sábado, 17 de fevereiro de 2018

Guiné 61/74 - P18327: Os nossos seres, saberes e lazeres (253): Em Bruxelas, para comemorar 40 anos de uma amizade (3) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) com data de 28 de Novembro de 2017:

Queridos amigos,
Era uma viagem de lembranças, um retorno com a distância de 40 anos, o objetivo primordial era abraçar amizades inquebrantáveis, rever os locais conhecidos em 1977, alargando a peregrinação a todos os espaços posteriormente conhecidos. Será o caso de Namur, como adiante se contará.
Hoje, o viandante anda de saco ajoujado com as compras feitas na Feira da Ladra, local mítico, sempre que alguém lhe entra em casa ele vai apresentando aguarelas, desenhos, estatuetas, esculturas, porcelanas e nunca se esquece de dizer: "Vieram da Place do Jeu de Balle". Há ali mesmo, no vestíbulo, um quadro imenso com uma esplêndida moldura de madeira entalhada que entrou num avião da TAP e terá seguramente deixado as piores recordações a uma hospedeira.
É muito bom ter Bruxelas em casa, naquele álbum fotográfico exótico de alguém que começou em Vilar Formoso, esteve em Fátima e em Lisboa, fotografou tudo, algures nos inícios da década de 1950, e há música mesmo, como a integral das sonatas para violino e piano de Beethoven por dois intérpretes lendários.
Afinal, também somos uma composição de lugares.

Um abraço do
Mário


Em Bruxelas, para comemorar 40 anos de uma amizade (3)

Beja Santos

A tendência natural para melhor tirar partido da viagem é ler um bom roteiro, conversar previamente com os autóctones, ver o traçado das artérias do local visado. Quase todos nós somos atraídos pelos bairros antigos. Quem vem a Lisboa procura Alfama, Madragoa ou Mouraria. No caso de Bruxelas é o bairro de Marolles, está bem perto do Palácio da Justiça, o primeiro itinerário que o viandante já badalou. Marolles é constituído por ruelas e ruas que estão cada vez mais sujeitas ao fenómeno da gentrificação, passou a ser chique renovar prédios e viver num ambiente interclassista. Marolles está pejado de comércio, avulta o das antiguidades e o bricabraque está na Praça do Jeu de Balle. Não se deve ir ao sábado ou ao domingo à Feira da Ladra, os preços duplicam. Aqui encontra-se tudo o que saiu dos sótãos e que resiste à insensibilidade dos herdeiros, que vendem a pataco os objetos mais íntimos dos seus ancestrais.


Do livro que o viandante sobraça diz-se acerca de Marolles: Coração da agitação proletária até ao início do século XX, depois dos desempregados, quando as fábricas abandonaram o território, tornou-se num lugar de passeio domingueiro, espaço cobiçado de renovação. Marolles viveu ao ritmo da miscigenação e das trocas. Os imigrantes (judeus da Europa de Leste, primeiro; em seguida, espanhóis, depois marroquinos) deram origem a fluxo de gente que seria enquadrada por instituições sociais e a uma vida associativa rica e densa. A Feira da Ladra é essencialmente hoje um local de comércio marroquino.





Era uma manhã de céu limpo, os feirantes munem-se de toldos, as bátegas da chuva às vezes contrariam as previsões meteorológicas. Para o viandante foi um dia de festa: uma edição luxuosa dos poemas de amor de Paul Éluard, poemas fac-similados, com desenhos de Picasso e Chagall, duas obras preciosas com iluminuras da Biblioteca Nacional de Paris e de livros persas, lenços, artefactos religiosos, loiça Wedgwood, e algo mais, a preços imbatíveis. Mas o viandante tem problema que vem ali para encantar os olhos. Há, contudo, aquele espetáculo de sofrimento dos álbuns de família, das caixas de costura, das bibliotecas que tinham uma orientação temática, os cd’s meticulosamente classificados, é um pouco como estar a mexer na vida íntima de cada um. É toda a azáfama da Praça do Jeu de Balle que fascina o viandante. Foi sempre assim e espera-se que seja sempre assim, até à última viagem.




Depois de se locupletar com uma adubada waterzooi, um género de sopa cremosa com nacos de galinha, viandante e companha avançam para Saint-Gilles, atravessam a Porta de Hal, o objetivo é o Museu Horta, um dos mais internacionais museus de Bruxelas, pois gente de todo o mundo vem aqui em peregrinação adorar a arquitetura Arte Nova de um dos seus mais consumados génios. Saint-Gilles e Ixelles possuem residência de sonho, mas são multiétnicos. Escreve-se na obra que acompanha o viandante: Com a imigração portuguesa, espanhola, grega, marroquina e africana, a população densificou-se e, na sua esteira, o número de lojas e cafés aumentou. Nestas comunas, dotadas de múltiplos bairros heterogéneos variando de uma rua para outra, formando micro-aldeias, estabeleceram-se desde o início artistas e intelectuais, a que se vieram juntar depois os eurocratas.



Escreve-se no roteiro do viandante: Erguidas entre 1898 e 1901, casa e ateliê respeitam o traçado do bairro e inscrevem-se no tecido urbano, reservando, nas traseiras, um ilhéu de jardins. Volumes, decoração e mobiliário compõem um mundo harmonioso no qual proporções, cores e aberturas das divisões banhadas de luz se integram perfeitamente, num jogo delicado e audacioso de materiais industriais (ferro e cerâmicas) e luxuosos (madeiras preciosas). O guia do museu apresenta-nos a relação dos trabalhos de horta na cidade, caso do Palácio das Belas Artes e da Maison du Peuple, esta destruída. São interiores primorosos, o viandante perde-se a ver puxadores, corrimãos, portas com vitrais, escadarias, tem a garganta seca com tanto esplendor de arte nova, sobe aos diferentes andares, está tudo irrepreensivelmente zelado. E sai dali em estado de consolo, nada de mais aprazível do que ver um espaço desta categoria irrepreensivelmente mantido.


Como é que é possível resistir à magnificência e ousadia desta porta Arte Nova? Entretanto anoitece, viandante e companha descansam os pés e deitam contas à vida: já se cirandou à volta do Palácio de Justiça, percorreu Marolles, Saint-Gilles e Ixelles, quer-se voltar a Marolles, passear no Sablon e Mont des Arts, conhecer as novidades nos bairros Léopold e Europeu, aquela zona da cidade em convulsão com a expansão das instituições europeias. Decide-se que a manhã seguinte é um salto até à natureza. Afinal de contas, a Bruxelas mais desconhecida dos viandantes fugazes é a dos parques. Vamos visitá-los, no esplendor do Outono.

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 10 de fevereiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18306: Os nossos seres, saberes e lazeres (252): Em Bruxelas, para comemorar 40 anos de uma amizade (2) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P18326: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) - Parte XVIII: Visita, a Bissau, do presidente do Conselho de Ministros, prof Marcelo Caetano, em 24 de abril de 1969 (III)


Foto nº 21A

Foto nº 21


Foto nº 22


Foto nº 23


Foto nº 24


Foto nº 25


Foto nº 26


Foto nº 27


Foto nº 28A


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Foto nº 28



Foto nº 29

Foto nº 30

Foto nº 30A


Guiné > Bissau > 24 de abril de 1969 > Visita presidencial do Professor Marcelo Caetano a Bissau (III)

Fotos (e legendas): © Virgílio Teixeira (2018). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Continuação da publicação do álbum fotográfico do nosso camarada Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69), e que vive em Vila do Conde, sendo economista, reformado. (*)

 Última parte da reportagem fotográfica da visita do prof Marcelo Caetano, a Bissau, em 24 de abril de 1969, no âmbito de um périplo pelo Ultramar português, em guerra (Angola, Moçambique e Guiné), iniciado em 8 de abril.


Tendo viajado em avião da TAP,  desembarcou em Bissalanca, onde era aguardado por uma enorme multidão, e pelas autoridades militares e civis fa províncica. O com-.chefe e o governador geral da província era então o general António Spínola, já com um ano de Guiné (desde 20 de maio de 1968).

Depois das boas.vindas e recepção protocolar ao ilustre visitante, a comitiva percorreu de automóvel o percurso entre o aeroporto e a cidade de Bissau, uns 10 quilómetros aproximadamente, sendo visível ao longo de todo o percurso nas bermas da estrada um grande número de guineenses, apoiando com bandeiras e outros adornos e roncos o "homem grande" de Lisboa.

Pelo que pude observar, a população recebeu bem Marcelo Caetano. Não estive em todo o lado porque não era possível, dadas as dificuldades de passar barreiras que eram enormes, mas ainda assim pude fotografar Marcelo Caetano no carro nas Avenidas de Bissau.

Em, 14-02-2018

Virgílio Teixeira

«Propriedade, Autoria, Reserva de Direitos, de Virgílio Teixeira, Ex-alferes Miliciano SAM – Chefe do Conselho Administrativo do BATCAÇ1933/RI15/Tomar, Guiné 67/69, Nova Lamego, Bissau e São Domingos, de 21SET67 a 04AGO69».


2. Nota do editor LG:

Na RTP Arquivos pode-se ver uma interessante reportagem, de cerca de 30 minutos, sobre a visita oficial de Marcelo Caetano a Bissau, em 24 de abril de 1969. Clicar aqui.

Foi acompanhado pela filha e pelo  ministro do ultramar, Silva Cunha. Veio em carro descapotável de Bissalanca até palácio do Governador, mas em grande velocidade. No palácio, é saudado por Spínola. Caetano tinha estado na Guiné em 1936... Uma representação de homens grandes. Depois dos discursos, há dansas de rua, enquanto a comitiva se dirige ao cemitério de Bissau. Mistura-se com a multidão... Desce várias vezes da viatura. E aqui é acompanhado por Spínola.

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Nota do editor:

(*) Vd. postes anteriores da série >

15 de fevereiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18320: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) - Parte XVI: Visita, a Bissau, do presidente do Conselho de Ministros, prof Marcelo Caetano, em 24 de abril de 1969 (I)

16 de fevereiro de  2018 > Guiné 61/74 - P18323: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) - Parte XVII: Visita, a Bissau, do presidente do Conselho de Ministros, prof Marcelo Caetano, em 24 de abril de 1969 (II)

Guiné 61/74 - P18325: Parabéns a você (1391): António Carvalho, ex-Fur Mil Enf.º da CART 6250 (Guiné, 1972/74) e Fernando Chapouto, ex-Fur Mil Op Esp da CCAÇ 1426 (Guiné, 1965/67)


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Nota do editor

Último poste da série de 16 de Fevereiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18322: Parabéns a você (1390): António Eduardo Carvalho, ex-Cap Mil Inf das CCAÇ 3 e CCAÇ 19 (Guiné, 1974) e José Maria Pinela, ex-1.º Cabo TRMS do BCAV 3846 (Guiné, 1971/73)

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Guiné 61/74 - P18324: Notas de leitura (1041): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (22) (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 17 de Outubro de 2017:

Queridos amigos,
O gerente Virgolino Teixeira merece as honras de ver a sua exposição classificada como "Absolutamente Confidencial" e dirigida ao presidente do conselho administrativo, em Lisboa com todo o destaque, com o máximo de pormenor. Doravante, nenhum estudioso deste período da história da Guiné pode passar à margem do que ele aqui escreve: denuncia a corrupção e imoralidade do governador e do seu círculo; denuncia a infamante exploração dos Balantas, que ele classifica como os indígenas mais laboriosos, denuncia os serviços públicos, num estado de bandalheira, classifica de completo embuste o que se diz sobre a pacificação dos Bijagós. E ainda temos mais pela frente, a denúncia é extensa, nenhum setor de atividade lhe escapa.

Um abraço do
Mário


Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (22)

Beja Santos

Continua-se a dar espaço ao documento intitulado “Absolutamente Confidencial” que o gerente do BNU em Bissau enviou em 10 de Outubro de 1938 para o Presidente do Conselho Administrativo, em Lisboa. Nada, absolutamente nada, de toda a documentação consultada no Arquivo Histórico do BNU tem carga tão explosiva como este documento, não sei se existe um libelo acusatório tão devastador sobre a governação de Carvalho Viegas como este. O gerente não podia mentir nem manifestar ressentimentos seria o seu funeral profissional. E da leitura do vasto documento também se pode inferir que ele sabia da poda, dos nomes implicados, políticas, organização de serviços, como se vai ver adiante.

“Bissau progride. O senhor governador Viegas faz tudo o que pode, à socapa, para demorar a capital em Bolama visto Bissau ter altivez para não lhe prestar vassalagem às suas indignidades e porque a amante – telegrafista do Estado – quer estar em Bolama. Para despistar, mandam-se algumas repartições de Bolama para Bissau, mas sem se curar de haver ou não haver alojamento para o pessoal. Há chefes de serviços que vivem casas-pocilgas. O senhor governador vai a Lisboa, e manda que a amante o aguarde ao serviço em Bissau. Gastam-se seis contos numa moradia dentro da própria repartição dos correios e lá se instala a ‘dama’ que entra a impor a sua qualidade de ‘governadora’.
Bissau tem altivez e não aceita tais afrontas. A dama sente-se mal só com a subordinação total dos funcionários pequenos e de um ou dois chefes de serviço. Quer a subordinação geral. Não a tem e o senhor governador Viegas manda que seja transferida de novo para Bolama. Mas manda em cartas para diversos íntimos, pois o Encarregado de Governo é tão alta pessoa moral que ele nem se atreve a tocar-lhe em tal miséria. Manda então a amante pedir-me que seja eu porta-voz dos seus desejos junto do Encarregado de Governo. Finjo que não ouvi nada. Tudo é público, tudo é vergonhoso. Sob o aspeto moral, haveria mais. Nunca se acabaria. Mas o que está escrito chega”.

Segue-se um conjunto de observações sobre a economia guineense. É extremamente útil ouvi-lo.

“A riqueza da colónia provém da sua agricultura. Esta, por falta de braços, por negação do indígena e por falta de educação deste para efeitos de trabalho, não pode ser feita por particulares, sós ou constituídos em empresas. Como indústria ligada à agricultura, há apenas a de fabrico de aguardente de cana. Mas não é de cana, é de caju, é de açúcar importado, é de farelo de arroz, e de tudo o que fermente e destile, mesmo que os tubos de destilação matem o indígena. É pois a agricultura da colónia unicamente feita pelo indígena, a seu bel-prazer. E no capítulo do trabalho está na primeira linha o Balanta que é, na verdade, trabalhador incansável.
A economia da colónia depende em grande parte do labor do Balanta. Consequentemente, devia ser esta a raça mais acarinhada, mas ensinado não só nas lavouras atuais como na introdução de lavouras novas e processos mais racionais. Mas não. O Balanta apenas merece um carinho especial o de se lhe tirar, a bem ou a mal, todo o produto ou todo o dinheiro que tenha. O imposto de palhota é X. Mas o Balanta não paga por palhota. Paga por quantas divisões a palhota tiver. Alguns arroladores até querem considerar ‘quarto taxado’ o curral onde o porco dorme ou o quadrado do quintal onde semeia a mandioca. As autoridades venais têm no Balanta a sua fonte de receita… privada. Roubam-nos de todo o modo. Chega a parecer mentira como o Balanta, em certas zonas, ainda trabalha e ainda não fugiu! A região de Tombali era coisa sem valia ainda há anos. Chegou lá o Balanta que afastou mais o Nalu para o Norte. Das bolanhas tirou arroz por milhares de contos. As autoridades viram mina e os Balantas pagaram muito imposto. E veio a rede dos concessionários de terras. E algumas autoridades ligaram-se a eles, intimamente, secretamente. E tudo junto tem espoliado, tem roubado, a bem ou a mal, o pobre Balanta. Como lenitivo, mandam-lhe, o mais caro possível, a aguardente de tudo e até com cores, mesmo da destilada por tubos de chumbo. Sabe lá alguém, naquelas regiões, porque morreram os Balantas…! Que vale a vida dos Balantas nesta terra onde nada vale desde que tenha valor? É assim mesmo que se trata o maior valor económico da colónia, o pobre Balanta”.

E depois desta catilinária, chama à atenção para o setor exportador descurado:
“A colónia podia exportar contos e contos de cera e mel, riqueza permanente de laboração quase gratuita pois se limitaria à aquisição de colmeias racionais que acabariam por ser feitas na colónia, copiadas dos melhores modelos. Absolutamente nada se faz neste capítulo. A cera que se exporta, porque mel se não exporta, é colhido das colmeias naturais que as abelhas fazem nos buracos das árvores, mas na colheita ou se destrói o enxame ou o enxame e árvore, conjuntamente, porque o indígena, para mais comodidade, larga fogo à árvore para afugentar o enxame e para que a árvore caia ao chão, evitando-lhe portanto os perigos e massadas de ter que trepar”.


Inevitavelmente, o tema dos transportes vem à baila:

“O volume enorme dos transportes, na Guiné, é feito pelos rios e canais que a retalham. No entanto, o tráfego pelas estradas é importantíssimo, do interior para o porto de Bissau, a cidade mais comercial e, na verdade, a verdadeira capital da colónia. Centenas de automóveis e camiões afluem à passagem forçada, por ser a única, no canal do Impernal, que liga o continente à ilha de Bissau. Para tal passagem à apenas uma pré-histórica jangada que em dias de festa pode transportar dois automóveis – não sem perigo – ou uma camioneta pouco carregada.
Centenas de metros abaixo desta passagem há um princípio de construção de uma ponte metálica onde se gastaram milhares de contos que hoje estão perdidos por se ter abandonado a obra.
Mais centenas de metros acima, há um estreitamento de um canal cuja margem do lado de Bissau forma um banco de lodo com sete ou oito metros de fundo e cuja margem do lado do continente tem pouca lama e terra firme. Já está autorizada a verba para a construção da ponte, utilíssima para a vida económica da colónia. Somente as obras públicas da colónia são absolutamente incompetentes para fazer a ponte. E o tempo passa, as formalidades legais farão sumir a verba e a ponte ficará para as calendas gregas. E a economia da colónia continuará sofrendo.

Como despesa inútil que afoga, sem recuperação, umas centenas de contos, as célebres oficinas navais de Bolama ferem duramente a moralidade económica da colónia. Não fazem quase nada de bom. Estragam materiais em reparações que nada duram, se é que não destroem mais o que é reparado. É exemplo frisante o vergonhosos estado em que se encontram os vaporinhos do governo que já levam seis e sete horas a ir de Bolama a Bissau com perigo iminente para a vida de quem neles anda. E tudo isto porquê, porque o senhor governador Viegas se serve das oficinas navais para fazer guerra à indústria particular da Sociedade Industrial Ultramarina, sem se importar com honestidade na governação nem na economia da colónia.

E os observatórios oceanográficos e meteorológicos? Onde estão? O que fazem? Nada, mesmo nada. Apenas se sabe que há observadores a ganhar e despesas a correr. Mas se dos elementos desses serviços se quer saber a que horas é a maré alta ou baixa ou de que banda está o vento tem que se perguntar a um Manjaco o que há de marés e tem que se deitar um papel ao ar, para ver que rumo leva. E sobre o rebocador novo, que custou uns milhares de contos? Ainda está a fazer. Quando cá chegar, pouco ou nada se fará com ele mas há anos e anos que da economia da colónia saem contos para pagar ao seu comandante que leva os dias e os anos encostado às janelas da capitania, sem ter nada, mesmo nada, que fazer.
E uma oficina dos serviços de transportes terrestres que custa à economia da colónia 292 contos? O que ali se estafa em material! Carro que lá entra, ou fica pior ou morre de vez. Existem também para servirem de arma, na mão do senhor governador Viegas, contra a indústria particular. Mas, mais alto, bem mais alto do que tudo isto, estão as “granjas do Estado”.
Somam-se por milhares e milhares os contos que nelas se têm enterrado sem nenhuns, absolutamente nenhuns, resultados práticos. Dessa formidável sucção na economia da colónia não resulta a venda de um cento de laranjas. E como ensinamento aos indígenas, não me parece que possa sair mais que alguma data de pancada em algum que se atreva a ir lá ver como estão as couves… do pessoal das granjas. Se isto é mesmo assim, porque não se há de dizer tal qual como é.

Nas obras públicas então vai um pavor. O engenheiro chefe Afonso de Castilho faz medo, de tão incompetente inútil que é. Nas obras em curso, rouba-se a torto e a direito. Nos fornecimentos de material há ligações desonestíssimas, como a casa Ed. Guedes Lda.
Os empreiteiros roubam descaradamente. As obras cujo custo anda por uns 100 contos pagam-se por 400 ou 500. Um verdadeiro horror.
Da capitania dos portos, mais desperdícios de dinheiro. Os barcos das carreiras andam sujam em demasia. Pudera, contos e contos de tintas vão para a casa particular do capitão do porto a cujo serviço particular estão os remadores todos, que custam caro. É por isso que para um indígena ser admitido como remador precisa de saber cozinhar, saber engraxar, saber lavar roupa, saber encerar. Enfim, tem que saber alguma coisa desde que não seja remar…"


(Continua)
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Notas do editor

Poste anterior de 9 de fevereiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18304: Notas de leitura (1039): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (21) (Mário Beja Santos)

Último poste da série de 12 de fevereiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18311: Notas de leitura (1040): “Modelo Político Unificador, Novo Paradigma de Governação na Guiné-Bissau”, por Livonildo Francisco Mendes; Chiado Editora, 2015 (4) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P18323: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) - Parte XVII: Visita, a Bissau, do presidente do Conselho de Ministros, prof Marcelo Caetano, em 24 de abril de 1969 (II)


Foto nº 10A


Foto nº 10B


Foto nº 10



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Foto nº 11

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Foto nº 20

Guiné > Bissau > 24 de abril de 1969 > Visita presidencial do Professor Marcelo Caetano a Bissau (II)

Fotos (e legendas): © Virgílio Teixeira (2018). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


V
Virgílio Teixeira, foto atual

1. Continuação da publicação do álbum fotográfico do nosso camarada Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69), e que vive em Vila do Conde, sendo economista, reformado. (*)

Anotações e Introdução ao tema > Fotos numeradas de 1 a 31 (Parte I, fotos de 10 a 20, renumeradas pelo editor, seguindo um critério cronológico, procurando mais ou menos reconstituir o trajeto do percurso, do aeroporto de Bissalanca até à Praça do Império).

 Marcelo Caetano viajou de avião da TAP,  tendo chegado a Bissalanca, onde era aguardado e encontrava uma enorme multidão da população,  além das autoridades militares e civis. O Com-.chefe e o governador geral da província era então o general António Spínola,  já com um ano de Guiné.

Feita a recepção, a comitiva percorreu de automóvel o percurso entre o aeroporto e a cidade de Bissau, uns 10 quilómetros aproximadamente, sendo visível ao longo de todo o percurso nas bermas da estrada um grande número de guineenses,  apoiando com bandeiras e outros adornos e roncos o  "homem grande" de Lisboa.

Pelo que pude observar, a população recebeu bem Marcelo Caetano. Não estive em todo o lado porque não era possível, dadas as dificuldades de passar barreiras que eram enormes, mas ainda assim pude fotografar Marcelo Caetano no carro nas Avenidas de Bissau. (...)

 Em, 14-02-2018

Virgílio Teixeira

«Propriedade, Autoria, Reserva de Direitos, de Virgílio Teixeira, Ex-alferes Miliciano SAM – Chefe do Conselho Administrativo do BATCAÇ1933/RI15/Tomar, Guiné 67/69, Nova Lamego, Bissau e São Domingos, de 21SET67 a 04AGO69».

[Continua]
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Nota do editor: