sábado, 12 de fevereiro de 2011

Guiné 63/74 - P7772: Blogpoesia (112): Quando os ventos sopram em Assuão (Luís Graça)



Lisboa > Estuário do Tejo > 5 de  Fevereiro de 2011 > 19h00 >  Pôr do sol no Atlântico... Pensando em todos os povos de África, em geral, e do Egipto, em particular, em luta pela sua liberdade...


Foto: © Luís Graça (2011). Todos os direitos reservados


Quando os ventos sopram em Assuão
por Luís Graça


Quando os ventos sopram em Assuão
É verão.
Aqui o verão é fértil,
O verão é fútil,
O verão é fértil em coisas fúteis.
O verão é fértil
No Vale do Nilo.
E fútil
Em Abu Simbel.

É no Verão
Que se come melancia
Ao quilo.
Enquanto amadurecem as tâmaras,
Vende-se a cultura a granel
Em folhas de falso papiro:
- Welcome, sejam bem vindos a Assuão!

Senhores do norte,
Em Agosto resiste-se melhor à melancolia
Do entardecer
Em África,
Bem como ao medo das escuras câmaras
Da morte,
Na linha do horizonte,
Abaixo do Trópico de Câncer.

Em Abu Simbel,
O verão é ostentação.
Eu prefiro
Os ostraca
Onde o operário
De Deir el-Medina
Falava da sua condição
De produtor, de artesão,
De construtor de túmulos,
De guardador de segredos,
De malandro e de grevista,
De salteador e de ladrão,
De violador de medos
E de barqueiro de Queronte.

Eu sempre achei que esta estação
Não rimava com poesia.
Mas eu não sou o Ramsés Segundo
Nem conheço o caminho irreversível
Para a imortalidade.

Aqui o verão é fértil
Em coisas fúteis
Como o escriba acocorado
Perante o espectáculo risível
Do mundo globalizado.

Na terra prometida do pão e do mel
Tenham cuidado, meus senhores,
Com os vegetais,
Bebam águas minerais,
Levem dimicina e ultralevure
Por causa dos desarranjos intestinais.
- E o vírus do Nilo ? É mortal ?
- Descanse, minha senhora,
Que o barco tem escolta policial.


Na Ilha Elefantina
Não há manicure,
Há apenas pessoas inúteis
Que adoram subir aos píncaros do verão.
De camelo.
- Sobretudo não tome uísque
Com gelo,

Pode ler-se numa tabuleta
À beira do lago Nasser.
- Meus senhores, estamos em África,
'Be careful'.


Aqui o verão é, por excelência,
O paraíso com o ocre
Como pano de fundo.
O verão é uma casa de adobe
E uma esteira no chão
E os altos muros do deserto
Estrangulando o fio de água da vida.
- Ah, o nascer e o pôr do sol,
Não esquecer de desfrutar
O deus-sol.

Porque o verão no Egipto
É a rosa do mundo.
O misticismo. A demência.
Os calores de Santa Teresa d’Ávila
Em trabalho de múltiplos orgasmos.
No Vale dos Reis.
E das Rainhas.
E dos Nobres.
Esqueçam, por favor,
A mastabas dos pobres:
- Não vêm nos roteiros turísticos!

O verão é o sexo distendido.
O músculo relaxado.
A alma em carne viva.
A praia. O creme Nívea.
O postal ilustrado.
A alegre promiscuidade
Dos cinco sentidos.
O Cairo em três dimensões.
O meu gin tónico com limão.
A carne em decomposição.
O desastre humanitário.
Mais ao fundo a Núbia, o Sudão.
Os dóceis núbios.
As volúpteis núbias.
A tragédia de Darfur.
A louca montanha russa.
O bazar.
A dança do ventre
Dançada por travestis, canastrões.
A mesquita de alabastro.
O mítico mar vermelho.
A Sagrada Família.
Jesus, Maria e José.
O burrinho puxando a nora.
A felicidade a preço de saldo.
O exotismo com molho de bechamel.
O oásis no deserto.
Todos os estereótipos do mundo.
- Tirem uma fotografia digital.
Da varanda do hotel Marriott.

Gostaria de apresentar uma reclamação,
Por escrito, ao senhor vizir:
- Eu estive em Abu Simbel
E experimentei as dificuldades
Da comunicação humana.

O verão é o Vale do Nilo
Um gigantesco falo
Que penetra, fundo,
A terra árida e seca
Da Mãe África.
Gretada, a terra, a carne.
- White women, carne branca.
I Egiptian man, fertility man.
Portugal ? Good, Luís Figo.


Do alto da mesquita de Najaf,
Mais acima no mapa do corpo humano,
Diz o guia, o nosso guia,
Com o coração sangrando
De dor
Pelos seus irmãos,
Xiitas, sunitas, ismaelistas;
Ou do alto das pirâmides de Sakara
Há um imã que te notifica
Por carta registada com aviso de recepção:
- Que a vida eterna te chama
E exige a mortificação, a mumificação.


Recebi hoje correio de Lisboa
Onde a fertilidade da futilidade
É agora um problema de saúde pública.
Um osso duro
De roer.
Tão duro como o granito de Assuão
Donde sopra o vento que modela
O rosto das esfinges.

De Lisboa ao Cairo
Ergo o templo do futuro
Com paragem técnica em Luxor
Para consultar os arquitectos da eternidade.
A antiga Tebas, a cidade das cem portas,
É hoje um pequeno burgo.
E o meu guia, egípcio, brasileiro,
Diz que tem o coração a sangrar.
Marcos chora pelos seus irmãos
De Najaf, no Iraque,
E confidencia:
- Eu nunca poderia trabalhar
Para os meus inimigos e vizinhos de Israel.
Por muito dinheiro que me pagassem.


Tenham santa paciência.
Os pobres. Os diabos.
Os pobres diabos.
Os santos. Os turistas.
Os contribuintes.
Os camponeses.
Os escribas.
Os guias turísticos.
Os romancistas policiais.
Os arqueólogos.
Os caçadores de tesouros.
As esposas dos ricos homens de negócios das arábias.
Os sacerdotes do templo de Kom-Omb
Que eram carecas.
- E sobretudo os pobres.
Porque deles será o reino da terra.


Pobre planeta, sem rei nem roque.
E com tantos súbditos.
Por favor ponham a escrita em dia.
Pesem a alma.
Meçam as bolsas.
Leiam o Livro dos Mortos
Ou A Morte no Nilo,
Que o barco vai zarpar.
- Um oiro um oiro, amigo.
Para o Habibo.
E para o camelo do Habibo.
Óscar, de seu nome.


E o Estado garante
Que não pode ser,
Que não pode mais no futuro
Garantir que é Estado.
E muito menos Estado-Providência.
E pagar o leitinho às criancinhas.
E o funeral aos velhinhos.
E a múmia do faraó.
Deixem isso às madraças
E à caridade em tempo de Ramadão.

Resta-nos a Alta Autoridade do Nilo
Que regula os influxos
E os defluxos dos deuses.
E a exploração do trabalho infantil
Nas escolas-fábricas de tapeçarias
Em Memphis.

Na verdade,
O verão é apenas uma estação.
De comboio.
Do comboio de via estreita
Que vai do nascer ao morrer.
Ou quem diz estação
Diz cais. De chegar. De apodrecer.
Como esta falua do Nilo à beira Tejo
Que é o rio que passa à minha porta.

Sexta-feira, treze
De Agosto.
Dia de azar,
Quer queiram, quer não.
A indústria do lazer, aposto,
Vai ser o principal foco de infecção
Neste pico de verão.
Tenham cuidado com o cão
E com a maldição
Do Faraó Tutankamon.

Morreu a indústria dos metais pesados,
Viva a indústria do lazer.
Leve. Ecológica. De terceira vaga.
Com homologação.
Com certificação.
Com acreditação.
Com exemplos de boas práticas.
Com análises de custo/benefício.

Graças ao lóbi da qualidade
O mundo vai bem melhor.
Que a vida é dura.
E o que a gente faz para ganhá-la.
Como o búfalo que pasta
Nas margens do Nilo.
Como qualquer búfalo domesticado
Depois de trabalhar o dia inteiro
Para o seu suserano,
O camponês egípcio.
Que por sua vez alimenta
O Faraó e as suas esposas e concubinas,
O seu exército, a sua polícia núbia
E a legião de escribas
Que têm o monopólio da escrita.
E do saber.
E os engenheiros da barragem de Assuão.

Hoje as partes pudendas,
A zona púbica,
A coisa pia
Do Portugal contemporâneo
Vai ser matéria de alto relevo
Na televisão.
Diz o Eça, o escriba acocorado,
Em missão de reportagem
Na inauguração do Canal do Suez.

Já não temos rei.
Nem o tique aristocrático
Do beija-mão.
Nem o Conde de Burnay
Nem faraó. Nem deuses. Agora é
A república quem mais ordena.
Senão popular, pelo menos populista.
A coisa pia mais fino
No Portugal pequenino
Mas democrático.

Imagino.
Sem imagem nem voz.
Porque estou em férias
Num cruzeiro do Nilo.
A observar o elegante voo da garça.
- Onde estará o pelicano ?
E a cegonha preta ?
E os filhos ilegítimos do povo ?


No barco não apanho
A RTP, felizmente de todos nós.
Nem sei se o Porto perdeu na supertaça
E o Obikwelo ganhou
A medalha de prata dos 100 metros
Nas Olimpíadas de Atenas.
- Turco, grego, tunisino ?
Espanhol, italiano, palestino ?
- Não, português !
- Ah!, Portugal, Luís Figo! Compra, amigo.
- Quanto, quanto ? Dez nove oito sete seis cinco.
Quatro três dois, um!
- É só um oiro, amigo.
Que o Habibo tem fome mais o camelo.


Maria do Patrocínio
Minha avó materna.
Lembrei-me de ti, Tia Patxina.
Patxina, de alcunha,
Uma alcunha tão terna,
De ressonâncias bascas.
Nunca foste rainha,
Nunca te chamariam Hatshepstut,
Nem te construiriam o templo
Mais belo do mundo
Na aldeia do Nadrupe.
Morreste cega,
Sem hieroglifos gravados na estela,
Tia Patxina,
Apalpando os netos
O cabelo a cara.
E não te mumificaram
Nem muito menos te operaram
Que no teu tempo
As obras de misericórdia
Eram sete espirituais
E sete corporais.
Como no Egipto dos faraós.
Como as pragas do Egipto.
Como nesta triste aldeia núbia
Que é uma espécie de reserva dos índios
Cá do sítio.
Com crocodilos de plástico
E pretos garanhões de olhos verdes.
E onde há uma velhota
Cega como tu, minha avó,
Que vende bugigangas pró turista.

De Assuão a Luxor
Eu gostaria de ter escrito
Um poema sobre os meus estados de alma.
Tão contraditórios que se anulam.
A verdade é que encontrei aqui
Um povo afável.
Mas que me adianta o pedigree
E os cinco milénios de civilização
E o templo de Edfu
Se nada nudou na minha condição
De burro carrejão ?

Sopra o vento dessecante.
Estou em Assuão.
Nos píncaros do verão.

Egipto, 22-28 de Agosto de 2004.
Portugal, verão de 2004.
Revisto em Setembro de 2007.

Publicado originalmente em 7 de Outubro de 2005 > Luís Graça > Blogpoesia  
______________


Nota de L.G.:


Último poste desta série > 9 de Fevereiro de 2011 > Guiné 63/74 - P7749: Blogpoesia (111): Enquanto vir a palavra Guiné num braço tatuada... (Jorge Cabral)

Guiné 63/74 - P7771: Memória dos lugares (136): Bedanda vista por António Teixeira, ex-Alf Mil da CCAÇ 6 (1971/73) (1)

1. Mensagem de António Teixeira* (ex-Alf Mil da CCAÇ 3459/BCAÇ 3863 - Teixeira Pinto, e CCAÇ 6 - Bedanda; 1971/73), com data de 11 de Fevereiro de 2011:

Boa noite
Cá vão mais algumas fotos daqueles tempos idos, tirados "nha terra di no parente"

Sendo Bedanda uma localidade fácilmente acessível por via marítima, sobretudo graças aos caudais dos rios Cumbijã e do seu afluente Ungauriuol  (creio que é esta a forma correcta de se escrever, ou pelo menos é assim que aparece na carta militar), e que inclusivamente tinha um pseudo cais com acesso ao povoado, era natural que esse recurso fosse utilizado quer para reabastecimento da população e do aquartelamento, quer para escoamento dos produtos da terra, que praticamente se resumia à bianda.

Também era usado como meio de transporte para a população de e para Bissau.
Esse abastecimento era efectuado uma vez por mês, e o dia da chegada dos barcos era feriado local, ou dia de ronco como eles diziam.
Claro que um comboio marítimo de tamanha envergadura (ainda eram quatro ou cinco barcos civis), tornava-se absolutamente indispensável uma escolta que era efectuada pelos Fuzileiros Navais com as LDM's e com alguns sintexs.
Assim, quer no dia da chegada, quer no dia da partida, era também necessário um patrulhamento às margens do rio, para a segurança do comboio, patrulhamento esse que estava a nosso cargo, havendo também segurança aérea.

E preciso também referir que Bedanda estava dividida em dois polos distintos (geográficamente falando), estando a nascente o aquartelamento da CCaç 6 e uma tabanca, e a poente a povoação com duas ou três casas comerciais que disponibilizavam à povoação alguns géneros alimenticios, assim como diversos materiais de construção. No meio desses dois polos, estava a pista de aviação. De referir que no polo a poente existia um destacamento de um pelotão da companhia, e era por isso que todos chamávamos a esse local, o Pelotão. Era precisamente junto ao Pelotão que os barcos atracavam e onde se mantinham durante os quatro ou cinco dias necessários para toda essa operação.

As fotos que vos envio hoje são todas relativas ao que aqui está exposto.

PS: - Creio que neste caso não será necessário legendas para as fotos.
No entanto gostaria só de salentar que na foto B144 está o "Pelotão", onde se pode ver algumas das casas comerciais.
Na foto B37 estou eu e o meu grupo depois da chegada do patrulhamento aos barcos. Atrás de mim está o sempre fiel Aliú Djaló, que nunca me largava e na ponta esquerda, em pé, o Cabo Fernando, um dos melhores guerrilheiros e pisteiros que conheci (era práticamente o meu braço direito).
Na B105, quem aparece em primeiro plano é o cabo enfermeiro, que lamentávelmente não me lembro o nome ( se alguém me puder ajudar).
Na foto B114, ao meu lado (lado esquerdo na foto) está um Furriel do meu grupo que também não me lembro o nome. Sei que é de Setúbal (aparece novamente na foto B115). O outo é o cabo das transmissões. Na foto B119 pode ver-se bem a protecção aérea.

Um grande abraço para todos
António Teixeira


Localização de Bedanda. À esquerda da figura, na direcção Norte/Sul, situa-se a estrada Catió/Buba.

Foto B8

Foto B9

Foto B11

Foto B37

Foto B105

Foto B106

Foto B107

Foto B108

Foto B109

Fotos: © António Teixeira (2011). Direitos reservados.

Nota do editor:
Em próximo poste serão publicadas as 9 restantes fotografias enviadas pelo camarada António Teixeira, referenciadas na sua mensagem.
____________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 6 de Fevereiro de 2011 > Guiné 63/74 - P7732: Memória dos lugares (134): Algumas fotos da minha breve passagem pelo Pelundo (António Teixeira)

Vd. último poste da série de 10 de Fevereiro de 2011 > Guiné 63/74 - P7761: Memória dos lugares (135): Bedanda, do tempo da malta da CCAÇ 6 - 1972/73 (2) (Vasco Santos)

Guiné 63/74 - P7770: Tabanca Grande (267): Os 4 magníficos da CART 1690: Alfredo Reis, António Moreira, Domingos Maçarico e A. Marques Lopes


Lisboa > Jantar de Natal 2007 > Os quatro magníficos da CART 1690, todos eles alferes milicianos... Ao fundo, estão o Domingos Maçarico, à esquerda, e o Alfredo Reis, à direita. Em primeiro plano, está o António Moreira, à esquerda, e o António Marques Lopes, à direita. Pela colaboração com o nosso blogue, o Alfredo Reis e o António Moreira já há muito que deviam figurar na lista dos membros da nossa Tabanca Grande, a partir do histórico A. Marques Lopes e do Domingos Maçarico... Esse lapso já foi corrigido, fazendo-se justiça... Comos quatro agora juntos, a CART 1690 faz o pleno em matéria de alferes milicianos... (LG)


Foto: © A. Marques Lopes (2007). Todos os direitos reservados.


1. Volta aqui a reeproduzir-se a mensagem, de Janeiro de 2008,  do nosso querido camarigo  A. Marques Lopes, ex- Alf Mil At Inf, CART 1690 (Geba) / CCAÇ 3 (Barro) (1967/69) (*): 


Caros camaradas:

Tenho-vos falado muitas vezes da CART 1690, sobre a qual há alguns postes no blogue da Tabanca Grande. Já fiz também referência aos alferes que por ela passaram. Mas quero, agora, falar-vos mais em pormenor destes gloriosos alferes, que é como nós próprios nos designamos, porque a nossa glória é continuarmos juntos. É bom que os conheçam pessoalmente. Aqui estão eles, num jantar do Natal de 2007, em Lisboa:

(i) O Domingos Maçarico (ainda um parente afastado do Luís Graça...), nascido na Praia de Mira, é engenheiro agrónomo e membro da Administração do Grupo Espírito Santo;

(ii) o Alfredo Reis, de Santarém, é veterinário e está reformado (embora pratique ainda);

(iii) o António Moreira, de Idanha-a-Nova, é advogado em Torres Vedras e [fez parte, no triénio de 2008/2010] do Conselho Geral da Ordem dos Advogados;

(iv) o A. Marques Lopes é, como sabem, coronel reformado [, fazendo parte dos primeiros cinco primeiros membros da nossa tertúlia, hoje Tabanca Grande: eu, o Sousa de Castro, o Humberto Reis, o A. Marques Lopes e o David Guimarães, por esta ordem cronológica]...

Como todos, também temos a nossa história.

Jovens e estudantes - o Domingos Maçarico no, então, Instituto de Agronomia de Lisboa (conheceu lá o Pepito), o Alfredo Reis no Instituto de Veterinária de Lisboa, também assim chamado então, o António Moreira na Faculdade de Direito de Lisboa e o A. Marques Lopes na Faculdade de Letras de Lisboa - fomos apanhados para frequentar, em Janeiro de 1966, o Curso de Oficiais Milicianos,  em Mafra.

De lá saímos, em Julho desse ano, como Atiradores de Infantaria. Andanças por vários lados, a seguir (Lamego, Amadora...), e tornámos a encontrar-nos no RALIS (Regimento de Artilharia de Lisboa), que nos mobilizou para a Guiné, a 4 de Dezembro de 1966.

De 6 de Dezembro deste ano a 23 de Fevereiro de 1967 estivemos no GAGA2 (Grupo de Artilharia Contra Aeronaves n.º 2) a dar a especialidade aos soldados da que foi designada CART 1690, e que foram connosco para a Guiné.

Passámos, depois, pelo RAC (Regimento de Artilharia de Costa) de Oeiras, Carregueira, IAO... e embarcámos em 8 de Abril. Mas, antes, grandes patuscadas e farras tivemos juntos nos bares e baiúcas de Lisboa, acompanhados pelo capitão da companhia, o Guimarães [morto aos 29 na estrada de Geba-Banjara ...] Nessa fase cimentou-se a nossa amizade.

Desembarcados do Ana Mafalda  para LDG, começou a Guiné, rio Geba acima. E ficámos em Geba. Eu fiquei na sede da companhia, às ordens do capitão e do Comando do Agrupamento. Eles foram distribuídos pelos destacamentos, por onde também passei, mas por pouco tempo. Já há coisas no blogue sobre Geba.

Em 21 de Agosto de 1967, fui ferido na estrada de Geba para Banjara e fui, uma semana depois, evacuado para o HMP, em Lisboa. O Domingos Maçarico foi ferido em 21 de Setembro de 1967, sendo igualmente evacuado para o HMP. O Alfredo Reis foi ferido na mesma altura, mas esteve apenas vários dias no hospital em Bissau. O António Moreira nunca foi ferido. Ele e o Reis estiveram sempre na companhia, em Geba e destacamentos, até Outubro de 1968.

O Maçarico não voltou à Guiné. Eu voltei em Maio de 1968, mas fui colocado na CCAÇ 3, em Barro.

Depois da minha evacuação para o HMP, fui substituído na companhia pelo alferes Fernando da Costa Fernandes, que foi dado como desaparecido em campanha em 19 de Dezembro de 1967, durante a operação Invisível em Sinchã Jobel: O alferes Fernandes foi, depois, substituído pelo alferes Carlos Alberto Trindade Peixoto, que foi morto em 8 de Setembro de 1968, durante um ataque ao destacamento de Sare Banda.

O Domingos Maçarico, depois de evacuado, foi substituído pelo alferes Orlando Joé Ribeiro Lourenço. Este voltou à metrópole são e salvo, mas nunca alinhou, nem nos encontros da companhia.

Somos nós os quatro, os sobreviventes, como também dizemos, que nos mantemos unidos entre nós e com os elementos da companhia. Com alguns intervalos, e eu explico a seguir.

Entre 1969 e 1974, os meus amigos e camaradas que estão comigo na fotografia, dedicaram-se a acabar os seus cursos e, depois, à vida pofissional, mantendo, embora, contactos entre si. Mas eu estive afastado deles durante esses anos, pois decidi afastar-me de qualquer actividade normal e pública, não os podendo contactar (é outra história que não cabe aqui).

A seguir ao 25 de Abril, foi o Maçarico que esteve afastado, pois acompanhou a família Espírito Santo quando eles foram para o Brasil. E, nesses primeiros anos após a revolução, também eu andei afastado, devido ao meu empenhamento nessa fase.

Mas, passado tudo isso, há cerca de trinta anos que estes quatro ex-alferes, camaradas e amigos na Guiné, e antes dela, se encontram pelo menos quatro vezes por ano, além dos encontros da companhia. Temos ideias muito diferentes sobre certas coisas, cada um disparando, agora, para seu lado, mas a amizade cimentada na juventude e na guerra mantém-se e está acima de tudo.

Queria dizer-vos isto, porque penso que, no nosso blogue, deve-nos unir o que vivemos e passámos, e vão a amizade e a compreensão.

Abraço

A. Marques Lopes




Letra da canção vencedora do Festival da Canção RTP, em 1967, interpretada por Eduardo Nascimento... Na CART 1690  (Geba, 1967/69),  tão duramente castigada pela guerra, cultivava-se a irreverência e o humor negro... Este documento, que me foi enviado, pelo A. Marques Lopes, é um bom exemplo do humor de caserna...

Fonte: © A. Marques Lopes (2007). Todos os direitos reservados.


2. Comentário de L.G.:

Meu caro António: Preciso dos endereços de e-mail dos nossos novos camarigos... A actualização da  lista de membros da nossa Tabanca Grande, com a inclusão dos seus nomes, é um acto de justiça que peca por tardia... Mas quero que todos saibam quanto eu aprecio este exemplo, raro, de 4 amigos que se transformaram em camarigos e que continuam a juntar-se, todos os anos, tendo a Guiné como traço de união, e cuja camarigagem resiste aos altos e baixos da vida e supera as naturais divergências de opinião,  político-ideológicas ou outras, que possam existir (e existem) entre eles... Um Alfa Bravo do tamanho do Rio Geba para vocês quatro.
 ___________________

Nota de L.G.:

(*) Vd. poste de 10 de Janeiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2424: Álbum das Glórias (37): Os alferes da CART 1690 ou uma estória de amizade e camaradagem a toda a prova (A. Marques Lopes)


Último poste da série > 9 de Fevereiro de 2011 > Guiné 63/74 - P7747: Tabanca Grande (266): Nuno Dempster, autor do poema K3, agora publicado em livro, ex-Fur Mil SAM, CCAÇ 1792 (Saliquinhedim/K3, Mampatá, Colibuía e Aldeia Formosa, 1967/69)

Guiné 63/74 - P7769: Notas de leitura (202): Política Cultural Portuguesa Em África O Caso da Guiné-Bissau, de Mário Matos e Lemos (Mário Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 10 de Fevereiro de 2011:

Queridos amigos,
Importa reconhecer a experiência de Mário Matos e Lemos no domínio cultural e o seu profundo conhecimento do meio, na Guiné-Bissau é indissociável a leitura do sociocultural com o sociopolítico. Profundamente atento à lógica de funcionamento do PAIGC parece, no entanto, que ele não confere importância à real assunção do poder militar a partir dos anos 80.
Foi um poder que se autonomizou e que hoje é o maior perigo para a democracia guineense.

Um abraço do
Mário


O conflito político-militar de 1998-1999, segundo Mário Matos e Lemos

Beja Santos

Jornalista, colaborador televisivo, conselheiro de imprensa em Roma e Moscovo, conselheiro cultural e director do Centro Cultural Português de Bissau entre 1985 e 1998, Mário Matos e Lemos, como se escreveu anteriormente, dedicou um livro à política cultural portuguesa em África, analisando única e exclusivamente a Guiné-Bissau (edição de autor, 1999). Acontece que no termo desta obra Mário Matos e Lemos procura dar uma explicação para os acontecimentos em torno do golpe militar de Junho de 1998.

Conhecedor das realidades políticas, observador qualificado das realidades da Guiné-Bissau, o que escreve é digno de ponderação e deve ficar exarado como análise da melhor bibliografia desses acontecimentos.
Começa por referir, em pano de fundo, o descontentamento da população e particularmente dos antigos combatentes, cada menos mais marginalizados e triturados pela carestia de vida. Dentro desse esforço de análise, comenta que a história do PAIGC é também um encadeado de lutas internas, com a desmesura de rivalidades, étnicas, pessoais, acrescendo a psicose do “inimigo interno”, que se expressou nos fuzilamentos em massa. Segundo o autor, o problema das chefias balantas já era notório no I Congresso do PAIGC, em Cassacá (1964) e daí se pode compreender as intentonas e a paranóia da perseguição que conduziram ao “caso do 17 de Outubro de 1985”, com a prisão e depois a execução de altos dirigentes. Este último golpe teria conduzido à união da chefia militar enquanto na sociedade civil se assistia a um processo de liberalização política e à reafirmação de valores ancestrais, como o caso da recuperação dos chefes tradicionais.

Nas eleições legislativas de 1994, o PAIGC teve menos votos que a oposição mas graças ao método de Hondt teve mais deputados; nas eleições presidenciais, Nino Vieira precisou de ir à segunda volta derrotou por escassa maioria Kumba Ialá. A turbulência dos acontecimentos acentuou as divergências dentro do próprio PAIGC, formaram-se duas alas antagónicas capitaneadas por Manuel Saturnino da Costa e Malã Bacai Sanhá, irão ser tempos em que, graças ao aparecimento da imprensa livre, a população irá tendo conhecimento de histórias espectaculares de corrupção, registar-se-ão manifestações violentas de estudantes liceais, com a derrisão do poder Saturnino Costa será demitido, isto enquanto se agravaram os confrontos entre os dissidentes do Casamansa e as tropas regulares do Senegal. Nem o Governo de Carlos Correia conseguiu aplacar a fúria dos antigos combatentes que passaram a reivindicar a moralização do país e insinuaram publicamente que podiam vir para rua para protestar contra a nova classe política que se locupletava com os dinheiros públicos para os seus negócios privados. Assim se chegou à demissão de Ansumane Mané, acusado de estar envolvido no tráfico de armas para o Casamansa, acontecimentos que foram tornados públicos depois da realização do VI Congresso do PAIGC em que as facções estiveram claramente em confronto.

Em Junho de 1998, o brigadeiro Ansumane Mané, fortalecido pelos apoios que recebera por parte dos combatentes, iniciou a revolta que parecia, segundo a opinião dos comentadores, ser-lhe totalmente desfavorável. Apelando à ajuda internacional, Nino Vieira veio dividir os guineenses e introduzir nova perturbação grave no tabuleiro político da África Ocidental, já turvado pelas relações deterioradas entre a Gâmbia e o Senegal, pela interferência dos líbios, pelos desejos hegemónicos do Senegal enquanto os rebeldes do Casamansa apareciam nitidamente em apoio da Junta Militar, isto para já não falar numa Guiné-Conacri que temia consequências internas do descontentamento em Bissau.

Esta análise de Mário Matos e Lemos foi escrita em Outubro de 1998 e a experiência encarregou-se de demonstrar que o mosaico político-militar da Guiné-Bissau era muito mais complexo do que a leitura que ele fez e que as previsões apresentadas não foram sustentadas pelos novos factos.

Com efeito, sendo verdade que o PAIGC entrara numa luta de facções e que se desacreditara aos olhos do povo pela intensidade da corrupção e do clientelismo, não foi menos verdade que o poder militar a partir de 1980 deixou de estar disciplinado pelo poder político, era esta a doutrina de Amílcar Cabral desde a primeira hora da luta: quem decide são os políticos, toda a lógica da intervenção militar é determinada pelos interesses do Estado e não por reivindicações de classe. Por razões históricas, a partir desses anos 80 os antigos combatentes verificaram que a nova classe política não satisfazia nenhuma das suas reivindicações, os quadros técnicos decidiam indiferentes da sorte de todos aqueles que tinham andado na luta armada.

Cavara-se a separação entre os militares e a classe política, hoje claramente pronunciada. O jogo tribal continua a ser muito influente: Nino foi inicialmente um fiel da balança entre as principais etnias, conduziu a perseguição demencial aos balantas, depois, politicamente enfraquecido na opinião pública e no interior do PAIGC, procurou dinamitar o prestígio de Ansumane Mané, numa altura em que o descontentamento militar superava as razões étnicas. Não terá sido por acaso que pela primeira e única vez depois da independência o povo guineense juntou-se agressivamente para derrotar os exércitos estrangeiros. A continuação da degradação económica levou os militares a promoverem os seus próprios interesses e é hoje público e notório que são eles quem beneficiam e quem orientam, maioritariamente, o negócio da droga, neutralizando ou intimidando o governo legítimo.

Os militares em 1998 já constituíam uma coligação corporativa, já desprezavam os políticos e os partidos. É bom não esquecer que Nino Vieira conheceu a sua última vitória aliado a um partido que se sabia ter sido criado pelos narcotraficantes que se juntaram para o efeito. Mas não existe um documento credível quanto a essa aliança nefanda nem se conhece um qualquer estudo sobre os efeitos dessa coligação dos narcotraficantes com Nino, à luz dos acontecimentos dos últimos anos. O que se sabe é que as altas chefias militares ajustam contas entre si como os gangues de Chicago, intimidam notoriamente o poder político legítimo, vivem à margem da lei.
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 10 de Fevereiro de 2011 > Guiné 63/74 - P7758: Notas de leitura (201): Política Cultural Portuguesa Em África O Caso da Guiné-Bissau, de Mário Matos e Lemos (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P7768: (Ex)citações (131): Saudades de quê ?... Será que sou masoquista ?... E por que é que leio o raio deste blogue e até faço comentários? (C. Martins)

1. Do nosso leitor e camarada C. Martins, ex-Alf Mil Art (que esteve em Gadamael),  e que voltou à Guiné duas vezes, como médico e cooperante,  comentário do dia 10 ao poste P7757 (*)

 Eu também não sei... e da juventude... sim e não. Saudades do calor sufocante, da fome e sede, da trinca de arroz com "estilhaços" semanas seguidas, da água da bolanha, das emboscadas e flagelações ao quartel, das minas, da micose, da imbecilidade de alguns com muitos galões nos ombros, da diarreia e do paludismo, do Old Parr que por acaso nunca faltou,...saudades disto.. não,  obrigado. Então porque é que já lá voltei duas vezes... será que sou masoquista?

Olhar para as águas do Corubal no Cheche e lembrar em silêncio os mortos,  limpando discretamente as lágrimas que me corriam pela face, e o gozo, sim o gozo,  que me deu percorrer a picada Guilege-Gadamael ( ex-corredor da morte) e admirar a paisagem sabendo que ninguém me ia dar um tiro... será que sou masoquista?... Acho que não sou...então porque será ?

AH !! E PORQUE QUE É QUE LEIO O "RAIO" DESTE BLOG E ATÉ FAÇO COMENTÁRIOS ? !

Se alguém souber, por favor, diga-me.
C. Martins

[Revisão / fixação de texto / título: L.G.]
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Nota de L.G.:

(*) Vd. poste de 10 de Fevereiro de 2011 Guiné 63/74 - P7757: (Ex)citações (130): A saudade imprecisa de África ou... não sei se tenho saudades da Guiné, se da minha juventude (Nuno Dempster)

(...) Pergunto-me muitas vezes se tenho saudades da Guiné, se da minha juventude. Creio que a juventude é inseparável do cenário real por onde andamos. Com a dúvida de me perguntar, chamo no poema a essa saudade a saudade imprecisa de África. (...)

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Guiné 63/74 - P7767: Memórias de Mansabá (14): Uma ida ao Morés (Ernesto Duarte)

1. Para as suas Memórias de Mansabá, o nosso camarada Ernesto Duarte (ex-Fur Mil da CCAÇ 1421/BCAÇ 1857, Mansabá, 1965/67), em mensagem de 8 de Fevereiro de 2011, manda-nos o relato de uma ida ao Morés.


MEMÓRIAS DE MANSABÁ (14)

UMA IDA AO MORÉS

O tempo continua a passar com uma lentidão impressionante, estamos mais frios, mais autómatos, a Companhia foi uma Unidade disciplinada, reagindo em bloco ao mais pequeno sinal, uma pequenina excepção ou outra mas sem significado.

E continuando voltado para Morés, fomos muitas vezes, fazer emboscadas, patrulhamentos, operações ou golpes de mão, capinar a estrada de Bissorâ desde o Morés para Mansabá, provocar porque sabíamos que havia ali tanta gente.

 Localização da tabanca do Morés

É em mais uma ida a Cai, mais uma noite de água e mosquitos, um cansaço enorme, só quem por lá andou (Guiné) faz uma ideia, uma progressão por aquela mata, tão agressiva, um encontro, um potencial enorme mostrado por eles, começávamos a ter a noção que o potencial inicial era sempre mais forte, eles calaram-se começamos a procurar a zona, já de costas para Morés, à direita da Companhia eu e mais meia dúzia de camaradas procurávamos, naquelas tabanquinhas, que formavam a casa de mato, uns tiros, atirei-me para o chão, vi que o mesmo mexia à minha frente e para a minha direita, dei uma volta sobre mim, para a minha esquerda, um individuo que está um pouco à minha frente começa a dizer "acertei-lhe, acertei-lhe, apanhei-o". Levantei-me sem muita pressa, veio um camarada ter comigo dizer-me que tinha as cartucheiras no chão, apanhei-as. Ficámos a olhar, a tentar perceber porque é que as cartucheiras tinham caído, senti assim como que umas picadas do lado direito, joguei a mão e a mesma veio cheia de sangue, aproximaram-se mais uns quantos e chegamos à conclusão de que as cartucheiras tinham sido atingidas e que tinham sido os micro pedaços do carregador que me tinham ferido o lado direito.

Para mim, senti uma sensação muito boa e a necessidade de dizer muitas vezes: obrigado, obrigado.

Já na bolanha de Mansabá, encontrei o Capitão que me disse com aquele ar de militar muito sério:

- Desiludiste-me, nem sabes cair. Quero o auto de abatimento de material feito imediatamente.

Respondi que primeiro ia pedir a minha evacuação.

Morés.  Uma ida em grande.
A Companhia mais um grupo de Comandos e muitos carregadores com imenso material. Ao começar o raiar da Aurora, com a progressão a efectuar-se, a nossa artilharia começa a despejar para a nossa frente, continuamente. Aquele assobio, o rebentamento, e nós vamos, vamos obedientes, cheios de força e fé pela maldita mata, tem-se as caras feridas, a artilharia pára. Estamos numa zona de pequenas bolanhas com muitas cibes, há tiros, muitos, há morteiradas, muitas, mas é preciso retirar. Foi uma coboiada no melhor sentido. Era preciso tirar de lá o IN porque de Bissorã tinha vindo a CCAÇ 1419, e do Olossato a CART 1486, "Os Lobos". Já se tinha repetido antes, nos mesmos moldes, com êxito apreciável. Esta ida parece ter feito grandes estragos também. Ainda se repetiram no meu tempo mais duas ou três vezes, não com tanto aparato, mas com êxitos apreciáveis. Numa delas, Os Lobos capturaram mesmo muito material.

Vou-me voltar para o lado de Manhau.

Tudo isto está intercalado, um dia para Cutia, outro para Bijine, outro para Gendo, e sempre, sempre com intervalos muito curtos.

Cumprimentos
Ernesto Duarte
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 10 de Fevereiro de 2011 > Guiné 63/74 - P7760: Memórias de Mansabá (2): A bajuda e as colunas para Manhau (Ernesto Duarte)

Guiné 63/74 - P7766: Memórias boas da minha guerra (José Ferreira da Silva) (12): Uma madrinha de guerra

1. Mensagem José Ferreira da Silva (ex-Fur Mil Op Esp da CART 1689/BART 1913, , Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69), com data de 9 de Fevereiro de 2011:

Caros Camaradas
Gostaria de prestar a minha homenagem a todas as Madrinhas de Guerra.
Sem elas, a guerra teria sido diferente e, seguramente, mais desastrosa. Elas foram o conforto e a esperança, o carinho e o amor que nos acompanhou, nas horas mais difíceis das nossas vidas. Por isso, devemos-lhes uma gratidão desmedida.
A história que hoje junto, parece estranha mas foi verídica. Esta madrinha teria hoje cerca de 110 anos! Todavia, por razões óbvias e por respeito aos seus familiares, substitui-lhe parcialmente  o nome.

A todas as Madrinhas de Guerra, um abraço com toda a gratidão do
Silva da Cart 1689


Memórias boas da minha guerra (12)

Uma Madrinha de guerra

Aproximava-se o fatídico dia 26 de Abril de 1967.

O destino estava traçado e o medo parecia aumentar à medida que essa data estava mais próxima. Constava que a guerra na província da Guiné estava cada vez pior.

Vivíamos sob a ditadura de Salazar. A comunicação social era controlada e só éramos informados sobre aquilo que o regime permitia. Ora isso era muito pouco, as cartas eram censuradas, os militares que regressavam temiam a PIDE e receavam falar sobre as experiências vividas. Por outro lado, notava-se uma certa preocupação em abafar e amenizar o assunto, para bem das famílias. É que se tinha já chegado ao ponto de as vilas e aldeias terem visto chegar as caixas de pinho com os seus “soldadinhos”, como lembrado nas baladas do Zeca Afonso. A agravar isto, havia cada vez mais feridos nos hospitais e aumentavam os deficientes mutilados. Claro que os meninos ricos, em dinheiro ou em poder, safavam-se devido a influências ou à fuga para o estrangeiro. (Muitos foram, mais tarde, anti-fascistas).

Os mobilizados viviam já num ambiente totalmente diferente do habitual: por um lado, era evidente o desenvolvimento das paixões, do carinho e da simpatia de toda a gente que lhes era próxima, mas, por outro, viam-se afastados pelas jovens que não se queriam comprometer com um possível “condenado”.

É assim que se acentua o relacionamento baseado em correspondência entre os militares e as madrinhas de guerra. Esta prática foi muito incentivada pelas associações religiosas (católicas) e pelo MNF- Movimento Nacional Feminino.

Penso que ninguém é capaz de descrever com realismo a importância de que se revestia o facto de recebermos cartas da Metrópole. O correio era o elo que mantinha o sentido racional e moralizador de todos os militares. Assisti a situações dramáticas relacionadas com as notícias recebidas ou a ausência delas.

Havia uma excepção que muito me admirava. Era o caso do Feliciano de Santa Maria da Feira que raramente recebia correspondência e que várias vezes, talvez por sermos do mesmo concelho, me perguntava se eu conhecia alguma vizinha que quisesse ser sua madrinha de guerra.

Castelo de Santa Maria da Feira

Curiosamente, eu conhecia uma vizinha que gostaria imenso de ter um afilhado. Ela também me havia pedido isso.

Inicialmente não dei grande importância a este pedido mas, depois de notar a necessidade do Feliciano, vi uma oportunidade de se satisfazerem os dois desejos. Todavia, devo confessar que não sentia vontade alguma em “oferecer” a Idalina Crista a um dos meus camaradas militares. E porquê?

Penso que o facto de a Idalina ter apenso o apelido de Crista, se devia mais à sua atitude de permanente crispação e arrogância do que a um prémio à sua religiosidade, apesar de, pelo apelido, parecer concluir-se da existência de parentesco com o Salvador do Mundo, o que muito a envaidecia. Não saía da igreja. Era uma beata assumida, que aproveitava todos os momentos para defender a Igreja Católica e combater ostensivamente quem não acreditasse nos seus princípios e dogmas. Era solteira e, seguramente, ainda virgem. O seu aspecto não cativava ninguém. Teria mais de 65 anos, pernas muito arqueadas e escondidas com meias escuras e saia comprida. Esticava os cabelos lisos e grisalhos, arranjados em carrapito. que segurava na nuca e que cobria com um lenço também escuro. Não cortava os pelos do bigode (tipo chinês) nem os da verruga, perto do queixo. Faltavam-lhe já muitos dentes, mas mantinha bem visíveis dois incisivos em cima e dois em baixo, que se encaixavam perfeitamente. Não se lhe notavam seios nem curvas no corpo. Parecia uma tábua lisa. Usava sempre sapatos fechados, tipo homem. De altura teria, incluindo o carrapito do cabelo, cerca de um metro e meio. Sobrancelhas tipo Álvaro Cunhal, encimadas nos óculos de fundo de garrafa bem assentes numa penca avançada.

No dizer do vizinho Néquita era, realmente, uma carcaça de primeira. Segundo a minha sobrinha Margarida, só lhe faltava o chapéu e a vassoura para ser a bruxa má!…

Ela não tinha culpa de a beleza não lhe ter sido atribuída. E, possivelmente, também não a teve quando não foi aceite para fazer os seus votos de castidade numa irmandade de freirinhas descalças (?).

Tinha imensas razões para viver triste e complexada. Porém, ela não o mostrava e, contrariamente, vivia exuberantemente a sua devoção, a sua vaidade e o seu orgulho através das suas actividades religiosas. Digamos mesmo que ela merecia alguma compensação do Deus a quem tanto se dedicava.

O Feliciano era bom moço, muito alto e desengonçado, um tanto gago, ingénuo e pouco atraente. Claro que merecia melhor mas para o fim em questão, nada o iria prejudicar. Tive ainda o cuidado de lhe dizer que ela já não era jovem. E ele, perguntou:

– Tem mais de trinta? Acenei-lhe afirmativamente, ao que ele acrescentou que não tinha problema. E, como sempre acreditei que a Idalina Crista não lhe enviaria fotografias, resolvi dar-lhe o endereço.

Dois meses depois, era notório que o rapaz andava muito mais animado. E fazia-me várias perguntas sobre a Idalina Crista. – Que tal é a Idalina? Que relacionamento tínhamos? Se era boa rapariga? Etc., etc. Sem procurar entusiasmá-lo, lá lhe fui dizendo meias verdades para não prejudicar esse saudável e santo relacionamento.

O tempo ia passando e eu via o Feliciano cada vez mais ligado à Idalina. Ele ainda não tinha recebido qualquer fotografia dela mas trazia no bolso as santas imagens que ela lhe mandava, desde a Senhora de Fátima à Sta. Teresinha do Menino Jesus. Parecia uma criança a coleccionar os cromos da bola. O curioso é que ele, conhecendo a minha posição pouco entusiasta sobre essas causas religiosas, passou a evitar-me parcialmente. Eu não me preocupava, porque o que queria era que ele se sentisse bem.

Já faltavam poucos meses para regressarmos e eu começava a preocupar-me com o desfecho daquela paixoneta, que eu, afinal, causara.

Quando o Feliciano me perguntou como se ia para casa dela, senti um calafrio. Estávamos a um mês do regresso e eu ainda não sabia como havia de desatar esse nó. Mas tinha que começar a “desmontar” a relação. Mostrei interesse em saber como estavam as coisas e perguntei-lhe se ela lhe tinha mandado alguma foto. Ele disse que não e que até não estava muito contente com ela porque lhe tinha pedido fotografias e ela lhe mandava santinhos. Já tinha mais de 5 gravuras da Senhora de Fátima com os três pastorinhos. E que quando lhe pediu uma foto na praia ela lhe mandou uma da irmã Lúcia, vestida de freira. Mostrei-me surpreendido e aproveitei, então, para lhe dar razão e dizer que ela não precisava de se portar assim. Prometi-lhe que iria saber o que se passava.

Pouco mais de uma semana depois procurei-o para lhe dizer umas novidades. Apercebi-me de que a correspondência entre eles havia refreado um pouco, devido à não satisfação do pedido da foto.

- Oh Feliciano, tenho muita pena mas, por aquilo que me dizem, a Idalina anda embeiçada com um sobrinho de um tal Padre Inácio, que está a viver com ele na residência paroquial. E continuei: – Não sei se tem notado alguma coisa, mas ela agora deve estar a aproveitar esse relacionamento mais próximo. No entanto, ela não o quer magoar a si e vai mantendo a correspondência ou, então, está a aproveitar para fazer ciúmes a alguém.

Ele ouviu atentamente e disse:

– Pensei sempre que ela era uma rapariga séria e até acreditei no namoro mas, à medida que íamos avançando, ela não deu “chances”. Já há uns tempos que ando a matutar que ainda não é aquela que vai ser a minha mulher.

Já faltavam poucos dias para o regresso e o Feliciano disse-me:

- Oh Silva, se calhar não vou ver a Idalina porque afinal, as mulheres são todas iguais e as que andam pela igreja, às vezes, são as piores.

Logo que cheguei da Guiné dei, de repente, com a Sra. Idalina, que me veio perguntar pelo Feliciano. Fiquei de boca aberta quando a vi toda recauchutada, que nem parecia a mesma. Tinha o cabelo armado, barba feita a rigor, verruga disfarçada como se fosse um sinal e uma dentadura nova tipo actriz de cinema. Com as sobrancelhas aparadas, uma blusa ligeiramente aberta, uma saia pelos joelhos, pernas descobertas e rapadas e usava sapatos altos. Parecia uma boneca.

- Então, onde está o meu afilhado? Quando é que ele me vem ver? E acrescentou - Tenho muito que falar àquele maroto. Respondi-lhe, então:

- Olhe, Dona Idalina, ele não é o que eu pensava. Acabei por saber que ele já andava a namorar com uma sobrinha dum tal Padre Inácio, que agora vive com ele na residência paroquial. Pelo menos, foi isso que eu me apercebi, devido à fotografia que vi de uma rapariga em “maillot” tirada na praia de Cortegaça. Sabe, é muito tempo para um homem novo, viver afastado de uma mulher. Ela, matreira e orgulhosa, respondeu:

- Ó Zeca não te preocupes com o assunto, porque quando ele me começou a pedir fotografias obscenas, cheguei logo à conclusão de que os homens são todos iguais, o que eles querem bem o sei e os que andam pela igreja, às vezes, são os piores.

Então, gritou: - Oh meu Deus, será verdade que não há ninguém que se aproveite neste mundo?

Benzeu-se, deitou os olhos ao céu, puxou o crucifixo para o centro do peito e exclamou: - Já vi, meu Senhor, que me queres pura e honrada, junto de ti!

Silva da CART 1689
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 2 de Fevereiro de 2011 Guiné 63/74 - P7710: Memórias boas da minha guerra (José Ferreira da Silva) (11): Chico d'Alcântara, um homem de exceção

Guiné 63/74 - P7765: Recortes de imprensa (39) "Não queria morrer sem voltar à Guiné... E já voltei" (J. Casimiro de Caravlho, JN - Jornal de Notícias, 6/2/2010)




Recorte do JN - Jornal de Notícias, de 6 de Fevereiro de 2011, com o depoimento do nosso camarigo José Casimiro Carvalho no âmbito da reportagem Orfãos de Pátria. O Carvalho, que mora na Maia, foi Fur Mil Inf Op Esp, da CCAV 8350 (Piratas de Guileje) e da CCAÇ 11 (Lacraus de Paunca) (Guileje, Gadamael, Guileje, Nhacra, Paúnca, 1972/74). É membro da nossa Tabanca Grande bem como da Tabanca de Matosinhos (cujo blogue  reproduz o vídeo de mais de 15', produzido pela equipa do JN, com 4 entrevistas a antigos combatentes, incluindo as do José Manuel Lopes (*) e do J. Casimiro Carvalho >  Domingo, 6 de Fevereiro de 2011 > P528 - Orfãos de Pátria).

Reportagem: Helena Teixeira da Silva e Luís Pedro Carvalho. Vídeo: Luís Pedro Carvalho.


"Não morreram, não têm sequer feridas visíveis. Mas as que não se vêem, as que não têm nome nem cura, também existem. Quatro ex-combatentes relatam uma guerra que não escolheram. E tentam viver à procura do lado bom da história. Os homens também choram".

Reproduzido com a devida vénia...


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Nota de L.G.:

(*) Último poste da série > 10 de Fevereiro de 2011 > Guiné 63/74 - P7759: Recortes de imprensa (38): "Para a guerra foram só os pobres" (José Manuel Lopes), JN - Jornal de Notícias, 6/2/2011

Guiné 63/74 - P7764: Obrigado pelas mensagens amistosas que recebi (José Brás)

1. Como já vai sendo habitual, os aniversariantes enviam-nos os seus agradecimentos pelas manifestações de carinho recebidas, quantas vezes em contrapartida com alguns piropos menos agradáveis no resto do ano. Não será o caso do nosso camarada José Brás que nos mandou esta mensagem datada de hoje, dia 11 de Fevereiro de 2011:

Carlos
Como é já dia onze de Fevereiro e depois da bebedeira de mensagens tão amistosas e, de uma ou duas inamistosas que vocês tiveram a gentileza de não publicar, peço-te que publiques, com o texto que junto, o meu agradecimento e o meu abraço a todos, todos, os que se importaram com o meu dia.


Um abraço para ti
José Brás



AGRADECIMENTOS E ABRAÇOS

Vocês sabem que sob este aspecto de rural saloio-riba-alentejano, por baixo deste chão cru que aparento, correm alguns rios de "água-quase-tudo-e-cloreto-de-sódio".

Sabem, porque foram temperados por este mesmo Sol, este mesmo cheiro de pinhais, de mosto doce, de lusitano "mare nostrum"; pela mesma memória de gente brava no arroteio da terra madrasta, no varapau, no foeiro-pau-cajado, na forquilha, na espada ou lança; pelo mesmo sal, o mesmo cabo das tormentas, a mesma esperança de outros cabos, o mesmo odor de enxofre e de capim.

Sabem, porque também vocês se encheram desses rios que às vezes despejam às claras ou na sombra, se um gesto de humanidade; uma mão que se estende solidária, as festas e as tristezas dos amigos, vos apanham de feição.

Portanto, falo com a minha gente e nisso não me encolho.

E as vossas palavras neste dia que já festejei mais vezes do que gostaria, trazem-me tais rios por sob as pálpebras, contidos apenas nos alquevas que ergo contra eles.

Obrigado camaradas por me forçarem a corrente desses rios na amizade que testemunham sem que eu tenha a certeza que poderei honrar no futuro, porque o futuro é hoje o mar bravo que nos ameaça as praias de oiro.

Obrigado a todos vós.
Abraços

...mas esperem lá! Aguentem ainda mais dois minutos enquanto falo de uma outra bebedeira. Não minha porque seria ousadia narcisista continuar a falar de mim e nem fui eu que a tomei mas o Filipe Bento que vocês conhecem, ou o Arnaldo que conhecem menos.

Nasceu o bicho ao lado da adega do avô e cedo se habituou ao cheirinho do carrascão. Um dia, aí p'ros quatro anos, cinco. O avô havia vendido o tinto e o branco, o armazenista comprador tratava de carregá-lo no camião, corria o vinho dos tonéis para o celhão e deste trasfegado por uma daquelas bombas manuais de roda grande e manivela para os pipos da viatura.

Os homens iam trabalhando e conversando enquanto o Filipe ou o Arnaldo, que p'ro caso tanto faz, de mão em concha, enchia e bebia, enchia e bebia.

A certa altura dá em atirar-se ao chão. Levantava-se, caía, levantava e caía até que o pessoal deu por isso, ai Jesus o que é que tem o rapazeco, está doente, chama o Dr. Possolo que diagnostica, o rapaz está é bêbado!

Bem, agora é que vai o abraço amplo, não pela amizade que é coisa que não se agradece, mas pela disponibilidade de a mostrarem no dia de ontem, e talvez, outros ainda, distraídos, no próximo quinze.

José Brás
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Nota de CV:

(*) Vd. poste de 10 de Fevereiro de 2011 > Guiné 63/74 - P7752: Parabéns a você (215): José Brás, ex-Fur Mil da CCAÇ 1622, Mejo, 1966/68 (Tertúlia / Editores)

Guiné 63/74 - P7763: A guerra vista de Bafatá (Fernando Gouveia) (61): Na Kontra Ka Kontra: 25.º episódio




1. Vigésimo quinto episódio da estória Na Kontra Ka Kontra, de Fernando Gouveia (ex-Alf Mil Rec e Inf, Bafatá, 1968/70), enviado em mensagem do dia 10 de Fevereiro de 2011:


NA KONTRA
KA KONTRA


25º EPISÓDIO

Não se sabe se houve mais dizeres em fula naquela noite. Cansados acabaram por adormecer.

Ao acordar pressentem que há alguém junto da entrada da morança. A ex-bajuda continuou deitada e o agora o seu homem prepara-se para ir tomar um banho à fonte. Pega na toalha e no sabão, abre a porta e sai. Acto contínuo três ou quatro “mulheres-grandes”, das que estavam à porta, precipitam-se para dentro da morança. O Alferes que já se afastava em direcção à fonte pára a fim de presenciar o que se estava a passar.

Não demorou muito que as mulheres saíssem da morança do Alferes e da agora sua mulher, Asmau. Uma delas trazia na mão um pano muito branco que foi agitando de modo a que todos vissem. Claro, o Alferes não percebeu de imediato o que se estava a passar. Como se seguiu uma algazarra por parte do pessoal que se ia apercebendo do pano branco que a mulher ia agitando, teve que perguntar o porquê de tudo daquilo.

O Alferes não percebeu logo o alcance da primeira explicação: As mulheres tinham ido passar o pano “pela Asmau” e como vinha com manchas vermelhas podia concluir-se que efectivamente ela tinha ido para o casamento com o “cabaço”.

Só mais tarde, em conversas com o João é que ficou a saber tudo. Primeiro era uma questão de honra para os pais da Asmau terem-na entregue para o casamento ainda virgem, depois era sabido que naqueles confins ainda se fazia questão disso. O nosso Alferes, apesar de saber pelo seu amigo Ibraim de Bafatá que aí as bajudas nem sempre se casavam com cabaço, aqui, como já tinha ouvido ao João, o pessoal queria assim.

Também ficou a saber que era importante para os pais da bajuda, constatarem a consumação do casamento, pois no caso de um hipotético divórcio isso era muito importante: Num divórcio sem consumação, ou se a bajuda já não levar cabaço, o noivo pode devolver a mulher aos pais recebendo o dote de volta. Num divórcio com consumação o homem entrega a mulher aos pais sendo o dote devolvido, metade para o homem e a outra metade para a mulher.

O Alferes compreendeu todas as explicações sobre o assunto. Não deixou de considerar um tanto degradante para a mulher a cena do pano branco, embora se saiba que em muitos locais do chamado mundo ocidental foi prática não muito distante, exporem-se os lençóis da noite de núpcias, com os mesmos fins. Não deixou porém de pensar no que é o acto mais aviltante para as mulheres africanas, praticado em bajudinhas de dez, doze anos: O fanado. Uma mulher grande calcando com os joelhos os braços da bajudinha, outras segurando-lhe cada perna mantendo-as afastadas e uma outra com um qualquer objecto cortante faz-lhe a ablação de tudo o que mais tarde poderia proporcionar prazer sexual à bajuda. Teve sorte a bajuda Asmau e também o nosso Alferes.

Logo no primeiro dia após o casamento, os dois pombinhos passam a comer na sua morança. Ainda tinham restos de carne pelo que a Asmau se limitou a fazer um pote de arroz. O aspecto do arroz fumegante era óptimo. O nosso Alferes conseguiu sem grande dificuldade que a sua mulher passasse a comer o arroz com uma colher e não à mão, como era costume com todo o pessoal da tabanca. Comerem do mesmo tacho, como também era habitual, não afligia o Alferes, pois se tratava da sua mulher com quem agora tinha todas as intimidades.

Antes o nosso Alferes ainda vai à mesa onde já estavam os seus homens à espera que o “legionário”, o cozinheiro, lhes servisse o almoço. O Dionildo, com um c… f… pelo meio, não deixou de lhe perguntar se tinha dormido bem. Os outros, já meios desinibidos, não deixaram também de “brincar” com o seu Alferes. Este quando já não estava a achar graça à brincadeira, pega em duas cervejas que estavam embrulhadas com um pano molhado para as arrefecer e dirige-se para o pé da sua amada.

Ambos sentados numa esteira à porta da morança iniciam a sua primeira refeição. Com a primeira colherada de arroz que o Alferes mete à boca faz uma careta, sorri para a Asmau, engole-o, levanta-se, vai ter com o “legionário” e pouco depois está novamente sentado para continuar a refeição.

Fim deste episódio
Até ao próximo camaradas.
(Fernando Gouveia)
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 10 de Fevereiro de 2011 > Guiné 63/74 - P7755: A guerra vista de Bafatá (Fernando Gouveia) (60): Na Kontra Ka Kontra: 24.º episódio

Guiné 63/74 - P7762: Em busca de... (153): Pedido de qualquer informação sobre o militar das fotos (Alsaine Djaló)


1. De um nosso visitante que apenas nos transmitiu o nome - Alsaine Djaló -, recebemos em 7 de Fevereiro de 2011, o seguinte pedido:

Procuro informação sobre este senhor

Boas tardes Senhor Luís Graça.

Queira mais uma vez receber o meu pedido para, através do seu blogue, tentar conseguir algumas informações do senhor Carlos Alberto Guerreiro Baptista, que foi tropa na Guiné e também desempenhou funções de Chefe de Posto no Leste da Guiné, concretamente nos Sectores de Contuboel e Pirada, nos anos de 1972 e 1973.

As imagens que lhe envio são fotos dele.

O meu e-mail é: beti.bajocunda@hotmail.com

Abraços,
Alsaine Djaló
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Notas de M.R.:

Vd. último poste desta série em:

24 de Dezembro de 2010 >

Guiné 63/74 - P7494: Em busca de... (152): Resposta a um pedido de Procura (Nelson Herbert)

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Guiné 63/74 - P7761: Memória dos lugares (135): Bedanda, do tempo da malta da CCAÇ 6 - 1972/73 (2) (Vasco Santos)


1. O nosso Camarada Vasco Santos (ex-1º Cabo Op Cripto da CCAÇ 6 – Bedanda -, (1972/73), enviou, em 4 de Fevereiro de 2011, a seguinte mensagem:

Pelotão de Artilharia de Bedanda

Caro Luís Graça,

Conforme tinha indicado num poste anterior, fiquei de falar com um conterrâneo meu acerca do Pelotão de Artilharia de Bedanda, mais concretamente com o Fur Mil Art Humberto Naia, mas o mesmo informou-me que, devido a ter seguido para Bedanda, oriundo de Cufar, em rendição individual, não se recorda qual era o número do pelotão. No entanto, confirmou-me que havia um Pelotão de Artilharia, um Pelotão de Morteiros e outro de Canhões. Tinha como superior um Alferes Miliciano.

Para que ele possa identificar o Alferes, pois eu penso que era o Alf Mil Silva (o amigo Teixeira diz que era o Bastos), enviei uma foto com os dois alferes a fim de que ele os possa identificar. Quando tiver a confirmação envio-te.

Quando o ex-Fur Mil José Vermelho fazia um reparo e dizia que o furriel de artilharia era o Ferreira, tinha a sua razão, pois na tropa, normalmente somos conhecidos pelo último nome e este meu conterrâneo Jaime Humberto Naia Ferreira é o mesmo que eu indico como Fur Mil Naia. Vou transmitir esta mesma informação ao meu amigo Vermelho.

Mário Bravo/Pinto Carvalho – Fur Mil Naia/Ferreira (é o 2º no 1º plano)

Alf Mil Silva (Artilharia) atrás do Dr. Mário Bravo

Um abraço amigo,
Vasco Santos
1º Cabo Op Cripto da CCAÇ 6
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Notas de M.R.:

Vd. último poste desta série em:

6 de Fevereiro de 2011 > Guiné 63/74 - P7732: Memória dos lugares (134): Algumas fotos da minha breve passagem pelo Pelundo (António Teixeira)

Guiné 63/74 - P7760: Memórias de Mansabá (13): A bajuda e as colunas para Manhau (Ernesto Duarte)

1. Mensagem do nosso camarada Ernesto Duarte, ex-Fur Mil da CCAÇ 1421/BCAÇ 1857, Mansabá, 1965/67, com data de 8 de Fevereiro de 2011:

MEMÓRIAS DE MANSABÁ (13) 

A NOSSA "BAJUDA"

Falar de colunas, é falar de ir a Cutia, passando por Mamboncó, a Mansoa, a Manhau, a Banjara e a Farim, tendo a particularidade que fomos nós que reabrimos os itinerários Mansabá a Farim e Mansabá a Banjara.


Na estrada nós tínhamos uma viatura com o nome de Bajuda deixada pelos Águias Negras, que eu suponho que não tenha chegado até vocês, era uma longa vida para aquele clima.

Era uma GMC com uma casa feita em madeira, pranchas grossíssimas, blindadas com chapa de ferro, não consigo lembrar-me se tinha tecto e se se disparava pelas viseiras, mas sei que tinha sacos de terra por tudo quanto era sitio, e assente na caixa da camioneta também cheia de terra, protegida pela blindagem tipo Mansabá, tinha uma metralhadora pesada, com um poder de fogo impressionante, impunha respeito.

Picar a estrada era uma coisa fora do normal, não falando do andar a pé em África o tempo que se levava, andávamos muitos a pé à frente ainda dos picadores, praticando o desporto, possível naqueles sítios, tiro ao alvo, a tudo o que mexia, macacos, mas do que a malta gostava menos era dos abutres. Esses tiros, algumas vezes, detectaram emboscadas, com a nossa bajuda e as armas pesadas, não causavam muitos embaraços mas há excepções.

Uma delas foi no regresso de uma coluna para Mansabá que foi emboscada, em Mamboncó, com uma violência tremenda, saindo os que tinham ficado em Mansabá em socorro, e logo na subida começaram a levar a sério, tendo sido dada ordem à Artilharia para disparar. Aí calaram-se, mas como estavam muito próximo da estrada não foi logo, logo, mas a retirada deve-lhe ter sido muito difícil.

Tinha sido uma fase nova, os primeiros dias foram de alguma expectativa, voltando ao normal, tendo-nos lixado com mais duas minas anticarro, a primeira no mesmo sitio, onde já tínhamos apanhado com uma, junto à velha serração, e outra mesmo quase a entrar em Cutia.

A segunda junto à velha serração, foi rebentada por uma auto metralhadora, o rapaz ia para Mansoa para ser rendido e afastou-se o mais que pode para a direita da árvore para não passar minimamente na zona dos rodados, ela estava fora, se calhar até já há muito tempo. E acrescento, é de enlouquecer, já tinha tido a visão de uma queimada na estrada de Bissorã, mas ali ver aquela malvada estrutura a arder, e como é blindada não podermos fazer nada, nasce dentro de nós um ódio sem limites, uma vontade de vingança de destruir, as batidas do coração sobem para as 200.


Nós tínhamos o destacamento em Manhau onde um Pelotão com um grupo de Milícia, passava 15 dias. O Pelotão que ia, tinha que levar tudo, incluindo a água. Havia uma camioneta com um depósito de 10.000 litros, e como aquilo era muito perto, fazia-se a rendição, uma parte que trazia o carro da água depois quando o carro da água chegasse, eram os últimos rendidos. O carro da água andava muito devagar e às vezes até ficava para trás em demasia. Não sei a data, só sei que era o dia do Portugal Coreia, em 1966, estavam todos com muita pressa para irem ouvir o relato, não sei se fui eu, lembro-me de falar nisso com alguém, alterar a ordem das viaturas, não sei se com o Comandante de Companhia se com um Alferes. Eu tinha um rádio novo e não queria parti-lo, andando a tratar das coisas com ele na mão, e eles todos a gozar comigo, mas lá fiz ou fez-se a alteração da ordem das viaturas, passando o carro da água para os carros da frente.

Com a criação das caveiras, na prática só tínhamos dois pelotões, havia férias e a esta distancia não me lembro quem era o comandante de pelotão. Um pouco chateados mas lá fomos, eu dentro da bajuda segurando o rádio, quando atingimos a descida para a bolanha de Manhau foi a loucura, vieram granadas de mão, não sei de onde, lá tive que deixar o rádio que não se partiu. Mas com a bajuda, os moços das armas pesadas aguentámo-nos bem, até que parece que eles queriam era o carro da água e quando o viram atacaram sem perceberem que ele não estava no sitio que era hábito, mas eram sempre e sempre mais violentos, o estrondo das G3 levava sempre mais tempo a se impor, aquilo à direita tinha uma zona com muitas árvores, levou o seu tempo até se impor o silencio.

Havia uns rapazes que quando estavam em Manhau iam às laranjas a Mantida e foram... e foram, claro que eles, o IN, pensaram em apanhá-los mais a viatura, só que Deus é grande, eles não foram com a frequência que iam e entretanto, vieram uma quantidade de auto metralhadoras para Bafatá, que ao passarem por Mantida, tinham uma emboscada, pelo que ficou no terreno fizeram estragos enormes, foi feita guerra da mais violenta.
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Nota de CV:

Vd. primeiro poste da série de 12 de Janeiro de 2011 > Guiné 63/74 - P7602: Memórias de Mansabá (1): No coração do Óio, bem perto do Morés (Ernesto Duarte / Carlos Vinhal)

Guiné 63/74 - P7759: Recortes de imprensa (38): "Para a guerra foram só os pobres" (José Manuel Lopes), JN - Jornal de Notícias, 6/2/2011



Recorte do JN - Jornal de Notícias, de 6 de Fevereiro de 2011, com o depoimento do nosso camarigo José Manuel Lopes no âmbito da reportagem Orfãos de Pátria. Outro dos nossos camaradas do blogue, entrevistado pelo JN, é o J. Casimiro Carvalho. Dele daremos também oportunamente notícia. O Zé Manel foi Fur Mil Inf Armas Pesadas, CART 6250 (Mampatá, 1972/74).


Reportagem: Helena Teixeira da Silva e Luís Pedro Carvalho. Vídeo: Luís Pedro Carvalho.

"Não morreram, não têm sequer feridas visíveis. Mas as que não se vêem, as que não têm nome nem cura, também existem. Quatro ex-combatentes relatam uma guerra que não escolheram. E tentam viver à procura do lado bom da história. Os homens também choram". 



Reproduzido com a devida vénia... 


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Nota de L.G.:


Último poste desta série > 

 14 de Dezembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7436: Recortes de Imprensa (37): Heróis do mar, de Joaquim Magalhães de Castro em Fugas/Público (Joaquim Mexia Alves)