domingo, 23 de novembro de 2014

Guiné 63/74 - P13933: (Ex)citações (251): Nunca é demais recordar: a tragédia do Quirafo... foi há mais de 42 anos (Álvaro Basto)



Tabanca de Matosinhos > 2009 > "O Batista e o Mário Migueis que,.  juntamente com o Paulo Santiago, muito têm contribuído para o deslindar da verdade dos factos"

Foto (e legenda): © Álvaro Basto (2009). Todos os direitos reservados.[Edição: LG]



Maia > Moreira > Cemitério local > Foto do Jornal de Notícias, edição de 18 de Setembro de 1974, mostrando o soldado António da Silva Batista, a visitar a sua própria campa. A notícia do jornal era: "Morto-vivo depôs flores na sua campa". Na lápide pode ler-se: "À memória de António da Silva Batista. Faleceu em combate na província da Guiné em 17-4-1972".

A foto, de má qualidade, foi feita pelo nosso camarada Álvaro Basto, com o seu telemóvel, na Biblioteca Pública Municipal do Porto, e remetida ao Paulo Santiago. O Álvaro Basto [ex-fur mil enf da CART 3492, (Xitole, 1971/74] constatou, pessoalmente, no Saltinho, a impossibilidade de reconhcer os cadáveres dos nossos camaradas, da CCAÇ 3490, que morreram na emboscada do Quirafo, em 17/4/1972,  inckuindo o António Ferreira, . O Batista, dado como morto, foi afinal o único desaparecido: foi feito prisioneiro pelo PAIGC e só libertado em Setembro de 1974. É, de resto, o único sobrevivente de quem temos falado até aqui... Mas há outros...

Foto: © Álvaro Basto (2007). Todos os direitos reservados.[Edição e legendagem: LG]


1. Texto do Álvaro Basto  publicado há mais de cinco anos no blogue da Tabanca de Matosinhos (*) [Reproduzido aqui com a devida vénia].

Esta poste vem a propósito do caso do João Maximiano, uma das vítimas da emboscada do Quirafo (**)

[foto à esquerda, de 1972, Álvaro Basto, ex-fur mil enf, CART  3492 / BART 3873, Xitole, 1972/74]


17 de Abril de 1972 foi uma data fatídica para uma série de camaradas nossos [, da CCAÇ 3490,. Salltinho,. 1972/74] que nos deixaram de forma abrupta e traiçoeira.

Nesse dia o [António da Silva] Batista, deitado no chão após o enorme rebentamento das granadas de "bazooka" que íam pousadas dentro da GMC onde ele se tinha empoleirado, viu aproximar-se um "turra" e deitar-lhe a  mão ao cano da espingarda para ver se estava quente ou frio.

Felizmente estava frio pois o terror tinha-o paralizado... estava salvo por agora. O tiro de misericórdia que lhe estava destinado ficou reservado para outros que se contorciam com dores no chão.

Foi levado pelos guerrilheiros, desarmado pelo mato em coluna que o fizeram atravessar o rio Corubal por um caminho de pedras submersas e viu a água subir-lhe pelo corpo acima até ao pescoço. De repente pensou que não sabia nadar... não morri da emboscada e vou morrer aqui afogado, pensou.... mas a água foi lentamente descendo e finalmente estava do outro lado.

Esperavam-no longos meses de doloroso cativeiro. Foi um dia de pesadelo para os poucos que sobreviveram e para os que foram em socorro das vítimas. Imaginaram-se cenas, especularam-se hipóteses. No princípio nem se sabia ao certo quantos faltavam.

37 anos depois, alguns dos nossos camaradas da Tabanca de Matosinhos, entre os quais, alguns que viveram aquela tragédia no local, vão depositar uma coroa de flores no túmulo do António Ferreira no cemitério de Águas Santas juntamente com a Cidália, a sua viúva, prestando desta forma uma singela homenagem a todos quantos nesse dia pereceram em tão traiçoeira emboscada. (***)

A nossa imaginação exacerbada pelo horror da tragédia e as nossas recordações incompletas e distorcidas pelo tempo, fizeram a Cidália acreditar que o seu amado António Ferreira poderia ter sido capturado vivo e, à semelhança do que aconteceu com o Batista, um dia ainda regressar para o seio dos seus.

Arrumadas as ideias e refeitos os factos, infelizmente ficou comprovado que não. O seu corpo descansa em paz no túmulo que lhe reservaram na sua terra natal.

Bem hajam todos quantos se têm esforçado pela determinação da verdade dos factos. (****)

Álvaro Basto
_______________

Notas do editor:

(*) Vd. Tabanca de Matosinhos & Camaradas da Guiné > sexta-feira, 17 de Abril de 2009 > P148-A emboscada do Quirafo foi há 37 anos [Álvaro Basto]

(**) Vd, poste de 22 de novembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13927: Ser solidário (174): Vamos ajudar o nosso camarada João Maximiano, que encontrei em Leiria, ex-sold cond auto da CCAÇ 3490 (Saltinho), que continua a sofrer com as recordações da terrível emboscada de que foi vítima no Quirafo, em 17/4/1972... (Juvenal Amado, ex-1º cabo cond auto, CCS/BCAÇ 3872, Galomaro, 1971/74)

(***) Vd,. outros postes, do nosso blogue, publicados por ocasião da efeméride dos 37 anos da emboscada do Quirafo;

18 de abril de  2009 > Guiné 63/74 - P4207: In Memoriam (20): Para o António Ferreira e demais camaradas mortos no Quirafo (Juvenal Amado)

18 de abril de 2009 > Guiné 63/74 - P4205: In Memoriam (19): António Ferreira, 1.º Cabo TRMS da CCAÇ 3490, morto em combate no dia 17 de Abril de 1972 (Cátia Félix)

17 de abril de 2009 > Guiné 63/74 - P4202: Dia 17 de Abril de 1972. A emboscada do Quirafo, 37 anos depois (Mário Migueis)

17 de Abril de 2009 > Guiné 63/74 - P4200: Ainda e sempre a tragédia do Quirafo. Sortes distintas para António Batista e António Ferreira (Mário Migueis / Paulo Santiago)

31 de Março de 2009 > Guiné 63/74 - P4117: A tragédia do Quirafo: 37 anos para fazer o luto pelo António Ferreira (Paulo Santiago / Cátia Félix)

18 de Março de 2009 > Guiné 63/74 - P4046: Ainda a atroz dúvida da Cidália, 37 anos depois: O meu marido morreu mesmo na emboscada do Quirafo ? (Paulo Santiago)

(****) Último poste da série > 21 de novembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13924: (Ex)citações (250): a autogrua Galion e o cais de Bambadinca, quatro anos depois, em novembro de 1973

6 comentários:

Luís Graça disse...

Em 17 de jukho de 2007 ainda andávamos à procura do Batista... Aqui vai um comentário meu desse dia (*):


Amigos & camaradas: Ainda estará vivo, hoje, o morto-vivo do Quirafo ?

É importante, para todos nós, ajudarmos o Álvaro Basto, o Paulo Santiago e o Casimiro Carvalho a localizar o nosso camarada António da Silva Batista, o morto-vivo da emboscada do Quirafo (em 17/4/72) e que voltou à sua terra, Moreira-Maia, tendo em Setembro de 1974 depositado um ramo de flores na sua própia campa, no cemitério de Crestins, Maia!...

Uma estória, macabra, de fazer arrepiar os cabelos!... Como é que os burocratas do exército o deram como morto em 17/4/72, sem a mínima preocupação em localizar e identificar o cadáver ?... E como é que mandam para Crestins um caixão vazio ?

Na realidade, valíamos todos muito pouco, aos olhos da hierarquia político-militar que nos mandou para a guerra... E como é que a poderosa PIDE/DGS não descobriu o seu paradeiro na Guiné-Conacri ?

O Batista pertencia à CART 3490, do Saltinho (1972/74), a mesma a que pertenceu o nosso camarada, membro da nossa tertúlia, Joaquim Guimarães, hoje a viver nos EUA. O Batista, tal como todos nós, valia muito pouco... Na realidade, ele não valia nada, nós não valíamos nada...

Um Alfa Bravo. Luís

17 DE JULHO DE 2007
Guiné 63/74 - P1959: Em busca de... (2): António da Silva Batista, de Crestins-Maia, o morto-vivo do Quirafo (Álvaro Basto / Paulo Santiago)

http://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2007/07/guin-6374-p1959-em-busca-de-2-antnio-da.html

Luís Graça disse...

O Batista seria depois, a seguir, ainda nesse mês de julho de 2007, localizado pelo Álvaro Basto, através da lista telefónica... Encontraram-se na Maia, em 21/7/2007, eles os dois, mais o Paulo Santiago e o João Santiago... O Batista, hoje reformado, é membro da nossa Tabanca Grande. LG
_________________


22 DE JULHO DE 2007
Guiné 63/74 - P1983: Prisioneiro do PAIGC: António da Silva Batista, ex-Sold At Inf, CCAÇ 3490 / BCAÇ 3872 (1) (Álvaro Basto / João e Paulo Santiago)

http://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2007/07/guin-6374-p1983-prisioneiro-do-paigc.html

Rui Silva disse...

Tive um grande gosto de falar com um "morto-vivo"; vivinho sim, o António Batista, num almoço da já célebre Tabanca de Matosinhos. Ele contou-me a sua história, na íntegra. Tenho uma foto com ele lá, que a guardo religiosamente. Essa do cano quente ou frio!... . Sim, ele também me contou. Um abração António Batista!!
Rui Silva

Luís Graça disse...

Amigos e camaradas: era importante identificar e encontrar mais sobreviventes desta emboscada... Nomeadamente militares nossos, já que também havia milícias e civis guineenses...

O Juvenal Amado já encontrou ou identificou dois camaradas da CART 3490, do Saltinho, condutores auto, um deles o João Maximiano. O outro seria o condutor da GMC que ardeu, e que aparece nas nossas fotos... Vinha repleta de gente, a maioria terá morrido...

Falta-nos versões em primeira mão: só temos a do Batista, o "morto-vivo do Quirafo"...

manuel amaro disse...


Caro Luís Graça

Já que estão, estamos todos, com "as mãos na massa", talvez fosse útil tentar encontrar o Capitão Comandante dessa Companhia...

Abraço

Manuel Amaro

Juvenal Amado disse...

Camaradas faço aqui um pequeno reparo a companhia 3490 era uma companhia de caçadores e não de artilharia.
As suas irmãs foram a 3491 em Dulombi e a 3489 em Cancolim a sede do Batalhão de caçadores em Galomaro 3872.

Quanto ao capitão esteve num dos últimos almoços de confraternização efectuados pela referida companhia. Informação prestada pelo condutor João Maximiano

Um abraço