quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Guiné 63/74 - P11128: Inquérito online: "As praxes aos piras, no meu tempo, só lhes fizeram bem"... (6): Noum total de 81 respondentes, mais de metade manifestou uma opinião favorável...




1. Resultados da sondagem que acaba de correr no nosso blogue, de 14 a 20 do corrente: O tema era as praxes (militares). Pedia-se a opinião do leitor em relação à frase "As praxes aos piras, no meu  tempo, não lhes fizeram mal"...

Responderam 81 leitores. Os resultados evidenciam um certa fratura relativamente à questão em apreço. De qualquer modo, as respostas negativas poderão estar enviesadas pelas denúncias,  nestes últimos anos, de abusos cometidos com as praxes quer académicas quer militares, abusos de que a comunicação social se tem feito eco... Mas também pelas experiências individuais, cá na Metrópole, no período de instrução militar (recruta e especialidade)..

(i) Apenas 1 em cada cada 4 dos respondentes à nossa sondagem discorda  do enunciado, revelando por isso uma opinião negativa em relação às praxes a que eram submetidos, no TO da Guiné, os "piras", abreviatura de "periquitos" (ou sejam, os recém-chegados):

(ii) Um em cada cinco não tem opinião sobre o assunto, não se tendo prounciado a favor ou a contra:

(iii) Pelo contrário, mais de metade (53%) dos respondentes manifestou uma opinião favorável  às praxes e aos efeitos benéficos sobre os "piras"...



Moçambique > Mueda > CART 2369 (1968/70) > O 2º sargento miliciano Sérgio Neves, irmão do nosso camarada Tino Neves,  junto a um mural onde se lê: "Em Mueda, os cordeiros que entram, são lobos que saem. Adeus checas". Recorde-se que o checa, em Moçambique, era o nosso pira ou periquito. (**)

Foto: © Tino Neves (2007). Todos os direitos reservados.[Editada por L.G.]

2. Damos agora mais tempo de antena aos que, tendo respondido à nossa sondagem, manifestaram, em comentários,  opinião crítica ou reservas em relação às praxes, nomeadamente no seio da instituição militar.

(i) Henrique Cerqueira [, comentário ao poste P11119]

(...) Em minha opinião qualquer tipo de praxe tem tendência a descambar em abuso.E basta que uma só pessoa saia magoada dessa situação, para que seja considerada por mim uma inusitada situação,  a praxe.
Ainda em minha opinião e na nossa sociedade a "iniciação" de qualquer criança para o seu percurso de vida deve ser sempre através do amor, carinho, boa moral , bons exemplos familiares, boa educação. Enfim, muito amor e carinho.Vi na Guiné na altura do Fanado crianças com graves infecções no pénis porque após a circuncisão tiveram que sarar o corte com o pénis metido em terra e completamente sós num retiro forçado. Só para provarem que já eram adultos???... Eu sei lá o quê. Daí,  quanto a iniciações,  nada prova que seja benéfico no caráter da pessoa.


Em outras situações acontece que grande parte dos praxados fica com "mazelas" ainda que momentâneas.
Assim sendo,  e mais uma vez,  eu sou contra qualquer tipo de praxe e até contra o que é chamado de "iniciação".

Esta é a minha opinião e não é por qualquer trauma por ter sido violentamente praxado em Tavira. Quanto a mim,  e em especial em todos os organismos do Estado,  sejam eles militares ou civis,  deveriam ser banidas as praxes e severamente castigados aqueles que  as praticam .Um jovem ou uma criança quando entra nessas instituições normalmente está tão desamparado  e assustad0,  já que é um "alvo" apetecível para os potenciais abusadores das praxes. (...)

(ii)  C.Martins [, comentário ao poste P11100]

(...) Tem piada que apenas vejo aqui contadas umas brincadeiras sem grande maldade e até com alguma graça. O que eu gostava era de ver contadas aquelas com violentações, humilhações e outras "ções"..sádicas e afins. Desafio qualquer praxista, daqueles puros e pseudo-duros a contar se tem "tomates"..

É que com "pseudo-praxistas" estilo AGA [, António Graça de Abreu,]  ou "nosso alfero J.Cabral".
posso eu bem.. É que V. Exas não passavam de uns brincalhões.

Quero realçar que na Guiné nunca fui praxado... É que lá para as bandas do sul não havia tempo nem disposição para isso. Até uma simples voltinha em redor do aquartelamento poderia ser a "morte do artista ou artistas". Como tudo na vida uns mais sortudos do que outros. (...).



(iii) Hélder Sousa [, comentário ao poste P11095]: 

(...) Parece que é preciso ter opinião sobre esta 'coisa' da praxe. Ora bem, tenho por aqui um problema, pois não atino com uma resposta certa.

Por um lado percebo que uma 'certa praxe', com graça, com ironia, com civilidade, que não se estribe na humilhação do(s) visado(s) acabe por ajudar a cimentar um 'certo espírito de corpo', seja no meio militar, estudantil, clubístico ou outro qualquer.

Por outro lado entendo que o acto de 'praxar', possibilitando o anonimato ou a cobertura de grupo, pode potenciar a revelação de atitudes ou comportamentos bem primários, cobardes e desumanos.

É portanto, entre estas 'balizas' que a 'coisa' se movimenta e confesso que não tenho opinião 'definitiva' sobre a 'bondade' da praxe. Compreendo quem a defende mas sinto-me afastado da sua aplicação. (...)


______________

(**) Luís Graça escreveu sobre este mural o seguinte (excerto):

(...) [ Em Mueda, os cordeiros que entram, são lobos que saem. Adeus checas"]

(...) É um pensamento que é válido
para todas as situações de guerra.
Os jovens, quase imberbes,
os meninos de sua mãe
(como escreveu o grande Pessoa),
que chegam à frente de batalha,
ainda são cordeiros,
inocentes,
virgens,
imaculados...
O horror e a violência da guerra
irão transformá-los em lobos,
em duros,
em violentos,
em conspurcados...
Não necessariamente predadores,
assassinos,
criminosos...
(que é o estereótipo
que o ser humano ainda guarda
do pobre do lobo mau!)...

Mas há, seguramente, uma perda de inocência:
nenhum de nós foi para a Guiné
e veio de lá impunemente,
igual...
Os nossos amigos e familiares deram conta disso:
já não éramos os mesmos,
nunca mais fomos os mesmos...

Acho que é isto
que o inspirado autor do mural de Mueda quis dizer.
É claro que há também aqui
a dose habitual de bravata e de fanfarronice:
é uma frase para intimidar
os 'checas', os 'piras', os 'maçaricos', os novatos...

Também os militares, profissão de risco,
têm a sua ideologia defensiva,
as suas crenças,
os seus talismãs,
os seus mesinhos
(usavam-nos os guerrilheiros
na Guiné,
em Angola,
em Moçambique,
não obstante a sua 'formação' racionalista,
marxista-leninista,
dita revolucionária)...
A bravata e a fanfarronice,
além das praxes e do álcool,
ajudavam-nos, a todos nós,
a lidar com o medo,
as situações-limite,
a morte,
o sofrimento, físico e moral,
a impotência,
o desespero… (...)


In: Luís Graça > Blogpoesia > Quarta-feira, Abril 15, 2009 > Blogantologia(s) II - (78): A guerra como forma (heróica) de suicídio... altruista

3 comentários:

Hélder Valério disse...

Penso que apesar de não ser das amostras em menor número que por aqui foram feitas, o número de respostas é ainda assim escasso.

Mesmo assim o leque das respostas parece corresponder ao sentimento geral, ou seja, há praxes e praxes.

Tudo depende do que tem maior ênfase, se a graça que acaba por irmanar quem praxa e quem é praxado, se a afronta, o insulto ou a mesquinhez do acto de praxe. Uma questão de 'dose' e de bom senso.

Tal como escrevi em comentário noutro post, nada tenho a opor ao que é feito com civilidade mas não tenho vocação para 'agente praxador'.

Abraços
Hélder S.

Luís Graça disse...

O objetivo da sondagem era sobretudo suscitar interesse por este tema, adormecido, e motivar a rapaziada a escrever sobre as praxes aos piras... E nunca, de modo algum, dividir a malta...

Eu não tenho ideia de ter praxado ninguém...Praxado fui, em Tavira, em Castelo Branco... As praxes (todas!...) são contra os meus princípios, valores e feitio...

Quando chegaram os nossos "piras", a Bambadinca -todos de rendição individual - à CCAÇ 12, por volta de fevereiro de 1971, a "praxe" foi levá-los ao Poidon, na região do Xime, ver os cultivadores de arroza a trabalhar a bolanha do Poidon, tudo boa rapaziada do PAIGC... Mais à frente ficava a mítica Ponta do Inglês... Claro que houve logo "embrulhanço", felizmente sem consequências para as NT..

Até ao sargento Piça, com os seus 38/39 anos (que fazia o papel de 1º sargento, chefiando a secretaria), foi "obrigado" a alinhar, para "tirar os três"...

O que será feito dele ? Deve andar na casa dos 80 e qualquer coisa... Espero que esteja de boa saúde... Vivia em Évora ou perto... Foi o "chico" mais querido (e o mais "miliciano") da minha tropa de 3 anos...

Henrique Cerqueira disse...

Apesar de tudo foi muito bom discutir este tema.Claro que poderia haver muito mais a dizer, mas eu creio que este tema das "praxes" não dividiu a malta que participou no debate ,apenas reforça a a nossa capacidade de expressar a opinião de cada um .E é por isso mesmo que eu gosto muito do nosso blogue pois as nossas "discussões" teem sido saudaveis e respeitadoras . Creio ainda que é um facto que marca a nossa geração de antigos companheiros de Guiné .Obrigado amigos e camardas pela discussão de mais este tema.É Bom sêr amigo do " Luís Graça & Camardas da Guiné"
Abraço fraterno
Henrique Cerqueira