terça-feira, 12 de maio de 2009

Guiné 63/74 - P4327: Venturas e Desventuras do Zé do Olho Vivo (Manuel Traquina) (7): O saxofone que não tinha sapatilhas

1. Mensagem de Manuel Traquina, ex-Fur Mil da CCAÇ 2382, Buba, 1968/70, com data de 2 de Maio de 2009:

Para publicação no blog envio um texto e uma fotografia.

Abraço
Traquina



O Correio /Os Aerogramas


Em tempo de guerra o correio é sem dúvida uma das coisas mais importantes. Poderemos dizer que em situações difíceis é das poucas coisas que exerce grande efeito psicológico na mente de cada um. É o contacto com a família, com a namorada, com a madrinha de guerra, em suma, muitas vezes o único contacto com o mundo exterior.

Naqueles tempos eram utilizadas as cartas, chamadas tipo papel de avião, cujos envelopes tinham uma pequena orla descontinua a verde e vermelho. Porém, eram mais utilizados os aerogramas que ficavam inteiramente gratuitos, os militares chamavam-lhes os aeros ou bate estradas. Desempenhavam um papel importante, eram oferecidos pelo Movimento Nacional Feminino e, transportados gratuitamente pela TAP.

Por graça, alguns militares tinham o hábito de enviar aerogramas para determinada localidade, dirigidos à menina mais bonita, à menina mais simpática, à jovem mais bela, ou outros do género, dependente da imaginação de cada um. Depois ficava o critério do carteiro, seleccionar ou, para se ver livre de mais um aero, entregar na rua, a quem muito bem entendesse.

Desta maneira a brincar, muitos tiveram a habitual madrinha de guerra, a namorada, ou nalguns casos até mesmo esposa! Quero aqui referir e ao mesmo tempo dirigir uma palavra de agradecimento a todas aquelas que foram as nossas Madrinhas de Guerra, umas que mais tarde vieram a ser namoradas e esposas, outras que se ficaram apenas por madrinhas. Naquele ambiente de guerra, é difícil calcular a alegria que se sentia, ao receber uma carta onde por certo vinham palavras acolhedoras e amigas.
Alguns militares endereçavam aeros uns aos outros, e no exterior escreviam contém um gravador. Os gravadores de som tinham feito a sua aparição à pouco tempo e eram uma novidade. Numa época que em Mampatá se trabalhava duramente na abertura de abrigos, alguém terá recebido um aerograma que no exterior dizia, contém uma picareta. Acho que foi mal recebido e rasgado de imediato, é que quem o recebeu estava já com as mãos bastante calejadas pelo uso dessa ferramenta…

A propósito recordo que um militar recebeu resposta a uma mensagem que enviara dentro de uma garrafa, arremessada ao mar quando viajava a bordo do “Niassa”. A resposta que curiosamente não se fez tardar, veio de uma jovem espanhola, (presume-se que de corpo bronzeado desfrutando dos calores mediterrâneos) encontrou a referida garrafa numa praia do sul de Espanha. Sei apenas que se iniciou uma troca de correspondência, que chegou mesmo a namoro!

Também com frequência se escrevia às senhoras do Movimento Nacional Feminino, e pedia-se de tudo. Por vezes lá chegava esta ou aquela oferta.

No Natal de 1968 creio que houve uma oferta a todos os militares, uma pequena embalagem de plástico, que continha um maço de cigarros e um isqueiro a gasolina. Tantos terão sido os pedidos, que um dia tivemos a visita da D.ª Cilinha Supico Pinto.
Esta animada visitante, bastante alegrou os militares reunidos à sua volta na pequena parada do aquartelamento de Buba. Começou por dizer que não fizessem pedidos difíceis de satisfazer. Parece que alguém teria pedido uma namorada, em que era indicada a cor dos cabelos, as medidas da anca, de peito e outras... Mas naquele dia, a ilustre visitante vinha fazer a entrega de um instrumento musical, um saxofone, que o corneteiro da Companhia, o Gentil lhe tinha pedido.

Bastante satisfeito ficou o militar mas, logo a seguir decepcionado. Ao instrumento, já bem usado, faltava aquilo a que se chamam sapatilhas. Mais difícil foi fazer compreender àquela senhora que as sapatilhas (pequenas válvulas do instrumento) faziam falta ao instrumento e não ao militar...
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 12 de Março de 2009 > Guiné 63/74 - P4019: Venturas e Desventuras do Zé do Olho Vivo (Manuel Traquina) (6): Estrada nova Buba - Aldeia Formosa

4 comentários:

Luís Graça disse...

Grande Zé do Olho Vivo! Grande Manel Traquina!

Toda esta "petite histoire", estas historietas, estes pequenos "faits divers", são importantes para perceber o nosso quotidiano, a nossa maneira de ser e estar, na guerra e na paz...

Tens uma excelente memória e poder de observação... O episódio do saxofone é de antologia. Deve figurar no nosso anedotário da guerra colonial... A senhora não deve ter feito a coisa por maldade, mas a verdade é que deveria ter experimentado primeiro o instrumento... Com tantas solicitações, alguém se vai preocupar com as"sapatilhas" do saxofone!... Nota 20, Manel!

António Matos disse...

Pois é verdade, eu também recordo o aerograma com saudade, não aquela saudade doentia, conservadora, castradora mas a saudade que nos transporta aos dias de hoje e nos catapulta para os emails, para os twiters, os facebooks, hi5's e afins e dizemos " aos anos que não falava deles" ...
Muito poucos teriam sido os dias de Guiné que não escrevesse 1/2 dúzia deles para aqueles que, sem o dizerem, ansiavam por notícias minhas.
Não tive a preocupação de dourar demasiado a pílula e fazer crer que aquilo seria um mar de rosas.
Também não dava largas a protagonismos desnecessários.
Julgo que retratei aqueles tempos com algum pragmatismo e hoje sinto alguma vontade de abrir o baú onde a minha mulher ( namorada na altura ) os guardou e dos quais não sei o tratamento que as traças lhes possam ter dado ...
Tanto quanto a memória possa ser chamada à colação, começam a querer acender-se umas luzinhas, muito téééénues, como que a ameaçarem fundir-se, com pormenores de deliciosa regressão ao passado ...
A primeira coisa de que me tento lembrar é o número de SPM.
Vou arriscar ; começava por 6 e terminava em 8. ( 6578 ? 6588 ? )
Vou tirar a limpo e um dia virei dizer-vos do estado dos meus neurónios memoriais ...
O(s) tema(s) era(m) recorrente(s) : promessas de amor para a namorada e os abraços sentidos para os pais e irmãos.
E na volta, à hora da distribuição do correio, o momento tomava foros de solenidade com as habituais manifestações de alegria por parte dos que recebiam notícias e a pungente tristeza dos que viam a ocasião protelada para mais tarde.
Entre uns e outros havia os analfabetos que, depois de receberem as cartas, pairavam como abutres à procura de quem seria o leitor de confiança para lhes entregarem os segredos.
Era evidente o ridículo a que se sujeitavam pois a devassa na caserna não tardava ...
As respostas não eram menos sujeitas ao escárnio e maldizer ...
Quantas vezes o "escriba" mandava os seus beijos em vez dos do enamorado ...
Havia os aerogramas azuis, os amarelos e, julgo, os côr-de-rosa.
Não tinham custos para o utilizador e tornaram-se num ex-libris nas circunstâncias.
António Matos

Antonio Graça de Abreu disse...

Aerogramas côr-de-rosa nunca vi. Mas pode ter havido.
A Guiné não deixará nunca de nos surprender.
Bazucas a disparar em rajada, golfinhos a saltitar na bolanha, bajudas negras como tições mas que, com maminhas alteadas, etc., mudavam rapidamente de cor. Enfim estivemos num inferno, mas garanto-vos que a distância do Inferno ao Paraíso é bem curta.
Um abraço,
António Graça de Abreu

Anónimo disse...

Olá Manuel Traquina
Não sei se estou a falar com o meu amigo e ex-colega do BPA Manuel Traquina de Tomar. A confirmar-se para quando o almoço de ex-colaboradores daquele grande Banco em que tivemos o previlégio de trabalhar?Estive há pouco tempo com o Cardoso que me confirmou encontrar-se em marcha tal realização.
Um abraço e até sempre
Antonio Nobre-ex-furriel miliciano da C.CAÇ 2464-Guine 1969 a 1970