quinta-feira, 6 de maio de 2010

Guiné 63/74 - P6329: Notas de leitura (101): Spínola, a biografia de Luís Nuno Rodrigues (2) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso Camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil At Inf, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 29 de Abril de 2010:

Queridos amigos,
Circunscrevi o punhado de notas de leitura à presença de Spínola na Guiné, é o contexto esperável para o nosso blogue.

Envio de seguida uma sugestão que é visita à exposição “Memória do Campo de Concentração do Tarrafal”, onde estiveram presos guineenses.
A exposição está patente no Museu do Neo-Realismo, até 29 de Agosto (Rua Alves Redol, 45, Vila Franca de Xira, tel.: 263285626).

Um abraço do
Mário


Spínola, a biografia de Luís Nuno Rodrigues (2)

Beja Santos

“Por uma Guiné Melhor”

A fazer fé no documento que entregou em Maio de 1968 a Salazar, Spínola estava já consciente de que a guerra na Guiné não poderia ter um desfecho meramente militar. Aquilo a que ele designava por “força da razão” era uma guinada amplíssima na promoção social e na satisfação das necessidades básicas das populações, cortando cerce a argumentação do PAIGC. “Por uma Guiné Melhor” aparece como a resposta possível ao conflito ideológico que se trava com o PAIGC. Lisboa não lhe irá regatear um importante apoio financeiro para criar mais infra-estruturas (rodoviárias, comunicações, portos), educação e assistência sanitária, mas será sempre tudo arregaçado. Em Março de 1969, numa mensagem à população, Spínola fala no nascimento da “nova Guiné”: estradas alcatroadas, portos fluviais, mais escolas, criação da meritocracia, ou seja, uma selecção dos melhores nos acessos aos lugares mais altos da administração. Toda a sua correspondência para os governantes é um regatear permanente de meios, a toda a hora lhes recorda as promessas de apoios financeiros. Como é evidente, o fantasma da guerrilha não podia ser iludido e daí o reordenamento e auto-defesa das populações constituiu um objectivo prioritário na criação de novos aldeamentos. Eles foram construídos e neles instalados poços para o abastecimento de água, escolas e postos médicos. Foram dadas instruções aos comandos para alterar o seu comportamento relativamente aos guineenses: deveriam cessar todos os actos injustificados de violência, instituído um novo relacionamento que passaria inclusivamente pela libertação de prisioneiros políticos. Em Agosto de 1969, Spínola joga um trunfo elevado: liberta Rafael Babosa, antigo presidente do Comité Central do PAIGC, bem como um conjunto de outros presos políticos. Sabe-se hoje que o discurso de Rafael Barbosa , aquando da sua libertação, abalou internamente o PAIGC.

As obras públicas e os melhoramentos tornaram-se o novo rosto do progresso: em 1968 havia na Guiné 60 quilómetros de estrada alcatroada, cinco anos depois 550. Folheando a imprensa propagandística da época, encontramos Spínola a toda a hora a inaugurar escolas e toda a sorte de benfeitorias.

Os Congressos do Povo foram uma outra componente fundamental da política de aproximação às populações: eram organizados com base nas diversas etnias, abrangiam os habitantes das circunscrições administrativas e nas reuniões anuais estavam presentes membros dos estratos dominantes da sociedade tradicional. Numa alocução, Spínola disse: “O congresso não é para vir aqui bater palmas ao governador, não é para vir aqui dizer que sim à política do governador, é para que cada um diga sinceramente o que pensa e faça abertamente as críticas que entenda dever fazer”.


Correndo contra a falta de meios militares

Não se pode negar que os primeiros tempos de Spínola na Guiné acusaram a dinâmica das mudanças no dispositivo militar. Quando Spínola chegou à Guiné a área controlada pelo PAIGC era estimada entre 50 a 60 por cento do território, se bem que os portugueses continuassem a ocupar todas as cidades, todos os postos administrativos, o que não é surpresa atendendo à natureza da guerrilha. Passou a ser proverbial encontrar o comandante-chefe no mato, durante as manhãs, o que se saldou em notáveis efeitos psicológicos nos soldados portugueses. Na área militar, Spínola não deixa margem a ilusões quanto à falta de meios, não ilude que a situação militar no terreno não era a mais favorável, não esconde o desânimo que ele próprio verifica no seio dos militares que se encontravam em serviço na Guiné. Como sempre, ele joga com expressões ambíguas e exige novos apoios, em todos os domínios, desde as equipas cirúrgicas a meios aéreos compatíveis com as novas realidades de amplos espaços ocupados por população hostil, faz mesmo alusões ao caso da Índia. Quando Caetano visita a Guiné, em Abril de 1969, em plena sala de operações do Comando-Chefe, Spínola não ilude a realidade: “O inimigo continua a manter a iniciativa num desenvolvimento sistemático da sua manobra de largo envolvimento e cerco à ilha de Bissau – seu objectivo militar e psicológico final”. À luz de todos os documentos deixados em poder dos governantes, a expressão “situação crítica” é correntemente usada a propósito da evolução militar.

Não se sentido devidamente apoiado quanto a uma conclusiva “manobra estratégica” por Lisboa, Spínola estabelece diferentes prioridades: o chão manjaco como área fulcral da luta contra a subversão (aí, em Abril de 1970, irá sofrer um duro revés com a morte de vários oficiais que negociavam com os combatentes do PAIGC); mais tarde, com anuência de Caetano, prepara a invasão de Conacri cujos resultados, em termos diplomáticos, serão um verdadeiro desaire para a política externa de Caetano.


Caetano e Spínola: da admiração à ruptura

É inegável que Caetano e Spínola tiveram uma profunda admiração recíproca. Ainda no Verão de 1970, encontraram-se no Buçaco, Caetano estava a trabalhar na revisão constitucional, fizera surgir a expressão “autonomia progressiva”. Desse encontro resultou um documento de Spínola que terá servido de base ao livro Portugal e o Futuro. O projecto de revisão constitucional de Caetano acabará por ser mitigado, trará decepção a Spínola. Em 1972, a quando das eleições presidenciais, Spínola terá considerado que iria ser chamado para a chefia do Estado. Nesse ano, Spínola, autorizado por Caetano, entabula conversações com Senghor, o presidente senegalês propôs-lhe uma autodeterminação gradual para a Guiné, seria uma medida cautelar para o desenvolvimento de uma nova classe governativa, Senghor acreditava mesmo no apoio de Amílcar Cabral a tal iniciativa. Caetano proíbe novas reuniões, chega mesmo a admitir que será preferível uma derrota militar a quaisquer compromissos que pudessem pôr em causa as outras parcelas do Ultramar. Nesse mesmo ano, Caetano proíbe uma reunião entre Spínola e Amílcar Cabral. A ruptura entre os dois políticos está consumada, e é assim que se caminha para a crise de 1973, um ano horrível para os dois. Em Janeiro, é assassinado Amílcar Cabral. Ainda hoje, os acontecimentos deste homicídio continuam no nevoeiro, nunca nenhum historiador conseguiu incriminar taxativamente quer a PIDE quer as autoridades de Conacri. O importante é que o PAIGC reagiu semeando o terror em Guidage, Guileje e Gadamael. Inicialmente, Spínola, com a concordância de Costa Gomes, inclina-se para três cenários: redução da área a defender; redução do dispositivo existente ou reforço do teatro de operações. Políticos e estrategas apoiam a redução da área a defender. É nessa data que Spínola escreve ao ministro do Ultramar e deixa claro que se caminha para um colapso militar, desfecho que ele vaticina que se irá verificar não no seu mandato, que esta a terminar, mas a seguir. Desalentado, informado que não há meios para contrariar as novas armas do PAIGC, Spínola decide abandonar as suas funções da Guiné. Mudara de opinião quanto à retracção do dispositivo militar, isso significaria o abandono de populações que nele tinham confiado. A Guiné tinha atingido uma fase “estritamente militar”, incompatível com os compromissos que ele considerava ter assumido com as populações. Regressa a Lisboa a 6 de Outubro de 1973, a Guiné já não tem solução militar, Spínola prepara a desforra. O historiador Luís Nuno Rodrigues explica todos esses acontecimentos, vale a pena ler esta biografia, o que aqui se relatou foi somente a relação entre Spínola e a Guiné.
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 2 de Maio de 2010 > Guiné 63/74 - P6300: Notas de leitura (100): Paraíso Verde - Contos de Francisco Valmoura (Mário Beja Santos)

Vd. primeiro poste da biografia de Spínola de 29 de Abril de 2010 > Guiné 63/74 - P6272: Notas de leitura (99): Spínola, a biografia de Luís Nuno Rodrigues (1) (Mário Beja Santos)

1 comentário:

Anónimo disse...

Curioso que sobre o assassinato de Amilcar, aos olhos do povo guineense em Bissau, quando se abordava o papel da PIDE ou de Spínola, de Portugal, portanto, nem punham a hipotese, tal o conhecimento de factos reais que o povo tinha.

Como sempre digo, nós em Portugal, só compreenderemos tudo o que nós passámos, assim como o que aquele povo passou, quando esse povo "historiar" como em Portugal estamos tentando fazer.

Assisti na Gulbenkian a uma "Conferência da cooperativa Militar", pois até um americano jovem historiador falou, mas com tantos Caboverdeanos, Guineenses, Angolanos e Moçambicanos, da luta e universitários antigos mais modernos, e ninguem é convidado para falar em eventos desse género.

Depois de tudo ainda é este blog o que de mais completo aparece sobre aguerra do Ultramar.

Antº Rosinha