terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Guiné 63/74 - P14073: Facebook...ando (37): Cartão de Boas Festas (Maria Alice Carneiro)

CARTÃO DE BOAS FESTAS DA NOSSA AMIGA GRÃ-TABANQUEIRA 
MARIA ALICE CARNEIRO



Queridos(as) amigos(as):

Venham morar para a rua 
que faz esquina com a esperança,
neste natal e ano novo que aí vem….

Como os tempos mudaram!
Agora já não mandamos mais cartões de boas festas pelo correio.
Eu ainda sou do tempo…
dos cartões de boas festas,
dos carteiros a pé
cuja silhueta ao longe
fazia estremecer o coração de ansiedade e de alegria;
eu ainda sou do tempo…
do caderno de duas linhas para treinar a caligrafia,
da missa do galo,
do par de meias no sapatinho,
do café de chicória que se bebia no dia de natal,
do “nós por cá todos bem” das áfricas perdidas,
dos soldados, meus irmãos, na guerra,
das janeiras cantadas de porta em porta em noites de nevão,
do vinho fino e das rabanadas,
da mesa farta nos dias santos e festas da aldeia,
do Portugal do Minho a Timor,
das mulheres que vestiam de preto,
do candeeiro a petróleo…

Sobretudo ainda sou do tempo da esperança…
claro, tínhamos 20 anos 
e o “mundo á nossa frente”…

Que aconteceu ? 
Mudamos ou moldaram-nos ?
Mudamos e fomos moldados,
somos mais livres, materialmente falando,
e, por algum tempo, mais iguais,
quiçá até mais gregários e solidários…

Mas eu não sei como vão ser os nossos netos e bisnetos
que nasceram na galáxia da internet
e cujos filhos já serão produto do génio da genética…
Não nos resta muito tempo
para repor a ordem natural das coisas
e aliviar o planeta do sufoco,
não temos muito tempo
para emendar erros,
castigar crimes,
nem que seja a título simbólico,
aprender com as asneiras,
voltar a aprender…

Neste natal e ano novo que aí vem,
apetece-me ser um simples ser humano,
com direito a sonhar,
e a sonhar com um mundo mais maneirinho,
respirável…
Bolas, como eu não respiro há muito,
como eu preciso de ar fresco,
como quero que me tirem o papel de cenário
que me puseram à frente dos olhos como uma venda…

Meus amigos, minhas amigas,
ainda há filhos da mãe, parafraseando o Zeca Afonso,
que se recusam a tirar a venda dos olhos
e que continuam a ouvir o discurso dos sacanas
que pensam que mandam neste mundo.

Neste natal e ano novo que aí vem,
eu decreto que a minha rua
vai passar a chamar-se
a rua que faz esquina com a esperança.
E quero que vocês se mudem para lá,
nem que seja por um simples ato de magia...
Não, recuso-me a ir ao enterro
da esperança
que, no meu tempo, era a última coisa a morrer.

Abraço, beijinhos, xicorações, carícias
22 de dezembro de 2014
____________

Nota do editor

Último poste da série de 24 de novembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13936. Facebook...ando (36): Joaquim Vidigueira Ferreira, natural de Santarém, técnico oficial de contas (TOC), ex-fur mil, CCAÇ 1498 / BCAÇ 1876 (Có, Jolmete, Bula, Binar, Ponate e Bissau, 1966/67)

6 comentários:

Campelo de Sousa disse...

Mas que bela mensagen de Natal eu aqui vim encontrar ! Parabéns á sua autora que deixa aqui gravado o seu desapontamento e nas entrelinhas foi levantando o véu da sua revolta !
Tambem eu sinto uma tremenda saudade dos postais de boas festas que todos os anos chegavam pelo correio ! Este ano fiz uma jura ! não vou perder tempo a mandar postaisinhos de natal para ninguem, porque já ninguem retribui, até chego a pensar se os envelopes são abertos ou se vão logo parar ao balde do lixo !
Como tudo mudou ! os novos já pertensem a outra sociedade, e nós somos os responsaveis por esta desumanização que se criou ao sabor da internete.
Um muito Feliz Natal cheio de paz e amor.
Campelo de Sousa

Anónimo disse...



Maria Alice:

Apareceste-me de surpresa, com flores e com versos e fiquei encantado. Mas para ficar encantado bastava esse teu sorriso de gaiata. Se bem que as flores enriquecem a tua pose e o poema tão primaveril neste tempo frio, dá tanto calor à nossa alma como frescura ao teu retrato.
Muito obrigado minha amiga, fico-te muito grato por ter encontrado uma jovem, tão jovem, do meu tempo no nosso bloque, pelo teu sorriso, pelas flores e pelo poema tão lindo, tão lindo como ...
Um beijo e um Bom Natal pra ti e para toda a tua familia.

Desculpa esta liberdade poética, embora em prosa

Francisco Baptista

A. Murta disse...

Tão bonito, Maria Alice!
E como eu subscreveria tudo! Porque tudo o que escreveu tem a ver comigo, tem a ver com a maioria dos portugueses...
(Ia tocar na questão da revolta, pela nossa condição de bonequinhos dóceis, mas é melhor não).

Muitas felicidades.
Boas Festas para si e para toda a Família.

António Murta.

Torcato Mendonca disse...

Gostei muito Maria Alice,

Levei muito tempo lendo, revendo-me nas frases escritas, no conteúdo e deixando-me assaltar por recordações de passado, para mim, já em horisntes e geografias distantes...gostei do que li e por um tempo sonhei...ainda sonho e acredito que não desapareço seem ver filhos e netos ,meus e de outros a rirem felizes, a sentirem alegria na liberdade,igaldadade (direito a viver dignamente) e fraternidade...ah,ah, estamos em tempo de natal...pois que seja hoje amanhã ou quando a gente boa e decente assim o entender...caimos fundo, muito fundo num buraco de desesperança. Eu creio, eu acredito, eu estou pronto para, em simples acção de cidadania expulsar estes males...
Não sei o que escrevi, o que teclei mas sei e acredito que, como um dia sonhei que todos teriamos o direito á cidadania plena...

Boas festas, saúde e tudo de Bom para si e para os seus, T.

José Botelho Colaço disse...

Permite-me subscrever o teu cartão mas se a D. Alice é desse tempo o que direi eu?!
Um beiji. e abraços para todos os outros.

Valdemar Silva disse...

Belo poema Maria Alice.
Eu que não sou nada religioso considero o Natal como sendo o dia do nascimento do menino Jesus.
O pai natal não existe foi inventado pela coca-cola, mas igreja não se importa e os chineses até lucram com isso.
Vamos lá ver se os nossos netos ou bisnetos não perdem o hábito de fazerem o presépio em louvor do menino Jesus.
Valdemar Queiroz