quarta-feira, 25 de abril de 2012

Guiné 63/74 - P9802: O caso da Ponta Coli (Xime-Bambadinca) II. Nova emboscada (Jorge Araújo)



1. O nosso camarada Jorge Araújo (ex-Fur Mil Op Esp/Ranger da CART 3494/BART 3873, Xime e Mansambo, 1972/74), enviou-nos a seguinte mensagem. 


Caríssimo Camarada CMDT Luís Graça, e restantes elementos do G.O.E. (Grupo Operacional de Editores). 

Os meus melhores cumprimentos. 

No dia do oitavo aniversário do nascimento do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, tomei a iniciativa de vos enviar, por este meio, uma pequena lembrança. 

Trata-se de mais um mosaico para colocar no puzzle de uma das paredes da nossa Tabanca Grande que, por ser grande, creio que não vai ser fácil concluir a obra. 

Parabéns para o aniversariante e, igualmente, para os seus progenitores. 

Obrigado pelos bons momentos de confraternização passados no pretérito sábado em Monte Real, durante o nosso VII Encontro Nacional.

ERA UMA VEZ UMA ESTRADA, PALCO DE JOGOS DE SOBREVIVÊNCIA 

O CASO DA PONTA COLI (XIME-BAMBADINCA) – II

I – O CASO DA PONTA COLI - XIME: - NOVA EMBOSCADA

Entre a chegada a Bissau no dia 28.Dez.1971, a bordo do Paquete Niassa, e o regresso a Lisboa em 03.Abr.1974, efectuado nos Transportes Aéreos Militares (TAM - boeing 707), a CART 3494 escreveu algumas páginas da sua história colectiva com acontecimentos indeléveis que continuam, ainda hoje, a influenciar os itinerários, os comportamentos e as atitudes – isto é: a vida – de alguns elementos do seu contingente, agora ex-combatentes, e que mais à frente aprofundaremos. 

Durante vinte e sete meses e uma semana, ou seja, cento e dezoito semanas, que perfazem oitocentos e vinte e oito dias, equivalente a dezanove mil e oitocentas e setenta horas, totalizando um milhão, cento e noventa e dois mil e trezentos e vinte minutos - é muito tempo; e muito jogo …, os principais episódios foram classificados numa escala de graves e muito graves, em função dos efeitos produzidos nas NT. 

O caso da Ponta Coli, que acabaria por contabilizar dois episódios muito graves durante a permanência da Unidade no Xime, antes da rotação para Mansambo ocorrida em Março de 1973, era o contexto que suscitava maior incógnita quanto à efectiva possibilidade de aí acontecerem encontros/desencontros com os guerrilheiros, sempre de consequências imprevisíveis, na justa medida em que eles sabiam tudo sobre os nossos movimentos, horas de saída e chegada ao aquartelamento, transporte, efectivos, armamento utilizado, local da segurança, postos de vigia, entre outros detalhes. 

Esse conhecimento dava-lhes, desde logo, uma efectiva vantagem, podendo agir de surpresa, controlando o tempo e o espaço, “como se fosse uma qualquer caçada ao coelho bravo, à gazela ou ao javali”, colocando cada presa no centro da sua mira. Mas, em função destes dois exemplos, veio a provar-se que não agiram, felizmente, com muita disciplina táctica e técnica e que, numa relação custo/benefício, o custo foi francamente superior. 

Estou convencido que os guerrilheiros estiveram emboscados na Ponta Coli, em outras ocasiões em que não houve contacto directo, desconhecendo-se qual ou quais os motivos que os levaram a não tomarem a iniciativa do ataque. Esta convicção/intuição resulta do facto de terem sido identificados (e confirmados!) sinais da presença humana, que não do nosso lado, e que implicaram a pernoita em espaços muito próximos daqueles que habitualmente eram por nós ocupados. 

Esta convicção é reforçada com o facto concreto relatado no documento referente ao programa de actividades para aquela zona retirado do bolso do camuflado do comandante Mário Mendes, aniquilado no decorrer de uma acção à Ponta Varela, efectuada em conjunto pela CART 3494 e pela CCAÇ 12, em Maio de 1972, que previa a concretização de novas emboscadas na estrada Xime-Bambadinca, tema que abordarei em outra oportunidade. 

Assim, durante os treze meses em que a CART 3494 esteve aquartelada no Xime, a quem tinha sido atribuída a responsabilidade diária de garantir a segurança possível em parte do troço que ligava este lugar a Bambadinca (sede do BART 3873), essa tarefa/acção/missão, considerada “Rainha” no conjunto de todas as outras, foi realizada por trezentas e oitenta vezes, aproximadamente, o que perfaz, feita a divisão pelos três GComb, cerca de cento e vinte e cinco presenças para cada um, naquele a que tomei a iniciativa de (re)baptizar como o «palco de jogos de sobrevivência». 

Como referido anteriormente, apenas ocorreram dois contactos durante esse período, com mortos e feridos confirmados de ambos os contendedores. O primeiro, no dia 22.Abr.1972, foi já narrado neste blogue (vidé poste 9698, de 03.Abr.2012). O segundo, de que trata este texto, ocorreu no dia 01.Dez.1972, 6.ª feira, tendo por intervenientes os elementos do mesmo GComb, ou seja, o 4.º pelotão. 

Creio que a escolha do dia 01.Dez.1972, para a concretização desta segunda emboscada às NT, não teve qualquer relação histórica com o dia 01.Dez.1640, também conhecido por «Restauração da Independência», designação atribuída à revolta dos portugueses iniciada naquela data com a invasão do Palácio Real, sito no Terreiro do Paço, em Lisboa, onde prenderam a Duquesa de Mântua, obrigando-a a dar ordens às suas tropas para se renderem, matando Miguel de Vasconcelos e Brito (1590-1640), Secretário de Estado da Duquesa, que era Vice-Rainha de Portugal, em nome do Rei Filipe IV de Espanha (1605-1665), Filipe III de Portugal. 

Também no dia 01.Dez., mas de 1922, ou seja cinquenta anos antes, era legalmente constituída a direcção do primeiro Núcleo da Liga dos Combatentes, em Pinhel, presidida por Manuel Augusto Ferreira Lima da Veiga, Coronel de Infantaria e delegado, à época, da denominada Liga dos ex-combatentes da Grande Guerra. A sua sede ficou instalada no edifício do Regimento de Infantaria n.º 14, de onde partiu o Batalhão Expedicionário de Infantaria n.º 12 da Guarda, com destino à Flandres, onde combateu, ao serviço dos aliados, durante os anos de 1917 e 1918, na 1.ª Grande Guerra. 

Cronologicamente, a seguir à primeira história vem a segunda, e depois a terceira, e assim sucessivamente, e porque a acção, o sentido e as formas dessa acção nunca se repetem, mesmo que os seus intérpretes sejam os mesmos, eis outra oportunidade para tornar público o que ainda guardo na memória relativo ao segundo acontecimento na Ponta Coli, cuja ordem de apresentação foi estruturada em três pontos: o antes, o durante e o depois dos factos. 

De referir, ainda, que este texto não caracteriza tão só e apenas o período de tempo em que decorreu esta emboscada, mas adiciona-lhe outras pequenas histórias que lhe dão uma certa coerência, aliás como nos ensina a filosofia, ou seja, o todo é mais que a soma das partes, como se pode constatar de imediato. 


II – O ANTES DE 01 DE DEZEMBRO DE 1972 

A aprendizagem retirada da primeira experiência vivida na Ponta Coli, em 22.Abr.72, que conduziu à alteração das rotinas anteriores, passando cada GComb a ser auto transportado somente até ao limite da bolanha do Xime e o restante trajecto até ao local da segurança a ser efectuado a pé, com esquemas diferenciados de progressão e distribuição espacial de todos os seus elementos, dava a sensação de ter sido uma boa opção, pelo menos ficava a ideia de se reduzir substancialmente a exposição ao risco. 

A segurança fazia-se diariamente, excepto quando a Companhia tinha de efectuar outras missões que justificassem a presença de todos os seus efectivos, sendo substituídos nessa função por elementos de Grupos de Milícias que estavam sob jurisdição do Batalhão. 

A atenção e a concentração continuavam a ser as palavras de ordem, ou palavras-chave, quando se saía do aquartelamento para cumprir esta missão, justificada ainda com maior veemência depois do expresso na correspondência retirada ao comandante Mário Mendes, conforme referido anteriormente. E o tempo foi passando, felizmente sem ocorrências de maior na Ponta Coli. 

Em finais de Setembro/72, depois de uma intensa actividade militar, pensei que era chegado o momento de agendar o primeiro período de férias de trinta e cinco dias, de acordo com as normas então em vigor, tendo decidido passá-las na Metrópole, como se dizia à época, fazendo coincidir esse período com o meu aniversário. E assim foi. Escolhemos o período de 24.Out. a 27.Nov.1972. 

Chegado ao aeroporto de Lisboa, fui recebido pelos nossos familiares directos (os pais), seguindo depois para a sua (nossa) residência, em Moscavide. Os primeiros dias foram de completa readaptação aos espaços, particularmente no que concerne ao trânsito intenso da cidade, aos semáforos e às passadeiras, aos cheiros, aos ruídos; em suma, a quase tudo.
O ambiente de felicidade iluminava cada dia que ia passando, com os meus familiares a não perderem a oportunidade de colocarem questões sobre a realidade por mim vivida na Guiné, transmitindo-me os seus medos, expectativas e ansiedades, mas também procurando saber mais como era a sua gente, o seu ambiente, o seu clima, a sua organização social, os seus consumos, o que era perfeitamente natural e normal naquele tempo. Os amigos, alguns mais velhos, que tinham já vivido experiências semelhantes nos diferentes cenários ultramarinos, davam-me conselhos, sugestões e outras dicas visando ajudar-nos a ultrapassar eventuais dificuldades. 

Mas, do que mais se falou durante esse mês foram os episódios vividos até então, em que a nossa existência física esteve francamente em causa, e que após efectuada a sua avaliação, em consciência, considerei ter sido de elevado risco, muito maior daquele por que passa um funâmbulo no circo, no exercício de equilíbrio no arame, mesmo que não possua rede de segurança a meio caminho do solo, como foram os casos da emboscada na Ponta Coli (22.Abr.1972) e o naufrágio no Rio Geba (10.Ago.1972). 

Por outro lado, e uma vez que o ex-Alf. Mil. Maurício Viegas, também ele natural de Lisboa e CMDT do Pelotão de Artilharia (obuses 10.5) do Xime, me sugeriu que visitássemos os seus pais, residentes na Boa-Hora, em Lisboa, facultando-me a sua morada. Daí ter agendado um encontro com eles, em nome do convite/pedido formulado aquando da minha saída do Xime, levando-lhes as naturais saudades e palavras de conforto e de ânimo para resistirem ao tempo que ainda faltava para a conclusão da sua Comissão de Serviço. 

Na sequência do primeiro contacto presencial, aceitei a proposta de com eles almoçar, ficando também combinada uma sessão de slides (meus) visando uma aproximação à realidade por parte daqueles que, estando longe dos seus familiares (militares), gostavam de ver as suas paisagens, as suas gentes, as lavadeiras, as beijudas e outros ícones da cultura guineense, e que para mim era o contexto para onde teríamos de voltar alguns dias depois. 

Como um dos tios do ex-Alf. Viegas era pasteleiro (mestre de renome em doçaria), e o sobrinho comemorava o seu aniversário no dia 01.Dez. (já não me recordo quantos, mas seriam certamente mais de vinte), logo nos pediu para sermos portadores de um bolo especial para esse dia de anos, confeccionado com uma substância (XPTO) preparada para aguentar os dias suficientes até à nossa chegada ao mato. No dia 26.Nov.1972, véspera da partida, lá fomos buscar o bolo ao Bairro da Boa-Hora, fazendo votos para que ele chegasse inteiro ao seu destino. 

Embarquei no dia aprazado, prometendo voltar, logo que fosse possível, para um segundo período de férias. 

Chegado a Bissau no dia 27.Nov.1972, 2.ª feira, desci à terra, e tomei consciência de que as férias tinham acabado, e que o principal assunto que teria em mãos, a partir de então, era outro, mais sério e problemático do que nunca. 

Procurei resolver, com celeridade, a deslocação para a Companhia, no Xime, tendo apanhado uma boleia de Bissau a bordo de uma embarcação civil «CP10», cujo comandante era um militar da marinha – o Cabo Silva, e que habitualmente nos visitava no Xime, quando aí tinha de fazer carregamentos de madeiras para a capital, ou de outros materiais mais pesados vs volumosos. 

Cheguei ao aquartelamento na 4.ª feira, dia 29.Nov.1972, por volta das 17.00 horas. Mas, como tinha feito a viagem ao sol, pois a embarcação navegava a céu aberto, logo sem sombras, essa noite foi passada num estado febril em crescendo. Antes, porém, tive a oportunidade de entregar ao ex-Alf. Maurício Viegas, o bolo de aniversário que nos tinham pedido para lhe trazer. O dia seguinte, 5.ª feira, foi passado na cama, aguardando que as drogas de marca «LM» – Laboratório Militar, distribuídas/receitadas pelo camarada mezinho, ex-Fur. Mil. Enf.º Carvalhido da Ponte desempenhassem a competente acção farmacológica no organismo. 

O dia seguinte, 6.ª feira, dia 01.DEZ.1972, voltou a ser um dia diferente, como muitas emoções versus tensões, em função dos relatos que desenvolveremos no ponto seguinte. 

III – O DIA 01.DEZ.1972 – a segunda emboscada na Ponta Coli 

Se o dia 22 de Abril de 1972, data da primeira batalha travada na Guiné (Xime) pelos militares da CART 3494, através do seu 4.º GComb, continuava bem presente na memória de todos, particularmente naqueles que a viveram em directo, esse dia 01 de Dezembro do mesmo ano, fez aumentar não só os factos negativos contabilizados até então, como ampliou os registos gravados na nossa memória de longo prazo. Entre o primeiro e o segundo caso decorreram duzentos e vinte e dois dias. 

E o que tenho em memória desse já longínquo 1.º de Dezembro de 1972, acontecimento que está prestes a completar quatro dezenas de anos, inicia-se com o acto de acordar, consequência do ruído dos motores das duas viaturas unimog alinhadas na parada, como era habitual, destinadas a transportar o GComb que nesse dia iria estar de serviço na Ponta Coli, ou seja, o 4.º pelotão, o mesmo da 1.ª emboscada. 

Este GComb, entretanto refeito depois de ultrapassadas as enfermidades físicas sofridas pelos seus efectivos mais atingidos anteriormente, viu reforçado os seus quadros de comando com a chegada, em Maio, do ex-Fur. Mil. Mário M. Neves para substituir o ex-Fur. Mil. Manuel Rocha Bento, falecido na emboscada anterior, e dois meses e meio antes deste episódio (Set.) do oficial de que nunca dispôs, sendo nomeado para comandar este grupo o ex-Alf. Mil. A. J. Serradas Pereira. 

Passados poucos minutos da saída dos militares do meu ex-GComb, levantei-me sentindo algumas melhoras em relação aos dois dias anteriores, pois já não tinha febre, e avancei para os sanitários do abrigo da messe de Sargentos, situados em frente ao nosso Tzero, este partilhado com os camaradas ex-Furriéis Godinho, Ferreira e Neves. 

Concluída a higiene pessoal, e quando passava à porta da Secretaria da Companhia, que ficava exactamente em frente à nossa, do outro lado do caminho térreo (a que se chamava rua), eis que ouvi e senti os primeiros rebentamentos vindos do lado da Ponta Coli. Tratava-se, naturalmente, de uma nova emboscada montada pelos guerrilheiros, já prometida há algum tempo atrás, mas sem data marcada. 

Não pestanejei.  

Num impulso produzido a partir dos sistemas internos homeostáticos, explicados na biologia da consciência como sendo a memória especial de valor registada por via de experiência anterior – imagens, sons e desempenhos –, complementada com a mensagem do mundo exterior que acabara de ser descodificada, rapidamente me preparei para ir em seu auxílio. 

Vestido com estava naquele momento, em fato de treino azul militar, coloquei à cintura os quatro carregadores de munições encaixados no cinturão, peguei na minha companheira inseparável nestas ocasiões, a G3, e parti só, na direcção da Ponta Coli, não fazendo a mínima ideia do que me poderia acontecer até lá. 

Atravessei as moranças da Tabanca, segui no sentido da bolanha do Xime (Taliuará) e quando me encontrava mais ou menos a meio do carreiro que ligava, na largura, os dois lados da bolanha, avistei um grupo de guerrilheiros movimentando-se para sul, na fronteira da bolanha com a vegetação aí existente. Avistei os guerrilheiros e eles também a mim, na medida em que um deles disparou uma rajada na nossa direcção, mas sem consequências, pois não devia ser grande especialista no tiro de precisão. 

Ao ouvir o silvo das balas (uma meia dúzia!?) que passaram por cima e ao meu lado, coincidente com o mergulho que tive justamente de efectuar, por instinto de sobrevivência, e sem saber o que viria a seguir, aí esperei um pouco, camuflado tanto quanto me era possível, observando os movimentos do IN, e sem saber muito bem o que fazer a partir de então: voltar para trás ou seguir em frente. 

Quando me apercebi que aquele grupo de guerrilheiros estava de regresso às suas origens, decidi avançar, mas com a máxima atenção, pois a situação assim o exigia. Porém, vindos da Ponta Coli, continuava a ouvir tiros e rebentamentos, sinal de que a situação ainda não estava totalmente controlada. 

Passados alguns minutos, talvez dez/quinze, cheguei junto dos camaradas flagelados, grupo que, gradualmente, tinha sido reforçado com a chegada de mais elementos de outros GComb, deslocados em viaturas até ao local. 

Aí chegado, constatámos que neste caso, do ponto de vista da estratégica militar, os guerrilheiros foram obrigados a alterar a sua, em função também das mudanças por nós introduzidas a partir da avaliação feita à primeira emboscada. 

Desta vez os elementos IN, estimados em mais de sessenta unidades, que segundo informações posteriores eram constituídos pelo grupo especial de Bazzokas, do CMDT Coluna da Costa, e do bigrupo dos CMDT’s Mamadu Turé e Pana Djata, ficaram emboscados a cinquenta metros da linha da nossa segurança, protegidos por bagabagas, árvores e outros arbustos mais rasteiros. 

Aguardaram que as NT ocupassem os postos habituais, e quando nada fazia prever, pois esse era o método utilizado na guerra de guerrilha, abriram as hostilidades, fazendo accionar, à distância, duas minas de sopro colocadas junto a duas árvores de maior porte, seguida das tradicionais rajadas de Kalashnikov e do lançamento de granadas de RPG7, tendo os elementos do nosso GComb reagido em conformidade com a provocação e de acordo com a experiência adquirida na anterior situação. 

As ocorrências mais graves foram provocadas pelo efeito das minas de sopro, tendo atingido dois elementos das NT que, passado pouco tempo, foram evacuados para o Hospital Militar, em Bissau. 

Entretanto, com a situação totalmente controlada, depois da debandada dos guerrilheiros, que não conseguiram desta vez obter grandes resultados práticos felizmente, iniciámos o reconhecimento na zona outrora ocupada por estes. 

Durante o desempenho dessa tarefa, operacionalizada em equipa com o ex-Fur. Mil. António Carda, do 3.º GComb, foi com alguma surpresa que encontrámos dois corpos de guerrilheiros, já cadáveres, ocupando ambos, um ao lado do outro, um espaço entre arbustos de aproximadamente dois metros, junto dos quais se encontravam as suas respectivas armas. Um tinha uma Kalashnikov, o outro possuía uma pistola Tokarev. Noutro local foi também encontrado um lança granadas e duas granadas desse equipamento. 


No final, a contabilidade feita à segunda emboscada, e que seria a última, sofrida pela CART 3494 na Ponta Coli, ambas vividas pelos elementos do 4.º pelotão, foi de dois feridos graves das NT, dois mortos capturados ao IN, mais uma espingarda automática Kalashnikov, uma pistola Tokarev e um lança granadas RPG7. 

A partir desta nova experiência, cada segurança diária à Ponta Coli passou a ser considerada como uma Operação Especial, só ao alcance de quem tivesse um coração forte, capaz de resistir às emoções/tensões vividas naquele contexto. 

IV – CAUSAS/EFEITOS DESTA NOVA EMBOSCADA 

Se nada de anormal tivesse acontecido naquele dia 01.Dez.1972, a noite teria tido um significado e um programa especiais, na medida em que o ex-Alf. Mil. Maurício Viegas fazia anos, e até existia um bolo de aniversário confeccionado de propósito, no distante Bairro da Boa-Hora, em Lisboa. 

Mas, porque não foi isso que aconteceu, lamentavelmente, este segundo episódio na Ponta Coli, acabaria por marcar os tempos seguintes, influenciando os comportamentos, o estado de espírito individual e colectivo, com reflexos no humor e na disponibilidade para grandes farras. No entanto, não deixámos de cantar os parabéns ao aniversariante, na messe de oficiais, e de comer uma fatia do seu bolo, um pouco rijo, mas ainda próprio para consumo. Do que me lembro desse momento, posso afiançar de que não sobrou nem uma migalha. 

A bebida consumida nessa noite, um pouco mais longa do que em noites anteriores, pois foi decidido desligar o gerador produtor de energia, uma vez que se equacionou a possibilidade de acontecerem represálias pela ocorrência da manhã, resultou da fusão do líquido de várias garrafas existentes no bar, vulgo cocktail, servido em baixela (prateada) de aço inox, mas que não me caiu nada bem. Andei uma semana a beber água Perrier, passe a publicidade. 

Assim, eis algumas causas/efeitos deste acontecimento. 

Uma primeira causa/efeito de mais um episódio negativo registado no seio da CART 3494 foi a tomada de consciência colectiva de que não se podia facilitar, fosse qual fosse a circunstância ou o contexto, tendo como exemplos as duas emboscadas na estrada Xime-Bambadinca e o naufrágio no Rio Geba, todos eles provocando baixas humanas, factos ocorridos, curiosamente, com intervalos de cento e dez dias entre si. 

Uma segunda causa/efeito deste acontecimento terá contribuído para que um ano depois desta segunda emboscada, certamente para vingar o aí ocorrido doze meses antes, onde os guerrilheiros registaram um forte revés, estes tenham decidido voltar a atacar o aquartelamento do Xime, agora tendo por residentes os militares da CCAÇ 12, uma unidade africana. 

Este ataque do IN, o mais severo e violento de todos os efectuados até então, iniciado pela calada da noite, eram 22:15 e que durou cerca de meia hora, e que eu próprio testemunhei não só através da sua audição à distância, como observei os clarões provocados pelas detonações das diferentes armas pesadas utilizadas, uma vez que me encontrava instalado nos espaços circundantes da nova Ponte sobre o Rio Udunduma, situada entre a população de Amedalai e Bambadinca, na estrada do Xime, em missão de segurança permanente. Nesse local acabaria por contabilizar uma estadia de cerca de cento e sessenta dias, ou seja, cinco meses e meio. 

Constou-se que para esse ataque com armas pesadas foram mobilizados todos os recursos existentes na zona por parte do PAIGC, nos quais se incluíam foguetões 122 mm. Estes acabaram por provocar alguns estragos, sobretudo na zona das moranças dos civis do Xime, tendo dois deles atingindo uma delas, que ficou totalmente destruída, com os seus sete ocupantes mortos. 

Uma terceira causa/efeito (dupla) desta emboscada, particularmente para os dois ex-militares feridos em combate, este seria um acontecimento que haveria de produzir sequelas incuráveis ao longo de suas vidas, em todas as dimensões humanas: físicas, psicológicas, sociais e económicas. Por via desse episódio, estes ex-combatentes foram premiados ad eternum com o estatuto de «abandonados», o que é francamente injusto, ingrato, pouco ético, nada moral, em suma, um crime execrável. 

No primeiro caso, o ex-soldado Carlos Alberto Cunha, depois de ter sido assistido no Hospital Militar de Bissau e de ter transitado para o Hospital Militar de Lisboa, onde, decorrido algum tempo, obteve alta, passando à disponibilidade. Porém, nunca mais pode exercer a sua actividade profissional, em função do seu grau de incapacidade física. Por falta de acordo quanto à atribuição do estatuto de invalidez, o seu processo transitou para julgamento no Tribunal Judicial de Coimbra, desconhecendo (eu) qual o seu veredicto. Até há bem pouco tempo a situação era de impasse. 

No segundo caso, o ex-soldado Mário Rodrigues Nascimento foi encontrado, no início deste ano, a vaguear pelas ruas da Figueira da Foz. Interpelado por uma Assistente Social, funcionária da Autarquia Local, sobre o seu passado, apenas se lembrava de ter sido ferido em combate no Xime e de ter pertencido à CART 3494. Esta técnica lembrou-se, com efeito, de contactar com a Delegação de Coimbra da Liga dos Combatentes, pedindo ajuda. Esta Instituição de apoio aos ex-militares, por sua vez, entrou em rede com vários elementos da Companhia referenciados no nosso blogue, o que conduziu à abertura de um processo visando a sua integração em Instituição de Solidariedade Social naquela localidade, de modo a alterar a sua condição de vida - um “sem abrigo” -, situação absolutamente degradante para qualquer ser humano, e em particular para este nosso camarada, ex-combatente, que fora gravemente ferido em combate no cumprimento de um dever nacional. 

Curiosamente, a sua residência conhecida, extraída dos registos dos Serviços Públicos, refere que era na Rua do Viso, por sinal a mesma rua onde os meus avós tinham uma casa, e onde eu, nos distantes tempos de criança, lá passava uma parte significativa das férias grandes de verão, bastando atravessar a avenida do Grande Hotel da Figueira (Av. 25 de Abril), para estar na praia. 

Finalmente, neste dia 01.Dez.1972, tomei conhecimento que o nosso segundo CMDT da Companhia, o Cap. Art. António José Pereira da Costa (agora Coronel na Reserva) tinha sido transferido para a CART 3567, estacionada em Mansabá, facto ocorrido durante as nossas férias, sendo substituído, então, pelo Cap. Mil. Luciano de Carvalho Costa, o terceiro e último CMDT da Companhia, cargo que ocupou até ao final da nossa Comissão de Serviço. 

Segundo julgo saber, a ordem/nota da transferência foi-lhe comunicada no dia 10.Nov.1972, exactamente no dia em que, na Metrópole, em Moscavide, comemorava o meu vigésimo segundo aniversário. O desenlace com a CART 3494 aconteceu no dia seguinte – 11.Nov. (Dia de S. Martinho), um marco mais na história da sua vida … militar. 

Chegado ao fim deste segundo episódio relacionado com os factos reais ocorridos na estrada Xime/Bambadinca, vividos por alguns ex-combatentes da CART 3494, no local designado por Ponta Coli, damos por encerrado este tema, esperando que o modo e os conteúdos da sua narração, feitos na primeira pessoa, partindo de experiências concretas, tenham permitido, por um lado, esclarecer dúvidas em aberto e, por outro, aglutinar algumas das ideias que andavam dispersas. 

Contudo, estou convicto que outros relatos, seguindo a mesma metodologia, seriam não só bem-vindos como ajudariam no aprofundamento da sua historiografia. 

Está, desde já, feito o convite a todos os membros da CART 3494, também conhecidos por Fantasmas do Xime. 

Um grande abraço para todos, e até à próxima história. 

Saudações Tertulianas.
Jorge Araújo.
Fur Mil Op Esp/RANGER da CART 3494
____________  
Nota de M.R.:

Vd. poste anterior desta série em: 

3 DE ABRIL DE 2012 > Guiné 63/74 - P9698: O caso da ponta Coli, Xime-Bambadinca (Jorge Araújo)



2 comentários:

Hélder Valério disse...

Caros camarigos

Tive oportunidade quase em 'fim de festa' de estar algum tempo a conversar com o Jorge Araújo e, por isso, ter sido presenteado com o opúsculo por ele produzido com o conteúdo deste 'post'.

Quanto ao mérito do Blogue em potenciar o lançamento destas memórias, deste 'refrescar' das lembranças, já temos falado muito disso e aqui está mais uma demonstração.

Assim, pedaço a pedaço, pode-se ir contribuindo para aumentar o acervo do conhecimento das diversas peripécias passadas nos diversos locais e, quem quiser, pode ficar com uma imagem cada vez mais nítida sobre o conjunto das situações vividas ao longo daqueles 'anos de brasa'.

Abraço
Hélder S.

Luís Dias disse...

Camarada Jorge Araújo

Em primeiro lugar dar-lhe os parabéns pelo seu texto, porque nos transmite a sensação de estarmos presentes no local a visualizar os acontecimentos.

Apenas um pormenor sobre a foto apresentada. As armas ali presentes são uma AK-47 e um RPG 2 e não um RPG 7 (mais evoluído).

Um abraço.

Luís Dias
BCAÇ 3872/CCAÇ3491 (Dulombi/Galomaro)