terça-feira, 17 de novembro de 2009

Guiné 63/74 – P5286: Estórias do Mário Pinto (Mário Gualter Rodrigues Pinto) (27): As pescarias em Buba

1. O nosso Camarada Mário Gualter Rodrigues Pinto, ex-Fur Mil At Art da CART 2519 - "Os Morcegos de Mampatá" (Buba, Aldeia Formosa e Mampatá - 1969/71), enviou-nos a sua 27ª estória:

Camaradas,

Do meu baú lá tirei mais um texto cheio de poeira, que, depois de lhe ter sacudido o pó, deu origem a este conto ainda bem vivo na minha memória, a que dei o título:

AS PESCARIAS EM BUBA

Quem de LDG, ou outro tipo de embarcação, subia o rio grande de Buba, encontrava o aquartelamento local, sobe uma pequena encosta, com a sua ponte de madeira (a que chamávamos cais).

Este local, que parecia calmo e bem situado aos "Piras" que ali chegavam para cumprir as suas comissões, não passava de uma ilusão já que, como vinham a constatar ao longo do tempo, por amargas experiências de guerra, se tornou numa armadilha feroz.

O quartel de Buba era sede do COP4, onde o mítico Major Carlos Fabião era o seu comandante.

Era, por isso, a fonte dos abastecimentos de todo o tipo de equipamentos, combustíveis, munições e alimentos, aos aquartelamentos de Nhala, Mampatá e Aldeia Formosa, que, periodicamente, organizavam colunas a Buba para esse fim.

Era nessas idas a Buba, em colunas para reabastecimento, que eu e outros camaradas, aproveitávamos para nos dedicarmos à pesca e nos deliciarmos com uns peixinhos grelhados daquele imenso rio.

Tínhamos formas de pesca inauditas, uma delas era percorrer a margem do rio à procura de cardumes e lançar granadas de sopro ofensivas, para o meio dos pegos, onde se concentrava o maior número de peixes.

Do resultado das explosões, surgiam manga deles mortos à tona da água. Depois era só escolher os maiores e apanhá-los.

Seguíamos para o aquartelamento, onde preparávamos deliciosos banquetes com a restante malta da coluna.

Às vezes tínhamos o Major Carlos Fabião á perna, que não queria o pessoal exposto fora do arame, mas o pessoal lá contornava a situação e como ele gostava muito de peixe, tínhamos o cuidado de lhe guardar o maior exemplar que apanhávamos.

Pena, era não termos meios e condições para levar as pescarias para Mampatá, porque seria um ronco chegarmos lá com tais petiscos.

Buba tinha grande riqueza natural naquele braço de mar, que era muito rico em peixe e marisco; camarão, ostras, peixe-gato, tainhas, pargos e outros, de que eu apanhei variadíssimos e bons exemplares.

Como sempre fui adepto da pesca, às vezes dedicava-me a pescar à linha e, era com este processo, que conseguia peixes de maiores dimensões.

Assim ocupávamos o nosso descanso e passávamos o tempo livre, nos dias em que tínhamos de permanecer em Buba, para os necessários e habituais reabastecimentos.

Um abraço,
Mário Pinto
Fur Mil At Art

Fotos: © Mário Pinto (2009). Direitos reservados.
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Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em:

6 comentários:

MANUEL MAIA disse...

CARO MÁRIO,

AO LER-TE LEMBREI AS PESCARIAS FEITAS À GRANADA NO CUMBIDJÃ (NECESSARIAMENTE POUCAS QUE ALI ERA COMPLICADA A EXPOSIÇÃO...)E FUNDAMENTALMENTE AS QUE FAZIA À LINHA NO BRAÇO DE RIO DA BOLANHA DE FATIM ,COM VARA DE RAMO DE ÁRVORE E UMA SEDIELA COM ANZOL E MOSCA OU GAFANHOTO AGARRADOS.

O MAURÍCIO(MEU FAXINA E DO FUR.MOURA)PEDIA A CANA PARA PESCAR LOGO DE MANHÃ TRAZENDO-NOS UNS PEIXITOS PEQUENOS PARECIDOS COM PERCAS QUE FRITAVA E NOS TRAZIA PARA COMER COM CASQUEIRO ACOMPANHADOS DE UMA CERVEJA FRIA...

ÀS VEZES, A MAIOR QUANTIDADE DE PESCADO ERA NÃO DE PERCAS,MAS DAQUILO A QUE CHAMÁVAMOS PEIXE CARVALHO SEM V...TRATAVA-SE DE UM EXEMPLAR ROLIÇO, COMPRIDO, DO GÉNERO DA ENGUIA MAS QUE LOGO APÓS SER FRITO SE DESFAZIA AO SER TOCADO PELO GARFO...
CREIO QUE QUEM BAPTIZOU A ESPÉCIE TERÃO SIDO OS AÇOREANOS DE UMA COMPANHIA ANTES DA NOSSA NO LOCAL...

O MAURÍCIO MUITAS VEZES QUANDO NOS VIA NA MARGEM DE CANA A PESCAR, MERGULHAVA E APANHAVA-OS À MÃO JUNTO AO LODO DAS MARGENS...

QUE SAUDADES DESSE TEMPO.

UM ABRAÇO
MANUEL MAIA

Anónimo disse...

Caro Mário Pinto. Obrigado por ajudares a relembrar locais ,situacoes,Carlos Fabiao,as menos saudosas colunas de abastecimentos Buba-Aldeia Formosa,e,principalmente,Mampatá. Pequena tabanca perdida no mato,que,todos que lá viveram recordam com carinho especial. Um abraco do José Belo.(2381/Os Maiorais)

Hélder Valério disse...

Caro Mário Pinto

Estas tuas recordações são, quase sempre, retratos vivos da época e dos lugares. Por isso, os meus agradecimentos.

Mas já agora, de passagem, esclarece melhor aquela parte em que dizes: "Às vezes tínhamos o Major Carlos Fabião á perna, que não queria o pessoal exposto fora do arame, mas o pessoal lá contornava a situação e como ele gostava muito de peixe, tínhamos o cuidado de lhe guardar o maior exemplar que apanhávamos."
Então não é que, assim de repente, apareces, por um lado, a confirmar que haviam indicações para o 'pessoal não se expor fora do arame' e, por outro, informas que o Sr. Major Fabião transigiria nas suas ordens por um peixito ou outro, de preferência grandinho?
É pá, fiquei confuso e desiludido...

Bem, como isto tem andado um tanto 'azedo', espero que vejas o que escrevi como uma ironia...
Um abraço
Hélder S.

Zé Teixeira disse...

Mário.
No meu tempo, no inicio das obras da estrada, o Major Fabião proibiu-nos de pescar à granada, reportando-se ao risco de vida para nós e ao gasto de material de guerra. Claro que ficou a perder, porque a partir daquela data, usamos a espoleta, que não fazendo barulho, deixava o Fabião descansado. O peixe continuava a ser servido na mesa de uns tantos felizardos.
Deixa-me dizer-te que em Mampatá havia um riacho que na época das chuvas levava peixe, ali mesmo ao lado da tabanca, onde as bajudas iam lavar a nossa roupa. Não cacei peixe à granada, mas a tiro de G3. Com o impate da bala ficavam atordoados e eram "pescados" à mão.
E o Joséph Belo, o meu comandante, não deu por nada.
Abraço
Zé Teixeira

mario gualter rodrigues pinto disse...

Caro Helder Valério

As ordens do Major Carlos Fabião eram essas, toda a gente sabia que o mesmo não queria o pessoal fora do perimetro do aquartelamento, muito menos que a malta arriscasse o pelo na pesca.

Mas o pessoal que vinha a Buba abastecer já estava todo marado e apanhadinho e contrariava as ordens do Major Fabião, indo ao banho e á Pesca. Quem é que na quela altura se importava depois de termos passado a construção da estrada Buba-Ald.Formosa!

A oferta do peixe, era uma cortezia do pessoal porque toda a malta tinha consideração pelo Major.

É pá e no mato acredita, que grande parte das ordens de proibir isto e aquilo a malta cagava nelas.

Um abraço

Mário Pinto

Carvalho disse...

Amigo Mário
Não mentes, nem no pormenor das espécies de peixe. Por volta de 1972/74, a companhia de Buba tinha 2 ou 3 militares cujo trabalho diário era pescar, num barco «sintex», à linha o pargo e à rede a tainha.O cação não merecia pesca dedicada pois era pescado quando, por casualidade, se emaranhava nas redes da tainha sendo então morto a tiro. Assim os nossos camarigos de Buba comiam peixe até fartar e variado. Lembro-me (passei lá um mês a substituir o Fur Enf) de comer lá cação de caldeirada.
Um dia fui no Sintex com os pescadores e pesquei 13 bos pargos em poucos minutos. E nós em Mampatá a comer só arroz com rolhas.Dizes bem Mário Pinto que não dava para levar o peixe para Mampatá.Fi-lo uma vez mas chegou lá podre.
Obrigado Mário Pinto por nos trazeres estas recordações de um tempo sofrido, mitigado por algumas doçuras.
Um abração
Carvalho de Mampatá