segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Guiné 63/74 - P7112: Caderno de notas de um Mais Velho (Antº Rosinha) (7): As descolonizações exemplares. Visto em 1960-1980-2010

Vaticano numa tabanca na Costa do Marfim


Caderno de notas de um Mais Velho -7

António Rosinha*

As (des)colonizações exemplares, portuguesas, belgas, francesas e inglesas. (A França tem bons arquitectos)

Visto em 1960-1980-2010

Não  ter motivo pessoal, nem nacional, nem moral, nem ideologia, nem espírito de aventura para ir para uma guerra numa terra estranha, mesmo que só por dois anos e por obrigação, é meia guerra que não se ganha.
Mas aquela guerra fez-se mesmo para ser ganha por alguém?

Tive um colega em Luanda, oriundo da região da Bairrada, que quando a rádio tocava o hino Angola é Nossa à uma da tarde, enquanto se tomava a bica da ordem da hora de almoço, invariavelmente largava esta:
- Troco a parte de Angola que me toca, por um café.

Esta frase saía-lhe instintivamente sempre que se ouvia aquele hino e entre a tertúlia desse colega, praticamente generalizou-se, e a muitos de nós já saía automaticamente igualmente essa boca.

E era chato dizer isso, porque no meio da malta havia muitos colegas que eram angolanos e outros não o sendo estavam já tão ligados a Angola, quer por laços de família, quer porque eram naturais de lá e nem tinham ligações com outra terra, ou mesmo tendo ido para lá de crianças, tinham assumido aquela terra como deles, e muitos já tinham casa própria e filhos já nascidos lá.

E muitos eram angolanos de pai e de mãe e até poderiam ter eventualmente familiares no MPLA ou outros movimentos. Mas tenho a dizer que, aquele meu colega que trocava a parte dele por um café, ele gostava mesmo muito de café! E nunca passava sem o vício do café, portanto Angola já poderia também equivaler a um vício para ele, e um vício não se larga facilmente.

Como o meu ponto de vista sobre a guerra do ultramar, é muito diferente da maioria dos elementos desta tertúlia, com raras excepções, digo que vivi os treze anos de guerra em Angola, em todas as fronteiras, desertos, planaltos, praias e cidades, excepto no enclave de Cabinda, sempre acompanhado por angolanos.

Para mim e milhões em Angola, ninguém reconheceria quem quer que fosse com idoneidade nem responsabilidade para assumir a governação daquela província, assim como das colónias em volta dela.
E seria um genocídio os franceses e belgas darem a independência às suas colónias.

E, assim aconteceu, e não falo com demagogia nem com Salazarismos, nem socialismos, nem colonialismos. Sabe-se na literatura e na história o que foi o genocídio de 4 anos da II Grande Guerra, mas ainda não está publicado em literatura o genocídio de 50 anos bem perto da fronteira de Angola, onde se fala francês e algum inglês.

Também na Guiné após a independência, ajudei a tapar buracos nas estradas em vários pontos do país, provocados por minas durante a guerra e pela chuva, senti explodir armadilhas (explodiam como uma granada de mão ofensiva) sob uma máquina própria, nas bermas da estrada Quebo-Buba durante uma reconstrução, vi esqueletos de berliets(?) no caminho para Madina do Boé, vi explodir armadilhas na cinta de segurança à volta do aeroporto de Bissau, onde até já inadvertidamente tinha andado a pé.

E ouvi imensos guineenses perguntarem-me se conhecia um soldado de Viseu, outro de Viana, outro de Moncorvo e e de outras terras, e de terras que eu nem conhecia, e se os visse um dia que lhe dissesse que o pai ou irmão ou o tio dos comandos tinha sido fuzilado.

Mas antes desta nossa guerra, vi uma outra que me marcou, que foi ao lado de Angola no ex-Congo Belga, era eu Cabo Miliciano em 1960, e que me esclareceu um pouco o que se estava a passar em África sob o ponto de vista africano e internacional, e principalmente o meu próprio ponto de vista de português.

Vi os Belgas fugirem (retornarem), e os únicos brancos que lá ficaram foram os emigrantes portugueses que lá havia, que eram muitos milhares..

Estava eu na fronteira com a cidade de Matadi, no rio Zaire em Noqui, e todos os sábados começava o tiroteio, e lá vinham os portugueses daquela cidade para o lado de Angola passar o fim de semana, porque o tiroteio só parava Domingo bem tarde.

Teimosos, segunda-feira regressavam, e alguns lá iam fazendo amizades com as facções de militares, e lá se entendiam e parece que até se governavam.

Entretanto começaram a aparecer militares da ONU, marroquinos, indianos, (para aumentar a confusão como hoje a NATO no Afeganistão) e também vinham ao nosso lado, abastecer-se pois lá estava já tudo descontrolado.e a saque.

Quem já lá estava, eram cooperantes suecos e suecas e outras nacionalidades, tal como passados 19 anos fui encontrar na Guiné. Também vinham de vez em quando a Noqui beber cerveja ou dar uns mergulhos numa piscina que existia em Noqui. Tal como na Guiné se iam abastecer de combustíveis e mantimentos a Dakar. Mas sempre olhando para nós portugueses, como seres usurpadores de uma terra que eles vinham libertar e preparar para a vida.

Na Guiné tinham também o sentimento que fomos uns nazis, e chegavam a dizê-lo na nossa cara em tertúlias de café.

Sei que na Guiné, chegaram a interromper com a cooperação, no ex-Congo Belga ainda andam por lá algumas ONG, pelo que leio em blogs.

Normalmente todos aqui ouviram falar em genocídios no Congo, mas para quem não tenha dado importância a este caso, lembro que está decorrendo uma tentativa para julgar internacionalmente os culpados, tal a quantidade de gente dizimada nas fronteiras do Congo, Ruanda e Burundi. Quem testemunhou e testemunha (como mirones) esses massacres, há 50 anos, são essas cooperações nórdicas.

E, eu vi a irresponsabilidade do início dessa desgraça congolesa que continua neste momento, e que os únicos "colonos" que durante muitos anos não abandonaram aquele território foram uns numerosos portugueses caracteristicamente teimosos tal como os comerciantes que ficaram em Bissau e que como estes, abriam religiosamente as suas lojas às oito da manhã para mostrar as prateleiras vazias.
Hoje não sei como está a presença desses comerciantes, tanto em Bissau como no ex-Congo Belga (RDC).

Recentemente, Kabila (filho),  actual presidente da RDC,  propôs-se perante o governo português indemnizar aqueles portugueses que foram espoliados de comércios ou industrias que tinham lá.

Mas também vi, alem dos cooperantes suecos, alguns mercenários de Bob Denard, na fronteira leste de Angola, por onde fugiram a uns apertos no Katanga. Com estes, desarmados, até viajei num Nord Atlas da Força Aérea para Luanda, estava eu a passar à disponibilidade em Janeiro de 1960.

Verifica-se que as ex-colónias belgas e portuguesas foram vítimas da fraqueza de Portugal e da Bélgica como potências internacionais militarmente e politicamente, para as proteger dos facínoras da guerra fria e dos venenosos ingleses e franceses, que todos chegaram a ter projectos próprios para aqueles territórios.


(Ainda hoje, os franceses estão examinando um avião derrubado há muitos anos nas matas africanas, para provar que não foram eles que o derrubaram. Vinham nesse avião o presidente do Ruanda e o presidente do Burundi, constava na altura do derrube, que eram demasiado anglófonos. Como os Belgas não actuavam...!)


Até Che Guevara tentou a sua sorte por estas bandas.


(Entre os muitos livros que a Caminho publicava e enviava para Bissau nos anos 70/80, havia uma literatura sobre a actividade soviética em África, e havia um livro chamado em português «A Varanda de África», que descrevia as tentativas de infiltramento da União Soviética na ex-colónia inglesa Quénia.


Mais tarde este livro ajudou-me a compreender o que eram os ingleses quando se responsabilizaram pela vida de Salman Rushdie, quando avançaram sobre as Malvinas, e quando avançaram ao lado dos americanos recentemente para salvar o Afeganistão e para o "petróleo" do Kuwait e Iraque.


Não quer dizer, que não houvesse Biafras, metropolitano de Londres e outros casos, mas até os eltons jones os têem no sítio, e só contam e discutem os mortos no parlamento e no fim da guerra).

Mas uma certa ingenuidade daquelas cooperações nórdicas ajudaram a provocar perspectivas tão falsas naqueles povos, que foram em certos casos tão prejudiciais como as armas dos mercenários, porque o alvoroço provocado com tanta "alvura repentina e contrastante" desestabilizava e distorcia completamente a realidade daquelas sociedades tradicionais.

Sem falar que muitas das cooperações não passavam de funcionários da ONU e das ONG, que faziam daquela actividade modo de vida, e tal como aventureiros, tanto se davam com o povo, como com os seus governantes menos honestos (para não chamar outros nomes), e provocavam e provocam uma inibição completa na actuação das chefias e hierarquias tradicionais que não se refazem mais após a saída dessa gente, ficando o vazio.

Eu vi esse retrato no Congo em 1960/63 e em Bissau em 1980 e seguintes. Também poderei ter feito esse papel de aventureiro, não sei bem, mas um dia posso explicar se não escandalizar de mais.

O primeiro militar da República do Congo que vi na minha frente em 1960, era um Sargento-Major, que foi a Noqui com as suas mulheres beber cerveja, trazendo atrás o ordenança, bem fardado e calçado, com o par de botas do sargento, penduradas ao pescoço pelos atacadores.

Um outro sargento chamado Mobuto tomou conta daquele território imenso e governou perto de 30 anos com residência habitual na Suíça.

Ver o que se passava ao lado, seria lógico transferir o mesmo para Angola?

Claro que isto foi em 1960, e o Salazar escondia-nos que o Kennedy já financiava a UPA, que em 1961 provocaria aquele massacre no Norte de Angola. Também não sabia o que se preparava em Conacri.

Há uns meses ouvi na Gulbenkian a um ex-desertor, historiador açoriano, que havia uma solução fácil para nós, que, mais ou menos (resumindo), confiar no Kennedy, que ficava o problema resolvido.

Sinceramente, sabendo hoje o que os americanos fizeram desde a Hiroxima, passando pela Coreia com o paralelo 38, com o Vietname Norte e Sul, sem falar no Afeganistão nem no Iraque, e sabendo que já estavam em Angola a criar com o apoio à UPA, um paralelo bem definido e bem tribalizado... sinceramente, Medeiros Ferreira, que conte a história, sim, mas que apresentasse os americanos como solução do problema, é uma desilusão.

Entendido que as análises que faço hoje, não as fazia da mesma maneira com 22 anos.

Mas ainda hoje, penso que os ventos da história sopraram cedo demais, e nós portugueses e guineenses sofremos com isso, e os angolanos e moçambicanos prolongaram a luta por mais umas dezenas de anos.

A paciência, a sabedoria e a prudência de um povo sofrido, deu e continua a dar uma lição a muita gente: São os cabo-verdianos. Eles sabiam que os inimigos e o perigo não era Portugal.

Mandela também sabia que os maiores inimigos não eram os Boers. Mas aí já não havia guerra fria.

Eu também gostava imenso de café

Um abraço
Antº Rosinha
__________

Notas de CV:

(*) António Rosinha, ex-Fur Mil em Angola, 1961; topógrafo na TECNIL, na Guiné-Bissau, entre 1979 e 1993

Vd. último poste da série de 19 de Setembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7006: Caderno de notas de um Mais Velho (Antº Rosinha) (5): Portugal nem explorava nem desenvolvia, colonizava pouco e mal

8 comentários:

Anónimo disse...

MAIS VELHO

As voltas e contra-voltas que o mundo (e África) dá/deu.
Eu que sou mais novo ( mas não uma criança) e que de África (para além da Guiné)vi (e ouvi alguma coisa), fico a pensar nissso tudo que escreves e te arriscas a que surja muita gente que não entende ou entenderá mal e, consequentemente, irá julgar-te mal.

Como dizem os espanhóis: "Las cosas no san tan sencillas como lo parecen" (perdoa o espanhol escrito).

Gostei muito das referências à cooperação nórdica e às ONG's. Nestas não são os trabalhadores da base que enojam - é o topo.

Eu também já fui julgado em "praça pública" no estrangeiro e só pelo facto de ser português.

Um abraço
Alberto Branquinho

Anónimo disse...

Caro A. Rosinha

Evidentemente que todo o teu percurso de vida, por aquelas terras, com toda a tua vivência, o teu bom poder de observação e "boa cabecinha pensadora" para não "engolires" tudo aquilo que querem impingir a quem não usa um pouco de raciocínio, justifica estas tuas sábias análises, sobre, perdoem-me o termo, Política Internacional.

Por mim, gosto que continues com estas notas de UM MAIS VELHO.

Abraço
Jorge Picado

admor disse...

Caríssimo Mais Velho,

Completamente de acordo com as ideias bem explanadas sobre colonização e descolonização, mas isso é do século passado.
Já passou! Como nós dizíamos na tropa.
Agora a minha preocupação está dirigida para a presente colonização da velhinha Europa pela milenar CHINA.
O que irá acontecer no início deste século doido, que não se previa nada assim?
O que achas Mais Velho? E os outros o que acham?
Um grande abraço.

Adriano Moreira

Antº Rosinha disse...

Olha Adriano Moreira, eu fiz guarda ao palácio do governador de Angola, em 1961, quando o ministro do ultramar Adriano Moreira foi a Angola por causa do "para Angola e em força".

Não era teu tio?

Foi um frete danado!

Mais tarde uns anitos fui aprender que Portugal não era lá muito bem, considerado um país da velhinha Europa, como tu lhe chamas.

E historicamente a Europa nunca teve lá um comportamento muito dignificante, de maneira que não merece grande sorte.

É pena que agora que essa velha está numa pior, nós nos encontremos no mesmo barco.

Onde aprendi que não nos consideravam bem europeus propriamente dito, foi no Brasil, em contacto com oriundos da alemanha, da itália e dos brasileiros decepcionados por não terem sido uma colónia holandeza ou ingleza.

Então diziam que quando vinham à europa passear, no regresso talvez fizessem um "desvio" e passavam por Portugal.

Agora, quando dizes que não se previa nada assim, mas, para nós tugas ou para os alemães?

Já que me chamas "mais velho", digo-te que eu nunca misturei!

Nós aqui é que é que andámos só a comer lombinho estes anos todos, e deitamos fora o resto da carcaça.

Cumprimentos

Anónimo disse...

Caro A. Rosinha,

Leio sempre, com agrado, este tipo de análise à situação de África.
Abranja ela, a análise, apenas os últimos 50 anos, um século, dois, ou mais.
Tenho lido muito, mas penso que jamais alguem escreveu sobre a colonização de Portugal em África, no período de 1910 a 1926.
Como foi?
O que aconteceu, diferente do acontecido antes e depois?
Tens notícias?
Queres partilhá-las com o blogue?

Um Abraço
Manuel Amaro

Antº Rosinha disse...

Manuel Amaro,

sobre o que se passou naqueles 16 anos antes do Mendes Cabeçadas, e Gomes da Costa e Carmona, já li umas poucas coisas, mas se nos lembrarmos de quando eramos jovens, raramente se falava daqueles 16 anos, nem sobre o que se fazia cá e o que se fazia em África.

Mas a confusão era tanta, que pouco deve haver alem da confusão e das guerras com os alemães em Moçambique e em Angola na I grande guerra.

Em Angola falava-se nos anos 50/60 da ideia de Norton de Matos sobre Angola, e a vigarice financeira de Alves dos Reis.

Mas pouca coisa deve ter ficado desses anos, se virmos pelo caso da Guiné que só nos anos 40 é que se saiu daquela «ilhota» de Bolama. para ocupar verdadeiramente a Guiné.

Como não sou de consultar muito, vou-me limitando a recordar o que vi feito nos anos 50 em Angola, pois passei por muitos organismos e vi algumas coisas, poucas em geral.

Cumprimentos

admor disse...

Caríssimo António Rosinha,

Quando te chamei "Mais Velho" no outro comentário que fiz, foi com a conotoção de pessoa mais sabedora do "Homem Grande" dos africanos e afinal mesmo como nós tratávamos os nossos avôs como pessoas experientes e de sabedoria.
Embora as nossas idades sejam mais aproximadas do que divergentes.
Por acaso não tenho nenhum grau de parentesco com o Ex-ministro do Ultramar Adriano Moreira é só coincidência no nome.
Só não percebi o que querias dizer com a frase "que nunca misturaste".
Eu também nunca fiz uma vida muito diferente da que sempre fiz e desconfiei sempre de todas as benesses que nos foram dadas quase contra a minha vontade, porque já sabia que amanhã ia pagá-las.
E as minhas benesses foram tão pequenas em relação a outros.
Em relação ao outro comentário em que falas do Norton de Matos, se se tivesse seguido o seu ideal às tantas voltava a acontecer o que aconteceu com o Brasil quando a família real passou a governar de lá, mas se calhar até teria sido melhor.
Quero-te dizer que continuo a concordar contigo na apreciação que fazes à "velhinha Europa", que se calhar dos Portugueses nem merece este tratamento carinhoso.
Um grande
abraço,

Adriano Moreira

Anónimo disse...

Adriano Moreira, jamais quero passar por dono da verdade.

Todos nós passámos as passas do algarve e cada um de nós tem calo da vida suficiente para analizar o que se passou connosco.

Só que o que vi durante tantos anos em África, permite-me às fazer afirmações sem ter medo que me contradigam.


E na realidade não disse nem um pouquinho das certezas que tenho.

Agora sobre o Norton de Matos e os do tempo dele, como vi um pouco da obra deles, e daquilo que tu pensas e do que pensam os africanos, ainda espero escrever alguma coisa,

Cumprimentos

Antº Rosinha