campo, o então cap cav João Almeida Bruno, falecido ontem, aos 87 anos)


Guiné > Região de Cacheu > Bula > Pecuré > Op Ostra Amarga > 18 de outubro de 1969  > Depois da embocada, o general Spínola, ao centro, ladeado à esquerda pelo major João Marcelino (2.º comandante do BCAV 2868, então em Bissau e que apanhou boleia no heli) e o ten cor Alves Morgado, comandante do BCAV 2868 que acompanhou o desenrolar da acção. À direita de Spínola, o seu ajudante de campo, o cap cav Almeida Bruno (que faleceu ontem, 10/8/2022, aos 87 anos) (*), empunhando uma G3, e de costas  o cap cav José Maria Sentieiro, comandante da CCAV 2485 que, por impedimento do comandante da CCAV 2487, foi encarregado de dirigir a Op Ostra Amarga. 

Vd. também o vídeo "Guerre en Guinée" (1969) (13' 50''), imagens da chegada do  Spinola e do Almeida Bruno, 11' 30'' ... Cortesia de INA - Institut National de l' Audividuel.

A foto acima reproduzida (e editada pelo blogue) é do Paris-Match nº 1071, de 15 de novembro de 1969 (Com a devida vénia...). Vd. também o vídeo "Guerre en Guinée" (1969) (13' 50''), imagens da chegada do  Spinola e do Almeida Bruno, ao 11' 30'' ... Cortesia de INA - Institut National de l' Audividuel.


1. Recordando Spínola e o seu mais conhecido ajudante de campo, o então cap cav João Almeida Bruno  (*)... Excertos de um poste, velhinho. de 16 de março de 2006, da autoria do Zé Teixeira (*)

Luís, a propósito do Caco Baldé, toma outra alcunha do gen Spínola (*):

− O Aponta, Bruno... Aí vem o Aponta, Bruno !  dizia logo o pessoal quando se avistava o Héli que o transportava.

Porquê? Toda a zona de Buba, Nhala, Mampatá, Chamarra e Aldeia Formosa esteve uns tempos a comer, ao almoço e ao jantar, arroz com arroz e de vez em quando uma amostra de chispe. A barcaça que levava os mantimentos foi afundada pelos nossos amigos, e ficamos a ver... barcaças !

Isto gerou um mal estar que mais se agravou com o ataque às 5 da matina, como já contei no meu Diário. Devo dizer que a minha companhia estava reduzida a 36 homens operacionais, dado esforço que se estava a fazer com a protecção à nova estrada de Buba para Aldeia Formosa, em que saíamos com o que seriam três pelotões às seis da matina. Regressávamos à tarde, no dia seguinte estávamos de serviço à segurança do quartel e logo de seguida abalávamos de novo para a estrada.

Então o homem chega e começa o discurso:

 Pátria está a exigir de vós um grande esforço e vós sois ... blá, blá, blá. Sei que a comida não tem sido a melhor, mas a Pátria exige sacrifícios... blá, blá,blá. Quando estiverdes a comer feijão ou arroz, sem mais nada, fechai os olhos e imaginai-vos a comer um belo peru recheado ou um grãozinho com bacalhau, lá em Lisboa... blá, blá, blá.

Acompanhava-o um capitão, seu ajudante de campo, que toda a gente conhece e perante as reclamações do Major e do médico, ele só dizia:

− Aponta, Bruno!

Felizmente tínhamos um excelente médico, a quem presto a minha homenagem no Blogue, o Dr. João Carlos de Azevedo Franco, que à mais pequena mazela, muitas vezes resultante do estado psicológico em que vivíamos, dava uma baixa. Recordo que nesse célebre dia do Aponta, Bruno,  o Spínola disse ao médico:

− Estes rapazes o que precisam é de umas picas, vou-lhe mandar uma boa dose de medicamentos... Aponta, Bruno!

 Ao que o médico lhe respondeu:

 O que eles precisam é de uns bons bifes e descanso.

Claro está que o Capitão Bruno não apontou o que o médico disse. Não é que oito dias depois chega a barcaça com mantimentos e duas enormes caixas de medicamentos não solicitados?! Escusado será dizer que foram devolvidas ao remetente, com a informação "medicação não solicitada" e a vida continuou. (...) (***) 
___________

Notas do editor:

domingo, 26 de dezembro de 2021

Guiné 61/74 - P22847: Memória dos lugares (434): Hospital Militar de Hamburgo, onde estiveram internados, para tratamento e reabilitação, camaradas nossos deficientes como o Quebá Soncó (CCAÇ 1439) e o António Dias das Neves (CCAV 2486): não se sabe quantos, mas devem ter sido algumas centenas de um total de mais de 1800 "amputados", entre 1964 e 1974


Alemanha Ocidental > Hospital Militar de Hamburgo > c. 1970 > "O meu Pai é o que está na cadeira de rodas com o prato na mão. Esteve lá 8 meses. Antes passou pelo anexo de Campolide, em Lisboa, onde fez 18 operações" (Marisa Neves).



Alemanha Ocidental > Hospital Militar de Hamburgo > c. 1970 > "O meu pai é o que está no lado direito, de camisola acastanhada, sentado na cadeira de rodas" (MN)


Alemanha Ocidental > Hospital Militar de Hamburgo > c. 1970 > "O meu pai é o que está de frente, de  camisola acastanhada" (MN)


Alemanha Ocidental > Hospital Militar de Hamburgo > c. 1970 > "O meu pai é o que vem com duas muletas,  de camisola branca" (MN)



Alemanha Ocidental > Hospital Militar de Hamburgo > c. 1970 > "O meu pai é o de camisola castanha, sentado na cadeira de rodas, em primeiro plano " (MN)



Alemanha Ocidental > Hospital Militar de Hamburgo > c. 1970 > "O meu pai sentado na cadeira de rodas, e com um camarada ao lado" (MN)



Alemanha Ocidental > Hospital Militar de Hamburgo > c. 1970 > "O meu pai, junto a um lago, amparando-se a m camarada" (MN)

Antiga Alemanha Ocidental  (ex-RFA - República Federal Alemã) > Hamburgo > Hospital Militar de Hamburgo > Álbum fotográfico de António Dias das Neves (1947-2001) (*) 


Fotos (e legendas): © Marisa Neves (2011) Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Depois de ter ficado sem as duas pernas, devido ao acionamento de uma mina A/P, a norte de Bula, no decurso da tão mediatizada Op Ostra Amarga, 18 de Outubro de 1969, o sold at cav António Dias das Neves, da CCAV 2486/BCAV 2868 (1969/70), foi evacuado para a metrópole, longe dos holofotes da televisão e do voyeurismo dos jornalistas franceses... e daqui para a Alemanha

Sabemos que passou esteve no Hospital Militar da Estrela, anexo de Campolide, desde finais de 1969. Deve ter ido no ano seguinte   para o prestigiado Hospital Militar de Hamburgo, na Alemanha  onde recebeu, com sucesso, duas próteses que lhe permitiram refazer a sua vida como civil... na sua terra natal, Ramada, Odivelas.

"O meu pai fez bastantes amigos durante os 8 meses que esteve em recuperação no hospital de Hamburgo. Sei que fartou-se de passear, pois tenho alguns postais de vários sítios da Alemanha que o meu pai mandava para a minha avó", escreve-nos a sua filha Marisa Neves.

"Sei também que o meu pai foi um caso de sucesso na adaptação das próteses, sei que fizeram bastantes arquivos documentados para próximos doentes".

"As pessoas que acompanham o meu pai nas fotos, infelizmente não sei quem são, só ele poderia dizer ou a minha avozita que infelizmente faz agora dia 6 de Novembro [ de 2011] num ano que me deixou. O meu pai sempre foi um homem de coragem e de orgulho".


Em 1979 nasceu a sua primeira filha, Marisa Neves. Estas fotos, recebidas originalmente sem legenda, documentam a parte final, germânica, do seu calvário da Guiné...

Sobre a hospitalização do seu pai, a Marisa disse-nos o seguinte:

 "Em relação aos hospitais, infelizmente não sei datas concretas, acho que ele foi, primeiro, para Bissau [ HM 241]   e depois veio para Portugal [ HMP] . A seguir foi transferido para Alemanha. Sei que esteve algum tempo na Alemanha em tratamentos e recuperação para adaptação das próteses". 

E, ao que parece, adaptou-se bem, do ponto de vista funcional, às suas novas pernas artificiais, segundo o testemunho da filha.

Há um ponto que não conseguimos (ainda)  esclarecer com a Marisa. Diz ela que, de acordo com a caderneta militar, o pai foi "evacuado para o HMP em 6/11/71"... "por despacho de 30/12/70 de sua Excia o Secretário de Estado do Exército" (?)... 

Admitamos que é um erro de transcrição, dela ou do burocrata do exército... Não é crível que tenha ficado mais de dois anos no HM 241, em Bissau (contando o período que medeia entre a data dos ferimentos em combate, 18/10/1969, e a alegada mas improvável data de evacuação para o HMP, 6/11/71)... É mais provável que a data seja 6/11/1969... Por outro não se entende a referência ao "despacho" do Secretário de Estado do Exército, de 30/12/70.

Por outro lado,  foi-lhe contado 100% o  tempo  de  serviço militar no TO da Guiné, desde 1/3/169 (data de desembarque da CCAV 2486) ate´31/12/1970.

Foi condecorado com a Cruz de Guerra de 4ª Classe.




Fonte: Revista de Cavalaria: Anais da Cavalaria Portuguesa, Ano de 1971, pág. 96



2. De qualquer modo, o que importa é sublinhar a novidade destas fotos do álbum da filha de uma camarada nosso, já falecido, integrado na Tabanca Grande a título póstomo (poste P8910) (*),  em 2011, quando aqui foram publicadas (poste P8914) (**) eram as primeiras de camaradas nossos, feridos gravemente na guerra de África, e n0meadamente amputados, que foram beneficiários do programa de tratamento e reabilitação do Hospital Militar de Hamburgo...  

Não sabemos quantos por lá passaram, pro Hamburgo, por causa das próteses...Um deles foi o Quebá Soncó, que também perdeu uma perna, no dia 7 de dezembro de 1966, ao serviço da CCAÇ 1439 (***). 

 O mesmo se passa com o CMRA - Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitção, inaugurado em 1966 ... Não sei se a ADFA - Associação dos Deficientes das Forças Armadas tem informação estatística, ou dados históricos, adicionais, com referência  aos utentes portugueses do Hospital Militar de Hamburgo, entre 1964 e 1974.

Segundo Pedro Marquês de Sousa ("Os números da Guerra de África". Lisboa, Guerra & Paz Editores, 2021, pág. 144),  dos cerca de 28 mil feridos graves evacuados durante a guerra (nos 3 teatros de operações),  "resultaram cerca de 14 mil deficientes  (5120 com grau de deficiência superior a 60%)"...  

Desses 14324 feridos graves e deficientes, 1852 estão classificdos na categoria de "amputados" (12,9%), dos quais 480 em Angola, 540 na Guiné, 697 em Moçambique e 135 na instrução e serviço militar. (Algumas centenas destes amputados deverão ter sido tratados e recuperados no Hospital Militar de Hamburgo, acrescentamos nós.)

À Marisa já aqui deixámos, em 2011, o nosso profundo reconhecimento por querer partilhar, connosco, com os camaradas do seu pai, este cantinho da sua intimidade, o álbum fotográfico do seu querido pai e seu grande herói (**).



3. Sobre o programa de reabilitação dos deficientes da guerra colonial no Hospital Militar de Hamburgo (****), iniciado em 1963, publicamos uma "nota histórica",  excerto da revista ELO, da ADFA - Associação dos Deficientes das Forças Armadas, julho de 2013, pág. 9, com a devida vénia:


Pequeno historial

Em 1963 uma delegação alemã visitou Portugal. Integrava essa mesma delegação o General médico, Diretor do Serviço de Saúde Militar da República Federal da Alemanha, que foi convidado pela Cruz Vermelha Portuguesa, através do então Movimento Nacional Feminino, a visitar o Hospital Militar Principal, onde já se encontravam um número significativo de deficientes vindos dos conflitos das ex-colónias portuguesas de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique.

Na sua maioria, esses mutilados eram vítimas de rebentamentos de minas. Esta visita deu origem à assinatura de um protocolo em que os médicos militares alemães aplicariam a sua ampla experiência adquirida com mutilados das primeira e segunda guerras mundiais, no tratamento dos mutilados portugueses. O referido protocolo também estava relacionado com a presença da Força Aérea Alemã na base de Beja e dependências em Alverca.

Em 1964, os primeiros deficientes de guerra foram internados no Serviço de Cirurgia do Hospital Militar de Hamburgo (nessa data chamava-se Standortlazarett, depois Bundeswehrlazarett) e eram levados diariamente para tratamentos para o hospital de acidentados em Hamburgo – Hospital de Bergedorf.

Em 1966, foi colocado no Hospital Militar de Hamburgo o então Capitão-de-Fragata, médico, Dr. Franz Traut, especialista em ortopedia de guerra, que criou o Serviço de Ortopedia e também foi o responsável pela instalação de uma casa ortopédica dentro do Hospital Militar.

Para complementar o processo, disponibilizou duas enfermarias, uma com seis camas e outra com quatro, destinadas aos deficientes das Forças Armadas portugueses. Criou também o Serviço de Fisiatria e chamou a fisioterapeuta, Srª. Frauke Maltusch, docente no Hospital Universitário de Eppendorf, em Hamburgo.

Os mutilados eram transportados de e para Portugal nos aviões militares de transporte alemães – a princípio Noratlas, depois Transal, sempre acompanhados por um oficial médico ou sargento enfermeiro portugueses. Os custos inerentes a todo o processo, eram suportados pelo Estado alemão.

Em 1975 e em virtude dos conflitos coloniais terem terminado, o número de camas foi reduzido para seis.

Em 1986, o então Capitão de Mar-e-Guerra, médico, Dr. Franz Traut, passou à situação de reforma (os médicos alemães eram obrigados a passar à reforma aos 60 anos) e foi substituído pelo Coronel médico, Dr. Joachim Niehaus.

Este acordo terminou em 1991 e os últimos deficientes militares regressaram a Portugal, em setembro de 1991. A partir desta data, apenas aqueles que necessitavam de tratamentos que não encontravam resposta em Portugal, eram autorizados a irem para o Hospital Militar de Hamburgo.

Atualmente, a chefia do Serviço de Ortopedia e Cirurgia de Acidentados é exercida pelo Coronel Médico, Dr. Bernhard Klein, o qual já efetuou diversas deslocações a Portugal, tendo visitado o então Hospital da Força Aérea e a ADFA.

O Dr. Franz Traut, a fisioterapeuta Frauke Maltusch e outros elementos ligados aos Deficientes das Forças Armadas (DFA), em 1981, foram condecorados pelo então Chefe do Estado-Maior do Exército, General Garcia dos Santos, em cerimónia pública no Estado-Maior do Exército.

Em 1977, o General Ramalho Eanes, na qualidade de Presidente da República, visitou os Deficientes da Forças Armadas no Hospital Militar de Hamburgo.

(***) Vd. poste de 25 de dezembro de  2021 > Guiné 61/74 - P22845: CCAÇ 1439 (Xime, Bambadinca, Enxalé, Porto Gole e Missirá, 1965/67): A “história” como eu a lembro e vivi (João Crisóstomo, ex-alf mil, Nova Iorque) - Parte XV: Dezembro de 1966: a Op Harpa em que é ferido com gravidade o Quebá Soncó, que depois irá para o hospital de reabilitação de Hamburgo, na Alemanha
 
(****) Último poste da série > 8 de dezembro de  2021 > Guiné 61/74 - P22788: Memória dos lugares (433): Tabatô, a tabanca da utopia, a 10 km, a nordeste de Bafatá - Parte IV

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Guiné 61/74 - P18342: Vídeos de guerra (15): "Guerre en Guinée" (ORTF, 1969, 13' 50'): o governo português suportou o custo das viagens e estadia de todos os elementos da equipa do programa "Point Contrepoint", da televisão pública francesa, durante cerca de um mês... Eu assisti à montagem do filme e trouxe, de Paris, cópia para o Marcelo Caetano... Quando viu a cena da emboscada, disse-me: "Temos que acabar com esta guerra" (Manuel Domingues)


Guiné > Região do Cacheu > Bula > Pecuré > Op Ostra Amarga > 18 de outubro de 1969 > Geneviève Chauvel, então uma jovem jornalista da Agência Gamma, depois da emboscada que vitimou 3 militares portugueses (2 mortos e 1 ferido)... No "Paris-Match" haveria de escrever um artigo de 2 páginas, com fotos suas, sobre "Guinée: l' étrange guerre des Portugais" (pp. 30-31).

Na foto, em grande plano, a Geneviève Chauvel, e a seu lado, o capitão Sentieiro (de que só se vê parte do corpo) momentos após a emboscada. Foto cedida, em 2007, ao Virgínio Briote pelo cor cav ref José Maria Sentieiro, que vive em Torres Novas, e tem a Cruz de Guerra de 1.ª Classe.


Capa da revista "Paris-Match",  nº 1071, de 15 de vovembro de 1969. Segundo o nosso camarada e colaborador permanente Torcato Mendonça, a revista, de venda livre em Bissau, terá sido apreendida nessa semana...


No sumário do referido número do Paris-Match, entre os artigos da seção "Estrangeiro", há um sobre Nixon e a sua maioria silenciosa, e outro sobre a odisseia da Apolo XII (que se preparava para a 2.ª alunissagem, a 19 de Novembro). A revista inseria ainda um pequeno texto da autoria de Geneviève Chauvel, então uma jovem jornalista da Agência Gamma, sobre "Guinée: l' étrange guerre des Portugais" (pp. 30--31) ["Guiné: a estranha guerra dos portugueses"].


Guiné > Região do Cacheu > Bula > Pecuré > Op Ostra Amarga > 18 de outubro de 1969 > O General Spínola, à esquerda, ladeado pelo major João Marcelino (2.º Comandante do BCAV 2868, então em Bissau e que apanhou boleia no heli) e o ten cor Alves Morgado, Comandante do BCAV 2868 que acompanhou o desenrolar da acção. Foto tirada momentos após a emboscada. Imagem extraída do Paris-Match (,edição de 11 de novembro de 1969).


Guiné > Região do Cacheu > Bula > Pecuré > Op Ostra Amarga > 18 de outubro de 1969> De costas, o capitão de cavalaria José Maria Sentieiro, comandante da CCAV 2485 que, por impedimento do comandante da CCAV 2487, foi encarregado de dirigir a Op Ostra Amarga. Imagem obtida momentos após a emboscada que custou dois mortos à CCAV 2487.  Imagem extraída do Paris-Match (,edição de 11 de novembro de 1969) e editada pelo blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné  [ Com a devida vénia...]


Excerto do artigo da Geneviève Chauvel, p. 30

Sobre o gen Spínola, escreveu Geneviève Chauvel:

(...) "Monóculo no olho, apoiando-se no seu pingalim, este oficial parece surgir de um filme dos anos 30. Não é o Pierre Renoir de 'La Bandera', nem o Von Stroheim de 'La Grande Illusion'. O general português Spínola faz verdadeiramente a guerra. Na Guiné. Imagem soberba e irrisória: um pequeno país que possuía, há quatrocentos anos, um império imenso, sobre o qual o sol nunca se escondia, esgota-se hoje no último combate colonial do século.

Entre a Gâmbia e a Guiné de Sékou Touré, a Guiné Portuguesa conta com um punhado de colonos, face a meio milhão de autóctones, num território do tamanho de um departamento francês. De há oito anos a esta parte está transformado num campo de batalha. A guerrilha dos rebeldes, armados pela China e muito organizados – revistas, instrução política, jornais de propaganda – absorve cada vez mais as tropas portuguesas.

Lançados num país muito quente, com uma vegetação muito densa, vigiados pelo inferno das emboscadas, os camponeses de Beja, os pescadores da Nazaré ou os estudantes de Coimbra cuidam da sua elegância, a exemplo do seu comandante-em-chefe: “Mais vale ir para o céu com um uniforme como deve ser”. (...)

Paris-Match, nº 1071, L’étranger, pp. 30 e 31, texto de Geneviève Chauvel-Gamma. Tradução livre de V. Briote. (Com a devida vénia...).


1. Mensagem do nosso camarada e grã-tabanqueiro Manuel Domingues, ex-alf mil op esp, comandante do Pel Rec Info, CCS/BCAÇ 1856 (Nova Lamego, 1965/67) (*)

[Manuel Domingues, foto à esquerda; frequentou o Curso de Rangers e fez parte da CCS/BCAÇ 1856 (Nova Lamego, 1965/67); como alf mil foi comandante do Pelotão de Reconhecimento e Informação, tendo desempenhado as funções de oficial de informações e, durante alguns meses, a de oficial de operações do BCAÇ 1856, esteve no Leste, Sector L3, com o Comando e CCS sediados em Nova Lamego [Gabu]; e as companhias operacionais em Madina do Boé (CCAÇ 1416, com um destacamento em Béli); em Bajocunda (CCAÇ 1417, com um destacamento em Copá); e em Buruntuma (CCAÇ 1418, com um destacamento em Ponte Caiúm); nasceu em 1941, em Castro Laboreiro; é utor do livro Uma Campanha na Guiné (com estórias e testemunhos de vários camaradas do batalhão) bem como de O Pegureiro e o Lobo – Estórias de Castro Laboreiro (2005); está reformado, depois de uma multifacetada carreira profissional, em Portugal e no estrangeiro, em organismos públicos e em empresas].

Caros tertulianos:

Relativamente ao filme da ORTF e à reportagem do Paris Match (**), posso adiantar o seguinte: Participei em setembro e outubro de 1969 no apoio à equipa da ORTF  [, a televisão pública francesa] que realizou o filme e que incluiu Portugal e o Ultramar, com deslocações do Minho a Timor, captando imagens em todas as possessões ultramarinas. 

Esta equipa englobava cerca de uma dúzia de pessoas, entre as quais uma jornalista do Paris Match [, Geneviève Chauvel, ao serviço da agência Gamma] e um do Figaro [Jean-François Chauvel, que era simultaneamente o produtor do programa televisivo "Point-Contrepoint"].

O objectivo inicial era recolher material para incluir no programa "Point-Contrepoint" (tipo Prós e Contras) em que de um lado se afirmava que Portugal era uma potência colonialista, que explorava os povos coloniais que lutavam pela sua libertação. Esta ideia era suportada em reportagens e depoimentos fornecidos pelos movimentos de libertação a que se juntavam alguns opositores do regime, no exílio, entre os quais Manuel Alegre. Do outro lado, pretendia-se refutar esta ideia, afirmando a ideia de que o Ultramar fazia parte integrante de Portugal e mostrando o grau e ritmo de desenvolvimento que se estava a processar, sobretudo em Angola e Moçambique.

A equipa responsável pelo programa, durante as negociações, pôs como condição poder verificar com total liberdade a realidade em todos os territórios, sobretudo na Guiné, Angola e Moçambique, onde se desenvolviam as lutas de libertação.

O Governo Português aceitou, apenas impondo como condição que o elemento que tinha apoiado a equipa nas suas deslocações em Portugal e no Ultramar,  estivesse presente nos estúdios da ORTF para assistir à montagem do filme, evitando surpresas que já tinham acontecido em programas idênticos nos Estados Unidos onde a ideia de confronto acabou por ser subvertida e resultou num manifesto antiportuguês. Portanto, e em resumo, tive a oportunidade de acompanhar todo o processo.

Capa do livro "Uma campanha na Guiné
Assim, no dia da assinatura do Armistício, 11 de Novembro de 1969 [, feriado nacional em França, comemorativo do fim da I Grande Guerra Mundial, 1914-1918], o programa foi para o ar. O grau de imparcialidade, relativo, conferiu-lhe um sucesso na crítica francesa da especialidade e alguma satisfação ao Governo Português de então que pela primeira vez não deu por mal empregue o montante gasto no apoio ao programa, suportando o custo das viagens e estadia de todos os elementos, durante cerca de um mês. (***)

O próprio Marcello Caetano quis ver a cópia que eu tinha trazido [de Paris] e foi durante a sessão, quando viu a cena da emboscada na Guiné que pulverizou dois dos elementos das NT, pronunciou para mim a esperançosa frase:
- Temos que acabar com esta guerra (****).

O impacto na opinião francesa e o elevado volume de material recolhido nos próprios locais levou os produtores da ORTF a fazerem vários documentários.

Já não disponho do exemplar do Paris Match nem da cópia do filme, mas ainda disponho da reportagem do Figaro da mesma altura, onde o autor define Spínola como um misto de Goering e de Marquês de Cuevas, reportagem essa que vou tentar digitalizar e que enviarei depois para os nossos tertulianos.

Um abraço cordial do
Manuel Domingues (*****)


Guiné Região de Cacheu > Bula > Carta (1953) > Escala 1/50 mil  > Sítios por onde se desenrolou a Op Ostra Amarga, de 12 a 18 de outubro de 1969: ponta Matara (vd. carta de Pelundo), ponta Ponaté, ponta Portuga, ponta Penhasse, Bissauzinho, Bofe...

Infografia: Blogue Luís Graça & Camarads da Guiné (2018)




Guiné > Região do Cacheu > Bula > BCAV 2868 (1969/70) > Op Ostra Amarga >18 de outubro de 1969 > Excerto de Sintrep (?) > No último dia, 18, as NT  acionaram uma mina A/P na região de Badapal, sofrendo dois feridos; na região de Pecuré, um grupo IN não estimado emboscou as NT, acabando por retirar com 4 mortos e 2 sofridos, e sofrendo as NT 2 mortos e um ferido...Já na região de Biura, um grupo IN, também não estimado, voltou a emboscou as NT, sem consequências, e acabando por retirar face à reação, pelo fogo e manobra,das NT.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camarads da Guiné (2018)
______________

Notas do editor:


(**) Vd. postes de:




(***) De acordo com a ficha técnica do vídeo, disponível do portal do INA - Institut National de l'Audiovisuel, a equipa da televisão pública francesa que se integrou na Op Ostra Amarga, devia ser constituída por, pelo menos, os seguintes elementos; Jean Baronnet, realizador; Jean François Chauvel, jornalista / repórter:  Roger Mathurin, operador de som; e Jean Louis Normand, operador de imagem... Haveria ainda a Geneviève Chauvel, que representava a agência Gamma e a revista Paris-Match...

O responsável pelo programa "Point Contrepoint", da ORTF, em 1969, era o jornalista Jean- François Chauvel (1927-1986), que também trabalhava para o Figaro, como grande reporter... Encontrei na Wipipedia, em francês, uma pequena nota biográfica, pela qual fiquei a saber que ele era casado, desde 1961, com a Geneviève, em terceiras núpcias... Foi além disso, membro da resistância francesa, tendo sido ferido em combate em 1944, com apenas 17 anos, tendo condecorado quer pela França pela América, por feitos em combate.

(...) Fils de l'ambassadeur de France Jean Chauvel, il est né à Pékin le 30 mars 1927 et mort à Paris le 10 février 1986.

Après des études scolaires difficiles, il s'est engagé dans la Résistance à l'âge de 15 ans. Après la Libération de Paris, il a rejoint la 2ème division blindée et a été grièvement blessé près de Baccarat à l'automne 1944, ce qui lui a valu la croix de guerre 1939-45 avec palme et le purple heart américain. Après la Libération, il a découvert le métier de journaliste dans des publications modestes parisiennes, puis a sérieusement appris le métier pendant plusieurs années à l'AFP.

Dans les années 1960, il a été intégré à la rédaction du Figaro comme grand-reporter et a été l'un des tout premiers à alerter l'opinion publique nationale et internationale sur le drame du Biafra.

En 1968, il est l'un des membres fondateurs du syndicat étudiant l'UNI.

Il est producteur de l'émission de l'ORTF Point - Contrepoint en 1969.

Au début des années 1970, il a créé et animé deux émissions de reportages pour l'ORTF : 52 (janvier 1973-août 1974) et Satellite, consultables dans les archives de l'INA. À la même époque, il a publié ses mémoires sous le titre À rebrousse-poil, un succès d'édition.

Il a ensuite quitté et le Figaro et la télévision pour produire ses propres reportages, dont Des hommes sans nom sur la Légion étrangère en 1980." (,,,)

Vd. também 15 de dezembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2351: Vídeos da Guerra (6): Uma Huître Amère para a jornalista francesa Geneviève Chauvel (Virgínio Briote / Luís Graça)

(****) Vd. (*) Vd: Novo Contacto com a Guiné: a esperança marcelista. In: Domingues, Manuel -  Uma Campanha na Guiné, do Autor.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Guiné 61/74 - P18335: Vídeos da guerra (14): visionamento e resumo analítico do vídeo da ORTF / INA, "Guerre en Guinée" (1969, 13´ 50''): tradução e adaptação de Luís Graça e Virgínio Briote


Vídeo: "Guerre en Guinée" (1969) (13' 50'')... Cortesia de INA - Institut National de l' Audividuel

[Em 2007, o vídeo não estava disponível para ser visto, diretamente, no nosso blogue, apesar do Virgínio Briote ter comprado uma cópia para seu uso pessoal;  a política do INA mudou entretanto; este vídeo foi obtido diretamente do seu portal,  utilizando livremente um código de exportação... Vive la France!... 

Mas este trabalho da ORTF foi "pago" pelos contribuintes portugueses: o Spínola ofereceu aos jornalistas franceses "cama, mesa e roupa lavada"... É o preço da propaganda de Estado... Só que a "ostra" saiu-nos mesmo "amarga", a todos nós... 

A vergonha, para nós,  portugueses, ou pelo menos para mim, português, ex-combatnte, é que os fotocines do exército e os repórteres da RTP nunca conseguiram oferecer-nos nada de jeito, que não fossem meros documentários de propaganda...] (LG)

Guerre en Guinée | Point contrepoint  | Video 11 Nov. 1969  | 88892 Vues  | 13 min 50 sec


Ficha técnica: Émission: Point contrepoint |  Production: Producteur ou co-producteur > Office national de radiodiffusion télévision française | Générique: Réalisateur > Jean Baronnet

Journaliste > Jean François Chauvel | Opérateur de prise de son > Roger Mathurin
| Opérateur de prise de vue > Jean Louis Normand | Participant > Antonio Spinola

Le point sur la situation en Guinée Bissau, découverte en 1446 par Nuno TRISTAO. Elle est peuplée de 600 000 habitants lorsqu'éclate en 1959 une grève des dockers sous la direction d'Amilcar CABRAL et de son parti marxiste, le "parti africain de l'indépendance de la Guinée et du Cap Vert". En 1963, il déclenche la lutte armée selon les préceptes révolutionnaires de CHE GUEVARA. Aujourd'hui 25000 soldats portugais luttent contre les guérilleros du PAIGC sur tout le territoire, mais ne contrôlent qu'un 1/3 du territoire et 2/3 de la population. Une troupe de soldats part en mission dans la brousse et est prise en embuscade. Un soldat blessé est secouru par ses camarades, un autre est tué, pendant que les renforts sont appelés. Les soldats africains de la troupe portugaise se tiennent à l'écart. Les hélicoptères arrivent et emportent les blessés. Le général Antonio DE SPINOLA, gouverneur de Guinée, affirme que la population de Guinée souhaite dans sa majorité le maintien de la présence portugaise. Il réfute les accusations de violences à l'encontre des populations locales et place le conflit dans le contexte de la Guerre froide.

  

Guiné > Região do Cacheu > Bula > CCAV 2487 / BCAV 2862 (Bula, 1969/70) > 18 de Outubro de 1969 > Dois mortos e um ferido no decurso da Op Ostra Amarga (também ironicamente conhecida como Op Paris Match)...

As NT (2 Gr Comb da CCAV 2487, comandadas pelo cap cav José Sentieiro, hoje cor cav ref e cruz de guerra de 1ª classe (, a viver em Torres Novas,) caem num emboscada do PAIGC, às 7h15 da manhã... O combate é registado por uma equipa da televisão francesa, a ORTF...

Foto: INA - Institut National de l' Audiovisuel (2006) / Cópia pessoal de Virgínio Briote (**)


1. O filme-documentário da portuguesa Diana Andringa e do guineense Flora Gomes, As Duas Faces da Guerra (2017) , utilizou cenas de uma reportagem feita em 18 de outubro de 1969 por uma equipa da televisão francesa, a ORTF, acompanhada de um ou dois repórteres do então muito em voga semanário Paris-Macth.

Segundo a investigação posterior feita pelo nosso coeditor  (hoje jubilado...) Virgínio Briote, junto de Diana Andringa e de outras fontes (antigos camaradas, coronel cav ref José Sentieiro, cor cav ref e escritor Carlos Matos Gomes, Arquivo Histórico Militar, etc.), descobrimos na altura que estas cenas referim-se à Op Ostra Amarga, na região de Bula, em que as NT caíram debaixo de uma emboscada do PAIGC, sofrendo dois mortos e um ferido…


Estas cenas de combate são mostradas no vídeo, que está disponível no sítio do INA – Institut National de l’Audiovisuel [Instituto Nacional Francês do Audiovisual] .

No filme-documentário, As Duas Faces da Guerra, que se estreou, entre nós, no dia 19 de outubro de 2007, no decurso do 5º Festival Internacional de Cinema Documental de Lisboa, DocLisboa2007, (*), dois antigos combatentes portugueses que participaram nessa operação (um deles o que fora ferido), comentam, emocionados,  esse episódio de guerra, que ficou também conhecido, ironicamente, por Operação Paris Match, já que nela iam integrados vários jornalistas franceses, incluindo uma mulher, Geneviève Chauvel,  a expresso convite do  gen Spínola.



É de referir que o general Spínola aparece, em carne e osso, no local, depois da emboscada, acompanhado do então capitão (ou já major?) Almeida Bruno a trocar impressões com o ten cor Alves Morgado,  comandante do BCAV 2862 (Bula, 1969/70) envolvido na Op Ostra Amarga.

Será depois entrevistado no final da reportagem, no palácio do Governador,  fazendo-se perante os jornalistas estrangeiros o arauto da política do Governo Português, no que diz respeito à defesa das “províncias ultramarinas”. Fala em francês, mas com erros e pouca desenvoltura. Uma parte das suas declarações são lidas.

Em suma, tudo indica que os jornalistas estrangeiros, oriundos de um país amigo, da NATO, a França, iriam fazer um mero passeio pelo mato e testemunhar, com os seus próprios olhos, que a situação militar, no interior da Guiné, estava sob o nosso inteiro controlo, contrariamente à propaganda externa do PAIGC (que também irá usar, sobretudo nos anos 70, a arma da sedução e da propaganda, convidando jornalistas estrangeiros e diplomatas, de países amigos, a visitar as regiões libertadas).

No que respeita à Op Ostra Amarga (que raio de nome, que premonição!), as coisas, de facto, não correram, como se previa, e os próprios jornalistas caíram debaixo de fogo, juntamente com os dois Grupos de Combate onde iam integrados… O pior é que tivemos dois mortos e um ferido, sendo a agonia de um dos nossos camaradas, o António da Silva Capela, registada em filme… Cenas atrozes, senão mesmo voyeuristas...

2. O Virgínio Briote tinha, tempos antes, comprado, ao INA francês (, o Instituto Nacional do Audiovisual), os direitos de “téléchargement” (download), para uso estritamente pessoal, de nove vídeos sobre a Guiné, embora não tendo na altura conseguido autorização para os passar directamente no nosso blogue, como era sua e nossa intenção (**).

Decidimos então, na época (****); fazer um resumo alargado do filme (que é falado em francês), de modo a possibilitar o seu visionamento e a sua melhor compreensão pelos nossos camaradas (muitos dos quais não dominavam a língua gaulesa)… Não o podendo inserir directamente no blogue (por causa do copyright) , fizemos uma ligação (ou link) para o sítio do INA (***).

Passados estes anos, o vídeo está disponível para ser descarregado livremente. E ainda bem, a França e a língua francesa bem precisam de marcar pontos no mercado global. Decidimos voltar a rever e a publicar a sinopse do filme, em francês, seguida de um resumo analítico, mais alargado, feito por nós. As imagens que aqui reproduzimos são fotogramas do filme, retiradas pelo Virgínio Briote da sua cópia pessoal.


3. Vídeo Guerre en Guinée

(Resumo analítico e descrição das cenas em português. trabalho dos editores Luís Graça e Virgínio Briote)

Point contrepoint
ORTF - 11/11/1969
Vídeo: 13' 50''

Guinée Portugaise / VA de la région / VA d'un bateau à quai / VA de la berge / grues / transportement des caisses / marin armé / deux noirs sur une petite embarcation / la rue / travelling latéral le long d'un grand immeuble à loggias / zoom arrière sur un bac / soldats armés / camions militaires / hélicoptère survolant une région à la frontière du Sénégal / soldats armés qui en descendent / ils partent dans un canot pneumatique et s'éloignent /


VA à bord de l'hélicoptère sur les berges de la rivière / BA de la forêt / soldats patrouillant dans la forêt / PA de soldats blancs et noirs qui patrouillent / colonne dans forêt lors de l'embuscade / soldats pris sous le feu / tir au lance grenades / images très assemblées / soldat touché / blessé à terre / cadavre sur le sol / GP sur le soldat blessé / GP de cadavres sur le sol / GP de soldats l'air écoeuré / après l'attaque / soldat aux visages tuméfiés / blessé allongé à qui on fait une transfusion / on essaie de la transporter / il a une jambe coupée / départ du blessé / râle du blessé / GP mort.

Quelques soldats autour du blessé / un soldat assis / GP d'un jeune soldat / un autre fume / GP d'un soldat qui traspire / soldat qui est mort / soldat autour d'un mort / hélicoptère dans le ciel / 2 soldats soutiennent un blessé / hélicoptère qui atterit en contre plongée / attérissage / on retire la civière / une infirmière descend / un monte un blessé sur une civière à l'intérieur de l'hélicoptère / un homme blessé à bras d'homme est hissé à bord / départ de l'hélicoptère / deux têtes de palmiers se détachent dans le ciel / soldat qui boit à la gourde / mise au point de l'officier, de ses hommes /.


Général A. Spinola commandant en chef de l'armée (portant monocle) / "défendre les institutions contre l'avenir du Sénégal et en Guinée" (retire ses monocles) / préoccupation constante des forces militaires / de ménager les populations... le pays profite surtout de l'appui des pays du Pacte de Varsovie.


4. Resumo analítico >  Tradução e adaptação de Luís Graça e Virgínio Briote:

Guerra na Guiné


Programa: Ponto Contraponto
Estação de TV: Organismo da Radiotelevisão Francesa [ORTF]
Data: 11 de Novembro de 1969
Duração do filme: 13m 57s



0' 00'' > Guiné Portuguesa em 1969 [apresentação: geografia, história, demografia… Território do tamanho da Bélgica… Meio milhão de habitantes, apenas 3 mil de origem portuguesa…].
Vista aérea da região /
Vista aérea dum barco no cais de Bissau /
Vista aérea da margem /
Gruas /
Estivadores [Referência à greve dos marinheiros e estivadores do cais do Pindjiguiti em 1959, cuja repressão vai desencadear o início da luta contra o domínio português, segundo os testemunhos posteriores dos fundadores e dirigentes do PAIGC… 
Referência ao papel histórico de Amílcar Cabral, um homem de origem mestiça (sic), fundador do PAIGC, um partido marxista (sic)] /
Marinheiro armado /
Dois negros numa piroga /
A rua /

1' 00'' > Travelling lateral ao longo de zona comercial de Bissau, de casas de arquitectura colonial
[Vinte cinco mil soldados portugueses controlam um terço do território e dois terços da população; o PAIGC controla outro terço do território; o resto está sob duplo controlo]

Zoom de uma barcaça [Bissau é um ilha… A 30 km, é o preciso tomar uma barcaça para penetrar no interior… Referência à travessia do Rio Mansoa, em João Landim, segundo se depreende] /
Soldados armados /

2' 00'' > Camiões da tropa da caminho da barcaça / 
jangada em João Landim


Helicóptero que sobrevoa uma região de fronteira com o Senegal
[Fuzileiros vão a uma base do PAIGC onde não encontram ninguém… Referência ao constante patrulhamento de rios e braços de mar… Um zebra dos fuzileiros… Uma Lancha de fiscalização da Marinha de Guerra, P361…].
Uma equipa de fuzileiros parte num barco pneumático e afasta-se /
Vista aérea do helicóptero sobre as margens do rio /
Vista aérea da floresta.


3' 35'' > Soldados armados que descem do heli...
(Aqui começa a Op Ostra Amarga, envolvendo soldados de uma companhia de cavalaria, a CCAV 2487 - e não de comandos, como nos pareceu inicialmente… 

A força é comandada pelo então cap cav  José Sentieiro… A operação decorre na região de Bula. setor da responsabilidade do BCAV 2862, comandado pelo ten cor Morgado).


4' 30'' > Soldados deslocam-se na floresta /
Soldados, brancos e alguns negros /
(Ouvem-se os ruídos típicos da floresta… Já de dia, às 7 horas e um quarto, a testa da coluna na mata sofre um emboscada. É atingida por rockets…) /
Soldados debaixo de fogo/ 
Ouve-se o matraquear de armas automáticas.



Contra-resposta  dos dois Gr Comb emboscados/
Tiro de lança-granadas das tropas portugueses [que estão equipadas com LGFog 3.7, que eram originalmente só usadas pelas tropas especiais, paraquedistas, comandos e fuzileiros...] /
5' 00' > Tiro de morteiro 60 /
Correria até à frente da coluna.


Soldado atingido /
Ferido no chão /
Corpos no chão /
(Há um morto imediato, 
o Henrique Costa, de Ferrel, Peniche, retalhado pela roquetada, enquanto o António Capela, de Ponta de Lima, sobreviverá apenas 45 minutos, morrendo na altura em que chega o heli para a evacuação) /
Grande Plano do soldado ferido /
Grande plano de cadáver no solo /
Grande plano de um soldado com ar abatido.


5' 30'' > Depois do ataque… Soldados de rosto entumecido /
Ferido estendido no chão recebendo soro do maqueiro, de pé (segundo a Diana Andringa, deve ser o Pedro Gomes, o 1º cabo auxiliar de enfermagem, natural de Peniche, e  falecido em 2007) /
Tentam transportá-lo /
Tem uma perna partida /
Partida do ferido /
Estertor do ferido /
Grande plano do morto.
Alguns soldados à volta do ferido /
Um soldado sentado /
Grande plano de um jovem soldado /
Um outro que fuma /
Grande plano de um soldado que transpira /
Soldado que morreu /

8' 47'' > Imagens breves das lavadeiras do rio Lima estendendo a roupa ao sol (, Ponte de Lima era a terra do Capela)
Soldado à volta do morto /
Um crucifixo caído no capim, perto do morto.
Helicóptero que surge no céu /
Dois soldados apoiam um ferido a caminho 
do helicóptero /
Helicóptero que aterra, em contre plongée /
Aterragem /
Retiram a maca /

9' 50'' > Uma enfermeira-paraquedista, de blusa branca e calças de camuflado, que sai. [Era a "nossa" Rosa Serra. membro da Tabanca Grande]


Transporte dum ferido em maca para o interior do helicóptero /
Um homem ferido é levado para bordo, em braços/
Partida do helicóptero /
As copas de duas palmeiras destacam-se no céu /
Soldado que bebe água do cantil /
Enfoque da câmara no oficial (capitão de cavalaria José Sentieiro), rodeado dos seus homens (os 2 Gr Comb da CCAV 2487).

11' 30'' > Chega o Spínola (, com o seu ajudante de campo, o então capitão Almeida Bruno, hoje general, que empunha a G-3, com luvas brancas)... 
Está também acompanhado de um oficial superior, tenente coronel Morgado, comandante do Batalhão de Cavalaria 2868, com sede em Bula


11' 53'' > Por fim, o general Spínola (comandante-chefe das forças portugesas, usa monóculo, diz o guião) dá uma entrevista à equipa da ORTF e possivelmente aos restantes jornalistas (que nunca aparecem no filme), defendendo a política ultramarina do Governo Português... e a sua actuação na Guiné... 

Dá impressão que também está a ler um papel. Às tantas tira o monóculo (o "caco") e segura-o na mão. Aparenta estar em boa forma física. Está com 59 anos feitos em 11 de abril.

No essencial, diz o Com-Chefe português: A preocupação constante das forças militares é de proteger e apoiar as populações, contrariamente ao que diz a propaganda do PAIGC, o qual beneficia sobretudo do apoio dos países do Pacto de Varsóvia e da China… (Discurso de circunstância ou de contrapropaganda…). (****)
__________

Notas do editor:

(*) Vd. post de 20 de Outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2197: A nossa Tabanca Grande e As Duas Faces da Guerra (4): Encontro tertuliano no hall da Culturgest na estreia do filme (Luís Graça)

(**) Vd. post de 16 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1958: Vídeos da guerra (1): PAIGC: Viva Portugal, abaixo o colonialismo (Luís Graça / Virgínio Briote)

(***) Vd. poste de 8 de Novembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2249: Vídeos da guerra (2): Uma das raras cenas de combate, filmadas ao vivo (ORTF, 1969, c. 14 m) (Luís Graça / Virgínio Briote)

 (****) Último poste da série > 8 de outubro de 2016 > Guiné 63/74 - P16577: Vídeos da guerra (13): Documentário "Cartas da Guerra - Making of" (, produção O Som e a Fúria, 2016) passou na RTP2, dia 14 de setembro de 2016, e pode ser visto "on line"

Guiné 61/74 - P18334: (De)Caras (105): Onde fica a Rua António da Silva Capela?... Fica em Lousa, Loures... Quem foi? Um herói limiano, esquecido na sua terra natal, Ponte de Lima (Mário Leitão / Adelino Silva)



Localização da Rua António da Silva Capela, Lousa, Loures. Fonte: © Google (2018)  (com a devida vénia...)

Freguesia: Lousa
Concelho: Loures
Distrito: Lisboa
GPS: 38.867017, -9.213068


1.  Como chegar à Rua António da Silva Capela, em Lousa, Loures?  O portal Moovitapp dá-te uma ajuda...

E sabes quem foi o António da Silva Capela? Não sabes, como ninguém sabe... tanto em Loures (onde está sepultado) como em Ponte de Lima (onde nasceu)... Ninguém sabe, nem está sequer interessado em saber... Para ter nome de rua, é alguém que já morreu...

É verdade, é alguém que já morreu. Um jovem minhoto, que morreu em combate, numa guerra já esquecida, e que ninguém quer lembrar: guerra do ultramar, para uns, guerra colonial, para outros... Em suma, um camarada nosso cuja memória temos a obrigação de honrar...

Foi homenageado em 1971, dois anos depois da sua morte, com um nome de rua no município onde foi sepultado (e onde deveria residir ao tempo em que fora chamado a prestar o serviço militar obrigatório)... Era então presidente da câmara municipal de Loures (1970-1974) um tal Luís Filipe da Cunha de Noronha Demony (nascido em Moçambique, em 1928)... Estávamos no "tempo do fascismo", dirão alguns... 

Hoje já ninguém se lembra dessa simples homenagem do município de Loures ao soldado limiano... Felizmente, há quem se recuse em deixar este nosso camarada, morto em combate na Guiné, no setor de Bula, em 18 de outubro de 1969, ficar "sepultado na vala comum do esquecimento"... Conterrâneos seus como Mário Leitão, nosso grã-tabanqueiro, ou o jornalista Adelino da Silva, fazem questão de resgatar a sua memória.

Sobre o herói limiano António da Silva Capela (Cabaços,. Ponte de Lima), escreveu o  nosso Mário Leitão:

(...) "Soldado Atirador 72441868. Este jovem deixou-nos algumas das mais lancinantes e emotivas imagens que se conhecem de toda a filmografia da Guerra do Ultramar, divulgadas pelo Institut National de l’Audiovisuel francês (...) Trata-se de um filme chocante sobre a agonia de António Capela, nascido em Cabaços no dia 25 de Outubro de 1947 e recenseado em Loures, onde está sepultado no Cemitério da Lousa. Foi mobilizado para a Guiné pelo Regimento de Cavalaria 7, extinto em 1975, como membro da Companhia de Cavalaria 2487, pertencente ao Batalhão de Cavalaria 2868, que embarcou no dia 23/02/1969 e regressou a 30/12/1970. Era filho de Gabriel dos Santos Capela e de Rosa Araújo da Silva." (...)


Adelino da Silva, por sua vez, escreveu, em 18 de julho de 2016, no portal "Vale Mais" um vibrante e brilhante artigo de opinião ("As lavadeiras do rio Lima e a guerra colonial") que merece ser conhecido dos amigos e camaradas da Guiné que aqui se sentam sob o poilão da Tabanca Grande.


2.  AS LAVADEIRAS DO RIO LIMA E A GUERRA COLONIAL

Opinião > Adelino Silva > Jornal Vale Mais, 18 Julho, 2016

[Texto e foto: reproduzidos com a devida vénia, ao autor e ao editor]

Estávamos em 18 de outubro de 1969, era um sábado de outono, morno e soalheiro. Vivíamos no “Portugal Maior” — assim batizado por Norton de Matos, o nosso General —, aquele Portugal, real e utópico, cujos territórios se estendiam do Minho a Timor.

Na Guiné-Bissau — uma das parcelas desse “Portugal Maior” —, os jovens soldados portugueses combatiam, há alguns anos, contra uma guerrilha “invisível”, mas vivamente determinada em derrotar o exército colonial, com emboscadas ferozes e minas insidiosas.

Em Ponte de Lima, na centenária vila, as mães desses soldados — as airosas e risonhas “lavadeiras do Lima” —, engalanavam o pitoresco areal, ainda doirado e luminoso, com fulgentes estendais, em cenário policromático matizado por incontáveis peças de roupa.

Na Guiné, nas rústicas tabancas, circundadas por verdes matas gementes, as mães dos guerrilheiros pilavam arroz e milho, de forma ritmada e vagarosa, em mais um dia longo e sonolento.

Perto de Bula, nos bosques viridentes e adversos, um jovem limiano de Cabaços (António da Silva Capela), integrava como soldado atirador, uma patrulha da “Operação Ostra Amarga” (*), precisamente aquela que Spínola — o enigmático comandante-chefe —, escolheu, como palco improvisado, para promover mais um episódio de propaganda inútil, levando, para os “trilhos da morte”, uma equipa de repórteres franceses, ao serviço da rádio e da televisão ORTF e da revista Paris-Match.

“Ostra Amarga” viria a tornar-se, nesse dia, num doloroso e gélido malogro para as nossas tropas e num invulgar batismo de guerra para os jornalistas franceses.

Em “direto”, a cores e debaixo de “fogo cerrado”, aquela equipa de ousados repórteres registou, em película, num longo travelling dantesco, o clímax dramático e apocalítico, tingido de rostos de dor, horror e tragédia, de uma das operações de combate mais desumanas, alguma vez filmada nas frentes da guerra colonial e que viria a ser fatal para o jovem limiano.

As imagens ácidas, cortantes e pungentes, resultantes de mais uma emboscada impiedosa, correram mundo; a televisão francesa emitiu-as em 11/11/1969; e a revista “Paris Match” publicou, em 15/11/1969, uma reportagem, sob o título, “Guiné: a estranha guerra dos Portugueses”.
UM POVO QUE LAVA NO RIO E A ESTRANHA GUERRA DA GUINÉ

Mas, para mostrar o contraste, entre essa “estranha guerra dos Portugueses” (a cores) e o “Portugal real” (a “preto e branco”), o realizador francês, um génio criativo sabedor da força da tessitura da cor e do poema “povo que lavas no rio”, de Pedro Homem de Mello (PHM), inseriu, no meio do caos cénico, alguns fotogramas pincelados de beleza extrema, onde brota o gracioso areal limiano, esmaltado por infindas peças de roupa a flutuar ao vento, em suaves bailados coreográficos, e vigiadas, com denodo, por duas mãos cheias de generosas mulheres — as míticas “lavadeiras do Lima”. 

[Vd. INA.fr., vídeo "Guerre en Guinée",  minuto 8, 47º segundo...]

São imagens expressivas, a “preto e branco”, onde sobressai o quotidiano simples dessas “mulheres-lavadeiras”, que o atento realizador francês, utilizando o efeito catalisador da arte cinematográfica, exibiu ao mundo, simbolicamente, como sendo as “mães de Portugal”, que sustentavam a “estranha guerra” da Guiné, com a seiva mais valiosa da juventude.

Hoje, na sempre vetusta e renovada vila, as “mães de Portugal” — as “lavadeiras do Lima” — deixaram de ser a imagem icónica do “povo que lava no rio” e, no pictórico areal do Lima, os lençóis de alvura reluzente já não tremulam, em animada sinfonia visual, com a pureza das brisas que passam. Na Guiné, as mães dos antigos guerrilheiros, continuam a viver nas tabancas, envolvidas por cortinados de paisagens de ruínas e de silêncio, e a pilar arroz e milho, em tardes sempre quentes e intermináveis.

Em 31/10/1971, António Capela foi homenageado com o nome de uma rua em Loures (onde se encontra sepultado), evento noticiado com grande brilho, em 15/11/1971, no jornal “Mirante”.

Mães que lavam no rio ou que pilam arroz nas tabancas, jovens soldados ou guerrilheiros que combatem ou morrem em “estranhas guerras”, são os laços traumáticos que unem dois povos, num véu de mágoa e de mistério, e que só serão suavizados pelas teias do tempo que passa. O resto, já o havia escrito, de forma sublime, PHM [Pedro Homem de Melo, 1904-1984], o tal poeta esquecido: “Pode haver quem te defenda; Quem compre o teu chão sagrado; Mas a tua vida não”.(**)
________________

Notas do editor:

(*) Vd. poste de 19 de fevereiro de 2018 >  Guiné 61/74 - P18333: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (49): Quem são os camaradas da CCAV 2487 / BCAV 2862 (Bula, 1969/70), que assistiram aos últimos minutos de vida do trágico herói limiano António da Silva Capela (1947-1969), uma das vítimas mortais da emboscada, em 18/10/1969, no último dia da Op Ostra Amarga ? Estou a fazer a biografia deste filho de Ponte de Lima, que não pode ficar sepultado na vala comum do esquecimento na sua terra natal... (Mário Leitão)

(**)  Último poste da série > 10 de janeiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18197: (De)Caras (103): Patrício Ribeiro, "pai dos tugas" ou o "último improvável herói tuga" na Guiné-Bissau?... Recordando o seu ato de heroísmo e altruísmo em Varela, em 1998, ao "pôr a salvo", na fragata Vasco da Gama, um grupo de portugueses e outros estrangeiros... 18 milhas / c. 33 km pelo mar dentro, numa canoa nhominca...