terça-feira, 10 de janeiro de 2006

Guiné 63/74 - P416: Um bigrupo, quantos homens eram? (Marques Lopes)

Guiné > Região de Quínara > Buba > 1968

Tropas do PAIGC atacam o aquartelamento de Buba, na "Frente Sul", em Fevereiro de 1968. À direita, Lando Mane, comandante do grupo-B 30.

Foto: World in Action, Granada TV. Fonte: DAVIDSON, Basil. The liberation of Guiné: aspects of an African revolution. (With a foreword by Amilcar Cabral). Harmondsworth, G.B.: Penguin Books, (Penguin African Library; 27), 1969 (Imagem gentilmente cedida à tertúlia por Jorge Santos, 2005)


1. Há dias, na tertúlia, houve uma saudável e amigável discussão sobre o tamanho de um bigrupo. O Zé Neto comentava, com muito interesse, o diário do Zé Teixeira (1): "Hoje deu-me para revisor. São manias!!! Tenho acompanhado com interesse especial o Diário do José Teixeira por uma simples razão: Eu estava em Buba, com a CART 1613 (Os lenços verdes) quando a companhia dele lá desembarcou"....Mas mais adiante faz um reparo: "Só que ele [José Teixeira] não era obrigado a conhecer a orgânica do IN e escreve (...) que foram emboscados 'por dois bigrupos'. Dois bigrupos eram quatrocentos homens. É muita fruta, não achas?"...

No meu tempo e na zona leste, um bigrupo não ultrapassava os 50/60 homens. Foi isso que transmiti ao Zé Neto. Mas antes disso consultei o meu especialista militar, o nosso coronel (DFA), reformado, A. Marque Lopes... A resposta que ele me deu e que levou o Zé Neto a reconhecer o seu lapso (motivado por pura distracção), merece ser inserida no blogue e conhecida por todos. O nosso blogue também prima pela cultura do rigor... Aqui vai. L.G.

2. Texto do A. Marques Lopes (que foi alferes milicano da CART 1690, em Geba; e da CCAÇ 3, em Barro, entre 1967/68; desmobilizado como tenente miliciano, acabou por fazer a carreira militar, tendo-se reformado com o posto de coronel, DFA):

Não sou propriamente um especialista, é apenas uma reflexão ditada pela experiência vivida. Nem pensar em 400 o número de combatentes de dois bigrupos. Os efectivos variavam entre 50/60. Dois bigrupos iam aos 100, mais ou menos. Podendo variar conforme o número de elementos recrutados em cada sector. São esses os números que aparecem nos relatórios de operações.

O bigrupo era aquilo que podemos chamar a companhia no exército do PAIGC, quando decidiu dar um passo na organização da guerrilha em termos formais, com estrutura de comando, com armamento distribuído uniformemente por cada unidade (o bigrupo), onde cada um tinha a sua função: havia os apontadores de RPG, os de metralhadora pesada, os de morteiro, os atiradores de kalash... quando avançaram para a organização de operações.

Guiné > "Frente Sul" > s/d >

O secretário-geral do PAIGC Amilcar Cabral, à direita, com Nino (Bernardo Vieira), à esquerda, "no comando da Frente Sul".

Foto: PAIGC. Fonte: DAVIDSON, Basil. The liberation of Guiné: aspects of an African revolution. (With a foreword by Amilcar Cabral). Harmondsworth, G.B.: Penguin Books, (Penguin African Library; 27), 1969 (Imagem gentilmente cedida à tertúlia por Jorge Santos, 2005).

A necessidade de dispersão da guerrilha, para ocupação de território e também para fazer face à dispersão das NT por quartéis e destacamentos, com a consequente táctica de ataques dispersos, rápidos e variados, não se coadunava com a existência de unidades daquelas dimensões.

Penso que nem em Guidage os usaram: aí tiveram a vantagem dos apoios e abastecimentos vindos directamente da fronteira com o Senegal. Além de que, se as tivessem, não acredito que, por exemplo, os ataques feitos aos destacamentos da CART 1690 não tivessem tido o mesmo sucesso que aquele de Cantacunda...

Também não me parece, nem conheço exemplo nenhum, que as bases do PAIGC tivessem tão grande número de combatentes. Se assim fosse, não teria sido possível que duas companhias nossas e um grupo de combate (o meu) conseguissem destruir a base de Samba Culo (2)... O PAIGC não tinha, aliás, efectivos em número suficiente para constituir unidades dessa dimensão. Como sucedeu noutros casos também. O caso de Sinchã Jobel (3) foi especial, devido à sua localização geográfica privilegiada, onde nem os comandos conseguiram entrar. Daquela dimensão, ou maiores, só na guerra do Vietnam, mas aí eram unidades formadas na base de toda a população de um país, o Vietnam do Norte. Não era a mesma situação na Guiné (...).
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Notas de L.G.

(1) Vd post de 1 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXI: O meu diário (José Teixeira, CCAÇ 2381) (2): Buba/Aldeia Formosa, Julho de 1968

(2) Vd. post de A. Marques Lopes > 8d e Junho de 2005 > Guiné 69/71 - XLIX: Samba Culo II

(3) Vd. posts de A. Marques Lopes:

30 de Maio de 2005 > Guiné 69/71 - XXXV: Uma estória de Sinchã Jobel ou a noite em que o Alferes Lopes dormiu na bolanha (1967)

5 de Junho de 2005 > Guiné 69/71 - XLV: Sinchã Jobel VII

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