sábado, 27 de setembro de 2014

Guiné 63/74 - P13658: Bom ou mau tempo na bolanha (68): Da Florida ao Alaska, num Jeep, em caravana (8) (Tony Borié)

Sexagésimo sétimo episódio da série Bom ou mau tempo na bolanha, do nosso camarada Tony Borié, ex-1.º Cabo Operador Cripto do CMD AGRU 16, Mansoa, 1964/66.




8 - Da Florida ao Alaska

Era madrugada, alguns animais vinham beber água àquela parte do lago, arrumámos a “tralha”, que é como chamamos a todas aquelas coisas que nos facilitam um pouco a vida, principalmente quando andamos em viajem por zonas onde felizmente a civilização ainda não chegou, abandonámos a região do “Muncho Lake”, que é um maravilhoso lago localizado na parte norte-oeste da Província de British Columbia, no Canadá. Àquela zona chamam “Muncho Lake Provincial Park”, designando-se a sua localização como “Historic Milepost 423”, do “Alaska Highway”, e tem mais ou menos sete milhas e meia de extensão, aproximadamente 12 quilómetros. Falando nas medidas que se usam em Portugal, a sua largura varia entre 1 e 6 quilómetros, 223 metros na parte mais funda e, está rodeado por picos de montanha, alguns cobertos de gelo com milhões de anos, com uma altura que chega a atingir os 2000 metros, mas não podemos esquecer que o lago se situa mais ou menos a 800 metros do nível do mar, cuja água é proveniente do Trout River e dos “glacieres”, que são uma grande e espessa massa de gelo formada em camadas sucessivas de neve compactada e recristalizada, de várias épocas, em regiões onde a acumulação de neve é superior ao degelo e, para quem não sabe, o gelo dos “glacieres”, é o maior reservatório de água doce que existe sobre a terra. A cor verde jade da sua água, dizem que é atribuída à presença de óxido de cobre nas rochas que compõem a base do seu leito e, o seu nome deriva da língua “Kaska”, que designa “muncho” que quer dizer “muita água”.


Olhando mais uma vez aquele “paraíso”, seguimos viagem, a estrada umas vezes era encostada a precipícios, onde só podia passar um veículo de cada vez, e com letreiros a dizer que podiam cair pedras, outras vezes era suave, longas retas, animais a cruzarem a estrada, talvez admirados e não muito felizes com a presença humana no seu território, algumas pontes, ainda do tempo do início da construção da estrada. Tudo seguia normalmente, até surgir aqueles longos camiões, com dois e três atrelados, daqueles que não podem fazer manobras, só podem seguir em frente, que nos causavam algum transtorno, pois em estradas de pedra miúda, os pneus fazem saltar algumas que partem vidros, mesmo a uma distância de centenas de metros, o que nos aconteceu, marcando o vidro do Jeep em três locais, felizmente o vidro era resistente e não nos aconteceu quase nada, só o susto.




Parávamos muitas vezes, apreciando riachos selvagens, paisagens de montanha, animais selvagens, tirando fotos, ajudando motociclistas e outros veículos com problemas, não só cedendo gasolina, mas também rebocando, tirando de buracos fundos de lama.

Passámos na “Historic Milepost 496”, onde se situa o “Liard River Hotsprings Provincial Park”, com uma piscina de água quente, que não é mais do que uma represa do rio, onde as pessoas se banham em água quente.


Um tempo de estrada com quase as mesmas paisagens, um pouco depois de passar a fronteira para a província de Yukon, aparece a “Historic Milepost 635”, onde nasceu a cidade de Watson Lake, onde próximo existe um pequeno aeroporto, uma pequena indústria de minas, comércio, onde comprámos fruta, água, pão, alguns géneros de primeira necessidade, e claro, gasolina. Aqui a polícia local viaja de carrinha, tipo “pick-up”, parando quase sempre, quando vê um veículo com matrícula de outro país, não passa qualquer multa, só quer informar e conversar.

Nesta pequena cidade existe uma importante atracção turística que é o original “Signpost Forest”. Tudo começou no ano de 1942, quando um militar do Exército dos USA, muito saudoso, trabalhando na construção do “Alaska Highway”, resolveu colocar num poste, uma placa com o nome da povoação onde tinha nascido, assim como a distância de onde se encontrava, logo outros o seguiram e, no ano de 2010, já lá havia mais de 76.000 placas, oriundas dos mais diversos países do mundo, algumas com nomes que incluem, três gerações de uma só família. O “Signpost Forest”, é uma das “atracções de estrada”, mais famosa, não só no Canadá, como em todo o mundo.


Continuando, com o Jeep e a Caravana em boas condições, a estrada com zonas boas, outras de terra e pedra e, as obras de reparação incluíam, em zonas secas uma rega de água de cimento, pelo que, se tivéssemos a infelicidade de ir logo a seguir ao carro de rega, “pintávamos” a viatura de cimento.

Passámos pelo “Historic Milepost 733”, em Swift River, a placa de sinalização antes da povoação dizia “comida, gasolina e hotel”, mas quando passámos, estava tudo fechado, dando a entender que os poucos estabelecimentos estavam fechados ou abandonados. Seguimos até um pouco antes da povoação de Teslin, que é marcada pelo “Históric Milepost 804”, parámos antes num lindo miradouro sobre o lago de Teslin, donde se pode admirar a ponte e a povoação. Seguindo, depois da ponte, havia um museu, que na altura estava fechado, cartazes a convidar a ir pescar e passear no lago, mas a nossa atenção era uma estação de serviço, que encontrámos, onde a pessoa que atendia, dentro do estabelecimento, nos pediu o cartão de crédito. Verificou duas ou três vezes, abriu a estação número 2, enchemos a gasolina que desejávamos, fez a transação, assinámos o papel e, perguntando nós qual a distância para a cidade de Whitehorse, que era o nosso próximo destino, logo nos respondeu, com um sorriso malicioso, mencionando o nosso sotaque de voz, que devíamos de ser oriundos dos “States”, que nesta zona, não importavam as distâncias, era o tempo que podia demorar, talvez com este clima e estas obras na estrada, de três a quatro horas.

Eis-nos de novo na estrada, chegámos à cidade de Whitehorse, que é assinalada pelo “Historic Milepost 884”, que podemos dizer ser um “Oásis” no deserto. Tem um cruzamento de estradas, onde se pode tomar o rumo do sul ou do norte, é banhada pelas duas margens do rio Yukon, dizem que é a cidade com a menor poluição do ar, no mundo, e mais, o rio Yukon é navegável a partir daqui, até ao mar de “Bering” e, existem serviços de passageiros ou de carga que usam o rio, aqui na cidade de Whitehorse.


Actualmente é possível fazer a rota da “febre do ouro” pelo rio Yukon, abordando algum dos barcos como o “M.V. Schwatka”, que realizam este trajecto desde a cidade de Dawson City até esta cidade de Whitehorse, podendo durante o percurso contemplar o “Canyon Miles”, impressionante pelos seus “muros”, que é o lugar onde o rio passa entre altas rochas e, a sua corrente é um pouco mais forte, tornando o rio um pouco mais revoltoso.

Já há alguma “civilização”, centro de turismo com computadores disponíveis, hotéis e restaurantes “temáticos”, comércio normal, estações de serviço, das principais marcas de combustível, alguns parques agradáveis, alguma juventude na rua, principalmente em frente aos restaurantes “temáticos”.

Depois de despendermos algum tempo nesta cidade, como nesta altura do ano é quase sempre de dia, sentindo-nos bem, abandonámos o “Alaska Highway”, tomando a estrada número 2, em direcção ao norte, fazendo o “Klondike Loop”, que é como chamam ao desvio que se faz para andar mais 550 quilómetros, de estrada de terra e pedras, para se chegar à cidade perdida de Dawson City, lá no norte do Canadá, onde muitos anos atrás algumas corajosas pessoas começaram a pesquisa de ouro.

Mas não queremos abandonar a cidade de Whitehorse sem vos falar que, nesta cidade, existe uma relíquia oriunda de Lisboa, Portugal, trata-se de um “Eléctrico” que circulou pelo Rossio ou Alfama, trata-se do “Whitehorse Waterfront Trolley”. Esta “relíquia” foi restaurada e transporta turistas numa zona ao lado do rio Yukon, vai desde o Rotary Peace Park, que está localizado ao sul do edifício do Turismo, e vai até ao limite norte da cidade, a que chamam a estação de Spook Creek. Este “Eléctrico” serviu o sistema de eléctricos de Lisboa, Portugal, desde 1925 até 1978, data em que foi vendido ao Southeastern Railway Museum, de Duluth, na Georgia, USA, que por sua vez, o vendeu à cidade de Whitehorse, em 1999, tendo sido restaurado pelo “Historic Railway Restoration”, em Arlington, WA, nos USA. Actualmente tem capacidade para 24 passageiros, e roda sobre carris que foram construídos ao longo do White Pass e Yukon Route.


Depois de rolar alguns quilómetros pelo trajecto do “Klondike Loop”, a tal estrada, rumo à cidade perdida de Dawson City, lá no norte, um pouco cansados, comemos dos géneros que tínhamos comprado na cidade de Watson Lake, onde está o “Historic Milepost 635”, dormindo num parque de campismo localizado junto ao rio Yukon, na localidade de Carmacks, onde antes nos sentámos na ribanceira do rio, apreciando a paisagem, abrindo uma garrafa de vinho português, bebendo por dois copos, que foram atirados ao rio, em homenagem aos nossos companheiros que por lá ficaram. Jovens com esperança num futuro que infelizmente não tiveram, nos rios e bolanhas da Guiné, onde a água corria com uma certa velocidade e, um pouco “barrenta”, tal como aquela que passava à quase meio século, debaixo da ponte do rio Mansoa, em direcção ao Oceano AtlIantico, tudo isto, como já explicámos, a caminho da cidade perdida de Dawson City, viajando no “Klondike Loop”, rumo ao norte, por uma estrada quase deserta, na província de Yukon.


Neste dia percorremos 589 milhas, com preço da gasolina variando entre $1.88 e $1.98 o litro.

Tony Borie, Agosto de 2014
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Nota do editor

Último poste da série de 20 de Setembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13629: Bom ou mau tempo na bolanha (66): Da Florida ao Alaska, num Jeep, em caravana (7) (Tony Borié)

Guiné 63/74 - P13657: Caderno de Poesias "Poilão" (Grupo Desportivo e Cultural dos Empregados do Banco Nacional Ultramarino, Bissau, Dezembro de 1973) (Albano de Matos) (3): "Mãos", "Balantão" e "Cachimbêro", três poemas do poeta maior desta antologia, natural de Farim, Pascoal d' Artagnan [Aurigema] (1938-1991), pp. 9/11




Elementos da capa do documento policopiado do Caderno de Poesias Poilão", editada em dezembro de 1973 pelo Grupo Desportivo e Cultural dos Empregados do Banco Nacional Ultramarino (O GDC dos Empregados do BNU foi criado em 1924).







[Local e data: Catió — Campo de aviação. Junho de 1971]





1. O nosso camarada Albano Mendes de Matos [, ten cor art ref, que esteve no GA 7 e QG/CTIG, Bissau, 1972/74, e foi o "último soldado do império"; é natural de Castelo Branco, vive no Fundão; é poeta, romancista e antropólogo], mandou-nos uma cópia, em pdf, do Caderno de Poesias "Poilão"...

Temos a sua autorização para reproduzir aqui, para conhecimento de um público lusófono mais vasto, este livrinho, de que se fizeram apenas 700 exemplares, policopiados, distribuídos em fevereiro de 1974, em Bissau. A iniciativa foi do Grupo Desportivo e Cultural dos Empregados do Banco Nacional Ultramarino (BNU), cuja origem remonta a 1924.

2. Reproduzimos hoje  três poemas do poeta guineense, natural de Farim, Pascoal D’Artagnan Aurigema (1938-1991).  É o poeta "maior" desta antologia.  Sobre ele escreveu Moema Parente Augel:

(...) "Pascoal D’Artagnan Aurigema nasceu em Farim, em 1938, e morreu em  Bissau, em 1991, sem tem conseguido publicar em vida seus poemas, embora  tivesse tido a preocupação de distribuir várias cópias datilografadas de um conjunto deles e ofertado a amigos. Depois de sua morte, foi publicada em Brasília  uma pequena coleção sob o título de Amor e esperança (1994), dentro da coleção  Vozes d’África, e em 1997, em Bissau, com o número cinco da Colecção Kebur,  sob o título Djarama e outros poemas, com 136 páginas e quase oitenta poemas (1996).

A obra de Pascoal D’Artagnan Aurigemma, em seus diferentes aspectos,  pode ilustrar como o escritor, assumindo seu papel social, identifica-se com  seu povo, convencido de sua função como porta-voz e tcholonadur, expressão guineense muito apropriada para designar o mensageiro, o intérprete." (...)
(in: Moema Parente Augel   Vozes que não se calaram. Heroização, ufanismo e guineidade- SCRIPTA, Belo Horizonte, v. 14, n. 27, p. 13-27, 2º sem.2010)

Tem vários poemas. anteriores e posteriores à independência do seu país,  publicados na  Antologia poética da Guiné-Bissau. Coordenação do Centro Cultural Português em Bissau e da União Nacional dos Artistas e Escritores da Guiné-Bissau. Prefácio de Manuel Ferreira. Lisboa, Editorial Inquérito, 1990. (*)

CANÇÃO DE CRIANÇA

Vento forte
vento norte
lá vem a criança
na sua esp’rança.

Vento forte
vento norte
lá vem a criança 
na sua pujança.

Da tabanca erguida
toda ela de vida
lá vem a criança
na sua embalança.

Lá vem a criança
na sua bonança
lá vem lá vem
saudar alguém.

Lá vem a criança
na sua esp’rança
lá vem a criança
na sua pujança.

Lá vem a criança
na sua bonança
lá vem lá vem
beijar a mãe.

Iha das Galinhas, 1967

PRATO DE FOME

Uma mesa triste onde talher e tudo falta
p’ra vingar fome

Mão de alguém-menino
corre [?] como esqueleto numa tigela de fome.

Alguém-menino
saído dum ventre feliz de parir.

Vida de amor de alguém-menino
talvez sonhando um futuro risonho
como tantas outras vidas sonharam.

Alguém-menino — alma simples
contemplando a certeza da revolução.

Nem pilão pila
colonial vida de pilão vazio.

Bissau, Safim, 1973

In: Antologia poética da Guiné-Bissau. Coordenação do Centro Cultural Português em Bissau e da União Nacional dos Artistas e Escritores da Guiné-Bissau. Prefácio de Manuel Ferreira. Lisboa, Editorial Inquérito, 1990

Fonte: Sítio  Tripov > Guiné-Bissau > Poetas > Pascoal d'Artagnan (com a devida vénia...)

Guiné 63/74 - P13656: Ser solidário (165): Estou desesperada, conto com a vossa ajuda para encontrar o meu querido irmão Nivaldo Biagué Fortes, de 16 anos, desaparecido de Bissau há 4 meses (Hondina Cabral Fortes, guineense, enfermeira, São Carlos, São Paulo, Brasil)




1. Mensagem da nossa leitora (e amiga da página do Facebook da Tabanca Grande), guineense, enfermeira, a viver no Brasil, na cidade de São Carlos, estado de São Paulo, Hondina Cabral Fortes:

Data: 26 de Setembro de 2014 às 16:48

Assunto: Pedido de ajuda


Olá,

Sou Hondina Cabral Fortes,  guineense, moro no Brasil há 9 anos.

O meu irmão, Nivaldo Biagué Fortes, de 16 anos, está desaparecido já há 4 meses em Bissau.

Peço ajuda para divulgar informação a seu respeito bem como a imagem dele.

Se alguém tiver alguma informação  sobre o seu paradeiro,  entre por favor em contacto com a família.

Estou desesperada,  conto com a vossa ajuda. Mais informações em anexo [vd. acima]

Obrigada.

Hondina Cabral Fortes
Bacharel em enfermagem
Telefone fixo:  0055 16 34137729
Celular / telemóvel:   0055 16 981663576
Página do Facebook: www.facebook.com/hondina.cabralfortes

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Nota do editor:

Guiné 63/74 - P13655: Notícias dos nossos amigos da AD - Bissau (36): Campanha de prevenção da Doença por Vírus Ébola





Campanha de Comunicação e Prevenção da Ébola



Ebola

Imagem e texto reproduzidos, com a devida vénia, do sítio da AD - Acção para o Desenvolvimento, a ONGD de que o nosso saudoso amigo Pepito (1949-2014) foi cofundador, líder e diretor executivo (*)..
[Mais informações sobre a Doença por Vírus Ébola, disponíveis no sitio da Direção-Geral de Saúde, Ministério da Saúde, Portugal.]


O objetivo da campanha é suscitar, por parte da população das áreas em que a nossa ONG intervém, um comportamento adequado de prevenção da provável epidemia da ébola no nosso país. O objetivo vai por isso para além da simples comunicação entendida como a difusão de informações. A campanha terá quatro componentes intimamente integradas:
1. Comunicação social, através das 32 rádios e 4 TV membros da Rede Nacional das Rádios e Televisões Comunitárias da Guiné-Bissau (RENARC) coordenada pela AD; o boletim informativo “Pepito” do Bairro de Quelélé; site Web e facebook da AD, peças de teatro pela Cooperativa Cultural “Os Fidalgos” e música coordenada pelo Estúdio Bissom com sede em Quelélé

2. Comunicação de grupo, em direção às estruturas beneficiárias e parceiras da AD em áreas rurais e urbanas em Bissau e nas Regiões de Cacheu e Cubucaré: 25 Escolas de Verificação Ambiental; 5 Centros de Saúde e 15 Unidades de Saúde de Base; 2 Escolas de Formação Profissional; 3 jardins-escola e 127 associações e agrupamentos. Através destas estruturas, a AD possui uma capacidade de mobilização das comunidades que entende pôe à disposição da prevenção da ébola

3. Comunicação interpessoal, através da qual as pessoas conscientizadas e tendo adotado um comportamento adequado através das duas primeiras componentes, partilham os conhecimentos e atitudes adquiridos aos seus familiares, amigos, colegas, vizinhos e outros membros das suas respetivas Deste modo criam-se efeitos multiplicadores significativos ao longo da cadeia de impacto que se vai construir

4. Limpeza e desinfeção da água nos locais de trabalho e de encontro dos membros das estruturas acima referidas assim como das suas áreas geográficas respetivas.

Fonte: Sítio da AD - Acção para o Desenvolvimento, Bissau, 27 de setembro de 2014
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Notas do editor
(*) Último poste da série > 5 de agosto de  2014 > Guiné 63/74 - P13465: Notícias dos nossos amigos da AD - Bissau (35): Pepito (1949-2014): rei morto, rei (de)posto ?...
(**) Portugal, Ministério da Saúde, Direcção Geral de Saúde > Doença por vírus Ébola(...) Um surto de Doença por Vírus Ébola decorre na Costa Ocidental de África desde fevereiro de 2014.
A  infeção resulta do contacto direto com líquidos orgânicos de doentes (tais como sangue, urina, fezes, sémen). A transmissão da doença por via sexual pode ocorrer até 3 meses depois da recuperação clínica.

Uma vez que o período de incubação pode durar até 3 semanas é provável que novos casos venham ainda a ser identificados.

O risco para os países europeus é considerado baixo. No entanto, impõem-se medidas de prevenção que se detalham nos documentos abaixo publicados. (..:)

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Guiné 63774 - P13654: Manuscritos(s) (Luís Graça) (39): Portugueses pocos, pero locos... Ou como vemos (e somos vistos por) os outros...O que fazer com tantos clichés, estereótipos e preconceitos idiotas ? E não se pode exterminá-los ?

A.  Portugueses pocos, pero locos... Ou como vemos (e somos vistos por) os outros


Nisto de comparações internacionais, todos perdemos, ao fim e ao cabo... Porque acabamos por reforçar a filosofia de senso comum,  as ideias feitas, os estereótipos que temos uns sobre os outros... A sua origem, às vezes, ou quase sempre, perde-se nos tempos, isto é, na história,..

Por exemplo: o mais internacionalista dos povos,  pretendem os valorosos tugas descendentes do Viriato (mas também de judeus, bérberes, africanos negros subsarianos...)  seria, sem dúvida, o português. Poderíamos apresentar dezenas de argumentos a favor desta tese. Fiquemo-nos por umas 3 dezenas de proposições a favor da tese do "internacionalismo português"..

O mais internacionalista, universal, ecuménico, global, aberto, flexível e... desenrascado  dos povos  à face da terra, seria o  português (também conhecido por portuga, tuga, Zé, Zé Povinho...)... É a  tese da idiossincrasia portuguesa que teria ajudado "a dar novos mundos ao mundo"…

B. De qualquer modo, sendo nós portugueses, correremos também o risco de sermos etnocêntrico, isto é, "caseiros", parciais, como certos árbitros do futebol... Dizem os antropólogos que não há povos que não sejam etnocêntricos...   E nós não escapamos à regra... Mesmo que haja alguns mais do que outros, com um ego muito comprido...

Mesmo assim, vamos tentar fazer aqui um exercício de distanciamento cultural e afetivo,  em relação a esse  povo, afinal tão mal conhecido e pior amado, sobretudo pelos seus próprios filhos e netos...

Em boa verdade, não sabemos por onde ele anda, desde que o mandaram emigrar, ir à vida (que a morte é certa): imaginem que é até na Lapónia há descendentes do Zé Povinho!... No inferno, seguramente que haverá alguns mais... Mas do inferno se diz que tem humor alemão, cozinha inglesa, garrafeira sueca, hotelaria espanhola, economia à grega, finanças à portuguesa, gestão à italiana...

Será verdade ? Ainda não cheguei lá, mas para lá caminho... Ou melhor: só conheço a filial do inferno na terra, ou algumas filiais... (*)

A imortal figura do Ze Povinho, em cerâmica,
criada pelo Rafael Bordalo Pinheiro,
no último quartel do séc. XIX.  Tal como o não menos
famoso boneco das Caldas, que tem muitos usos,
incluindo o da crítica social...
Fonte: Cortesia de Wikipedia
1. Quando um portuga apanha com um grande problema pela frente, ou com um bico de obra, ou tem uma tarefa muito difícil , diz logo que se vê grego para dar conta do recado. Ou então remete a solução para as calendas gregas. Infelizmente, o futuro tem prazos... e nenhum povo pode viver sem fuuro, senhiores reopresentantes da Nação... . Pelo que o futuiro só pode ser português, ou ser escrito, falado e contado também em, português, é o que diz o bom irã acocorado no alto do poilão sagrado da nossa Tabanca Grande!

2. Se a coisa é mesmo complicada de perceber, se ele não percebe patavina do que está a acontecer. ou do que está em jogo, ele desculpa-se logo, afirmando que isso, para ele, é chinês, ao ponto de ficar com os olhos em bico... Daí à depressão, à letargia, à inanição,, ao coma e á morte, pode ser um pulo de lobo...

3. Antigamente, os portugueses iam lá, ao Império do Meio,  fazer negócios da China. Hoje são eles (os chineses) que vem cá fazer negócios de Portugal… São bem vistos e têm vistos Gold…

4. Em Portugal quem trabalha no duro, de manhã à noite, é um mouro de trabalho, mas também já foi um galego ou até um ucraniano.

5. Pelo contrário, o portuga que não gosta de trabalhar e é racista, alega que trabalhar é bom para o preto. Já o carioca, o malandro do Rio de janeirro, diz que ”trabalho se fez para burro e português”…

6. Invenções, modernices, merdas que não interessam a ninguém como a ciência & a tecnologia,  a investigação & o desenvolvimento, são chamadas de … americanices.

7. Se um portuga é gabarolas, se gosta de armar ao pingarelho, ou fazer-se grande demais, é logo apelidado de amigo de espanholadas, ou de construir castelos em Espanha;  se estudou numa universidade estrangeira, é logo apelidado de estrangeirado.pelos indígenas...

8. Se ele faz um esforço de comunicação com os seus amigos e vizinhos espanhóis, riem-se do tipo por que não fala o espanhol de Cervantes mas sim um divertido portunhol (que é um novo dialeto ibérico). Uma coisa que ninguém lhe nega é o sentido e a capacidade de desenrascanço, vocábulo que até agora nbão eqyuivalência noutras línguas cultas...

9. Em matéria de amores, e apesar da vizinhança, o balanço poderia ser bem mais positivo: o Portuga diz que “de Espanha nem bom vento nem bom casamento”… Os espanholitos não entendem os seus vizinhos: “Portugueses, pocos pero locos”…

10. Em Portugal, que é uma terra de gente invejosa, uma pessoa também não pode viver com um mínimo de luxo, conforto e ostentação (Champagne, jaquinzinhos, Mercedes em 2ª mão, lagostins, barraca no Algarve com piscina desmontável, férias na neve em Sierra Nevada...), sem que os seus míseros vizinhos venham dizer que vive à grande… e à francesa.

11. Se o gajo tem um pé de meia, é poupado, tens uns dinheiritos numa conta na Suiça (, sim, porque a banca suiça democratizou-se, é inclusiva, vê bolsas mas não corações…) é por que é agarrado ao dinheiro, forreta, capitalista, corrupto, ganancioso, logo tem uma costela de… judeu. Por outro lado, fazer judiarias é, por exemplo, comer criancinhas ao pequeno almoço como se dizia, que comiam os bolcheviques da rússia soviética e, por extensão, todos os comunistas antes da queda do muro de Berlim. Agora há outros que não comem criancinhas, mas tiram o leite às criancinhas....

12. Pelo contrário, se ele, o portuga,  te faz uma sacanice ou te apunhala pelas costas, logo dirás que é umitaliano, mafioso. Ou no mínimo filho da mãe...ou da outra. Se se arma em esperto, essa esperteza pode ser saloia (do nome dado aos aos mouros de Lisboa, antes da conquista cristã em 1147: de çala ou salab, nome dado as orações que eles faziam)… Saloio, por extebnsão, é o habitante dos arredores de Lisboa, alguém que não é citadino, muito menos sofistiacad ou cosmopolita...

13. Se faz algo para causar boa impressão aos outros, ou manter as aparências,  manter a fachada, acusam-no de o fazer só para… inglês ver. Ou para “Bruxelas ver” [, a partir da entrada na (Des)União Europeia],

14. Quando Portugal entrou (desgraçadamente, para alguns), para a União Europeia, em 1986, fez tudo para se tornar o “bom aluno da Europa” (sic) eem vez de dar lições à Europa... Pel contrário, e até se deu ao luxo de dispensar, muito humildemente, um primeiro-ministro em exercício para ocupar, em Bruxelas, o cargo de Presidente da Comissão Europeia; uma das razões para essa requisição do Zé Durão é por que ele era reconhecidamente um poliglota (falava, além da língua materna, o inglês, o francês, o portunhol e… o cherne).

15. No Algarve, o comum dos portugas adora (ou adorava, nos anos sessenta e setenta) ir até à Quarteira engatar e comer  bifas (inglesas e outras nórdicas, com ou sem sardas). Este lado antropofágico  do portuga parece que lhe dá fama e pro

16. Entre tremoços, amendoins e bejecas, eles (os portugas, machos) adoram passar as férias a jogar… à sueca.

17. Elas, as portugas fêmeas, pelo contrário, preferem gastar o subsídio de férias (ou preferiam, no tempo em que ainda havia subsídio de férias…) no Corte Inglês ou noutros estabelecimentos da estranja como a galega Zara.

18. Em África, nos PALOP que já fizeram parte do seu grande império colonial, o português (m/f) ainda é tratado carinhosamente pelo seu diminuitivo, tuga (m/f).

19. Os da Madeira, vá-se lá saber porquê, chamam cubanos… aos do Continente, mas quem fuma(va) charuto cubano é(era) o Alberto João.

D. Quixote e Sancho Pança, ilustração de 
Gustave Doré. Imagem do domínio público.
Fonte: Wikipedia
20. Quinhentos anos depois de Álvares Cabral ter aportado ao Novo Mundo, os portugueses estavam a redescobrir o Brasil, a falar à moda de lá e a importar os seus indígenas (, os brazucas).

21. Católico de batismo, apostólico e romano, mas pouco cumpridor dos 10 mandamentos da lei de Deus, em matéria de fé o portuga tende a ser mais papista que o Papa.

22. Já quando os gajos (três gatos pingados, segundo dizem) chegaram ao País do Sol Nascente [, Japão], por volta de 1543, os japoneses chamaram-lhe… os bárbaros do sul, porque comiam com as mãos e exprimiam os seus sentimentos em público; em contrapartida, uma fila de turistas japoneses a entrar para uma casa de fados, no Bairro Alto, é uma fila de toyotas.

23. O pobre do lusitano, dizem,  tem um complexo de inferioridade desde a ocupação romana (séc. III a.C.)… Os governadores (romanos) da Lusitânia, muito séculos antes da Troika, queixavam-se a Roma de que os lusitanos não se governavam nem se deixavam governar… Na Lusitânia, ”governar” é “meter a mão ao bolso”… Para um puro alemão, como a sra. Ângela Merckel, este trocadilho é ininteligível…

24. Para os franceses, da geração de 1950/60, as mulheres portuguesas já nasciam com bigode, eram todas Marias, peludas e feias, trabalhavam como "femmes de ménage" (mulheres a dias) ou "concierges"(porteira)  e vestiam de preto… Por isso, o tuga, em França, gostava de depedir-se à francesa, isto é, sair sem se despedir…

25. Em contrapartida, "les portugais sont toujours gais", leia-se: pobretes mas alegretes... E às ostras, os parisienses chama(va)m "les portugaises", as portuguesas... Uma tribo "gourmet", hã, estes  parisienses!... Em contrapartida, os portuguesas, que gostam das portuguesas, detestam "ostras"...e só comem "bacalao" ("morue") com batatas... Seco e salgado! (***)

26. Já a cozinha espanhola resune-se, para os vizinhos portugueses, às tapas, aos bocadilhos, às paelhas e às tortilhas... E já não é nada mau!...

27. A sífilis foi durante séculos uma doença terrível que atormentou os nossos soldados, marinheiros,. exploradores, navegadores, bandeirantes, missionários, comerciantes de além-mar...É, um pandemia pós-feudal, resultante do florescimento das cidades, da economia mercantil, da mobilidade espacial e sobretudo dos Descobrimentos, da primeira "autoestrada" da globalização aberta pelos portugueses: a sífilis conhecdia enter os médicos da época como o morbo gálico (gaulês ou francês) era conhecido como o mal italiano em França, o mal espanhol no Novo Mundo, o mal português  na Índia... E hoje o  ébola ? Será que é apenas um problema da África  negra,  subsariana ? Tal como o HIV/SIDA que, nas décadas de 1980/90,  era visto como um problema de saúde... dos homossexuais e, depois,  dos toxicodependentes...

28. Na lista das “10 palavras estrangeiras mais fixes ["coolest"] que a língua inglesa devia ter”, vem em nº 1 o vocábulo português “desenrascanço”.  O sítio é norte-americano e o artigo (de 13 de abril de 2009) tem quase 3 milhões de visualizações (**)...

“Desenrascanço" (sem cedilha...) seria a arte de encontrar a solução para um problema no último minuto, sem planeamento e sem meios... explica o "site": o exemplo mais próximo seria a célebre personagem da série  televisiva MacGyver.

É um traço da "cultura" portuguesa e terá sido a chave para o segredp da sua sobrevivência ao longo de séculos... “Enquanto a maioria dos norte-americanos  terão crescido  sob o lema dos escuteiros,  'sempre prontos', os portugueses fazem exactamente o contrário... Como eles gostam de dizer, est
ão-se "cagando" para os entrretanos, gostam é dos finalmentes...Em suma, há sempre uma solução de última hora para resolver um problema... Para quê estar a perder tempo com planos que saem furados?

Moral da história: O futuro ? Logo se vê... Viva a arte lusitana do desenrascanço!... Andamos a desenrascarmo-nos há mil anos!

29. E provérbios populares portugueses sobre os negros ? Há três ou quatro de que gosto muito: "Ainda que negros, gente somos e alma temos"; "Branco vem de Adão; e negro, não ?"; "Negro furtou, é ladrão; branco roubou, é barão";  "Os negros pintam os seus demónios de branco"... Recorde-se o cognome de Teixeira Pinto, "capitão diabo"...

30. O que fazer com tantas clichés idiotas ? E não se pode exterminá-los ? ... 

Recordo-me dos meus soldados fulas me dizerem, no TO da Guiné, na CCAÇ 12, em pleno chão fula (Badora): "Furié, um balanta a menos  é um turra a menos"... Sabemos como é que acaba o tribalismo, o fundamentalismo, o racismo,  e muitos os outros ismos!...

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Notas do editor

(*) Últino poste da série > 20 de setembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13630: Manuscrito(s) (Luís Graça) (38): Viagem no vinte e oito da Carris

(**) Clicar em: http://www.cracked.com/article_17251_the-10-coolest-foreign-words-english-language-needs.html

(***) Veja-se esta delícia... no sítio Cityzeum, um idiota de um sítio de "aconselhamento turístico"... Não me peçam para traduzir, que perdia a piada toda!... O "top ten" dos preconceitos sobre os portugueses e as portuguesas...

(,,,) Top 10 des préjugés sur les portugais

En voyage, on rencontre une multitude de nationalités, et chacune porte son lot de clichés, parfois justifiés... mais pas toujours. Retour sur les préjugés envers les portugais.

(i) Les portugais sont poilus... 

Côté Méditerranéen oblige, les portugais sont effectivement assez bruns et leurs poils se voient davantage. 

(ii) ...Et les portugaises encore plus !

Depuis des siècles, les portugaises endurent les pires blagues sur leur supposée pilosité abondante. Pourtant, ce n'est pas une généralité !

(iii) Les portugaises sont femmes de ménage ou concierges

La faute au cinéma qui a trop popularisé la femme de ménage Conchita ou la concierge Mme Martinez.

(iv) Les portugais sont plombiers ou maçons

Là aussi une idée reçue qui date des années 50, pendant lesquelles les immigrés portugais acceptaient les boulots les plus ingrats. Aujourd'hui, ce sont les polonais qui ont hérité de ce cliché !

(v) Ils ne mangent que de la morue

Et ça leur donne une haleine délicate et parfumée.

(vi) Les portugaises sont moches

Un cliché largement lié au fait que les portugaises soient réputées poilues. Pourtant, certaines portugaises sont de véritables bombes !

(vii) Les portugais sont petits

Les femmes sont laides et les hommes sont petits : aucun portugais n'est épargné par les stéréotypes ! Mais c'est vrai que les portugais sont généralement moins grands que, disons au hasard... les suédois !

(viii) Les portugais font tout frire

Forcément, la morue c'est tellement mauvais qu'il faut bien l'accommoder d'une manière mangeable : avec de l'huile !

(ix) Les portugais portent une moustache

C'est pour aller avec le look de plombier : salopette, casquette et moustache. Comment ça, on dirait Mario ?

(x) Les portugais parlent fort

C'est l'origine méditerranéenne qui veut ça : les portugais se croient obligés d'élever la voix à 250 décibels pour interpeller quelqu'un qui se trouve à deux mètres.

Guiné 63/74 - P13653: Pedaços de um tempo (António Eduardo Ferreira, ex-1.º Cabo Condutor Auto Rodas da CART 3493) (10): Quando a manta passou a servir de colchão

1. Em mensagem do dia 23 de Setembro de 2014, o nosso camarada António Eduardo Ferreira (ex-1.º Cabo Condutor Auto da CART 3493/BART 3873, Mansambo, Fá Mandinga e Bissau, 1972/74), enviou-nos mais um Pedaço do seu tempo.


PEDAÇOS DE UM TEMPO

10 - Quando a manta passou a servir de colchão

Quando fomos para Cobumba, foram-nos distribuídos colchões pneumáticos. Eram compostos por cinco partes, mais a almofada, cada uma autónoma no modo de conservar o ar e de serem cheias.

Passadas algumas semanas uma dessas partes do meu colchão esvaziou, por mais que soprasse para a encher, passados poucos minutos voltava a estar vazia.
Durante algum tempo lá fui dormindo mesmo assim, de esguelha, como os sonos eram sempre de tempo reduzido, tínhamos de fazer reforço todas as noites, e de vez enquanto ainda éramos acordados, ainda que estivéssemos sempre à espera… só nunca sabíamos a que horas, mas lá fui aguentando.

Passadas umas semanas mais uma parte deixou também de conservar o ar, então só tive uma solução que foi esvaziar as outras que ainda se mantinham boas e ficar só com a almofada, que se manteve cheia até ao fim da nossa permanência naquele local.

Saída do abrigo, local que servia de sala de refeições, tinha acabado de almoçar, a mesa foi construída pelo meu camarada condutor Cruz.

A partir dessa altura, a maior parte do tempo que lá estivemos, passei a dormir com uma manta dobrada a servir de colchão, nada agradável, a cama tinha sido feita por mim com tábuas que ia aproveitando de caixas que tinham servido para levar bacalhau e outras coisas, embora eu não tivesse grande jeito para carpinteiro, mas a necessidade a isso obrigou.
No início, ainda dormíamos no chão, com o chegar da época das chuvas, em abrigos subterrâneos em que a cobertura era feita de troncos de palmeiras cobertos de terra, a água começou a infiltrar-se fizemos uma cobertura de capim, cada um teve de desenrascar o melhor que pôde.

O tempo passou mas foi uma das muitas situações que não é fácil esquecer. Para quem estava privado de quase tudo que necessitava, naquele buraco de difícil acesso, a falta de colchão era apenas mais uma…

António Eduardo Ferreira
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Nota do editor

Último poste da série de 9 de Agosto de 2014 > Guiné 63/74 - P13479: Pedaços de um tempo (António Eduardo Ferreira) (9): Mesmo lá (tive sorte)

Guiné 63/74 - P13652: Notas de leitura (635): “Vamos", por Jacinto Lucas Pires (2) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 3 de Março de 2014:

Queridos amigos,
Este livro é uma apologia da resiliência, da tolerância, da vitória da vontade sobre a adversidade. Todos estes jovens conheceram o processo do desenraizamento, conheceram a pobreza e a exclusão.
A Gulbenkian, que já apostou no projeto das Orquestra Geração, fez opção estratégica com a Academia Ubuntu, com o alvo de formar líderes africanos de primeiríssima qualidade. Vieram de vários PALOP, alguns dos guineenses dão aqui testemunho.
O texto de Jacinto Lucas Pires é imaginativo, estes jovens cruzam-se nos labirintos dos bairros suburbanos, como não se conhecessem, isto quanto todos os seus sonhos se tocam. E a vertente fotográfica é esplendorosa.
Se tiver precisão de uma prenda para alguém que precise de uma injeção de otimismo e confiança na força de vontade, lembre-se de oferecer “Vamos”.

Um abraço no
Mário


Chegar ao começo e sonhar com o céu (2)

Beja Santos

A Academia Ubuntu, dinamizada pelo Instituto Padre António Vieira, e que recebe o apoiou da Fundação Calouste Gulbenkian, deu vida em 2010 a um projeto experimental de capacitação de jovens líderes descendentes de imigrantes, tendo como patronos Mandela, Tutu e Luther King. Subjacente a este projeto, estava o desenho de um inovador programa que procurava desenvolver competências e uma liderança ao serviço de outros. O escritor Jacinto Lucas Pires foi convidado para retratar as histórias por dentro das vidas dos que frequentaram a Academia Ubuntu, jovens que caminharam à beira do abismo mas que souberam ultrapassar a diversidade de obstáculos e até a desmotivação. Jacinto Lucas Pires montou histórias, jovens em atmosfera suburbana, por vezes em alta voltagem emocional, provenientes do rescaldo da descolonização ou de guerras subsequentes, ou vindos por anseio dos pais, à procura da concretização de sonhos. O que aqui se regista, como se compreenderá, são depoimentos de jovens guineenses.

“Os pais de Natália vieram da Guiné, de Bassarel. O pai veio nos finais da década de 80. Esteve em Algés a trabalhar. A mãe e três irmãos de Natália ficaram na Guiné. Vieram mais tarde, em 1991. O pai já a casa construída no Prior Velho, no Bairro da Quinta da Serra.
Natália nasceu logo a seguir, em 1992. O pai trabalhava na construção civil, a mãe numa empresa de limpezas. Os irmãos de Natália fizeram cá a escola. Na Guiné, o pai de Natália era professor. Natália tem três irmãos mais velhos e dois mais novos.
Para as irmãs, foi difícil, que chegaram cá com 15 e 13 anos e tiveram de ir para a primária. Mas o irmão, que só tinha dois anos quando veio, fez o percurso normal, da creche à faculdade; está agora a acabar o curso de Ortoprotesia, a fazer um estágio em Madrid. Gosta daquilo lá, mas tem passado algumas dificuldades. Quando estava à procura de casa, dizia que era português e as pessoas ficavam a pensar que ele era branco. Depois aparecia e – bem, tem passado algumas dificuldades.
Ele é mesmo grande, diz a Natália. Talvez isso assuste também”.

“Gerónimo nasceu no Senegal. A mãe, foi grávida, da Guiné para Dakar, e Gerónimo nasceu lá. São de etnia Manjaca – à letra manjaco significa digo-te”.

Quando saiu do Senegal, Gerónimo tinha o 5.º ano feito; foi para a Guiné continuar os estudos. Não conhecia o pai, que, entretanto, emigrara para Portugal. Durante muito tempo nem sabia que ele existia.
Na Guiné, em Canchungo, voltou atrás nos estudos, perdeu dois anos por causa da língua. No Senegal a escola era em francês, na Guiné era em Português. Em casa, com a mãe, Gerónimo falava Manjaco. E, no Senegal, na rua, fala-se principalmente uolofe.
Um dia Gerónimo fez uma asneira, a irmã vira-se para ele e diz-lhe: “Hás de ver, quando fores a casa do teu pai”…

Aí é que ele começa a pensar: “Afinal, este senhor que me está a educar não é o meu pai?”.

“Na escola Rui teve de repetir o 4.º ano. Depois a empresa do pai faliu, o contabilista matou-se e começaram os problemas de dinheiro. A família teve de se mudar da vivenda onde morava para um andar num prédio em Bolonha, na Póvoa de Santa Iria.
Por essa altura o pai do Rui começou a trabalhar com um amigo numa empresa de reciclagens e obras. Na Guiné a mãe de Rui era professora primária, em Portugal é cozinheira. Já esteve no Chimarrão, agora está na Santa Casa. O pai agora está no fundo. Quer dizer, está desempregado. Tem um projeto sobre o clima da Guiné, no Instituto de Meteorologia, mas não tem dinheiro para o montar”.

“Na Guiné os familiares de Gerónimo fizeram uma cerimónia para que ele voltasse para junto do pai. É um mito. É assim que eles chamam àquilo, o mito. Sacrificam um animal, nesse caso foi um porco. A família da mãe e a família do pai juntam-se comem juntos dizem algumas palavras, desejando que o filho vá para junto do pai e pedindo felicidade para toda a gente. Não há palavras obrigatórias, cada um expressa o seu desejo.
Passadas umas semanas, Gerónimo foi para casa do pai, em Canchungo, numa tabanca Beniche. Mas o pai não estava lá. Só lá estava um tio e os seus seis filhos. Gerónimo fica aí a viver, faz aí o 3.º e o 4.º anos. No 5.º ano, vai para liceu no centro de Canchungo; onde estuda até ao 8.º. Quando passa para o 9.º, em 2005, o pai, que entretanto conseguira a nacionalidade portuguesa, trá-lo para Portugal.
Agora Gerónimo vive nas barracas, no Bairro da Quinta da Serra. Vive com o tio e cinco primos. O pai está no Luxemburgo desde 2007. Ficou desempregado e foi para lá à procura de trabalho. Tem trabalhado na construção civil, é pintor.
Como se tudo já não fosse suficientemente difícil, a câmara agora quer despejá-los da casa onde vivem na Quinta da Serra. Dizem que o pai de Gerónimo perdeu o direito de realojamento por não estar cá. Eles recorreram, explicando que ele não está cá mas aquela continua a ser a residência familiar. A ver qual será a resposta.
A mãe de Gerónimo vive no Senegal. Gerónimo veio para Portugal em 2005 e nunca mais voltou lá. Tem saudades. Da família, dos amigos de infância, coisa imperdível, inesquecível. E, claro, de Juvêncio, o filho que teve aos 17 anos e que agora está à guarda da mãe.
Não conhece alguns dos irmãos. Nasceram depois de ele ter nascido do Senegal. Falam ao telefone, eles perguntam-lhe quando é que o Gerónimo vai ter com eles.
Mas mantém um contacto muito forte com a mãe. Falam sempre, muito. Ela é analfabeta, falam só pelo telefone.
O Manjaco é uma língua oral (Uma vez Gerónimo viu o tio escrever Manjaco para falar com um amigo pela internet. Escrevia com as regras do português, a partir do som das palavras em Manjaco. Talvez funcione assim”.

"Gerónimo pensa em Manjaco e sonha em Manjaco. Um Manjaco é a língua dos seus sonhos.
Na Guiné, martelam o português. Aprendem só nas aulas, não praticam cá fora, e a triste verdade é que a maior parte dos professores não tem formação. Alguns acabam o secundário e começam a dar aulas. Há quem ensine português sem saber falar bem português (…) Na Guiné os professores faziam desafios entre os alunos. Chamavam um aluno ao quadro e depois esse aluno chamava outro para o desafio. Colocavam questões um ao outro e quem não respondia levava palmadas. Uma vez Gerónimo chamou uma prima e ela não sabia a resposta. Quando foi para dar a palmada, ele deu-lhe um toque muito mansinho. O professor percebeu, tirou o chicote e bateu nele com força para mostrar como é que se dava. Gerónimo conta isso com o sorriso mais aberto que se possa imaginar”.

As histórias multiplicam-se: quando veio para Portugal, Braima pensava em crioulo, só conheceu o pai aos 12 anos, as grandes figuras de Braima são mulheres; o pai de Edson está na Guiné, é professor na Universidade Lusófona, está separado da mãe de Edson desde os dois anos do filho, Edson jogou futsal no Clube Académico de Odivelas, depois passou para o futebol de onze…

Estes heróis do quotidiano sabem que têm que imaginar o seu céu, começam e recomeçam, têm várias identidades, este curso de liderança parte de valores africanos. Primeiro que tudo, aprende-se com Nelson Mandela a perdoar. Há quem se prepare para voltar. Será o caso de Braima, não se vê como um estrangeirado mas sente que tem mais a dar indo para a Guiné do que ficando em Portugal. Tem muitas saudades, pensa no seu lugar, na sua casa, pensa em Bolama. E de acordo com a sua cultura, desabafa para quem o ouve: “Nós somos onde o nosso umbigo foi enterrado”.

“Vamos” com texto de Jacinto Lucas Pires e fotografia de Tiago da Cunha Ferreira, Edições Gulbenkian, 2011, é a história de um projeto inspirador onde jovens desenrizados, vivendo por vezes em território de conflito, aprendem liderança, fazem-se dinamizadores, empreendedores, técnicos de gabarito. Para quem olha África como um continente à deriva, este livro é uma enorme promessa.


Os afetos e a identidade são para respeitar e cultivar
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Nota do editor

Último poste da série de 22 de Setembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13635: Notas de leitura (634): “Vamos", por Jacinto Lucas Pires (1) (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P13651: Parabéns a você (791): António Medina, ex-Fur Mil da CART 527 (Guiné, 1963/65)

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Nota do editor

Último poste da série de 23 de Setembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13640: Parabéns a você (790): Tony Borié, ex-1.º Cabo Op Cripto do CMD AGR 16 (Guiné, 1964/66)

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Guiné 53/74 - P13650: In Memoriam (195): Cap art Manuel Carlos da Conceição Guimarães (1938-1967), morto na estrada Geba-Banjara, região de Bafatá... As suas irmãs, Teresa e Ana descobrem agora, emocionadas, as referências sobre ele no nosso blogue e encontraram-se há dias, em Lisboa, com o A. Marques Lopes, seu amigo e companheiro de infortúnio



Guiné > Zona Leste > Geba > CART 1690 > 1967 > O Cap Art Manuel Carlos da Conceição Guimarães, então com 29 anos. Foi um dos 24 capitães mortos no TO da Guiné (*)



Guiné > Zona Leste > Geba > CART 1690 > 1967 > O Alf Mil A. Marques Lopes e o Cap Art Manuel Carlos da Conceição Guimarães.

Fotos: © A. Marques Lopes (2007). Todos os direitos reservados. [Edução: LG]

1. Texto do amigo e camarada, grã-tabanqueiro da primeira hora, A. Marques Lopes, coronel inf  (DFA) na situação de reforma, ex-alferes miliciano da CART 1690 (Geba, 1967) e da CCAÇ 3 (Barro, 1968) :


Saber tudo sobre a morte que fora apenas comunicada

por A. Marques Lopes

Creio que foi o marido da Teresa quem lhe disse, um dia, que até podia ser fácil saber referências sobre alguém. Bastava escrever o nome num motor de busca e, se ele estivesse na rede, era mais que certo aparecer o que lá houvesse sobre essa pessoa.

Ai é?... Então, deixa ver. Lembrou-se de escrever o nome do irmão, morto na Guiné: Manuel Carlos da Conceição Guimarães (**). Saltou-lhe o coração de espanto e emoção. Viu a fotografia dele num blogue chamado “Luís Graça & Camaradas da Guiné" (**). Depois de 47 anos estava ali, tal como se lembrava dele:


E o bom do Luís Graça escreveu-me:

«Vê este mail da irmã do teu antigo comandante e, se assim o entenderes, responde-lhe. Dá-nos depois "feedback". Um abração., Luis»

Tá bem. Entrei em contacto com a Teresa e disse-lhe que teria de ir a Lisboa e logo lhe diria quando, para nos encontrarmos. Trocámos alguns mails, entretanto.

Disse-me ela num deles:

«As marcas para todos os que estiveram nessa maldita guerra são com certeza imensas. A flor da nossa juventude despedaçada pela loucura de um velho fascista…. São factos que devem pesar diariamente na memória e nos pesadelos de quem por lá andou. A mim fez-me perder um irmão que eu adorava, que era o meu ídolo e que me deixou como que desamparada. Eu tinha 12 anos, não consegui ir ao funeral dele. Tenho na memória muita coisa que foi dita entre dentes, pois os meus pais tentaram preservar “as meninas” de pormenores que não eram para os nossos ouvidos. A minha mãe ficou de cama quase um ano, numa apatia que só quem passa por elas consegue perceber. Nunca mais a vi usar uma roupa colorida… Carrego na minha memória esses dias que ficaram marcados para sempre.»

E eu num dos meus:

«Durante vários anos, após aquilo, vinha-me à ideia, às vezes, que devia falar com as irmãs do capitão Guimarães. Era a necessidade subconsciente de estar com alguém muito próximo do amigo perdido. Mas acabava por esquecer, porque não tinha contactos. Era a desculpa para o receio de não saber contar o que não queria contar. Uma vez, até, tentei o contacto que sabia que podia ter: fui ao Hotel Tivoli e pedi para falar com a vossa tia Beatriz Costa. Não disse quem era nem para que era (as dúvidas do passo dado) e responderam-me pouco depois que ela estava indisponível, sem me dizerem porquê. Confesso que fiquei aliviado e não tentei mais. E também pensei neste nosso encontro agora programado. Já uma filha de um soldado lá morto me procurou, via internet. Também lhe mandei fotografias que tinha do pai e até lhe contei resumidamente por mail como ele tinha morrido. E ficámos por aí. Mas agora, com vocês, não ia ser assim. Para um encontro tão directo vieram-me novamente as dúvidas e os receios de entrar em pormenores, de dizer coisas que muita gente não entende ou não aceita, de criar inimizades em vez de aproximação. Interroguei-me se seria bom ir ao Hotel Real.»

Mas fui. No dia 22 à tarde, segunda-feira passada, e apesar das inundações, estive em Lisboa com a Teresa e a Ana, irmãs do capitão Guimarães, no Hotel Real, onde combináramos encontrar-nos.

Contei-lhes tudo em pormenor: como ele morreu, a estúpida quadrícula de 1.600 km2 na mata do Oio, também culpada pela morte dele. Contaram-me das boas lembranças e amor que mantinham pelo irmão: a Ana, que tinha 9 anos, lembrava-se de ele a enxotar quando ele estava ao telefone com uma namorada e ela encostada às pernas dele; a Teresa, com 12 anos, ficava encantada quando a levava no carro dele para passear; quando ele metia as mãos nos bolsos e lhes distribuía as moedas que lá tinha ficavam maravilhadas. Mais velho, oficial com um carreira, um carro, e amigo de ambas, era mesmo o seu ídolo.

Foi uma longa e boa conversa. Ficámos amigos.

A. Marques Lopes

2. Comentário de L.G.

Obrigado, António, pelo teu "feedback"... É um texto muito bonito, que só podia ter a tua assinatura... Fico feliz pelo teu encontro com a Teresa e a Ana, irmãs do nosso malogrado camarada. Tu e o nosso blogue acabamos por cumprir uma missão importante, a de relembrar os nossos mortos, dignificar a sua memória e ajudar a fazer os lutos (em muitos casos ainda "patológicos")... Daí este a razão de ser deste "In memoriam" (***)  e a constação da utilidade (social) do nosso blogue que tu ajudaste a nascer e a desenvolver...

È bom lembrar aos recém chegados à Tabanca Grande (e somos já 668!) que o A.Marques foi um dos mais ativos e produtivos camaradas na I Série do nosso blogue (de 23 de abril de 2004 a31 de maio de 2006). Por ordem de publicação de psotes, é ele, se não erro, o tertuliano nº 4, depois de mim, do Sousa de Castro, do Humberto Reis, seguido em nº 5 pelo David Guimarães.

Publico a seguir a mensagem que a Teresa me mandou e a que tu respondeste de maneira magnânina e solidária. As nossas melhores saudações para a família do  infortunado cap art Manuel Guimarães, que foi teu comandante operacional, amigo e camarada. Fico feliz, por te reencontrar, também, nas nossas lides bloguísticas, já que nos últimos tempos tens arrededado, avalliar até pelo teu próprio blogue, Coisas da Guiné. Um abraço fraterno. (LG).

3. Mensagem de Teresa Guimarães, com data de 2 do corrente:

Muito boa tarde

Percorrendo a internet vim parar ao seu blogue onde me apareceu um artigo escrito por A.Marques Lopes, sobre o meu irmão Capitão Manuel Carlos Guimarães.

Gostaria de entrar em contacto com esse senhor pois ele presenciou a morte do meu irmão na Guiné, mas o e-mail que ele indica no blog está desativado.

Será que me podia fornecer um contacto, pois como pode calcular gostaria muito de falar com ele, se fosse possível.

Obrigada e mais uma vez as minhas desculpas pelo incómodo

Teresa Guimarães


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Notas do editor:


(...) Terão morrido 24 capitães no TO da Guiné durante a guerra colonial (1963/74). Excluindo um capitão de 2ª linha e um outro, de quem faltam elementos de identificação, sabemos que desses 22, dezassete eram comandantes de companhias operacionais - 11 do quadro e 6 milicianos. Dez, todos comandantes de companhias operacionais, morreram em combate, sendo 9 do quadro e 1 miliciano. (LG) (...)

(...) Eles morreram mesmo e ficaram longe do convívio dos seus familiares e amigos. Mas ficou a lembrança e, como este caso que vos trago, a pena do estúpida situação da sua morte (...).

O capitão Manuel Carlos da Conceição Guimarães era do quadro de Artilharia. Nas circunstâncias do regime, tinha estado como tenente na esquadra da PSP do Calvário, em Lisboa, depois de ter feito parte da Companhia de Polícia Móvel que esteve em Bissau.

Nesses contextos da juventude formou a sua mentalidade. Rigidez ideológica, fidelidade cega aos desígnios dos mandantes da guerra, alheamento total dos problemas, sentimentos e ambições das populações no terreno. Completa incompreensão das razões da guerra, nem desejo algum de as tentar compreender. Muitos houve assim naquela fase (1967). Ao longo do tempo de guerra muitos foram dando, e penso que ele também teria mudado.

Mas eu fui amigo dele e acompanhei-o desde o princípio, fui o seu braço direito. Tive a incompreensão dos outros alferes, meus amigos de coração actualmente (..:).

O Guimarães foi promovido a capitão e mobilizado para a Guiné. Conhecêmo-lo em 4 de Dezembro de 1966, no RAL1, aquando da formação da companhia (CART 1690) e durante a instrução da especialidae no GACA2, em Torres Novas (de 6 de Dezembro de 1966 a 23 de Fevereiro de 1967).

Lembro-me bem que partíamos os dois, aos fins-de-semana, no Alfa Romeo Sprint Special dele até Lisboa. Loucuras, sem auto-estrada! Grandes noites na Cave, D. Quixote, Comodoro... A experiência dele na polícia abria todas as portas (as raparigas abraçavam efusivamente o Carlinhos).

Nas vésperas de embarcarmos no Ana Mafalda  (...) , fomos todos ao Comodoro. Um homem, já velho, que conhecíamos por ser frequentador, administrador de um banco qualquer (não me lembro), e que costumava jogar ao par ou ímpar com as raparigas (mostrava uma nota de mil e perguntava qual era o número - par ou ímpar? -, se uma dela adivinhava entregava-lhe a nota... e muitos jogos fazia), disse-nos assim: - Vocês vão para a guerra, para se portarem bem peguem lá - deu-nos várias notas de mil - e vão com estas cinco. - E fomos (alferes e capitão) e foi uma noitada. Era assim, a guerra estava paga.

Era bom homem, o Cap Guimarães. Filho de um Sargento-Ajudante, sobrinho da Beatriz Costa (estive com ele, depois, e chorou a sua morte), morreu aos 29 anos na estrada de Geba para Banjara, a 21 de Agosto de 1967 (3). Lamentou-se-me o pai, que me visitou, estava eu ferido no hospital, que o filho (solteiro) era o sustento de duas irmãs (...)  que andavam a estudar, e que a vida dele estava complicada. (...)

Vd. também  I Série > 5 de junho de 2005 > Guiné 69/71 - XLVI: Em memória dos bravos de Geba... Texto de A. Marques Lopes, ex-alferes miliciano da CART 1690 (Geba, 1967)...

(...) Era uma zona muito propícia a azares (...) . Também me calhou a mim (não era mais que os outros, claro, apesar de ter estado 24 horas no campo do inimigo... "teve de ser assim", como disse o Comandante Gazela). Um dia, quando ia no caminho de Geba para Banjara, fui ferido (e sortudo, mais uma vez), assim como o soldado Lamine Turé, do meu grupo de combate ; na mesma altura morreu o comandante da CART 1690, que quis ir comigo nessa viagem, o capitão Manuel C.C. Guimarães (tinha 29 anos, era filho de um sargento-ajudante e sobrinho da Beatriz Costa), e morreu o soldado Domingos Gomes, também do meu grupo de combate.

Levei o corpo do capitão, porque me pareceu que estava ainda vivo, e o Lamine, directamente para Bafatá... porque em Geba não havia médico, vejam lá! Não levei o do Domingos Gomes, porque ficou aos bocados, não deu tempo nem tive condições para os recuperar. De Bafatá fui evacuado para o HM241 [em Bissau], primeiro, e para o Hospital Militar Principal,[em Lisboa], passada uma semana.  (...)


(***) Último poste da série > 19 de setembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13626: In Memoriam (194): João Dias Garcia (1950-2014), ex-1.º Cabo Mec Auto da CCAÇ 19, falecido no passado dia 11 de Setembro de 2014, no Hospital de Leiria (José Manuel Pechorro)

Guiné 63/74 - P13649: Os nossos seres, saberes e lazeres (74): Viagem à China, num programa da Fundação Oriente: o "bando dos guatro", eu, o António Graça de Abreu, o António Pimentel e o Egídio Lopes, o "Brutus"... E onde se comprovou, mais uma vez, que o Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande (Fernando Gouveia)



Egídio Lopes, António Graça de Abreu, António Pimentel e eu próprio antes do primeiro almoço em terras do dragão.



1. Relembrando a mensagem do nosso camarada Fernando Gouveia (ex-Alf Mil Rec Inf, Bafatá, 1968/70) com data de 21 de Setembro de 2014:

Carlos:


Com vista a satisfazer a voragem do blogue, qual dragão chinês, aí mando este duplo trabalho, da apresentação de um novo tabanqueiro, o Egídio Lopes, e duma viagem à China a qual está interligada com a apresentação do Egídio.

Dado o seu grande tamanho, em termos de fotos, faz a publicação como entenderes.

Com um grande abraço.
Fernando Gouveia


VIAGEM À CHINA

Vai daí, logo no início do “périplo”, em Hong kong, nós três, já conhecidos da Tabanca Grande, demos de caras com o Egídio Lopes(*) quando estávamos a caminho do primeiro almoço em terras do dragão.

Almoço que se ia realizar num grande e típico barco fundeado entre a parte continental e a ilha de Hong Kong. Logo aí tiramos a primeira “foto de família”, com o dragão como protecção.

Este encontro não foi bem por acaso. Deveu-se em grande medida ao facto de o António Graça de Abreu ser o “guia cultural” da viagem promovida pela Fundação Oriente. Era sabido à partida que havia a garantia de estarmos, por ventura, ao lado do português com maior conhecimento de toda a China ou, não tivesse vivido na China largos anos e fosse autor, entre outros, do livro “Toda a China” em dois volumes.


Muito de passagem, direi que Hong Kong constituiu, para mim, uma grande surpresa. Não é só aquele aglomerado de arranha-céus bem conhecido. Ao contrário de Macau, segunda etapa da nossa viagem, que se restringe à cidade, Hong Kong tem bastante território continental o que torna possível observar a cidade de cima de vários morros, não deixando de fazer lembrar a “cidade maravilhosa” do Rio de Janeiro.


Hong Kong vista de um dos morros … e o Pimentel.

Com Macau passou-se o mesmo. Embora mais densamente urbanizada dada a sua pequenez territorial, também a achei uma cidade mais interessante do que imaginava. Com vista ao aumento do território, as ilhas de Taipa e Coloane foram unidas formando uma só, pois aterraram o canal entre as duas ilhas. Aí se situa o maior casino do mundo, o Venetian. Do complexo desse casino fazem parte, o maior hotel de suites do mundo e também um grande centro comercial recriando os canais de Veneza. Será de realçar que nas amplas e aparentes zonas ao ar livre, o céu observável é artificial, tendo-se uma certa dificuldade em distinguir a diferença.

Quanto à presença portuguesa apenas foram observadas algumas pedras: As de algumas ruas com “calçada portuguesa”, o Leal Senado e as ruínas de S. Paulo, onde tiramos a segunda fotografia de família.


Os quatro nas ruínas de S. Paulo.

A terceira etapa começou com a ida de autocarro para o aeroporto de Guangzhou (Cantão) para tomarmos o avião com destino a Guilin.

A zona de Guilin, nas margens do rio Li é, em termos paisagísticos, das mais interessantes da china. Morros fantasmagóricos aparecem por centenas de quilómetros em redor e que tivemos o privilégio de os observar durante um cruzeiro que fizemos ao longo do rio Li. As zonas planas e alagadiças nos intervalos dos morros são na sua maioria para o cultivo do arroz.

Resultado das recentes políticas de liberalização da economia, este cultivo foi de tal modo incrementado que esta região de Guilin abastece de arroz toda a China e grande parte dos países de todo o mundo.


Durante o cruzeiro no rio Li.

Se na “nossa” Guiné havia, ou há, cerca de trinta etnias, na China há cerca de cem. Se na Guiné, como é sabido, cada etnia, ou pelo menos grupos de etnias têm línguas diferentes e as que têm escrita será também diferente, na China essas quase cem etnias a falar não se entendem, porém, salvo as devidas excepções, a escrita é comum a todas elas. Um tanto ou quanto por força dos dirigentes houve uma uniformização dos ideogramas acontecendo que cada carácter chinês significa o mesmo para a maior parte dessas etnias.
Também eu, depois de muito treinar como se dizia em mandarim “olá”, em nenhuma loja de chineses, cá em Portugal, me entenderam, quando os saudava com o correspondente “niau”, “ni au”ou “nihau”.

Acabavam por dizer à maneira deles um “niau” que para mim era o que eu tinha dito… Seria, ou porque não falavam mandarim e provavelmente cantonês ou qualquer outra língua de uma diversa etnia. As diferentes palavras, escritas da mesma forma, ditas, têm várias nuances, ininteligíveis de etnia para etnia.

Positivamente deixei de tentar dizer fosse o que fosse pois nunca me entenderiam. Tive porém o prazer, uma certa felicidade, de entender um chinês que à saída de um restaurante respondendo à sua mulher disse: “Usse”. Tinha estado a chover e a sua mulher ter-lhe-ia perguntado se ainda chovia e como tinha parado de chover ele, olhando para o céu, respondeu “não”.

Toda esta dificuldade de entendimento não terá razões gramaticais. Do pouco que estudei sobre a língua chinesa achei a sua gramática muito simples. Tal como na Guiné, e puxando a brasa à minha sardinha, para se escrever, em crioulo, “Encontros e Desencontros”, utiliza-se uma mesma palavra, Kontra precedida, primeiro, da partícula Na (de afirmação), e depois da partícula Ka (de negação), portanto, “Na Kontra Ka Kontra”.

Para não ir muito longe direi que no chinês os verbos só têm a forma do infinito e duas partículas, uma para indicar passado e outra para indicar futuro. Quer pela dificuldade de pronúncia e da escrita considero o chinês intragável. Coitadas das criancinhas que, pelo menos terão que decorar cerca de dois mil caracteres dos mais de oito mil que existem.


O “bando dos quatro” no átrio do hotel de Guilin com uma “bajuda” da etnia minuritária “miao”.


De Guilin seguimos de avião para Hangzhou a cerca de 250km de Xangai, uma cidade com cerca de oito milhões de habitantes com imensos parques e um lago, o Lago Oeste que, com as suas margens, foi declarado Património Mundial. As suas margens, ao longo de muitos quilómetros, têm os mais diversos motivos de interesse, principalmente pela manhã, vendo-se grupos a dançar, a tocar, a passear os “filhos únicos” de que falarei mais à frente a jogar variadíssimos jogos.

Cabe aqui e desde já referir que, quer aqui e em todos os locais onde estivemos, é impensável ver qualquer “lixinho” no chão. Da mesma forma as bermas das estradas estão rigorosamente limpas. Sob esse aspecto a China mais uma vez me surpreendeu.

De Hangzhou fomos de autocarro para Xangai, parando em Zhujiajiao, povoação lacustre, com vários canais e pequenas pontes com mais de mil e setecentos anos de história e com certas semelhanças a Veneza.


Numa “gôndola” local, o “Brutus” já rendido ao proletariado.

Chegados a Xangai e instalados no hotel ainda percorremos ao lusco-fusco uma rua pedonal larguíssima, com cerca de quilómetro e meio, coalhada de gente, para ir ver a zona de arranha-céus, Pudong, que caracteriza a cidade e que fica na margem direita do “pequeno” rio afluente do Yangtze, aliás onde existe uma das pontes maiores do mundo.


A rua pedonal.


Pudong, do outro lado do rio Huangpu, visto de Puxi. À direita o segundo edifício mais alto do mundo.

No outro dia fomos mesmo a Pudong ver de perto todos aqueles arranha-céus, mas nessa altura o que me prendeu a atenção foi a problemática do “filho único”, tirando imensas fotografias.

Como é sabido aqui há uns anos, na China, foi imposta a lei do “filho único”. Recentemente o governo arrepiou caminho e liberalizou a questão permitindo que cada casal possa ter dois filhos e parece que até um terceiro se o segundo for menina dada a sua “escassez”.

A história da alta natalidade dos muçulmanos e os problemas que estes lhes têm causado também deve ter contribuído para essa tomada de posição.

Acrescentarei duas coisas: Primeiro, neste momento os casais chineses nem um filho querem ter; Segundo, os filhos únicos aparentemente têm todos eles um ar altamente mimado, ao ponto de na TV local passar um anúncio sobre um qualquer produto em que um “filho único” fazia mil e uma condenáveis tropelias numa habitação. Já se imaginou que os filhos dos “filhos únicos” não vão ter primos? E o possível agravamento do narcisismo quando adolescentes e adultos?






Alguns “filhos únicos”. Apesar de lindos, a situação não deixa de ser constrangedora.

Em Xangai visitamos o essencial, o seu museu, considerado o melhor da China e a parte antiga onde, entre muitos outros edifícios do século XIX, apreciamos o edifício mais alto, com quatro pisos, dos fins desse século. Aqui o entusiasmo era grande e não evitamos tirar outra foto de família. Visitámos vários templos budistas e taoistas sempre com edifícios profusamente decorados.


Novamente o “bando dos quatro” na Xangai antiga.

A última etapa desta maravilhosa viagem seria Pequim. A Grande Muralha esperava por nós, bem como a Cidade Proibida.

A Grande Muralha, pelo facto de só ter acesso ao público pequenos troços, constituiu, pelo menos para mim uma decepção, pois contava percorrer uma maior extensão. O que muita gente desconhecerá é que pela mesma altura foi feita uma obra que em grandeza e importância não fica atrás da Grande Muralha. Trata-se de um canal, com cerca de 1800 km, entre Pequim e perto de Hangzhou a sul de Xangai, mandado construir no ano de 605. Uma autêntica auto-estrada fluvial para transporte de todas as mercadorias.

A emoção que não senti na Muralha, viria a senti-la na Praça Tiananmen. Talvez não fosse pela sua grandiosidade mas tão só pelas conotações políticas: O retrato do Mao pendurado por cima da porta principal da Cidade Proibida, a grande avenida, com mais de 40km, que passa entre a grande praça e a entrada da Cidade Proibida onde foi protagonizada a cena dum chinês a enfrentar um tanque, muito contribuíram para esse sentimento.


O “bando dos quatro” já dentro da Cidade Proibida, notando-se uma certa “paz celestial”.

A Cidade Proibida, de dimensões a condizer com o tamanho da própria China, é constituída por uma enorme quantidade de pátios que separam as diversas dependências da Cidade Proibida que por si constituem autênticos palácios. O principal para o imperador, outros para os príncipes, para as concubinas, para os eunucos, diversos servidores, guardas e por aí fora.

Ao longo das estradas que percorremos pudemos apreciar a preservação das florestas de bambus e outras sem esquecer, no entanto, que a China é o maior importador mundial de madeira e como é sabido a Guiné-Bissau tem sido espoliada, pelos chineses, desse recurso natural.

Em todos os pontos turísticos observavam-se autênticas multidões. Eram turistas, porém chineses e na maioria da província. Vinham como nós acompanhados com guias. Muitos olhavam para nós como se nunca tivessem visto um ocidental. Um miúdo chegou a chamar a atenção dos pais apontando para os seus olhos querendo dizer que eram diferentes dos nossos. Várias vezes, principalmente os miúdos, nos pediram para tirar fotografias com eles, sendo o Pimentel o mais pretendido…

Em conclusão direi que a China, em todos os aspectos se revelou uma surpresa. Do comunismo nada se viu, antes pelo contrário. Neste momento, dada a abertura da economia, qualquer chinês pode criar uma empresa, ganhando o que quiser. Além de inúmeros prédios de arquitectura vanguardista, viram-se mansões de gente endinheirada como é difícil ver noutros países. Também qualquer estrangeiro pode montar qualquer negócio desde que associado a um chinês maioritário. A ideia com que se ficou foi de um país muito desenvolvido, amante da natureza e da limpeza, porém cumpridor das leis em excesso.

Como já referi nas avenidas processava-se um trânsito infernal de carros de alta cilindrada a par de algumas bicicletas a pedal e milhares, ou milhões, de motorizadas porém todas, mas mesmo todas, eléctricas. Ruído zero.


A natureza no nosso hotel em Pequim.




Exemplos de prédios vanguardistas em Pequim. O Cubo de água e o ninho de pássaro (dos Jogos Olímpicos), o edifício da televisão do Arq. Rem Koolhaas e outro da Arqa. iraquiana Zaha Hadid.

Fotos, texto e legendas ©: Fernando Gouveia (2014).  Todos os direitos reservados

Um grande abraço a todos.

Fernando Gouveia
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Nota do editor

Último poste da série de 28 de Agosto de 2014 > Guiné 63/74 - P13540: Os nossos seres, saberes e lazeres (73): Há festa na Tabanca de Candoz, com o grupo de bombos de Santa Eulália, Ariz, Marco de Canaveses...