sábado, 14 de abril de 2007

Guiné 63/74 - P1662: Aumento salarial de 15% da tropa africana em meados de 1973 (António Duarte, CART 3493 e CCAÇ 12)


Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Estrada Bambadinca-Mansambo > 1970 > Uma coluna auto da CCAÇ 12 a caminho de Mansambo. Em meados de 1973, a tropa africana recebeu um generoso aumento salarial de 15% ... Acentuava-se a africanização da guerra da Guiné e a escalada política e militar do PAIGC... Em Agosto de 1973, o pessoal africano da CCAÇ 12 tinha no mínimo 4 anos e meio de tropa e de guerra, fora o tempo de mílicia, em muitos casos (1)... (LG).

Foto do arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71). © Humberto Reis (2006). Direitos reservados.


Texto do António Duarte, ex-furriel miliciano ("Estive na CCAÇ 12 desde Janeiro de 1973, primeiro em Bambadinca e a partir de Abril no Xime, após as rotações das companhias, geradas pela transferência para Cobumba da Cart 3493, minha unidade inicial. Regressei à metrópole em Janeiro de 1974") (2).



Caro Luís Graça,

Por me parecer curioso, transcrevo um texto de Agosto de 1973, da história do BART 3873:

"Acção Psicológica e Promoção Social
"Segundo o que se acentuou, os contactos pop enfrentaram as dificuldades conexas à faina agrícola da época que retém na bolanha a gente das tabancas, durante quase todo o dia.

"O número de apresentados foi de 1 e uma vez mais no Enxalé.

"O aumento dos 15%, agora, pago, sobre os ordenados e pensões da tropa africana produziu uma impressão benéfica. São mais necessidades que se podem satisfazer o que se projecta na subida do nível de vida, não obstante a ignorância de muitos que os leva a desbaratar o dinheiro prodigamente".

Trata-se de um texto que roça o simplório / paternalista, mas que vale como peça da nossa história, mostrando a visão das NT.

Mantenhas para todos,
António Duarte

Cart 3493 e CCAÇ 12 (1971 a 1974)

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Notas de L.G.:


(1) Vd. post de 21 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXXV: Composição da CCAÇ 12, por Grupo de Combate, incluindo os soldados africanos (posto, número, nome, função e etnia)

(2) Vd. os seguintes posts, da autoria do António Duarte (ou com referências a ele):

5 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1565: A CCAÇ 12, o nosso 'neto' António Duarte e os nossos queridos 'nharros' (Abel Rodrigues)

28 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1553: A CCAÇ 12 no Poidão e na Ponta do Inglês, pela enésima vez (António Duarte)

20 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DLXVIII: Notícias da CART 3493 (Mansambo, 1972) e da CCAÇ 12 (Bambadinca e Xime, 1973/74) (António Duarte)

18 Fevereiro 2006 > Guiné 63/74 - DLXI: Um periquito da CCAÇ 12 (António Duarte / Sousa de Castro)

21 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1302: Blogoterapia (1): Palmas para o Amílcar Mendes, o Beja Santos e o Victor Tavares (António Duarte, CART 3493 e CCAÇ 12)

24 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P984: Ainda a tragédia de Quirafo: o 'morto' que afinal estava vivo (António Duarte)


17 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P966: O Mexia Alves que eu conheci em Bambadinca (António Duarte, CCAÇ 12, 1973)

11 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXLV: Ex-graduados da CCAÇ 12 também foram fuzilados (António Duarte)

Guiné 63/74 - P1661: Tertúlia: Notícias de Lafões, do Rui Ferreira, do Carlos Santos e da nossa gloriosa FAP (Victor Barata)

Guiné > Bissalanca > Restos do motor da DO 27, do Furriel Piloto Aviador Baltazar... De vez em quando, embora com menos frequência do que o pessoal do Exército, o pessoal da FAP também sofria acidentes graves (e quase sempre mortais). Esta imagem foi-nos enviada pelo nosso camarada Victor Barata, que vive hoje em Viseu, e que foi especialista de Instrumentos de Bordo, na nossa gloriosa FAP (1969/1974). Esteve na Guiné, de 1971/73, "na linha da frente das DO 27". Aterrou em tudo o que era bocado de pista (1). Pedi-lhe para me dar mais pormenores sobre este trágico acidente.

Foto: © Victor Barata (2007). Direitos reservados.

Mensagem do Victor Barata, com data de 2 de Março de 2007:


Olá, Camarada Luis.

Pode parecer que ando ausente da tertúlia, mas na realidade não é verdade, todos os dias de manhã e à noite, vou recuperar energias tertulianas para combater as carências sócio-afectivas em que mergulhou este País!

Convidei para almoçar comigo há cerca de 15 dias o Rui Alexandrino e o Carlos Santos, foi para mim uma satisfação conhecer mais um elemento da Guiné, o Carlos Santos, pois o Rui já conhecia. Fez o favor de, tal como a ti, oferecer-me a sua obra Rumo a Fulacunda com uma dedicatória comovente, como só ele sabe fazer (2).

Pois bem, alvitrei durante o repasto propor aos nossos camaradas Tertulianos uma recepção neste lindo jardim que dá pelo nome de Lafões (área geográfica que compreende os concelhos de Oliveira de Frades, Vouzela e S. Pedro do Sul) já com programa elaborado e tudo, solicitando ao Rui, que precisa de se entreter, que fosse o interlocutor contigo para que tal fosse uma realidade.

Segundo a informação do Rui e transmitida por ti, vai haver um almoço em Pombal com o Vitor Junqueira!?...

Vou fazer os possíveis para estar presente a representar a minha FAP [Força Aérea Portuguesa], mas não podemos nem queremos estar à vossa espera para o ano, é muito tempo, e esta confraternização aqui é reclamada por mim, pelo Rui Alexandrino, pelo Martins Julião, pelo Carlos Santos,etc, Vamos lá a fazer um esforço, acreditem que não vamos ficar mal com o programa a proporcionar-vos.

Vamos, Luis, fala lá com a malta, faz o teu esforço a que estas habituado para atingir este objectivo!

Um grande abraço.

Victor Barata
Telemóvel > 917 567 868

Comentário de L.G.:


Victor: Como eu já em tempos de tinha dito, a pista pode ser curta mas é toda tua... Na nossa caserna cabem todos os camaradas, sejam eles terrestres, voadores ou anfíbios. A FAP, tão dignamente representada por ti, é bem especialmente bem vinda à nossa tertúlia e ao nosso blogue...

Também te disse que, sem ter privado convosco (contrariamente ao meu camarada da CCAÇ 12, o Fur Mil Humberto Reis, que adorava viajar pelo ar e fotografar os cantinhos da Guiné), eu sempre tive uma especial, secreta, admiração pelos malucos dessas máquinas voadoras que eram as DO 27 e que nos traziam notícias do mundo, do outro do mundo...

Já não gostava tanto, como também te disse, muito sinceramente, quando elas, em vez do carteiro, transportavam o senhor major de operações ou o senhor comandante de qualquer coisa... Ou sejam, quando de frágil caranguejola eram promovidas a um coisa que pomposamente se chamava o PCV. Do PCV tenho as piores recordações da mimnha vida na Giuné...

A tua proposta - que eu sei que é também do Rui e da rapaziada da tertúlia de Viseu - é irrecusável. Por mim, proponho que o 3º encontro da nossa tertúlia seja nas terras de Lafões. Ms o povo é quem mais orden(h)a...

Dá-me uma valente abraço ao Rui, ao Carlos e ao Julião. Outro para ti. E faz-me o favor de ma ndar estórias desses gloriosos malucos das máquinas voadoras. A minha homenagem, sentida, aos que perderam a vida na Guiné. Encontramo-nos em Pombal.

_____________

Notas de L.G.

(1) Vd. posts de:

10 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXLI: Ajudem-me a encontrar o tenente evacuado em 1973 do Corredor da Morte (Victor Barata)

9 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXXXIX: Victor Barata, MELEC da FAP (1971/73)

(2) Vd. post de 17 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1285: Bibliografia de uma guerra (14): Rumo a Fulacunda, um best seller, de Rui Alexandrino Ferreira (Luís Graça)

Guiné 63/74 - P1660: Tertúlia: Presente em espírito no encontro de Pombal (1): Martins Julião, ex-al mil, CCAÇ 2701 (Saltinho, 1970/72)

1. Mensagem do Martins Julião (1):


É com enorme desgosto que te comunico que não poderei estar presente em Pombal (1). Estarei em Itália em negócios inadiáveis.

Por favor aceita ser o portador do meu imenso abraço para todos, abraço de camaradagem, amizade, solidariedade e saudade.

Bem hajam todos, por nos mantermos unidos num País que nos esquece e nos mal trata, mas nós não podemos esquecer, porque , bem ou mal ( à luz da História dos Povos), servimos Portugal.... a nossa Pátria.

Bem hajas tu pela iniciativa que tomaste e que tão bem guias pelo tempo que passa.

Será um grande Convívio e um grande Encontro em Pombal.

Um abraço para todos do

Martins Julião
Ex Alf Mil CCAÇ 2701
(Saltinho, Abril de 1970/Abril de 72).

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Notas de L.G.:

(1) Vd. posts de


23 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P981: Apresenta-se o Alf Mil Inf Martins Julião (CCAÇ 2701, Saltinho, 1970/72)

(...) "Só há pouco tempo conheci este espaço de encontro. O Paulo Santiago (Pel Caç Nat 53, Saltinho), foi o camarada responsável pela minha apresentação aos camaradas de tertúlia.Chamo-me Martins Julião, fui Alferes Miliciano de Infantaria da CCAÇ 2701 (Saltinho, Abril de 1970/Abril de 72).Hoje sou um pequeno empresário e gerente de uma unidade industrial, após mais de 20 anos como professor do Ensino Secundário" (...).

(...)"Em meados de Novembro, o Alf Mil Julião, na altura a comandar a companhia [,a CCAÇ 2701,] na ausência do Cap Clemente, em férias, chamou-me ao gabinete para me informar de um patrulhamento que teria de fazer no dia seguinte. Sairia do quartel às 05.00 em coluna auto até Cansonco, donde seguiria a pé, ladeando o rio Pulom, até encontrar o carreiro dos djilas continuando para Madina Buco. Não deveria ter problemas, era mais para me ambientar ao mato, informou-me" (...).


24 de Novembro de 2006> Guiné 63/74 - P1314: Estórias de Bissau (8): Roteiro da noite: Orion, Chez Toi, Pilão (Paulo Santiago)

(...) "O Martins Julião estava em Bissau a chefiar a comissão liquidatária da CCAÇ 2701 [, Saltinho, 170/72]: sabendo que me encontrava a bordo da Orion, apareceu no fim de jantar, ainda a tempo de beber uns uísques" (...).

13 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1424: Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos (Paulo Santiago) (6): amigos do peito da CCAÇ 2701 (Saltinho, 1970/72)

(...) "Havia depois o Alf Julião, como mais antigo, substituía o Clemente, nas ausências deste. Já é conhecido da Tertúlia, esteve na Ameira (3), e todos sabem termos uma amizade de aço, vinda dos matos da Guiné" (...).

(2) vfd. post de 15 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1177: Encontro da Ameira: foi bonita a festa, pá... A próxima será no Pombal (Luís Graça)

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Guiné 63/74 - P1659: O Mito do Lobo Mau e as manhas do Capuchinho Vermelho do PAIGC (Vitor Junqueira)



Texto do Vitor Junqueira (Ex-Alf Mil CCAÇ 2753 , Os Barões, Bironque, K3, Mansabá, Ago 1970/ Jul 1972, residente em Pombal onde é médico):

Camarada Raúl Albino,

Acabei de ler o teu texto no Blog (1), com muito interesse, e não resisti ao impulso de acrescentar qualquer coisa da minha própria vivência como palmilhante daqueles sítios.

Começo por confirmar que, de facto, a progressão de qualquer coluna militar (apeada) naquele tipo de mata era extremamente difícil. Na maior parte das vezes, éramos mesmo obrigados a utilizar os trilhos do IN com os inerentes cuidados e perigos. Nesses trilhos ficaram muitas pernas e alguns tomates de camaradas nossos. A opção era poder ficar debaixo de fogo, encurralados sob um tecto vegetal com os corpos e equipamento enredados pelas lianas. E aí sim, eles faziam-nos a barba.

Mas se a escolha dos itinerários de aproximação era um negócio complicado que por vezes exigia horas de estudo àquele a quem calhava a fava, os trajectos de regresso ou retirada eram ainda mais difíceis de seleccionar. Aí, valia a experiência e o instinto, exclusivamente. É claro que isto era válido para a região que conhecemos, provavelmente os camaradas que trabalharam num contexto florístico diferente, teriam de fazer opções de outra natureza.

Quanto ao secretismo das operações, no meu tempo, ele nunca existiu. Em primeiro lugar, porque havia tempo que o PAIGC e as suas forças armadas possuíam um excelente serviço de rádio-escuta. Os seus especialistas desencriptavam Ordens de Operações emanadas de Rep Oper em Bissau e os comandos regionais eram alertados com a devida antecedência.

Nestes casos, acontecia o que descreves, ou seja, os caminhos que conduziam ao nosso objectivo, ficavam sob vigilância e eram muitas vezes emboscados. Depois, porque na preparação de operações da iniciativa das unidades de quadrícula, havia certos sinais impossíveis de neutralizar, que eram facilmente detectáveis por certos elementos da população. Quem não se lembra das colunas em que até à última da hora ninguém piava, e no entanto, ainda antes dos Unimog e das Berliet formarem, lá estava a tabanca inteira com a respectiva quitanda à espera de boleia?

Abordaste também a questão da fidelidade (duvidosa) de batedores ou pisteiros integrados na tua coluna. É assunto sobre o qual não tive qualquer experiência. Não existiam na minha unidade. Na dúvida, inclino-me para que fossem leais. Até porque o seu próprio coiro, corria os mesmos riscos que todos vós.

Outra coisa é a passagem de informações do seio das nossas FA para o IN. Sobre isso não tenho quaisquer dúvidas, é norma em todos os conflitos bélicos.

Para terminar, a questão do Helicanhão. Que se pronunciem os especialistas, mas enquanto tal não acontece, sempre vou adiantando, sujeito a desmentido, que estava armado com um canhão/metralhadora Browning de 20mm cujas munições dispunham de espoleta de tempos. O segundo tempo produzia os estilhaços que podiam atingir diversos níveis, por ex. o solo ou as copas das árvores, dependendo da altitude do sobrevoo.

Naturalmente que todos reconhecemos o esforço e valentia dos nossos camaradas da Força Aérea, que davam tudo por tudo para nos apoiarem em situações de aperto. Estamos-lhes gratos por isso. Infelizmente, não existem armas mágicas ou infalíveis, e todas as aeronaves têm as suas vunerabilidades. No caso dos Helicanhões, para nos apoiarem com eficiência tinham que voar a baixa altitude, o que os colocava ao alcance dos projécteis de armas ligeiras e até dos RPG. Algumas vezes ouvi o seguinte Estou a ser batido, tenho de retirar.... E não havia mais nada para ninguém.

No entanto, a [força]mítica do Lobo Mau (2) manteve-se até hoje. Em grande parte perpetuada por nós próprios, certamente devido ao conforto psicológico que nos invadia quando no horizonte avistávamos a sua silhueta, ou ouvíamos o ruído dos rotores pairando sobre as nossas cabeças, de aflitos mortais. E como mortais que somos, precisamos de mitos. Um dos mais extraordinários e bem aceites que conheço, é o que dá crédito à afirmação de que tendo perdido o domínio do espaço aéreo, com o aparecimento no teatro de operações dos mísseis Strella, perdemos militarmente a guerra!

Hei-de voltar a este assunto.
Peço-te que aceites um abraço do,

Vitor Junqueira

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Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 13 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1658: História da CCAÇ 2402 (Raul Albino) (4): Uma emboscada em Catora e um Lobo Mau pouco predador

(2) Observação adicional do Vitor Junqueira.: " Luís, Lobo Mau, não era alcunha, era o código de identificação e chamada do Helicanhão. Para os Fiat era Tigre, as DO eram Rajá e por aí fora".

Guiné 63/74 - P1658: História da CCAÇ 2402 (Raul Albino) (4): Uma emboscada em Catora e um Lobo Mau pouco predador

Guiné > Região do Cacheu > Pelundo > Có > CCAÇ 2402 (1968/70) > 26 de Setembro de 1968 > Operação Adenóide > O 3º Pelotão, em bicha de pirilau, a caminho da mata de Catora (a meio, a sul da estrada Pelundo-Có).

Região do Cacheu > Pelundo > Có > CCAÇ 2402 (1968/70) > 26 de Setembro de 1968 > Operação Adenóide > As NT em deslocação a caminho do objectivo: a mata da Catora.


Quarta parte das memórias de campanha de Raul Albino, ex-alf mil da CCAÇ 2402, pertencente ao BCAÇ 2851 (, Mansabá, Olossato, 1968/70), que embarcou no Uíge, em finais de Julho, juntamente com o BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70) . Texto enviado em 21 de Fevereiro de 2007. As nossas desculpas ao autor pelo atraso na publicação desta IV parte (1). (LG).


Fotos: © Raul Albino (2007). Direitos reservados.


Operação Adenóide – Emboscada na Catora
por Raul Albino


Esta operação, realizada em 26 de Setembro de 1968, era constituída por um pequeno número de Milícias Nativos e dois grupos de combate da CCAÇ 2402. Os nativos seguiam na frente da coluna como batedores, seguindo-se o 3º pelotão e na retaguarda o outro grupo que a memória já não me permite recordar.

O objectivo da missão encontrava-se no interior da mata da Catora, considerada na altura como uma região extremamente perigosa, pela densidade da sua mata, difícil de penetrar e que, por essas razões, controlada pelo inimigo, que se movimentava dentro dela com grande à vontade devido à protecção que as características do terreno lhes dava.

A maneira mais fácil de atravessar esta mata era precisamente através do caminho estreito de terra batida que lá existia, tornando-o uma autêntica tentação para a sua travessia, em comparação com qualquer outro penoso trajecto que se tivesse coragem de utilizar. (Ver a seta).

Localização de Catora, na carta de Pelundo. Pertencia ao regulado de Có. Ficava na bacia hidrográfica do Rio Catora. afluente do Rio de Timate que, por sua vez, ia desaguar no Rio Mansoa...


Quando o passa-a-palavra era um meio de comunicação.


Como podem ver pela Figura 1 (as figuras espinhosas significam árvores e não explosões), as nossas tropas encaminhavam-se precisamente para a entrada dessa mata, conduzidas pelas milícias que na frente escolhiam o melhor caminho. O curioso é que nem os nativos propuseram qualquer outro caminho de entrada na dita mata, talvez sabendo o castigo que era percorrer os outros trilhos alternativos.



Fonte: © Raul Albino (2007). Direitos reservados.

Quando me apercebi dessa orientação para a entrada da mata, um sexto sentido me ia dizendo que, se eu fosse o inimigo, era nessa entrada, precisamente, que eu faria uma emboscada. Aprecei-me a fazer passar a palavra para os batedores da frente, que deveriam atravessar a caminho para o lado direito e procurar outra entrada ao longo da orla da floresta.

Em cima, tropas em deslocação para o objectivo. Para perceber melhor o meu drama, devo esclarecer que na época o único meio de comunicação que possuíamos, era um rádio carregado às costas por um soldado de transmissões que servia para o contacto com o quartel. Entre os componentes da coluna, a única forma de comunicação era o que se denominava de passa-palavra, pessoa a pessoa, até chegar ao elemento de destino, neste caso os milícias que seguiam na cabeça da coluna.

Que jeitão daria possuirmos nessa altura telemóveis para falar, para já não referir aos modernos e sofisticados sistemas de comunicação que as tropas americanas possuem nos dias de hoje. Quando me apercebi que a ordem que enviei não estava a ser cumprida e as nossas tropas continuavam a dirigir-se inexoravelmente para a boca do lobo, tive de reconhecer que efectivamente só as ordens de parar e andar funcionavam a preceito. Vai daí, dei ordem de paragem à coluna, dirigi-me pessoalmente aos nativos que seguiam na frente e expliquei-lhes o que eu pretendia.



Fonte: © Raul Albino (2007). Direitos reservados.

Em boa hora o fiz, porque esta minha teimosia, salvou-nos de um desastre militar bem grande. Como podem ver pela Figura 2, quando o inimigo se apercebeu da nossa manobra, iniciaram o ataque como tinham planeado, mas, agora, as nossas tropas já tinham capacidade de resposta ao fogo inimigo.

A nossa posição ainda não era a melhor porque o grupo de combate que seguia na retaguarda, ainda não tinha feito a passagem para o lado direito do caminho, daí a que a sua reacção foi praticamente nula, contudo as milícias nativas e o 3º pelotão que seguia comigo na frente colado aos milícias, conseguimos responder prontamente com todo o armamento que possuíamos.


Uma história do Lobo Mau.


Logo que o contacto com o inimigo aconteceu, foi imediatamente pedido ao quartel, via rádio, para nos ser enviado auxílio aéreo. Nesse momento, tive simultaneamente a maior alegria e maior desilusão, no respeitante a apoio aéreo. A maior alegria foi que, com grande rapidez, surgiu no ar um heli-canhão de apoio ao solo, que na altura era conhecido por Lobo Mau.

Região do Cacheu > Pelundo > Có > CCAÇ 2402 (1968/70) > 26 de Setembro de 1968 > Operação Adenóide > "om grande rapidez, surgiu no ar um heli-canhão de apoio ao solo, que na altura era conhecido por Lobo Mau"...

Foto: © Raul Albino (2007). Direitos reservados.


Possuía um canhão ligeiro de granadas explosivas, que disparava com uma boa cadência. A desilusão consistiu em que eu esperava que a eficiência daqueles disparos fosse maior, porque estávamos numa situação única para darmos ao inimigo uma lição forte, visto eles estarem mesmo ao alcance do helicóptero, coisa que raramente acontecia, pois quando o helicóptero ou avião de apoio chegavam, já o inimigo se tinha retirado há muito.

O resultado foi que a mata era demasiado densa, as granadas tinham fraca intensidade e o inimigo facilmente se escondia debaixo das árvores, enquanto as granadas rebentavam na copa. Mais eficiente foi o fogo de dilagrama (dispositivo de lançamento de granadas de mão defensivas) que eu próprio orientei no terreno, que se manifestou como uma excelente arma para as características da maior parte dos terrenos onde as nossas tropas se movimentavam.

Região do Cacheu > Pelundo > Có > CCAÇ 2402 (1968/70) > Uma dilagrama na ponta da espingarada G-3

Foto: © Raul Albino (2007). Direitos reservados.


A partir daí passei sempre a andar com um militar munido de dilagramas perto de mim. Teoricamente esse militar funcionava como o meu guarda-costas, mas, na prática, eu é que era o guarda-costas dele, porque um militar com este tipo de arma, não se podia defender nem a ele próprio quando alguma luta corpo-a-corpo ou de grande proximidade tinha lugar.

Agora teremos de reconhecer que, se bem que a eficiência de tiro do helicanhão não fosse satisfatória, a sua influência dissuasiva com os disparos aéreos, foi mais que suficiente para meter o inimigo em fuga com algumas baixas e abandono de material. Para nosso desespero os ferimentos só eram detectados pelo sangue no solo, que denunciava a consequência do nosso fogo. O inimigo tinha uma preocupação extrema em não deixar ficar para trás qualquer ferido, retirando assim às nossas tropas a hipótese de quantificar o número de baixas causadas.


Perguntas sem resposta


Análise militar a este contacto com o IN. Perguntas que me ficaram sem resposta.

(i) O que fazia um grupo IN emboscado naquele local à espera das nossas tropas? Coincidência? Não acredito… Eles tinham sempre alvos estáticos (ex.: quartéis) ou móveis de sentido garantido (ex.: colunas de viaturas de reabastecimento), porque estariam ali em espera pela hipótese remota das NT por lá passarem? Ou tiveram informação prévia? Neste caso como teria sido feita a transmissão? Por estafeta? Por rádio? Só souberam da operação à saída das tropas do quartel, ou souberam mesmo antes de eu ter conhecimento dela?

Nisto o Cap Vargas Cardoso [, comandante da CCAÇ 27102,] era rigoroso. Só informava os operacionais uma ou duas horas antes da saída. A única excepção era o serviço de alimentação e por consequência o seu pessoal da cozinha (com nativos na equipa – ver foto em baixo), que era informado mais cedo para ter prontas as rações de combate e o café matinal nas saídas de madrugada, como era o caso, no entanto, eles saberiam que íamos sair e qual a hora, mas nunca o objectivo.

O que me faz matutar nisto é que este estilo de emboscada do IN era perfeitamente normal nas NT que as faziam amiúde nos arredores dos aquartelamentos como medida preventiva contra ataques aos quartéis, ou ao longo do itinerário das colunas de viaturas de abastecimento. Parecia que, por razão desconhecida, as coisas estavam invertidas. Ou estariam eles a proteger alguma coisa verdadeiramente importante ao ponto de recorrerem a uma emboscada preventiva à boa maneira das nossas tropas?

Região do Cacheu > Pelundo > Có > CCAÇ 2402 (1968/70) > O pessoal de cozinha incluía civis cuja lealdade às NT era controversa...

Foto: © Raul Albino (2007). Direitos reservados.


(ii) A prontidão no aparecimento do heli-canhão Lobo Mau. O heli-canhão devia estar bem perto do local da emboscada, para se apresentar tão prontamente em nosso auxílio, num tempo que considerei recorde e me deixou deveras espantado. Qual seria a missão do heli-canhão para estar a sobrevoar aquelas redondezas? Estaria a procurar precisamente aquilo que o IN queria proteger com a emboscada que fez às NT?

(iii) A persistência dos guias nativos em nos conduzir ao ponto da emboscada. Na altura entendi que eles estavam simplesmente a escolher o percurso mais fácil e directo para o local de objectivo das NT. Mas, seria mesmo isso?

Creio que estas dúvidas nunca chegarão a ter resposta. Só o inimigo de outrora as poderia tirar e esses, possivelmente, já nem estarão vivos.

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Nota de L.G.:

(1) Vd. post anteriores:

15 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1282: História da CCAÇ 2402 (Raul Albino) (1): duas baixas de vulto, Beja Santos e Medeiros Ferreira

6 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1343: História da CCAÇ 2402 (Raul Albino) (2): O primeiro ataque ao quartel de Có, os primeiros revezes do IN

12 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1516: História da CCAÇ 2402 (Raul Albino) (3): Combatentes, trolhas e formigas bagabaga

Guiné 63/74 - P1657: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (41): Cartas de além-mar em África para aquém-mar em Portugal (3)


41ª Parte da série Operação Macaréu à Vista, da autoria de Beja Santos (ex-alf mil, comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) (1). Texto enviado em 19 de Março de 2007.


Cartas de um militar além-mar em África para aquém em Portugal(3º e última parte)

por Beja Santos



Carta para o Paulo Simões da Costa

Meu estimado Paulo

Recebi a tua carta a caminho de Nampula. Espero que na secretaria tenhas uma existência agradável e nas horas vagas possas apreciar as beleza naturais, que me dizem ser assombrosas. O fotógrafo Luís Soares, que trabalhou com o meu pai, ofereceu-me uma fotografia da ilha de Moçambique que me deixou sem fala.

Por aqui vivemos um período de grandes dificuldades, a reconstruir Missirá, bem afectada por um ataque que incendiou metade das moranças civis. Felizmente que tem sido possível conciliar as obrigações inadiáveis dos nossos patrulhamentos diários com a reconstrução. Tenho muito orgulho nos meus soldados que prescindem férias e descanso.

Dentro em breve irá para Moçambique o Carlos Sampaio, seguramente mobilizado para um teatro de operações. Como tu gostas muito do Malraux (sobretudo o estudioso da arte) quero informar-te que vai seguir pelo correio um livrinho da colecção Miniatura, dos Livros do Brasil, que me surpreendeu pela alta qualidade literária, quando ele tinha a nossa idade. Tu vais ler diálogos imaginados entre um francês possídor de conhecimentos de obras chinesas que troca correspondência com um chinês, fascinado pela cultura ocidental.

Para te despertar a curiosidade, aqui vão algumas passagens. Escreve Ling: "O artista não é aquele que cria mas aquele que sente... o tempo para vós é aquuilo que fazeis dele e nós somos o que ele faz de nós". O correspondente francês procura sensibilizá-lo coma a ideia de nação, o sentido da alma ocidental, as fontes da vida imaginária e o génio europeu. O chinês contrapõe e esclarece a diferença que separa as duas sensibilidades: "Se sonhamos é apenas para pedir aos nossos sonhos a sabedoria que nos recusa a vida. O sonho do chinês não é povoado de imagens, ele não vê nem velhas conquistas nem a glória, mas a possibilidade de apreciar tudo com perfeição, de não se prender ao efémero".

Quando o francês procura esclarecer o chinês acerca das experiências artísticas, fazendo coincidir a história da Europa com a história da sua arte, ele responde: "Para o pensador do Extremo Oriente, o único conhecimento digno de ser adquirido é o do universo. O mundo é o resultado da oposição de dois ritmos que penetram todas as coisas existentes. O seu equlíbrio absoluto seria o nada; toda a criação procede da sua ruptura e implica necessariamente a diferença".

Dou comigo às vezes a pensar nestes labirintos silenciosos onde nos encontramos e ficamos em diálogo como amigos de longa data. Olha a curiosidade: a 11 de Abril de 67, almocei em minha casa com o Carlos Sampaio e a minha mãe. O Carlos levou-me à estação, entregou-me livros, prometemo mantermo-nos em contacto. A seguir apanho o comboio e conheci-te e aqui estamos. Desejo do coração que tudo corra bem contigo e que me ajudes nos momentos mais difíceis e me encorajes a resistir a esta dura canseira. Fica com muita estima.


Carta para José Carlos Megre

Meu caro Zé Carlos

Recebi a tua carta com a revista em que publicaste um poema meu. Tenho muitas saudades do tempo em que na Av da República, 84, 4º, confeccionávamos com o Pedro Roseta e o Barata Moura o nosso Encontro. Tu empurraste-me para as críticas de cinema e teatro, ensinaste-me as manhas para enganarmos a censura, deste-me a conhecer Mounier, aprendi contigo o que era o catolicismo de vanguarda e a importância de muitos títulos da Moraes Editora.

Não te quero deixar sem uma compensação. Imagina tu que antes de ir para a Guiné um amigo me ofereceu um livro da Simone Weil, autora que eu desconhecia, com uma temática extremamente arrojada: uma crente que está nos umbrais da fé, que se sente chamda por Cristo, mas que ainda não pode ultrapassar o silêncio. Vou mandar-te o livro, logo que ele esteja bem digerido. A Simone Weil, militante da Extrema Esquerda que por ser judia é forçada a abandonar a França e conhece exílios na América e em Londres, onde morre precocemente. O livro chama-se Attente de Dieu e é constituído por cartas que envia a um religioso. O que pasma é a sua extrema sinceridade, a sua força espiritual e o conhecimento do cristianismo. Ela aproxima-se da Igreja, mas está cheia de dúvidas.

Dou-te só dois pequenos exemplos da beleza desta escrita: "A infelicidade está verdadeiramente no centro do cristianismo. Amar a Deus ou amar o próximo passa pela infelicidade. Não podemos amar a Deus senão olhando a Cruz". E mais adiante: "No amor verdadeiro, não somos nós que amamos os infelizes em Deus, é Deus em nós que ama os infelizes. Quando estamos mergulhados na infelicidade, é Deus em nós que ama aqueles que nos querem bem". Aqui, neste ponto ermo, esta espera de Deus veio em meu auxílio. Espero que aprecies esta grande senhora que foi professora de filosofia e que quis combater na Guerra Civil de Espanha, uma agnóstica que um dia confessou: "Cristo desceu e tomou-me".

Zé Carlos, tomei a decisão de não voltar a publicar poemas, não sou poeta, o que escrevo é uma xaropada, há que ter respeito por quem paga jornais e revistas. Acresce que o que me vai na alma muitas vezes é tão doloroso que receio confundir a conjuntura com o sentimento definitivo. O que escrever vou guardar, sem quaisquer compromissos. Sempre que puderes, manda-me os jornais para eu ter saudades do ideal e da alegria com que colaborava no nosso jornal E escreve-me sempre pois um dia esta guerra vai acabar e tu vais ajudar-me a recomeçar. Obrigado por tudo.

Carta para Cristina Allen

Meu Adorado Amor

Chegaram ontem duas cartinhas tuas. Agradeço-te as visitas que fizeste ao Fodé e ao Paulo, isto quando estás a fazer frequências. Antes de falar do que tem aqui acontecido, quero dizer-te que o teu antigo professor de Expansão Portuguesa, o Teixeira da Mota, fez de mim seu ajudante para confirmar alguns dados. Penso que ele anda a preparar seja um livro acerca do Teixeira Pinto, seja sobre as guerras da pacificação da Guiné, assim que lhe disse que estava vivo o último filho do régulo Infali Soncó, logo me mandou uma bateria de perguntas acerca desse lendário guerreiro que derrotou o Teixeira Pinto nas guerras do Oio.

Recolhi o depoimento de Alage Soaré Soncó com o auxílio do Benjamim Lopes da Costa e do principe Samba, que dominam perfeitamente o mandinga. Não te vou prender com o relato destas peripécias, ele foi amado e condecorado pelas autoridades portuguesas que mais tarde traiu sem piedade. O que gostei mais no relato deste Alage Soncó foi uma história passada em 1915 em que o Governador, que na altura vivia em Bolama, então a capital, se deslocou aos regulados do Leste da Guiné, onde se deu um grave incidente.

Infali saiu de Sansão (aqui ao pé de Missirá) acompanhado por músicos em sinal de boas vindas. Foi tal a algazarra dos músicos e o avanço de uma multidão a correr para o séquito do Governador que um alferes, desconhecedor do significado daquela fanfarra, mandou disparar, dando origem ao cerco dos portugueses pela gente de Inafali.

Foi preso um alferes, dois sargentos e catorze praças, que ficaram reféns, enquanto o Governador se punha em fuga. Começaram as hostilidades e um pouco á semelhança do que se passa hoje, começaram os ataques do Geba. Entretanto, o alferes, que vivia perto aqui de nós, em Aldeia do Cuor, apaixonou-se por uma linda negra de nome Cumba Mané. Como numa ópera ou numa tragédia literária, assim que vieram resgatar o alferes, este suicidou-se, há quem diga por insanidade mental, há quem diga que por um grande amor pela Cumba, que ele não queria abandonar (2). O que aqui te escrevo, juro-te que me foi contado e transmiti ao Comandante Teixeira da Mota.

Informo-te que já chegaram camas, lençóis e fronhas para substituir tudo o que foi devorado pelo fogo. Como as obras se vão prolongar por mais um mês e meio, como as casas ainda estão em construção, não é possível viver de outra maneira de que atamancados nos abrigos, à espera de dias melhores.

Dois meninos meus amigos vieram visitar-me, o Mazaqueu e o Abudu Cassamá. Prometi-lhes material escolar e roupa nova no mercado de Bambadinca. Espero dentro de dias passar uma semana em Finete, a dar apoio ao novo Comandante, Bacari Soncó. Vamos fazer um telheiro para as mulheres do chefe de tabanca, instalações sanitárias e dois abrigos.

Como tu achas graça às trivialidades, segue-se mais uma . Através da confidencial 1704/01/69, o Batalhão de Engenharia mandou-nos uma agradável mensagem: "Motoserra segue hoje via barco. Fica como material carga". Um mês depois do ataque a Missirá chegam as malditas chuvas e imprevistos tornados. Tenho casas alagadas, o tecto da casa de Uam Sambu andou pelos ares e veio cair na parada.

Bambadinca informou-me ter dado apoio às propostas para condecoração de três bravos soldados, Cherno Suane, Mamadu Djau e Mamadu Camará. O Almeida e o pelotão 63, que estão em Bambadinca, passaram um mau bocado numa emboscada na zona do Xime, foi uma duríssima hora debaixo de fogo em que foi preciso a aviação vir tirar do apuro e mesmo assim teve três soldados estilhaçados com gravidade.

Deixo boas e más notícias para o fim. Chegou o Casanova que me entregou o Chopin interpretado por Samson François (prelúdios) e por Vladimir Ashkenazy (os dois concertos). Não sei como te hei-de agradecer bem como aos teus pais. Volto a andar sem dinheiro, já tenho idade para resistir a certos impulsos mas apareceu aqui o soldado Sadjo Seidi em pranto com as dívidas do pai que ameaça matar-se se não paga as dívidas e passei-lhe para as mãos os meus últimos 500 escudos...

E logo o Sadjo me perguntou se para o mês que vem lhe posso emprestar dinheiro para comprar nova mulher já que a primeira fugiu com o outro que vive na povoação de Geba. Como te recordas, palmaram-me 1500 escudos que deixara em cima da mesa, ainda não estou recomposto com a violência desta agressão e aproveitei para dizer aos soldados quando nos reunimos que há bandidos que nos queimam as casas e há outros que nos roubam sossegadamente dentro delas. Mudando de assunto, o Djaló Indjai escreveu-me, já está a restabelecer-se e vai contactar-te.

Estou a ler Espera de Deus de Simone Weil. Desculpa hoje não te falar da obra, tal o cansaço. Amanhã quem vai de manhã cedo a Mato de Cão é o Casanova, temos os cibes cortados e quero estar presente na montagem do forro dos abrigos, onde depois metemos cimento dentro e por cima da chapa zincada. Mas este livro tocou-me tão profundamente que resolvi escrevinhar um textinho que é só para ti:

Caminhada

Tu és a minha companhia da viagem.
Quando a minha memória se povoa de pássaros cegos,
quando uma melodia de sal me traz à lembrança o cerco destas bolanhas,
onde os lótus frutificam dentro da água de arroz, insensíveis aos vermes,
tu vens na confidência das línguas de fogo,
tu vences esta solidão que se evapora nos alto fornos
resgatando a esperança
que está imobilizada na estrada acima do rio
para onde vou partir a pensar em ti
e na tua coragem textual.
Tu és a minha companheira de viagem.
Por isso, antes de partir
falo silenciosamente no açude dos tímpanos
e quero que saibas: é fausto este amor, é um concerto polar
este amar.
Graças a ti, há todo o sentido em esquecer estes pingos da noite, conferindo direito de nos ocupares a sombra
neste gigante equatorial de matas que se sucedem,
aguardando a tua mensagem.
Tu és o sentido da caminhada.



Este textinho é um arremedo poético que não mostrarás a ninguém. Quanto à má notícia, as mulheres dos soldados e milícias foram até à fonte de Cancumba e quando estavam a espalhar a roupa a corar explodiu uma daquelas armadilhas que o Reis montou à volta. A mulher do soldado Dauda Seidi teve que ser evacuada com o peito todo estilhaçado. Vou trazer o Reis em breve, já não aguento estes sobressaltos. Desculpa, agora vou mesmo dormir. Recebe todo o meu amor e escreve-me depressa.

___________

Notas de L.G.

(1) Vd. último post desta série > 30 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1637: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (40): Cartas de além-mar em África para aquém-mar em Portugal (2)


Guiné 63/74 - P1656: 2º encontro da nossa tertúlia, Pombal, 28 de Abril de 2007: lista de inscrições (Vitor Junqueira / Carlos Marques dos Santos)

Actualização da lista de inscritos para o nosso almoço de convívio, no Restaurante Manjar do Marquês, em Pombal, no dia 28 de Abril de 2007 (1)...

Como vêem, a mesa vai-se comendo. Já temos quase 6 dezenas de comensais, devendo-se ultrapassar assim o nº de presenças do nosso primeiro encontro, na Herdade da Ameira, Ameira, Montemor-o-Novo (2)

Nome (entre parênteses, o nº de comensais e a ementa escolhida: A ou B) (1)

A. GRAÇA DE ABREU (1A)

A. MARQUES LOPES (3B)

ALBANO COSTA (1A)

ANTÓNIO BAIA (2B)

ANTÓNIO DUARTE (1A ou B)

ANTÓNIO FIGUEIREDO PINTO (2A)

ANTÓNIO SANTOS (2B)

BENJAMIM DURÃES (1B)

CARLOS MARQUES SANTOS (2B)

CARLOS OLIVEIRA SANTOS (1A ou B)

CARLOS VINHAL (2B)

CONSTANTINO (ou TINO) NEVES (2A ou B)

DAVID GUIMARÃES (2B)

FERNANDO CHAPOUTO (2B)

FERNANDO FRANCO (2B)

HÉLDER SOUSA (*)

HUGO MOURA FERREIRA (2A ou B)

HUMBERTO REIS (2A)

IDÁLIO REIS (1A)

J. L. VACAS DE CARVALHO (1A ou B)

JOAQUIM MEXIA ALVES (1A)

JOSÉ A. F. ALMEIDA (1A)

JOSÉ BASTOS (1A)

JOSÉ CASIMIRO CARVALHO (1A ou B)

JOSÉ GANCHO (2B)

JOSÉ M. MARTINS (2A)

LUÍS GRAÇA (2A)

LUÍS RODRIGUES C. MOREIRA (1B)

MANUEL LEMA SANTOS (2B)

MÁRIO BEJA SANTOS (1A ou B)

PAULO SANTIAGO (2A ou B)

RUI ALEXANDRINO FERREIRA (1A ou B)

SOUSA DE CASTRO (2A)

VIRGÍNIO A. BRIOTE (2A)

VITOR BARATA (2A ou B)

VITOR TAVARES (1A ou B)

VITOR BARATA (1A ou B)

(*) Dados a completar.

__________

Notas de L.G.:

(1) Vd. posts de:

9 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1649: 2º Encontro da nossa tertúlia: Pombal, Restaurante Manjar do Marquês, 28 de Abril de 2007 (Vitor Junqueira / Luís Graça)

10 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1650: Tod@s a Pombal, 28 de Abril de 2007 (Vitor Junqueira / Carlos Marques dos Santos / Luís Graça)

(2) Vd. post de 15 de Outubro de 2006 > 15 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1177: Encontro da Ameira: foi bonita a festa, pá... A próxima será em Pombal (Luís Graça)

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Guiné 63/74 - P1655: Tabanca Grande (6): José Armando F. Almeida, ex-Fur Mil Trms (Bambadinca, CCS/BART 2917, 1970/72)


Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > CCS do BART 2917 (1970/72) > O Furriel Miliciano de Transmissões Almeida, que acaba de pedir a sua adesão à nossa tertúlia. Privou com a malta da CCAÇ 12 desde meados de 1970 a Março de 1971.



Foto actual do José Armando Ferreira Almeida, o ex-Fur Mil Trms da CCS do BART 2917 (1970/72), 60 anos, aposentado da PT, onde trabalhou na Direcção de Aveiro, na área da Gestão de Recursos Humanos. Casado, com uma filha, reside em Albergaria-A-Velha (1).

Fotos: © José Armando (2007). Direitos reservados.


Mensagem do José Armando (Almeida), com data de 4 de Abril de 2007:


Amigo e Camarada Luís Graça (Henriques):

Desde há algum tempo, tenho vindo a seguir com profundo interesse e emoção o que vai sendo escrito e documentado neste espaço de opinião e partilha, num verdadeiro espírito de sã camaradagem e amizade.

Para ti, desde já, os meus agradecimentos e admiração pela iniciativa que em devido tempo felizmente promoveste e em que continuas esforçadamente empenhado, agora com a colaboração dos restantes tertulianos.

Pois também eu, ex-Fur Mil de Transmissões Almeida, da CCS/BART 2917 (1), que partilhei contigo, então Henriques, e com o Levezinho, o Reis, o Moreira, o Rodrigues, o Fernandes, o Branquinho, para só falar de alguns da CCAÇ 12, do mesmo espaço em Bambadinca, gostaria de ser admitido na Tertúlia, agora também com a certeza - e já não só uma esperança - de poder voltar a reencontrar, se não todos, pelo menos alguns dos velhos - de mais de 35 anos - camaradas e amigos.

Teremos, certamente, oportunidade noutras ocasiões para falar de alguns aspectos mais particulares. De qualquer modo, aí vão alguns, à laia de curriculum:

Já estou aposentado da PT, onde trabalhei na Direcção de Aveiro - é verdade, já fiz 60 anos !... fui responsável na área dos Recursos Humanos, sou casado e tenho uma filha, já licenciada em Design.

E por agora, fiquemos por aqui que a prosa já vai adiantada!

Até breve, e um abraço amigo para todos os camaradas tertulianos do

Zé Armando (Almeida)

Comentário de L.G.:

Almeida: Reconheci-te logo pela foto, apesar de tantos anos já passados. É uma alegria ver-se alargar o círculo de camaradas de Bambadinca. Da tua CCS só cá tínhamos, até agora, o Luís Moreira - o vosso alferes miliciano sapador, ferido em mina anticarro, à saída de Nhabijões, a 13 de Janeiro de 1971, e evacuado para Bissau - (2), o Benjamim Durães (3) e o Abílio Machado (4), para além do David Guimarães (que pertencia à CART 2716, sedeada no Xitole, e que é um dos camaradas mais antigos desta terúlia).

Pois muito bem, faz como dantes, na nossa saudosa messe e bar de sargentos em Bambadinca: entra, acomoda-te e... paga um copo à gente! O mesmo é dizer, que fico/ficamos à espera das tuas estórias.

Um grande abraço do... Henriques.

__________

Notas de L.G.:

(1) Vd. posts de

15 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1527: Lista de ex-militares da CCS do BART 2917 (Bambadinca, 1970/72) e unidades adidas (Benjamim Durães)

1 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1556: 1º Convívio da CCS do BART 2917: Setúbal, 9 de Junho de 2007 (Benjamim Durães)

(2) Vd. posts de:

23 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCIX: Luís Moreira, de alferes sapador a professor de matemática

23 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCV: 1 morto e 6 feridos graves aos 20 meses (CCAÇ 12, Janeiro de 1971)


(3) Vd. post de 21 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1618: Tertúlia: Benjamim Durães, ex-furriel mil da CCS do BART 2917 (Bambadinca, 1970/72)

(4) 29 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1635: Amigos, enquando vos escrevo, bebo um Porto velho à nossa saúde (Abílio Machado, CCS do BART 2917, Bambadinca, 1970/72)

Guiné 63/74 - P1654: Fotobiografia da CCAÇ 2317 (1968/70) (Idálio Reis) (3): De pá e pica, construindo Gandembel

"Na região de Forreá e nas imediações do rio Balana, uma grande coluna provinda de Guileje havia de parar, desfazer-se das suas cargas, para desde logo se dar início aos trabalhos de construção do aquartelamento de Gandembel"...

Foto 206 > "Tanto trabalho por realizar, com pás, picaretas e outros artefactos manuais, criando calos nas mãos, que por vezes sangravam" (IR)


"Urgia arranjar uns abrigos (tocas escavadas), que nos garantisse alguma segurança, mesmo diminuta, durante o período da construção das casernas-abrigo"... Foto 205 > "A parte das escavações, em que os utensílios manuais, por vezes eram arrojados para o chão, para serem substituídos pelas armas" (IR)...


"Outras infra-estruturas, as mais essenciais e vitais, surgiram no imediato, tais como o posto-rádio e a cozinha; estes, foram sendo melhorados no delongar do tempo"...

Foto 204 > "A cozinha, quedou-se naquele local. Teve que levar um telhado em chapa, para a abrigar das inclemências das chuvas. Mas a qualidade dos alimentos postos à sua mercê foi, em grandes períodos, manifestamente má" (IR)...


Foto 203 > "O posto-rádio tornou-se uma infra-estrutura bem consolidada; desde cedo, constatou-se que a vida em Gandembel seria impossível, sem um funcional centro de transmissões" )(IR)...

Foto 202 > "Uma das primeiras prioridades, consistiu na limpeza de duas pequenas áreas, de molde a colocar uma tenda para servir de posto de enfermagem e também onde o helicóptero pudesse aterrar" (IR)...


Foto 201 > "De um lado, um monte de baga-baga à espera de uma picareta para o destruir, e tantas árvores para derrubar numa imensa zona para limpar" (IR)


Guiné > Região de Tombali > Gandembel > CCAÇ 2317 (1968/69) > Instalação e início da construção do aquartelameto de Gandembel.

Fotos e legendas: © Idálio Reis (2007). Direitos reservados.


III Parte da história da CCAÇ 2317, contada pelo ex-Alf Mil Idálio Reis (ex-alf mil da CCAÇ 2317, BCAÇ 2835, Gandembel e Ponte Balana 1968/69) (1). Texto enviado em 11 de Fevereiro de 2007.

Meu caro Luís

Após ter exercido o meu direito cívico, estive o resto da tarde, à volta desta narrativa. E também contribuiu para contactar com alguns, saber-lhes das suas vidas e saúde. Infelizmente, tive a notícia que o coração arredou mais um do nosso seio. E estas notícias custam!
Seguem mais 2 capítulos, de 4 sobre Gandembel/Ponte Balana.

Até breve. Um cordial abraço do Idálio Reis.


Parte III - Instalação e início da construção do aquartelamento de Gandembel
por Idálio Reis (Subtítulos do editor do blogue)



Resumo: Em Gandembel, vinga a insensatez, a obrigarem-nos a penar um inextinguível tempo de arrastados sacrifícios. Do período mediado entre o início da construção do aquartelamento e a chegada da energia eléctrica, a 9 de Maio.(Ganembel/Balana, Parte Ia/IV)



O dia 8 de Abril de 1968 alvoreceu para um conjunto de homens inquietamente sós, desunidos de um futuro confiante, porque, por mais que se procurasse predizer, não lhes era possível reconhecer se se podia atingir. Um imenso manto de silêncio ali estava especado, com secretas sombras negras a envolver-nos.

Restava-nos apenas um singelo e frágil elo de ligação, com o presente a reclamar esperança, ainda que tão ténue e falível.

No chão do PAIGC....
Tudo estava pronto para se tomar rumo por uma estrada, onde as NT já lá não passavam há um ror de meses (desde quando?), por força do maior poder bélico que o PAIGC mantinha na zona.
A coluna partiu, e foi fácil atingir o cruzamento de Guileje. Aqui, virou-se à esquerda, e entrou-se numa estrada como tantas outras, em terra batida, a romper adentro de uma densa floresta.

A vegetação arbustiva já tinha começado a assenhorear-se do seu assento, e muitas árvores estavam tombadas, a dificultar o andamento da longa coluna. De quando em vez, encostadas sobre as bermas, jazendo no local de abandono, apareciam torcidos os destroços de viaturas carcomidos pela voragem do tempo.

Desde esse cruzamento, tão cruel para a Companhia ainda há dias, o avanço processou-se vagarosamente, com muitas paragens de permeio. E desde cedo, o Sol começou a lançar os seus inclementes raios, que nos começava a entorpecer os movimentos e a ressecar as gargantas, onde a preciosidade da pouca água que ia minguando no cantil, era de uma premente tentação a preservar para saciar uma outra secura, a sorver aquando da desidratação que proviesse do arfar do cansaço.

Apesar desta agonia, ao entardecer, sem grandes incidentes a registar, a coluna chegava junto ao corredor de Guileje, nas imediações do rio Bundo Boro, onde bivacou numa nesga de terreno que apresentava uma clareira mais rala, e onde o grande número de viaturas se dispôs em formato circular, cada uma guardada por pequenos grupos de militares.
Abatia-se sobre todos nós uma tensa e suspeita inquietação, e uma extenuante fadiga que se tinha apoderado facilmente, impelia-nos ao descanso. Se alguma ração se abriu, foi a boca sedenta a buscar algum líquido, embora na coluna viesse uma grande cisterna com água, a mesma que trouxéramos de Cacine; todavia, vinha fortemente defendida para ninguém ousar fazer abuso, e por isso até houve o cuidado de a colocar numa defendida posição de salvaguarda.
E parece que os homens do PAIGC deixaram assentar com toda a quietude este grande efectivo humano, serenamente, para amainar da canseira da jornada.


As boas-vindas do IN...

Fez-se então noite, e tudo se preparou para o próximo dia, encontrando cada um a melhor forma de fruir algum possível repouso, não descurando os que haviam de manter a indispensável vigília.

Amargamente, esta doce sensação de paz e tranquilidade, teve uma duração pouco mais que efémera. Num relance, um imenso tiroteio desencadeia-se, como resultado dos disparos de metralhadoras ligeiras até às fortes detonações das granadas de morteiros e de rockets, com uma repetição de acções quase consecutivamente.

Como tudo era escuro como breu, os estampidos dos projécteis indicavam-nos para nossa satisfação, que não atingiam o seu destino. Contudo, já na visibilidade da alvorada, os seus impactos cada vez mais se aproximavam, o que nos atemorizou ao ponto de muitos de nós ter que rastejar sob as viaturas à procura de um eventual refúgio mais seguro. Cruciantes momentos de arrepiar!

Felizmente que não houve agravos para o pessoal ou para o material. Os homens que guardavam a cisterna também se vieram a assustar, perderam o seu controlo, o que serviu para muitos, em sofreguidão, preferirem encher os cantis, enquanto os silvos estalavam na periferia...

Tudo me leva a crer que foi este imenso tiroteio que determinou a que a coluna se refizesse e avançasse mais cerca de meia dúzia de quilómetros para norte, em busca de uma linha de água que nos viesse a proporcionar o fornecimento desse elemento tão vital, e que, dado o adiantado da época seca, se tornava um bem bastante escasso.


O início de Gandembel/Ponte Balana

E por via disso, na superior linha de festo do rio Balana, nos viemos a quedar nessa manhã, para de imediato dar início à odisseia que representou a construção de um posto militar fixo, que se viria a chamar Gandembel e mais tarde a uma anexa afastada apenas de poucas centenas de metros, de nome Ponte Balana.

Sob a vigilância directa de uma tropa já bastante mais experimentada — a CART 1689 —, que já reconhecera o local antecipadamente, e que teve uma acção extraordinária durante a permanência que teve connosco até à sua retirada a 15 de Maio, e que é de elementar justiça salientar o papel relevante que sempre demonstrou, começámos a arranjar as nossas guaridas colectivas, autênticos abrigos-toupeira, que nos ofertassem uma maior segurança pessoal durante o tempo de construção dos abrigos definitivos.

Mas antes do mais, houve que proceder à limpeza arbórea da zona, onde a única ferramenta mecânica — a moto-serra —, nos propiciou uma ajuda preciosa. Não foi assim, mestre-soldado Horácio Almeida?, tu que desde criança, tens tido uma vida mancomunada com a floresta.

Tratou-se de uma tarefa bastante penosa, de uma luta travada sem tréguas contra o tempo que se esvaía, porquanto muito repentinamente tomámos plena consciência que potestades infernais tinham desabado sobre as nossas cabeças. Para tentar impedir ou minorar o absurdo das desgraças, mesmo dos desalentos, prestes a acontecerem a todo e qualquer momento, havia que arranjar forças em suficiência, sacadas aos recônditos de cada um de nós, dispostas a sobrepujar tais contrariedades.

Cada grupo de combate teve que arranjar num espaço de tempo de pouco mais de uma semana, e distanciados a cerca de uma dezena de metros, 2 buracos rectangulares escavados a uma profundidade da ordem do 1,5 metros, que depois foram cobertos por troncos de árvores justapostos, atapetados por chapas de latão aplainadas dos bidões, com um recoberto final de terra. Havia uma única entrada, que servia também de posto de sentinela.

9 de Maio: inauguração da luz eléctrica

A vivência nestes abrigos durou cerca de um mês, precisamente até 9 de Maio, que corresponde à inauguração da luz eléctrica, e que pelo simbolismo da data representa um forte «ronco», e que desejo que seja de marca maior, para lhe dar a primazia para o primeiro excerto a focar sobre Gandembel/Ponte Balana.

Este acontecimento correspondia à maior façanha atingida até então, pois se outrora as noites eram guiadas pela audição e cheiros, propiciava-se desde agora a ter luminosidade externa, que correspondia à visão alcançar para além das trevas. Aclaravam-se alguns dos negrumes, que impiedosamente se vinham abatendo sobre Gandembel.

Sentíamo-nos mais defendidos, uma vez que as noites sem luz eram aterradoras, em que o ecoar do mínimo ruído correspondia quase sempre a um constante tiroteio, e as noites sobre noites eram passadas em constante sobressalto, ante o sibilo das G3 em acção, a que se juntavam os estouros das flagelações inimigas que iam recrudescendo.

E o sossego dos corpos, tão fundamental, ia-se passivamente desestruturando. E tornava-se tão crucial manter elevado e coeso o moral desta tropa sempre briosa e intrépida. E era fundamental enfrentar as adversas agruras, com muita coragem, sem nos deixarmos abater.
A qualidade de vida que se nos deparou nestes abrigos, é de uma extrema precariedade, dada a crueldade das situações em presença, violentas e severas, desde o calor que se fazia sentir pelo efeito estufa resultante de um espaço quase nulo, os colchões de borracha que ao fim de poucos dias acabaram todos furados, os cheiros fétidos de corpos sujos de pó e bafientos do meio envolvente.

A Gandembel das morteiradas...
Havia também o reconhecimento que o grau de segurança minimamente necessário, era muito pouco fiável, em especial para as largas centenas de morteiradas que rebentavam sobre aquela zona. Felizmente que nenhuma granada explodiu sobre o coberto de qualquer destes abrigos.
Mas a situação mais angustiante para nós, era a audição das saídas das granadas de morteiros sem antevermos onde viriam a cair e deflagrar; parece que o record, como me afirmou há pouco tempo o Carlos Alentejano, foi de 32 (trinta e duas). Mais de uma trintena de granadas de grande potência, a curvar nos ares, para tombarem aqui ou além (onde?).

Durante o movimento imprevisível destes projécteis, ficávamos naqueles breves instantes, suspensos de uma qualquer intercessão, num silêncio persistentemente surdo, de ansiedade e expectativa. Eram momentos de um pavor incontrolável, em que se tremia de susto.

Foram empolgantes desafios de vida, estes consecutivos dias de escravatura, que se prolongariam principalmente até ao aquartelamento declarar algum estatuto de forma definitiva, e que impuseram um gigantesco esforço braçal quase constante, pois houve que proceder à execução das seguintes tarefas prioritárias:

— abertura de latrinas, e sua preservação com os mínimos requisitos de alguma salubridade;
— limpeza de uma área que possibilitasse uma descida rápida de um helicóptero, essa máquina voadora tão fundamental nas emergências;
— construção de abrigos de consistência bastante sólida, para a implantação do posto rádio e do comandante da Companhia;
— criação de um posto de primeiros socorros;
— arranjo de uma cozinha e de um forno para cozer pão;
— construção de abrigos consolidados, para servirem de paiol ou de defesa para localização dos obuses e de metralhadoras;
— arranjo dos abrigos definitivos, de execução mais demorada, a obrigar a um conjunto consecutivo de trabalhos específicos;
— limpeza de um vasto perímetro circundante ao arame farpado, a fim de poder manter um grau de visibilidade de algum alcance;
— ida à água que o Balana poderia fornecer; enquanto o período das chuvas não chegou, buscava-se ao longo do leito e que era uma tarefa a requerer sempre o maior cuidado, pois desde logo se começou a notar a utilização de minas e armadilhas.

(Continua > Ib/IV)

____________

Nota de L.G.
(1) Vd. posts anteriores:
16 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1530: Fotobiografia da CCAÇ 2317 (1968/70) (Idálio Reis) (1): Aclimatização: Bissau, Olossato e Mansabá

9 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1576: Fotobiografia da CAÇ 2317 (1968/70) (Idálio Reis) (2): os heróis também têm medo

Guiné 63/74 - P1653: Memórias de um Comandante de Pelotão de Caçadores Nativos (Paulo Santiago) (8): A pontaria dos artilheiros de Aldeia Formosa

Guiné-Bissau > Saltinho > Contabane > Fevereiro de 2005 > "Foto Tirada no antigo reordenamento de Contabane, hoje Sinchã Sambel. De roupa verde está a viúva do Régulo Sambel, mãe do actual Régulo Suleimane, ex-cabo do Pel Caç Nat 53. Foto tirada pelo meu filho João em Fevereiro de 2005.O Suleimane estava em Portugal, nesta data" (PS).


Guiné > Zona Leste > Sector de Galomaro > Saltinho > Contabane > Pel Caç Nat 53 > 1972 > "Foto tirada quando, após tensas relações com o Lourenço (o Capitão-Proveta) (1) fui viver para Contabane. Junto encontra-se um canhão s/r 82B-10 de origem russa. Primeiramente
esta arma encontrava-se no quartel do Saltinho, tendo transitado para aquele reordenamento, após a sua construção. No quartel seria ineficaz, visto Contabane ficar no enfiamento, do outro lado do Corubal, indo na direcção da picada para Aldeia Formosa" (PS)

Fotos: © Paulo Santiago (2007). Direitos reservados.

VIII Parte das memórias do Paulo Santiago, ex-alf mil, cmdt do Pel Caç Nat 53 (Saltinho , 1970/72). O Paulo é natural de Águeda.

Em Abril de 71, apesar de algumas casas já prontas e ocupadas, continuava-se com a
construção do Reordenamento de Contabane.

Um fim de tarde, o Cap Clemente [, comandante da CCAÇ 2701, unidade de quadrícula do Saltinho 1970/72] chamou-me, informando-me, de seguida, ter sido recebida uma informação de grau A2 (penso ser esta a designação), prevendo um ataque ao referido Reordenamento. Uma informação com aquela classificação teria quase 90% de possibilidade de ser infalível. Havia que tomar providências, para fazer face ao previsível ataque.

Logo no início da construção tinha sido aberta uma vala de defesa. Era essa vala que deveria ser ocupada, de imediato, pelo Pel Caç Nat 53, reforçado com duas secções de um dos pelotões da CCAÇ 2701.

Assim se procedeu e, ao escurecer, estava o pessoal instalado ao longo da vala. A frente e parte lateral do Reordenamento, de onde poderia vir ataque , estava fortemente minada e armadilhada. Havia, contudo, a antiga picada em direcção a Aldeia Formosa, que por ser utilizada pelos djilas [,vendedores ambulantes, de etnia futa-fula], não se encontrava armadilhada, apenas ao anoitecer, se colocava uma granada com arame de tropeçar, perto do arame farpado, distante uns cinquenta metros da vala. O IN poderia perfeitamente utilizar aquela via, era um dos pontos fulcrais a ter em atenção e vigilância.

A tensão era elevada. O Clemente tinha-me informado que iria, entre as 18,30 e as
19,00 horas, bater a zona com o morteiro 10.7, existente no quartel do Saltinho, o que não me levantava problemas, meses atrás tinham sido bem marcados os pontos de tiro, com auxílio de um heli.

Seriam perto das 19,00 horas, ouvem-se, pareceu ali muito perto, três saídas quase
simultâneas. Cornos dentro da vala, os assobios a passar e três fortíssimas explosões logo à frente do arame farpado. Levanta-se a cabeça, mas volta-se a afocinhar, repetem-se mais três saídas e mais três explosões, ali muito perto, e ouve-se o barulho produzido por algumas chapas de zinco das casas, quando atingidas por estilhaços e arrancadas dos cibos onde estavam pregadas.

Porra para esta merda! Isto não é o 10.7, mas... serão morteiradas do IN ? Ligo através do AVP 1 para o quartel, donde me informam que a zona está a ser batida pelos obuses 14 de Aldeia Formosa e para o pessoal se manter calmo e protegido. Passo palavra a avisar da informação dada. Ainda houve mais uma meia dúzia de rebentamentos da Artilharia.

O Cap Clemente não me tinha falado nesta hipótese dos obuses, daí a nossa apreensão e cagunfa inicial. Aquelas bojardas, à nossa beira, metiam respeito.

Na manhã do dia seguinte, feito um patrulhamento, nas redondezas, não se encontraram vestígios de presença do IN, encontraram-se foi dentro do Reordenamento alguns
estilhaços, bem grandes, de granadas de obus, alguns dos quais tinham lixado paredes e chapas de várias casas.

Após esta cobertura de fogo amigo fiquei com duas certezas:

(i) Os gaijos da Artilharia eram certeiros. Enfiaram as ameixas nos locais pedidos, via rádio, do quartel do Saltinho.

(ii) Dificilmente o Reordenamento de Contabane seria flagelado pelo PAIGC, após esta demonstração de fogo. Poderia haver era um ataque ao arame, que tornava complicado, senão impossível, responder com a Artilharia.

____________


Notas de L.G.:

(1) Referência ao Capitão da CCAÇ 3490 (Saltinho), pertencente ao BCAÇ 3871 (Galomaro, 1971/74). Vd. posts de:

23 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P980: A tragédia do Quirafo (Parte I): o capitão-proveta Lourenço (Paulo Santiago)

25 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P985: CCAÇ 3490 (Saltinho), do BCAÇ 3872 (Galomaro, 1971/74)


(2) Vd. posts anteriores:

5 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1564: Memórias de um Comandante de Pelotão de Caçadores Nativos (Paulo Santiago) (7): Fogo no capinzal

13 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1424: Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos (Paulo Santiago) (6): amigos do peito da CCAÇ 2701 (Saltinho, 1970/72)

4 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1338: Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos (Paulo Santiago) (5): estreia dos Órgãos de Estaline, os Katiusha

13 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1275: Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos (Paulo Santiago) (4): tropa-macaca, com três cruzes de guerra

19 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1192: Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos (Paulo Santiago) (3): De prevenção por causa da invasão de Conacri

13 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1170: Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos (Paulo Santiago) (2) : nhac nhac nhac nhac ou um teste de liderança

12 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1168: Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos (Paulo Santiago) (1): Periquito gozado

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Guiné 63/74 - P1652: Tabanca Grande: Três novos candidatos: José Pereira, Hélder Sousa e Jorge Teixeira



Guiné > Região do Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 > 1974 > A azáfama dos últimos dias, antes da partida das NT... (1)

Foto: © João Carvalho (2006). Direitos reservados


1. Mensagem de José Pereira, de Penude, Nova Lamego, com data de 24 de Março de 2007:

Amigo Luís Graça: Também estive na Guiné, na CCAÇ 3 e CCAÇ 5 em 1966/68, em Nova Lamego, Cabuca, Cheche e Canjadude, além de outros destacamentos.

Fiquei muito satisfeito por ter entrado neste site. Sou de Lamego, n mais propriamente de Penude, onde fica situado o quartel dos rangers e comandos. Quando posso visito sempre este site. Tambem gostava de entrar para este grupo mas ainda não sei como entrar.

Um abraço deste amigo, Jose Pereira

Comentário do editor do blogue:

Camarada Zé Pereira: As regars de funcionamento do nosso grupo constam do sítio Tertúlia de ex-Combatentes da Guiné. Mandas duas fotos (uma do tempo da tropa e outra actual). E falas um pouco mais detalhadamente de ti, da tua unidade e do teu empod e Guiné. Temos muito gosto em que faças parte dos bravos do pelotão... Aparece. É conveniente teres um endereço de e-mail que utilixzes com frequência. L.G.


2. Mensagem de Helder Sousa, que vive em Setúbal. Data: 10 de Abril de 2007

Sr. Professor e camarada da Guiné:

Peço desculpa de entrar desta maneira no seu (teu) endereço mas penso que é desta forma que se contacta o blogue.

Sou leitor assíduo do Luís Graça & Camaradas da Guiné, desde finais de Fevereiro, altura em que encontrei, comprei e li o livro Diário da Guiné do António Abreu e, através da informação lá disponibilizada, tomei conhecimento do blogue.

A Guiné sempre provocou em mim um misto de atracção e de nostalgia mas não me tinha dado ao trabalho de procurar coisas que afinal estão por aí e já há bastante tempo e com bastante qualidade.

Chamo-me Hélder Valério de Sousa, vivo actualmente em Setúbal, fui Furriel Miliciano de Transmissões, do STM, cumprindo a comissão de serviço na Guiné entre 9 de Novembro de 1970 e 10 de Novembro de 1972, tendo estado cerca 7 meses em Piche (contemporâneo do BCAV 2922) e o resto da comissão ao serviço do Centro de Escuta e de Radiolocalização do Agrupamento de Transmissões da Guiné.

Das minhas leituras do blogue devo começar por dizer que concordo inteiramente com os estatutos do mesmo. Penso até que só mesmo com enquadramentos colectivos com essa abrangência e ao mesmo tempo com esses compromissos, se pode criar e manter uma ampla plataforma de entendimento onde as diferenças se assumam mas se respeitem.

Não estou ainda a fazer um pedido formal para ser aceite como membro da Tertúlia porque não tenho ainda cumprida uma outra condição para ser membro e que se prende com as fotografias. Tenho que resolver essa lacuna pois tenho que procurar as fotos antigas e essas andam guardadas em algures.

Sendo assim, então qual o motivo deste contacto? Simples, como está previsto o almoço/convívio em Pombal (e não no, conforme recomendação expressa), a pergunta é se, não sendo membro, se pode participar e, caso sim, se se deve enviar a comunicação para o editor do blogue (para poder testemunhar que embora não sendo tertuliano de facto, já tem contacto preliminar no sentido de se efectivar) ou para o organizador do almoço (Vítor Junqueira).

Saudações e até breve.

Hélder Sousa

Nota: para efeitos de endereço de mail é melhor usar soushelder@gmail.com

Comentário de L.G.:

Camarada Hélder:

Fico feliz por saber que és um fiel leitor do nosso blogue, que és nosso camarada e que queres entrar para a nossa caserna virtual… Os aspectos formais (o envio de duas fotos e uma estória) são importantes como mecanismo para estimular a produção de conteúdos. Como sabes, o nosso lema é : conta a tua estória, antes que alguém a (re)conte por ti

O teu depoimento é importante. Toda a gente pode e deve testemunhar: neste caso, exprimir, em palavras e imagens, a sua passagem pela Guiné, entre os anos 60 e meados e a primeira metade de 70. A Guiné e a guerra da Guiné marcou-nos a todos, desde a malta de transmissões (temos bastantes camaradas a de transmissões) aos operacionais. Aqui somos todos camaradas e dispensamos títulos, as formalidades sociais…

Considera-te, desde já, como tertuliano. O Vitor Junqueira e o Carlos Marques dos Santos, que estão a organizar o nosso encontro em Pombal, ficarão radiantes por te conhecer e receber. Vou-lhes fazer uma recomendação nesse sentido. De qualquer modo, respeito a autonomia de decisão deles. Terás que contactar um deles, enviando por email o teu pedido de inscrição. Quando puderes, mandas-me duas ou mais fotos (duas pessoais e outras que aches que têm interesse documental sobre a Guiné do nosso tempo). Escreves também mais qualquer coisa sobre a tua vida como Furriel de Transmissões em Piche e em Bissau. Hélder, que sejas bem vindo. Recebe um grande abraço do Luís Graça.


3. Mensagem de Jorge Teixeira, com data de 10 de Abril de 2007:

Caro Graça:

Só agora me disponibilizei a dar seguimento ao mail do João. Sim, em tempos te escrevi, para saber se poderia colaborar e mesmo fazer parte do grupo.

Acredito que tenha passado despercebido, e não tem mal nenhum isso ter acontecido, pois o mais importante é ver e ler o que se passa no espaço. De qualquer forma, como atrás disse, gostaria de fazer parte do grupo.

Estive na Guiné entre Maio/68 e Abril/70. Por acaso fez anos ontem que passei à disponibilidade.

Fico esperando as tuas notícias e até lá recebe um abraço do


Comentário de L.G.

Jorge: És bem vindo… O João Tunes (2) veio lembrar-me a minha descortesia ao não responder-te em tempo útil... Houve um lapso qualquer... Peço-te que me perdoes... Não tenho a tua mensagem original, a pedir a entrada na nossa tertúlia... Cumpres o resto das formalidades (duas fotos, uma estória...). Apresento-te depois ao grupo. Não queres aparecer, entretanto, em Pombal, no dia 28 de Abril ? Um abraço. Luís Graça

________

Notas de L.G.:

(1) Sobre Canjadude e a CCAÇ 5, vd. por exemplo os seguintes posts do João Carvalho:

4 Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCV: A última noite em Canjadude (CCAÇ 5) (João Carvalho)

4 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCIV: Os últimos dias de Canjadude (fotos de João Carvalho)

27 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXCIII: Cancioneiro de Canjadude (CCAÇ 5, Gatos Pretos)

23 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLXXIV: O nosso fotógrafo em Canjadude (CCAÇ 5, 1973/74)

(2) Mensagem do João Tunes, de 24 de Março de 2007:

Caro Luís,

Este camarada queixa-se que te escreveu e não lhe respondeste (imagino o volume da tua caixa do correio!). Pelo visto, é um tertuliano em lista de espera. Queres dar-lhe uma palavrinha? (3)

Abraço do
João Tunes

(3) Email do Jorge Teixeira enviado ao João Tunes, em 24 de Março de 2007:

Caro João,

Obrigado pela tua resposta (4). Na realidade foi por pouco o nosso desencontro. Eu saí de Catió em meados de Março e o meu pelotão em fins do mesmo. Regressámos a 3 de Abril.

Tenho visto o espaço do Graça e em tempos lhe escrevi, mas por qualquer motivo não recebi resposta.

Tenho contactado com outros ex-camaradas que por lá tenho encontrado. Vou andar por lá, sim.

Um abraço de amizade do
Jorge

(4) E-mail do João Tunes, de 24 de Março de 2007:

Caro camarada Jorge Teixeira,

Eu fui colocado em Catió (5), como alferes de transmissões, em Abril de 1970. Devemos ter estado sob ordens do mesmo comandante de batalhão (Ten Cor Mello de Carvalho), só que não nos encontrámos (por pouco). [antes de ter estado em Catió, eu estive no Pelundo].

Recomendo-te que adiras à ciber-tertúlia de antigos combatentes na Guiné (http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/) que é superiormente dirigida pelo nosso camarada (agora também blogo-comandante) Luís Graça. Lá encontrarás muitos depoimentos e material vasto de consulta (incluindo várias fotos antigas e recentes do quartel e da vila de Catió). E certamente não deixarás de dar o teu testemunho e as tuas opiniões.

E, para inscrição, em que não se paga quota nem jóia, basta a identificação civil e militar e duas fotos – uma do tempo de militar na Guiné e outra da actualidade. E depois entrares em catarse colectiva em que a única regra é que, como camaradas, nos tratamos todos por tu, independentemente do posto militar que tivemos e da posição social e profissional actual. Para te inscreveres, basta contactares o Nosso General Luís Graça (cujo mail está inscrito neste no sítio para conhecimento).

Espero encontrar-te lá. Em breve.

Um abraço do
João Tunes

PS – Obviamente que o meu blogue pessoal continua disponível para, com todo o agrado, continuar a receber os teus comentários.

(5) Sobre Catió, vd. posts do João Tunes:

28 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P999: Eu, cacimbado, me confesso (João Tunes) (I): tudo bons rapazes!

28 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P1003: Eu, cacimbado, me confesso (João Tunes)(II): tirem-me daqui!

2 de Agosto de 2006 > Guiné 63/74 - P1018: Eu, cacimbado, me confesso (João Tunes) (III): E o jipe nunca voou

Guiné 63/74 - P1651: História da CCAÇ 2700 (Dulombi, 1970/72) (Fernando Barata) (4): Historietas



Guiné > Zona Leste > Sector de Galomaro > Dulombi > CCAÇ 2700 (1970/72) > Um dia alguém irá estudar o nosso humor de caserna, aqui tão bem tipificado por esta e outras deliciosas historietas do Fernando Barata... Legenda da foto: "Aspecto parcial da Enfermaria, vendo-se um militar (pela nuca parece ser o Alferes Barros) entregue aos cuidados das mãos milagrosas de um fisioterapeuta estagiária, natural de Paiai Numba e que, na altura, estava a recibo verde"...É claro que não havia enfermaria nenhuma em Dulombi, e muito menos fisioterapeutas com mãos de fada, oriundas de Paiai Numba (que ficava a sul de Padada, vd. carta da Padada, e que era zona de guerra).

Guiné > Zona Leste > Sector de Galomaro > Dulombi > CCAÇ 2700 (1970/72) > Um pote de fumos

Fotos: Fernando Barata (2007). Direitos reservados.

IV parte do resumo da história da CCAÇ 2700 (Dulombi, Maio de 1970/ Abril de 72), unidade que pertenceu ao BCAÇ 2912, e foi render a CCAÇ 2405 do BCAÇ 2852 (1968/70). O autor do texto é o ex-Alf Mil Fernando Barata, da CCAÇ 2700 (1).


3 - HISTORIETAS

Delírios etílicos


3.1. Numa altura em que o nosso Capitão tinha ido a Bissau e porque o Alferes Correia se encontrava de férias na Metrópole, eu assumi a chefia da Companhia.

Durante a noite aparece-me no abrigo uma alta patente, muito esbaforida, alertando-me para o facto de estar eminente o ataque dos turras ao nosso aquartelamento, pois tinha visto no ar um Boro Naice (*) que seguramente funcionaria como sinal para um ataque concertado.

Rapidamente contacto os sentinelas que, para meu espanto, referem não terem visto nada, o que foi corroborado por outros soldados que se encontravam acordados. Depois mais calmo e perante o bafo do visionário, conclui que o tintol deveria ter LSD. Só me apeteceu dar-lhe uma pantufada.


Uma boleia de jipe até Galomaro



3.2. Volta e meia, aparecia no nosso aquartelamento um fotocine que projectava um filme para distracção das tropas. Terminada a sua função e como não estivesse prevista qualquer coluna que o recambiasse, o indivíduo já começava a desesperar. Até que o Alferes Correia (estava na altura a comandar a Companhia) me propôs que levasse o dito a Galomaro no jeep do Comando.

Perante o fascínio de dar uma volta a sério, lá me meti a caminho acompanhado pelo Meirim com a sua G3 e pelo Mesquinhata com o seu morteiro. Hoje arrepio-me ao pensar no perigo em que me constitui e os constitui (embora fossem voluntariamente) só pelo prazer de ter um volante nas mãos.

O jipe que andava sozinho


3.3. O jeep do Comando tinha a deficiência (uns diriam característica) que se traduzia no facto de quando se virava totalmente o volante para a direita a direcção ficava presa.

Um dia, aproveitando tal característica, pus o dito jeep a descrever círculos no campo de futebol, sem que alguém o conduzisse. Fui chamar o Semba para que este me explicasse este fenómeno paranormal. Após alguns segundos de verificação, saltou para o jeep impulsionado como que por uma mola, endireita o volante e grita:
-Alfero, era demónio não, era volante preso.

Um médico mais doido que o doido do soldado


3.4. Um soldado a partir de determinada altura desequilibrou, tornando-se extremamente agressivo chegando mesmo a apontar a arma a alguns colegas.

Perante este quadro, o médico do Batalhão, Dr. Vítor Veloso (2**) , passa--lhe uma credencial para que se apresente nos Serviços de Psiquiatria do Hospital Militar.

Qual não é o meu espanto quando passados 4/5 dias, o doentinho já se encontrava em Galomaro, vindo de Bissau e pronto a seguir para Dulombi. Assim que me vê, remata:
- Oh meu Alferes, o médico que me atendeu era mais doido que eu.
- Porquê? - retorqui.
- Então não quer lá saber que me perguntou o que me apetecia fazer naquele momento. Disse-lhe que me apetecia deitar a secretária dele pela janela fora e o que me espantou é que ele se levantou para me ajudar o fazê-lo, pegando logo num dos bordos da mesa. Nunca mais lá ponho os pés.

Na realidade foi uma terapia espectacular, o moço nunca mais deu problemas.

Um mecânico (improvisado) de helis



3.5. Como devem estar recordados, éramos frequentemente visitados por helis, quer para nos trazer frescos, quer para transportar algumas individualidades que nos visitavam. Certo dia, um desses helis estava com dificuldade em pegar. Perante este facto e como o Rosa, que era mecânico, estava a presenciar a situação, o nosso Capitão disse-lhe, a brincar, para ir buscar a mala da ferramenta. Aquele tomou a ordem a sério e lá foi buscar a mala, sem que antes não dissesse:
- Meu Capitão, mas olhe que eu de helicópteros não percebo nada.

Claro, quando o Rosa chegou com a mala já o héli ia ao nível de Duas Fontes. Ficou-me na memória o respeito por uma ordem dada.

O ronco do Pelotão de Milícias


3. 6. Naquela fase final em que já não queríamos correr riscos, incumbiu o nosso Capitão o Pelotão de Milícias de fazer um patrulhamento ao Vendu Qualquer-Coisam [ havia várias localidades começadas por Vendu, a sudoeste de Dulombi: por exemplo, Vendu Cachitol, Vendu Coima, Vendu Bambadela...].

Passados alguns minutos de terem saído, ouvimos um tiroteio imenso. Logo aquele espalhafato nos pareceu mise-en-scène.

Quando chegou o Pelotão ao aquartelamento, depois de algum aperto, o Comandante acabou por confessar que não havia turra nenhum e que era só para fazer ronco e para puderem justificar uma quantidade de munições que tinham em falta.



É só fumaça!



3.7 . Certo dia, fumo intenso é detectado a sair do paiol. Perante o eminente rebentamento de todo o arsenal que lá se encontrava armazenado, rapidamente o quartel é abandonado por todos nós para além do arame farpado, não fosse presentear-nos algum estilhaço ou mesmo o sopro que iria gerar.

Como passados bons minutos a deflagração não acontecesse, o Alferes Ravasco, perdoem-me mas não encontro neste momento expressão mais apropriada, teve tomates e a serenidade necessária para enfrentar a situação. Que acontecera? Um pote de fumos ao cair no chão - que se encontrava alagado - entra em reacção química com a água, gerando o espectáculo que acabo de referir.

Chegámos a pensar que seria um acto de sabotagem do inimigo. Pena é que o Almirante Pinheiro de Azevedo, na altura ainda não tivesse pronunciado a célebre frase O povo é sereno, isto é só fumaça. Na realidade vinha mesmo a propósito.


O dialecto de Cabeçudos


3.8. Em determinada altura, um indígena pretendia reclamar ou peticionar algo junto do nosso Comandante. Como aquele tivesse certa dificuldade em se fazer compreender, alguém sugeriu que se fosse chamar o Carneiro Azevedo para servir de intérprete.

Estiveram seguramente cinco minutos numa troca de jametus, tá na mala e sapodidis, arregalando, o Mamadu, cada vez mais, os olhos na tentativa de entender o que o Azevedo lhe dizia. Até que passados os tais cinco minutos, o fula chega à brilhante conclusão que aquele arrevesado do Azevedo não seria dialecto fula, mas sim dialecto de Cabeçudos (terra natal do Azevedo).


O padeiro de Trancoso


3.9. Mal chegados a Dulombi logo se abeirou de mim o Cândido Nunes disponibilizando o seu know-how em matéria de panificação para exercer a função de padeiro da Companhia. Argumentou que em Trancoso era a profissão que exercia. Falei com o nosso Capitão, sendo o Nunes admitido de imediato, mesmo sem prestar provas, na função que ele dizia conhecer tão bem.

Ao longo da comissão desempenhou a sua tarefa cabalmente e com o benefício de ser dispensado da actividade operacional a qual encerrava alguns riscos e grande esforço físico, como todos sabem.

No final da comissão, já em Bissau, diz-me:
- Meu Alferes, de padaria eu só conhecia o local por lá ter entrado nas poucas vezes que a minha mãe me mandava comprar pão.

Sorri e dei-lhe os parabéns pela sua astúcia.


Eu, pecador, me confesso: A tentação das ostras do Pelicano


3.10. E para acabar. Adivinhem qual era o Alferes que já tinha carta de condução civil e foi tirar a militar só para ter motivo para passar pelo menos mais uma semanita em Bissau? É que aquelas ostras no Pelicano mereciam qualquer estratagema.

_________

Notas de F.B.:

(*) Queria-se referir a um Very-Light

(**) Hoje, Presidente do Conselho de Administração do do IPO/Porto - Instituto Português de Oncologia, Porto.
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Nota de L.G.:

(1) Vd. posts anteriores:

22 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1541: História da CCAÇ 2700 (Dulombi, 1970/72) (Fernando Barata) (1): Introdução: a 'nossa Guiné'

26 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1550: História da CCAÇ 2700 (Dulombi, 1970/72) (Fernando Barata) (2): A nossa gente

15 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1595: História da CCAÇ 2700 (Dulombi, 1970/72) (Fernando Barata) (3): minas, tornados, emboscadas, flagelações e acção... psicossocial