sábado, 26 de maio de 2018

Guiné 61/74 - P18680: (D)outro lado do combate (30): Balanço dos combates entre a CCAÇ 2533 e a CCAÇ 14 e o PAIGC (Corpo do Exército 199-B-70) no setor de Farim - III (e última) Parte (Jorge Araújo)


Foto 1 – Guiné-Bissau >  Formatura após a chamada militar numa manhã de 1974 na base de Hermangono, na Frente Norte, onde estacionavam os Corpos de Exército do PAIGC. Foto: Roel Coutinho (1974) (com a devida vénia...)

[Nota do editor LG: temos dificuldade em localizar no mapa este topónimo, "Hermangono", tanto no Senegal como na Guiné-Bissau; e não há nenhuma referência a este topónimo no Arquivo Amílcar Cabral, disponível no portal Casa Comum / Fundação Mário Soares; pode tratar-se de um erro de transliteração, por parte do fotógrafo e médico holandêsRoel Coutinho]


Foto 2 - Guiné-Bissau > Escolta armada transportando uma pessoa ferida para a fronteira do Senegal, onde se encontrava uma ambulância. Foto de Roel Coutinho (1974) (com a devida vénia...)



Foto 3 - Guiné-Bissau > Primeira ambulância do hospital de Ziguinchor (Senegal) com motorista. Foto de Roel Coutinho (1974) (com a devida vénia...)


[Fotos da série PAIGC Military, Guinea-Bissau, Coutinho Collection 1973-1974.  Fonte: Wikimedia Commons. O fotógrafo, Roel Coutinho é um  prestigiado médico, epidemiologista  e professor, hoje jubilado,  de epidemiologia e prevenção de doenças transmissíveis;  holandês, nasceu em 1946, licenciou-se em medicina em 1972, esteve no Senegal e na Guiné-Bissau em 1973/74,  especializou-se em microbiologia médica, doutorou-se em 1984, em doenças sexualmente transmissíveis; é um especialista mundial em HIV/Sida, com mais de 600 artigos publicados em revistas científicas; pelo apelido, pode ter ascendência portuguesa, e inclusive ter antepassados judeus sefarditas, marranos ou cristãos-novos, idos de Portugal para Amsterdão no séc. XVII; era uma comunidade prestigiada, pela cultura,  o dinheiro e o poder: a Grande Sinagoga Portuguesa, em Amsterdão, chegou a ter 3 mil fiéis; hoje a comunidade está reduzida a 350 pessoas; espantosamente o edifício da "Esnoga Portuguesa",  do séc. XVII, escapou à destruição da II Guerra Mundial e à ocupação nazi; é visita obrigatória para os portugueses que forem a Amasterdão] [LG]

©O titular dos direitos de autor destes ficheiros, Roel Coutinho, autoriza o seu uso por qualquer pessoa para qualquer finalidade, com a condição de que a sua autoria seja devidamente atribuída. A redistribuição, obras derivadas, uso comercial e todos os demais usos são permitidos.
Atribuição: Roel Coutinho





O nosso coeditor Jorge Alves Araújo, ex-Fur Mil Op Esp/Ranger,
CART 3494 (Xime-Mansambo, 1972/1974).


GUINÉ: (D)O OUTRO LADO DO COMBATE > BALANÇO DOS COMBATES ENTRE AS NT E O PAIGC NO SECTOR DE FARIM  >BAIXAS E ESTUDO SOCIODEMOGRÁFICO DO BIGRUPO DO CMDT ANSÚ BODJAN (1944-1971) DO CORPO DE EXÉRCITO 199-B-70  (III Parte)
 



1.  INTRODUÇÃO


Com o presente texto, o último de três fragmentos (*), concluímos o balanço resumido dos combates entre as NT e o PAIGC no Sector de Farim, tendo por protagonistas, de um lado, a Companhia de Caçadores 2533 [CCAÇ 2533] e a Companhia de Caçadores 14 [CCAÇ 14] e, do outro, o bigrupo do Cmdt Ansú Bodjan (1944-1971), um dos quatro bigrupos de infantaria do Corpo de Exército 199-B-70, este liderado pelos Cmdts  Braima Bangura, Joaquim N'Top e Benjamim Mendes.

Para além das duas unidades anteriormente referidas, houve necessidade de identificar, agora, mais algumas, em particular aquelas que estiveram envolvidas nas missões operacionais das NT de contra-penetração dos diferentes bigrupos do Corpo de Exército 199-B-70 do PAIGC, em trânsito das bases existentes na zona de fronteira com a República do Senegal, na Frente Norte, nomeadamente ao longo dos "corredores" de Lamel e Sitató, e que, numa relação causa/efeito, ficaram ligadas, historicamente, às ocorrências relacionadas com as baixas constantes no relatório do Cmdt Braima Bangura, documento que está na origem deste trabalho de investigação - (vidé P18551 e P18638).

Para finalizar esta introdução, recorda-se que é a partir da segunda metade do ano de 1970 que o PAIGC evolui para um novo modelo de organização militar, adaptando as suas estruturas a uma nova visão da sua luta armada. Partindo do conceito "bigrupo" e da união com mais unidades deste tipo, de infantaria e artilharia, são criados os "Corpos de Exército" identificados com o "n.º 199", ao qual lhe foi adicionada uma letra do alfabeto latino (A, B, C, D) e o ano da sua criação.


2. MISSÕES, BAIXAS E UNIDADES ENVOLVIDAS (NOVAS)


Os episódios já referidos nas narrativas anteriores visaram contextualizar a questão de partida da investigação, tendo por base, no início, as missões levadas à prática por duas Companhias de Caçadores – a CCAÇ 2533 e a CCAÇ 14 – em particular nas situações de combate com os elementos do PAIGC que actuavam no Sector de Farim, no caso particular o bigrupo do Cmdt Ansú Bodjan. As primeiras ocorrências (emboscadas) tiveram por cenário o território situado no itinerário entre Farim e Jumbembem, o primeiro caso envolvendo a CCAÇ 2533 (14Dez1970) e o segundo caso a CCAÇ 14 (30Dez1970).


No mapa acima [Frente Norte], indicam-se os aquartelamentos das NT alvo dos vários ataques, umas vezes de infantaria, outras com recurso a artilharia pesada com "GRAD", e outros ainda à participação das duas armas, envolvendo a participação do bigrupo do Cmdt Ansú Bodjan, durante um ano: de Dez'70 a Dez'71. Na esmagadora maioria dos casos, os ataques iniciavam-se depois das 18h30.


Citação: (1971), "Comunicado - Cumbangor [Frente Norte]", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40606 (2018-5-03) [prova do envolvimento do Cmdt Ansú Bodjan nos ataques aos aquartelamentos supra]

 Fonte: Fundação Mário Soares > Casa Comum > Arquyivo Amílcar Cabral (om a devida vénia...)


Quanto a baixas do lado do PAIGC, nos fragmentos anteriores já demos conta de nomes e respectivas datas em que tombaram alguns dos guerrilheiros. Para não nos alongarmos muito, apenas iremos fazer referência a mais dois casos.

1.º  caso:   Lamine Suana.


Este elemento do Corpo de Exército 199-B-70 tombou no dia 7 de Abril de 1971, 4.ª feira, na sequência dos ataques a Guidage e Bigene, ao tempo da CCAÇ 19 e CCAV 2721, respectivamente.

2.º caso: Ansú Bodjan, Cmdt do bigrupo do CE 199-B-70

O Cmdt do bigrupo do Corpo de Exército 199-B-70 tombou no dia 14 de Novembro de 1971, domingo, na sequência da «Operação Dura Espera», projectada pelo BART 3844 (1971/1973) sediado em Farim. Foi levada a efeito no "corredor de Sitató" durante três dias – de 14 a 16 de Novembro de 1971 – nela tendo participado forças das seguintes Unidades: CCAÇ 2753, CART 3358, CART 3359, CCAÇ 14, CCAÇ 2681, 27.ª CCmds, C Mil Cuntima, CART 2732 e CCAÇ 3476 [HU; CAP II, p3, da CCAÇ 3476].


3. ANSÚ BODJAN, CMDT DE BIGRUPO DO CORPO DE EXÉRCITO


Aproveitando o acesso e posterior consulta a mais uma lista [mapa] elaborada pelo organismo de Inspecção e Coordenação do Conselho de Guerra, esta relacionada com a composição do bigrupo do Cmdt Ansú Bodjan, elaborada em finais de 1970, avançámos para a realização de mais um estudo sociodemográfico, o primeiro a um bigrupo considerado de «grupo especial» ou de «elite» no contexto da estrutura militar do PAIGC. Trata-se de um colectivo criado a partir de guerrilheiros já experientes no contexto da guerra, com provas dadas e com um mínimo de quatro anos de combatente [igual a duas comissões das NT].

Quanto ao Cmdt Ansú Bodjan (1944-1971), este nasceu no Morés, região do Oio, em 1944. Era casado. Só durante o segundo ano do conflito armado é que "aderiu" à guerrilha. Tinha, então, vinte anos e a 2.ª classe, como habilitação escolar. Morreu aos vinte e sete anos no "corredor de Sitató".

No seu bigrupo, três em cada quatro elementos (n-23=76.7%) eram naturais da sua região (Oio), 10% (n-3) da região do Cacheu e 13.3% (n-4) de Tombali, a região mais a Sul, conforme dá-se conta no Quadro 1.



Quadro 1 – Distribuição de frequências dos locais de nascimento, por sectores e regiões da Guiné, dos elementos do bigrupo do Cmdt Ansú Bodjan (n-30)


4. ESULTADOS DO ESTUDO


Partindo dos dados contidos na lista apresentada na "Parte II" (*), que consideramos como os casos da investigação ou a "amostra de conveniência", procura-se compreender melhor quem estava do outro lado do combate. Com este propósito, procedemos à organização de alguns desses dados referentes a cada um dos sujeitos constituintes do "bigrupo de Ansú Bodjan" sobre os quais se pretende retirar conclusões.

Para o efeito, esses dados foram agrupados quantitativamente e apresentados em quadros estatísticos de frequências (caracterização da amostra por idade: a de nascimento e a de "adesão" ao Partido) e de quadros de variáveis categóricas em relação aos restantes elementos (ano de "adesão" ao PAIGC, idade e anos de experiência cumulativas ao longo do conflito e estado civil).


Quadro 2 – distribuição de frequências em relação ao ano de nascimento dos elementos do bigrupo de Ansú Bodjan (n-29)


Da análise ao Quadro 2, verifica-se que os anos de nascimento com maior percentagem são dois; 1941 e 1943 (13.8%) com 4 casos, seguido de 1942, 1944, 1945 e 1946 (10.4%) com 3 casos. Em terceiro, com 2 casos (6.9%), 1935 e 1940.

Quando analisado por períodos, verifica-se que o maior número de casos (n-14) estão nos nascidos entre 1943 e 1947 (48.3%) (grupo central), entre 1935 e 1942 (n-12= 41.4%) (grupo dos mais velhos), e entre 1949 e 1951 (n-3=10.3%) (grupo dos mais novos).






Quadro 3 – distribuição de frequências em relação ao ano de "adesão" ao PAIGC dos elementos do bigrupo de Ansú Bodjan (n-29)


Da análise ao Quadro 3, verifica-se que o ano onde se registou maior "adesão" ao PAIGC foi 1963 com 17 casos (58.6%), seguido de 1964, com 7 casos (um dos quais Ansú Bodjan) (24.2%). Os anos de 1964 e 1965 registaram 2 casos cada (6.9%).

Quando analisados os anos antes e após o início do conflito, a percentagem está próxima da totalidade em relação à segunda premissa (n-28=96.6%), ou seja, existe um só caso onde a "adesão" aconteceu antes.



Quadro 4 – distribuição de frequências em relação à idade de "adesão" ao PAIGC dos elementos do bigrupo de Ansú Bodjan (n-29)


Da análise ao Quadro 4, verifica-se que a idade com maior percentagem de "adesão" ao Partido é 18 anos, com 5 casos (17.3%), seguida dos 20 e 21 anos, com 4 casos cada (13.8%). As idades de 14 e 19, com 3 casos, valem 10.4% cada.

Quando analisada a "adesão" ao Partido por períodos, verifica-se que o maior número de casos (n-16) estão entre as idades de 18 e 21 anos (55.2%), seguido pelos grupos de idade, entre os 22 e 28 anos (mais velhos), com 8 casos (27.6%). Os mais novos, entre 14 e 16 anos, representam 17.2% (n-5).

Analisada a "adesão" ao Partido entre os 18 e 23 anos, os valores apontam para uma maioria absoluta com 19 casos (65.6%), seguida por 5 casos (17.25) cada nas idades inferiores e superiores às anteriores.



Quadro 5 – distribuição de frequências em relação à idade verificada ao longo do conflito, contados após a "adesão" individual ao PAIGC, no caso dos elementos do bigrupo de Ansú Bodjan (n-29)


Da análise ao Quadro 5, verifica-se que aquando da constituição do Corpo de Exército 199-B-70, a idade mais alta era de 35 anos (n-2) e a mais baixa de 19 anos (n-1). O Cmdt Ansú Bodjan tinha 26 anos, vindo a falecer com 27 anos. À morte do seu líder os restantes elementos teriam a idade assinalada com sombreado azul.





Quadro 6 – distribuição de frequências em relação ao número de anos de experiência na guerrilha ao longo do conflito, contados após a "adesão" ao PAIGC, no caso dos elementos do bigrupo de Ansú Bodjan (n-29)

Da análise ao Quadro 6, verifica-se que aquando da constituição do Corpo de Exército 199-B-70, a maioria dos combatentes do bigrupo do Cmdt Ansú Bodjan (n-24=82.8%) tinham entre 6 e 7 anos de experiência, enquanto os mais novos de idade (n-4=13.8%) tinham já entre 4 e 5 anos de experiência.


Quadro 7 – distribuição de frequências em relação ao "estado civil" de cada bigrupo



Da análise ao Quadro 7, verifica-se que o número entre "casados" e "solteiros" do bigrupo do Cmdt Ansú Bodjan é favorável aos segundos com mais um caso. Do grupo dos "sorteiros" nascidos após 1946 (n-7=46.7%), mantiveram esse estado civil, pelo menos até final de 1971.


5. CONCLUSÕES



Chegado a este ponto, e partindo da análise aos resultados apurados e apresentados nos quadros acima, é possível concluir que a maioria dos elementos do bigrupo do Cmdt Ansú Bodjan:

(i) Eram originários da sua região (Oio);

(ii) Nasceram em 1941 e 1943;

(iii) A participação na luta armada iniciou-se em 1963;

(iv) Tinham 18 anos;

(v) Aquando da constituição do CE [, Corpo do Exército,] a idade mais alta era de 35 e a mais baixa de 19 anos;

(vi) Aquando da constituição do CE, o número de anos de experiência na guerrilha variava entre os 7 e os 4 anos;

(vii) Quanto ao estado civil, a diferença entre "casados" e "solteiros" era apenas de uma unidade favorável aos segundos.

Termino, agradecendo a atenção dispensada.

Com um forte abraço de amizade e votos de muita saúde.

Jorge Araújo.

18MAI2018.

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Nota do editor:

Último poste da série > 16 de maio de 2018 >  Guiné 61/74 - P18638: (D)outro lado do combate (29): Balanço dos combates entre a CCAÇ 2533 e a CCAÇ 14 e o PAIGC (Corpo do Exército 199-B-70) no setor de Farim - Parte II (Jorge Araújo)

Guiné 61/74 - P18679: (De) Caras (108): A história da Kalash apanhada pelos Kimbas a um "Don Juan" do PAIGC, contada pelo António Ramalho, o "pira" da CCAV 2639 (Binar, Bula e Capunga, 1969/71), que andou sempre com "gente aprumada e de alto gabarito"...




Guiné > Região Cacheu > Bula > Capunga > CCAV 2639 (1969/71) > 2/5/1970: o Victor Garcia, do 3º Gr Comb, "Os Kimbas", posando para a fotografia com a Kalash apanhada a um elemento IN.  É membro da nossa Tabanca Grande.

Foto (e legenda): © Victor Garcia (2009) . Todos os direitos reservados (Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)



António Ramalho

1. Mensagem enviada pelo nosso editor LG ao António Ramalho e ao Victor Garcia:

Data: 24 de maio de 2018
Assunto: A Kalash apanhada pelos Kimbas (*)


António, Victor:

Expliquem lá melhor como é que... os pilha-galinhas dos Kimbas apanharam a Kalash e deixaram o "Dom Juan" fugir...


O Victor era Kimba,e tu, António ?... Ab para os dois. Luís

 2. Resposta do António Ramalho,  a 24 mai 2018, às  20:11


Caro Luís, vou satisfazer a tua curiosidade e podes acreditar, até porque o Victor Garcia já tinha enviado a foto.

Eu fui o mais "periquito" da minha companhia, fui substituir um camarada que se rebolou pela parada do RC7 quando soube que não iria ser mobilizado!...

Foi tão rápida a minha mobilização que tive que levar do Casão Militar as calças de um Coronel!...

Se a PM [, Polícia Militar,] me pedisse a identificação era só baixar as calças e mostrar a etiqueta com o nome do Coronel...

A minha Companhia [, a CCAV 2639,] em termos de formação era muito, muito heterogénea.

A minha origem foi o 3º Pelotão, Os Kimbas.

Mais tarde fiz parte dum Pelotão de "elite", constituído por rapaziada mal comportada, que foi "enviado" para Bissum para acompanhar uma companhia açoriana,  também muito "esquisita", cujo capitão não conheci por razões de saúde.

Fui com o alf mil Queiroz ("Caguei"),  casado com uma inglesa,  que vivia em Bula, estás a ver a permanência dele em Bissum!  E com o Zé Viriato,  que infelizmente já partiu, promotor das famosas maçãs de Blequisse (Pete)!

Como vês, tudo gente aprumada e de alto gabarito!

De regresso fui chutado para Ponta Consolação para junto do alf mil Miguel Ângelo Guimarães] Leal, co-piloto do avião da TAP que caiu no Funchal em 19 de novembro de 1977, ironias do destino!

Os sete Kimbas que apanharam a Kalash. O fur mil Adriano 
Serra é o do meio, sentado na frente do "burrinho", o Unimog 411,
empunhando a Kalash. Local e data: Bula, Capunga, 2/5/1970.  
Foto (e legenda) de Victor Garcia (2009)
Uma tarde o Adriano Serra (, fur mil, para nós era o 1º Serra, ) foi com esse grupo da foto a uma tabanca na picada Capunga/Pete, à esquerda, não me recordo o nome,  comprar qualquer espécie comestível; de mãos a abanar, já no regresso,  eis que se depararam com o IN (desenfiado). Tinha ido matar saudades com a namorada... ainda com a farda cubana, desabotoada,  não hesitou em entregar a arma e fugir!... Ainda o perseguiram,  mas sem êxito, estavam pertíssimo do Choquemone, recearam alguma reacção de qualquer elemento por ali escondido.

Imagino o que terá acontecido ao mancebo, comentámos na altura que talvez não tenha regressado [à base] e se tivesse refugiado ou deslocado para outras paragens, certamente que o castigo seria severo!

Irei tratar das fotos este fim de semana.

Um forte abraço para todos.

António Fernando Rouqueiro Ramalho (**)

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Notas do editor:

(*) Vd. poste de  24 de maio de 2018 > Guiné 61/74 - P18672: Álbum fotográfico de António Ramalho, ex-fur mil at cav, CCAV 2639 (Binar, Bula e Capunga, 1969/71) - Parte II: As armas não se comem... mas, mesmo assim, apanhámos uma Kalash quando íamos à procura de galinha ou de porco... 

(**) Último poste da série > 14 de maio de 2018 > Guiné 61/74 - P18632: (De)Caras (107): O "pilotaço" Mário Leitão, ex-fur mil farmácia (Luanda, 1971/73): tirou o brevê de piloto privado de avião (PPA) em 1977, tem 300 horas de voo e 800 aterragens... Além disso, é "cavaleiro do mar", mergulhador e instrutor de mergulho...

Guiné 61/74 - P18678: Os nossos seres, saberes e lazeres (269): De Aix-en-Provence até Marselha (1) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) com data de 27 de Março de 2018:

Queridos amigos,
Desta belíssima Provença só conhecia de viagens-relâmpago Arles e Nice, a primeira encheu-me logo as medidas, a segunda não tanto.
Havia a intenção de um dia aqui peregrinar, com algum tempo, num sul de França um pouco mais extenso que a Provença. Desenhada a viagem, assentou-se em duas etapas, chegada e partida em Marselha, passando por Aix-en-Provence, Arles, Avignon, Nîmes e a cidade de Marselha propriamente dita; e chegada e partida em Toulouse, visitando Albi e Carcassone (fora da Provença, em Midi-Pirenéus e Languedoc-Roussillon) até Montpellier.
Foram 8 dias de sonho, a satisfação por mirar e remirar o génio arquitetónico romano, pelos belos edifícios do românico provençal, os palácios de Avignon, os fabulosos museus, a desmesura do porto de Marselha.
Aqui se contarão as vicissitudes de tão opulenta viagem.

Um abraço do
Mário


De Aix-en-Provence até Marselha (1)

Beja Santos

Há muitos anos que o viandante congeminava uma peregrinação a terras da Provença, havia que selecionar bem, Nice, Cannes, Saint Tropez ou Toulon estavam bem longe de ser itinerários suspirados, o grande anseio era ver algumas amostras da grande beleza e valia da antiguidade clássica provençal, ali assentou a Gália Narbonense, a desembocadura do Ródano foi sempre rota apetecida para os navegadores e comerciantes do Mediterrâneo, há o românico provençal, o gótico flamejante, a omnipresença dos Alpes. Tanto para ver e tomou-se a decisão de chegar a Marselha e partir rapidamente para Aix-en-Provence, daqui para Arles, visitar Avignon, Nîmes e por fim Marselha. Uns meses mais tarde, fazer o roteiro às avessas, começando em Toulouse.
Começa-se pois em Aix-en-Provence, chega-se com a chuva a cântaros, não faz mal, já se desenhou o que fazer no primeiro dia, graças a uma iniciativa autárquica entra-se num Diablines, um género de tuk-tuk e fazem-se os três circuitos dentro do casco histórico, tudo por 60 cêntimos.


O trânsito automóvel está severamente condicionado, os Diablines são a solução mais conveniente para se percorrer a cidade, consumidores, turistas, comerciantes agradecem. O centro da cidade tem aspetos concêntricos de grande beleza, o céu estava plúmbeo, chegou a ficar glauco, de quando em vez descarregava uma tromba de água, miudinha, irritante.


Há pouco de antiguidade clássica nesta cidade de que os condes da Provença fizeram a sua capital, na segunda metade do século XII, depois o condado passou para a Casa Real de Anjou, que dominava o reino de Nápoles. Em 1481, a Casa de Anjou foi forçada a ceder a Provença à coroa francesa, naquele processo unificador de que Luís XI se obstinou. Aix é cativante pelo seu cosmopolitismo em que o velho pitoresco está profundamente mantido. Chamam-lhe a cidade de Paul Cézanne, o pintor com quem arrancou a pintura contemporânea, o seu festival de arte lírica atrai melómanos de todo o mundo. O viandante começa o passeio pela Aix barroca, é um barroco que utiliza motivos parisienses e que se dissemina por inúmeros palácios e edifícios principais. Deixara de chover e o viandante entusiasmou-se com aquele ângulo que lhe permitia ver a torre da câmara municipal, uma torre datada de meados do século XVII.


Na praça da Câmara, aproveitando a aberta da chuva, apareceram vendedores com as flores de inverno, linda explosão de cor, o viandante afadigou-se em imagens, fica este registo, lembra um cesto altamente decorativo, um centro de mesa gigante ali posto para saudar o viandante.


A fachada da Câmara é soberba, mas a torre não lhe fica atrás, palácios urbanos é o que não falta, a fachada da Câmara é em estilo clássico, com três andares, há praças sumptuosas, há igrejas e capelas hoje transformadas em estabelecimentos comerciais, dá gosto ver esta conservação na preservação da memória.


O viandante trazia na agenda uma visita ao ateliê de Cézanne, esta é a sua terra natal, aqui nasceu em 1838, aqui compôs pinturas que estão hoje nos principais museus de todo o mundo. Convém não esquecer que os seus contemporâneos rejeitaram e troçaram da sua obra. No final da década de 1860, Cézanne voltou a fixar-se em Aix. É dado assente que foi aqui que nasceram as obras que os fundadores do modernismo consideram como pioneiras do novo estilo. Cézanne criou naturezas mortas, banhistas e paisagens provençais. O seu ateliê está aberto ao público, ele dali avistava a Montagne Sainte-Victoire, um imponente maciço calcário, um dorso de dinossauro a contrapor-se àqueles campos de terra vermelha e aos pinheiros e oliveiras que por aqui pululam. O viandante preferiu mostrar a escultura que está na praça principal, Aix-en-Provence resolveu reconciliar-se com o artista genial, pelo adiante se falará da exposição no museu Granet dedicada às obras de Cézanne que fazem parte da coleção Henry et Rose Pearlman, Cézanne at home.


O genocídio arménio, perpetrado pelas autoridades turcas, em 1916, e sistematicamente negado, tem em França diferentes memórias. O viandante colheu a imagem desta escultura evocativa de mais de um milhão de arménios massacrados, decorria a I Guerra Mundial.


Um dos ícones de Aix é o Cours Mirabeau, simultaneamente o passeio principal e uma das avenidas barrocas mais famosas do sul da França. A arquitetura é soberba, temos os plátanos e as fontes, os cafés, os restaurantes, as livrarias, trata-se de uma rua com cerca de 40 metros de largura e 440 de comprimento. Em 1778, o Cours transformou-se numa verdadeira rua, estabelecendo a ligação com as estradas para Marselha e Avignon. Imagine agora como não será no verão, quando os plátanos e ulmeiros estiverem verdejantes e oferecerem sombra, os toldos expostos para a rua, o bulício dos passantes, mirando as fontes e os pormenores desta ímpar arquitetura barroca.




Aqui ficam imagens de duas belas fontes de Aix, deixa-se para próximo episódio a estátua do rei Renato com um cacho de uvas-moscatel, há quem sugira que se ficou a dever a este monarca a sua introdução na Provença.


Era visita obrigatória o museu de belas-artes, o museu Granet, indo seguidamente visitar as obras-de-arte da coleção Planque, estão noutro edifício, de ambos os museus se fará amplamente referência. O que para aqui interessa é que o museu confina com a elegante igreja de São João de Malta, é um dos mais antigos exemplos da arquitetura provençal que segue o estilo do gótico flamejante. É impressionante, este estilo reflete-se nos perfis esbeltos dos colunelos e nos belos ornatos geométricos curvilíneos. É uma fachada muito modificada com a adição da torre em 1689. O viandante encontrou-a em obras, como se mostra, depois desta intervenção é capaz de ficar parecida com esta última imagem.


(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 19 de maio de 2018 > Guiné 61/74 - P18652: Os nossos seres, saberes e lazeres (268): Monsanto revisitada (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P18677: Parabéns a você (1441): Carlos Alberto Cruz, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 617 (Guiné, 1964/66); Carlos Nery, ex-Cap Mil, CMDT da CCAÇ 2382 (Guiné, 1968/70); Gabriel Gonçalves, ex-1.º Cabo Op Cripto da CCAÇ 12 (Guiné, 1969/71); Jorge Narciso, ex-1.º Cabo Especialista de MMA da BA 12 (Guiné, 1970/72) e João Santiago, Amigo Grã-Tabanqueiro





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Nota do editor

Último poste da série de 24 de Maio de 2018 > Guiné 61/74 - P18670: Parabéns a você (1440): Rui G. Santos, ex-Alf Mil Inf da 4.ª CCAÇ (Guiné, 1963/65)

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Guiné 61/74 - P18676: Notas de leitura (1069): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (36) (Mário Beja Santos)

Mais uma imagem alusiva a empréstimos sobre penhores, que foi praticada pelo BNU na Guiné


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 21 de Dezembro de 2017:

Queridos amigos,
Temos algo de novo, há mais pequena indústria, a produção de mancarra, de arroz e de coconote segue imparável, estamos ainda muito longe de falar no caju; e percebe-se que não há um resquício de interesse na exploração dos recursos haliêuticos, parece que ninguém ainda pensava naquela importante plataforma de onde a Guiné-Bissau hoje recebe bons proventos; há cada vez mais comerciantes, a concorrência é desenfreada. E o quadro politico alterou-se em 1958, temos a Guiné Conacri e o Senegal integrou-se provisoriamente na Federação Mali.
Veremos adiante que se descobriu finalmente que a Guiné tem outras riquezas: a bauxite e provavelmente o petróleo. Disso, o relatório do BNU dará conta, como veremos no próximo texto.

Um abraço do
Mário


Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (36)

Beja Santos

No tocante ao relatório de 1957, o gerente do BNU refere-se do seguinte modo à situação da praça:  
“Pode dizer-se que no ano findo não houve qualquer factor a influir sensivelmente no panorama da situação comercial. A produção de mancarra, em que quase assenta a economia da Guiné, foi ligeiramente superior; a do coconote, inferior, e a o arroz também um pouco menor, mas esta talvez compensada por uma maior colheita de milho. A exportação não atingiu o valor do ano anterior, muito embora se tivesse aproximado, mas a importação aumentou em cerca de 20 mil contos, o que consideramos normal devido às exigências do Plano de Fomento e das maiores necessidades da população. Este equilíbrio permitiu que o comércio mantivesse o grau de solvência verificado nos últimos, continuando, no entanto, a notar-se a falta de desafogo entre os comerciantes chamados pequenos, pela tendência cada vez mais acentuada de desenvolverem os seus negócios e de ampliarem e beneficiarem as suas instalações”.

Também nesse ano o gerente resolve expor com largo detalhe qual a situação das colheitas, não sem antes voltar a referir-se às instituições bancárias existentes na Guiné. Escreve ele:
“Não há nesta província outra instituição bancária além do nosso Banco. Existem no entanto três instituições – Caixa Económica Postal, Caixa de Previdência dos Funcionários Públicos da Província da Guiné e Montepio das Alfândegas da Guiné – que fazem algumas operações com características bancárias, tais como empréstimos garantidos por letras e por hipoteca, principalmente a particulares e a funcionários, mas de reduzida importância. Nos últimos anos tem sido pequeno o desenvolvimento destas três instituições, pelo que julgamos desnecessário fazer quaisquer outras referências à sua atividade”.

Como passou a ser repetitivo este tipo de considerações sobre as instituições bancárias, depreende-se que o BNU pretende estar ciente de quem pratica negócios bancários e em que quantidades. Vejamos agora como o relator dá conta da situação das colheitas:
Falando da mancarra, diz que a economia da Província assenta na agricultura do indígena e na colheita dos produtos espontâneos que ele vai buscar à floresta, a mancarra é cultivada como produto de rendimento. E adianta que ao contrário do que muitos dizem, a produção desta oleaginosa tem vindo a aumentar ao longo dos anos.
E adianta as seguintes considerações:
"É uso identificar-se a produção anual de mancarra com a tonelagem da exportação ano mesmo período, o que não corresponde à realidade, porquanto há que considerar a parte que o indígena consome em natureza, a que é guardada para sementeira no ano seguinte e ainda uma boa quantidade que é exportada clandestinamente para o vizinho território francês.
A parte que é exportada clandestinamente é susceptível de variar de ano para ano, por depender de várias circunstâncias, principalmente da diferença de preços que nos últimos anos tem sido de modo a encorajar o nosso indígena a transportar às escondidas a sua mancarra para o território francês”.

Vê-se que está perfeitamente documentado, consultou atentamente as estatísticas, e com igual profundidade vai referir-se à produção orizícola:
“O arroz, que é a base de alimentação da população indígena; que, por movimento interno, vai melhorar a alimentação das populações do interior – cuja agricultura de subsistência é à base de milho – permitindo que dediquem maior esforço à cultura da mancarra: que veio animar extraordinariamente o comércio interno; um autêntico ‘oiro branco’, como já lhe chamam na Guiné – para os indígenas e civilizados que da sua exportação clandestina e ‘mercado negro’ interno tiram sentidos lucros.
Como já foi dito em relatórios anteriores, a produção anual situa-se em 100 mil toneladas, mas cremos que em 1957 não foi atingida essa quantidade, pois muito antes do fim do ano sentiu-se falta de arroz, principalmente em Bissau, onde as bichas eram enormes, diariamente, à porta dos estabelecimentos, chegando a ser confrangedor ver o povo perder horas sem conto só para conseguir 1 ou 2 quilos do seu alimento número um, em prejuízo dos seus trabalhos domésticos e outros.
E só não chegou a verificar-se falta a ponto de haver necessidade de o importar porque o Governo da Província tomou severas medidas de fiscalização.
Vem a propósito informar que durante os primeiros meses deste ano o Governo da Província, pelos Serviços de Agricultura, executou grandes trabalhos de defesa, enxugo e recuperação de terras baixas com vista ao alargamento da cultura do arroz, trabalhos esses levados a cabo nas áreas dos postos de Tite e S. João, da circunscrição de Fulacunda”.

Espraia-se igualmente sobre o coconote e óleo de palma, o outro valor económico e com peso de realce no comércio externo. Informa que continua em vigor um programa traçado pelo Governo para a valorização da riqueza destes produtos, continuavam a ser distribuídas milhares de plantas de viveiros de palmeiras de Samatra, tinha sido ampliados os palmares do Biombo, igualmente foram implantados vários alfobres no Posto Agrícola do Pessubé assim como na delegação agrícola de Catió. E finalizava a sua exposição do seguinte modo: “Pelas informações atrás prestadas em relação a cada um dos principais produtos, e pelas que tivemos ocasião de fornecer mensalmente, pode-se dizer que o ano agrícola foi bom”. Logo de seguida o relatório introduz uma novidade, a indicação de preços de venda dos produtos importados, dá três preços: para o queijo holandês, 60$00 o quilo, a lata de sardinhas 4$50 e o toucinho 28$00.

Algo estava acontecer no desenvolvimento industrial, tudo miudinho, é certo, mas o relatório dá como em elaboração várias fábricas de descasque de arroz e de amendoim, distração de óleos vegetais, de descasque mecânico do coconote, refrigerantes, gelo e carpintarias. E pormenoriza: “Dentro das instalações industriais têm realmente interesse económico dois blocos, um pertencente à firma António Silva Gouveia e o outro à Sociedade Comercial Ultramarina. O primeiro está situado no Ilhéu do Rei e o segundo na zona industrial da cidade de Bissau. No da firma Gouveia, existem fábricas de descasque de arroz e de amendoim e um estaleiro naval e no da Sociedade Comercial Ultramarina pratica-se o descasque de arroz e de amendoim e extraiam-se óleos vegetais, projetando-se também montar uma fábrica de sabões”.
E dá o seguinte remato ao discurso:
“A indústria na Guiné, que até há pouco tempo se apresentava modesta, mostra tendência para um apreciável desenvolvimento, não só pela preocupação e interesse que se nota haver por parte dos industriais em ampliar e valorizar as suas instalações, como ainda pelos constantes pedidos de concessão de alvarás para exploração de ramos já exercidos e de novas iniciativas”.
É um relator muito esclarecido, sabe que Álvaro Boaventura Camacho pediu alvará, e fora-lhe concedido, para instalar na sua propriedade de Cufar uma nova fábrica de descasque de arroz, e fora igualmente concedido alvará à Cobornel – Companhia de Borracha da Guiné – para uma lavagem de cauchu.

Não deixa de ser curiosa a formulação que apresenta no seu relatório quanto aos comerciantes exportadores:
“Os chamados ‘grandes’, cujas instalações principais se encontram localizadas em Bissau e nalguns centros do interior, é onde são encontrados os produtos destinados à exportação. Estes comerciantes mantêm uma rede de estabelecimentos comerciais por toda a Província, disputando com os outros comerciantes a compra dos produtos ao indígena. Este tipo de comerciantes concede grandes créditos em dinheiro e mercadorias aos pequenos comerciantes intermediários, recebendo destes, em pagamentos desses financiamentos, todos os produtos comprados durante a campanha. Na maioria dos casos, os créditos concedidos em dinheiro são garantidos por meio de penhores mercantis que, aliás, não passam de penhores simbólicos, porque, em regra, quando é celebrado o contrato e feito o financiamento, normalmente não existem as garantias pignoratícias, as quais só pouco a pouco são efectivamente constituídas com os produtos que vão sendo adquiridos com o dinheiro emprestado”.

1958 é tempo de mudanças, há novas soberanias à volta da Guiné portuguesa e essa informação é descrita na situação da praça, no seguinte contexto:
“Apesar da ampliação das actividades comerciais da Província, com o aparecimento de novas firmas, melhoramento das instalações e alargamento da rede de sucursais de outras já existentes, o comércio não obteve a melhoria de situação a que esse desenvolvimento deveria conduzir. E para isso contribuíram:
a) O fraco índice do poder de compra das populações indígenas;
b) A concorrência adveniente do número exagerado de comerciantes em relação à população;
c) A importância excessiva;
d) A intromissão de caixeiros-viajantes da Metrópole, que não só vendem directamente aos comerciantes retalhistas os artigos das firmas suas representadas, como ainda importam outros em nome de qualquer comerciante amigo, que vendem ambulantemente pela Província a preços competidores, em virtude dos menores encargos a que estão sujeitos;
e) Fatores de rodem política: a independência de Guiné Francesa e o ingresso do Senegal na Federação Mali. Estes vizinhos territórios absorviam grande parte dos artigos importados por esta Província, contrabando esse que diminuiu grandemente.
f) Todas estas circunstâncias se reflectiram na liquidação dos compromissos, que se fez mediante sucessivas prorrogações e amortizações”.

Mas esse ano foi igualmente importante para a Guiné, começou a falar-se em bauxite e petróleo, como iremos ver na segunda parte do relatório de 1958.

(Continua)

Fotografia do régulo Mamadu Sissé, um dos lugares-tenentes de Teixeira Pinto
Imagem do grande fotógrafo Domingos Alvão, tirada na Exposição Colonial do Porto, 1934

Túmulo de Mamadú Sissé, Guiné Portuguesa

Um relevante acontecimento social, a chegada do avião a um aeroporto de terra batida
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Notas do editor:

Poste anterior de 18 de maio de 2018 > Guiné 61/74 - P18649: Notas de leitura (1067): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (35) (Mário Beja Santos)

Último poste da série de 21 de maio de 2018 > Guiné 61/74 - P18659: Notas de leitura (1068): História das Missões Católicas na Guiné, por Henrique Pinto Rema (1) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P18675: Dossiê Guileje / Gadamael (31): A Retirada de Guileje foi há 45 anos (22MAI73). Poderia não ter acontecido? (Coutinho e Lima, ex-CMDT do COP 5)

Guiné > Região de Tombali > Guileje > 22 de Maio de 1973 > A população e os militares abandonaram Guileje, às 5,30h, a caminho de Gadamael. Esta foto, dramática, é da presumível autoria do Fur Mil Carlos Santos, da CCAV 8350 (1972/74), segundo informação do seu e nosso camarada e amigo José Casimiro Carvalho, também ele da mesma unidade ("Os Piratas de Guileje") mas que nesse dia estava em Cacine. Faz parte do parte do acervo fotográfico do Projecto Guiledje. 
Foto: AD - Acção para o Desenvolvimento (2007). Direitos reservados. [ Editada por C.V.]


1. Em mensagem do dia 21 de Maio de 2018, o nosso camarada Alexandre Coutinho e Lima, Coronel de Art.ª Ref (ex-Cap Art.ª, CMDT da CART 494, Gadamael, 1963/65; Adjunto da Repartição de Operações do COM-CHEFE das FA da Guiné entre 1968 e 1970 e ex-Major Art.ª, CMDT do COP 5, Guileje, 1972/73), lembra a retirada de Guileje, ocorrida sob as suas ordens em 22 de Maio de 1973.


A Retirada de Guileje foi há 45 anos (22MAI73)
Poderia não ter acontecido?

1. Introdução

Poderia, como vou explicar a seguir.

Antes disso, devo afirmar que, nas circunstâncias que se verificavam, em Maio de 1973, em Guileje, a minha decisão de efectuar a retirada foi a única que se impunha.

Com efeito, as informações que o Comandante do COP 5, que era eu, e o conhecimento da zona, em consequência da 1.ª comissão (1963/65, em Gadamael) esperava que o PAIGC criasse dificuldades, nomeadamente através de implantação de engenhos explosivos nos itinerários Guileje/Gadamael e Guileje/Mejo e eventuais emboscadas nesses itinerários, para impedir ou tornar mais difícil os reabastecimentos e a recolha de água. A propósito desta, não posso deixar de considerar muito estranho que, tendo Guileje sido ocupado em Março de 1964, isto é, passados 9 anos, ainda não tivesse sido resolvido o problema da água no aquartelamento.

Previa também que o Inimigo, com grande probabilidade, flagelasse as Nossas Tropas e população de Guileje, com maior ou menor intensidade e periodicidade. E nada mais, o que já não era pouco.


2. Documentos do Comando-Chefe

Mas o Comando-Chefe, como não podia deixar de ser, tinha mais informações sobre o Inimigo. Quando tive acesso ao processo que me foi instaurado, tomei conhecimento do seguinte documento (página 608 do processo):

2.1- “EXTRACTO DO RELATÓRIO DE INTERROGATÓRIO N.º 108
271800DEC72

De: MÁRIO MAMADU BALDÉ – Sexo: MASCULINO – Idade: 25 ANOS Grupo Étnico: FULA – Naturalidade: CACINE – Estado: Solteiro
[...]

INTENÇÕES DO IN
[...]

a. NA FRONTEIRA: Refere que o IN pretende fazer um ataque com bastante força a GUILEJE, porque pretende obter uma maior liberdade de movimentos logísticos e de pessoal no corredor de GUILEJE. Para isso, ficaram em KANDIAFARA alguns elementos que vieram recentemente dum estágio de Art.ª na Rússia, para fazerem reconhecimentos na área de GUILEJE e preparar esta acção.
MODOS DE ACTUAÇÃO
Os chefes sabem que as flagelações aos aquartelamentos não têm obtido resultados compensadores e por isso resolveram mandar vários elementos ao estrangeiro receber uma instrução mais adiantada de Artilharia.
Esses elementos ficam a saber trabalhar com cartas topográficas, para poderem determinar com precisão as distâncias de tiro. Aprendem também a trabalhar com goniómetros-bússolas e outros aparelhos, assim como ficaram a saber através da regra do milésimo converter as correcções métricas em direcção, em correcções angulares. Estes elementos ficarão normalmente em observadores avançados durante as flagelações, ligados por telefone às bocas de fogos, dirigindo a acção e regulando o tiro.
[...]”

Este documento merece-me os seguintes comentários:

- Ao que se sabe, o Estado-Maior do Comando-Chefe (nomeadamente a Repartição de Informações – (REP/INFO), não lhe “ligou nenhuma importância”, esquecendo uma regra básica das Informações, que é não desprezar nada, por mais inverosímil que pareça. A REP/INFO tinha a obrigação de confirmar ou infirmar o seu conteúdo, tanto mais que, os “modos de actuação” faziam todo o sentido, nomeadamente para os Artilheiros (que não era o caso do Sr. Chefe da REP/INFO, que era oriundo da Arma de Infantaria, mas que poderia e deveria, se tivesse dúvidas (que não deve ter tido), consultar os seus camaradas sobre o assunto.

- O Comando-Chefe e o seu Estado Maior, nada fizeram para impedir, ou no mínimo dificultar, que o IN fizesse os reconhecimentos no sentido de preparar a acção de concretizar “um ataque com bastante força a GUILEJE”. como deveria ter sido. Seguramente se tivesse sido informado do teor desse documento, teria afirmado, junto do Sr. Comandante-Chefe, que o COP 5 não tinha meios para contrariar a intenção do In, pelo que necessitava de ser convenientemente reforçado; mesmo que não me fosse atribuído qualquer reforço, não me esqueceria do que me esperava e, com os parcos meios de que dispunha, tudo faria para contrariar o que o IN preparava, nomeadamente através de patrulhamentos adequados; e, certamente, neste caso aplicar-se-ia o ditado popular: “Homem prevenido vale por dois”.

O que é certo é que, tudo o que consta no Relatório de Interrogatório n.º 108 de 27 de Dezembro de 1972 (antes da criação do COP 5), se veio a confirmar mais tarde, pelo Comandante do PAIGC, Sr. OSVALDO LOPES DA SILVA, em artigo publicado no jornal Público em 26 de Julho de 2004, (pág. 358 a 361 do meu livro), em que descreve, com pormenor, o trabalho de reconhecimento e levantamento topográfico realizado, durante vários meses, iniciado no final de 1972 e que culminou com o ataque em força sobre Guileje, a partir de 18MAI73, com total surpresa da minha parte, por falta de informação, INEXPLICÁVEL, da parte do Comando-Chefe.

Ainda acerca do documento transcrito atrás, pode perguntar-se por que foi incluído no processo que me foi instaurado.

Durante o tempo em que estive preso preventivamente, fiz vários requerimentos.

Em 30 de Julho de 1973, enviei um requerimento dirigido ao Senhor General Comandante-Chefe das Forças Armadas da Guiné, solicitando, nos termos da Art.º 411.º do Código de Justiça Militar, o fornecimento de cópias de diversos documentos, constantes de uma grande lista, também incluída no citado requerimento. A consulta dos documentos destinava-se à organização e devida fundamentação da defesa e desde já das novas declarações que for autorizado a prestar no corpo de delito e era essencial para o exercício do direito de defesa.

O despacho de 2 de Agosto de 1973, do Sr. General Comandante-Chefe, foi do seguinte teor:
“Forneçam-se os elementos solicitados com os seguintes condicionamentos:
- Os documentos classificados devem ser entregues ao oficial de polícia judiciária militar para serem apensos ao auto de corpo de delito, devendo o Major Coutinho e Lima deles tomar conhecimento através daquele oficial.
- O relatório e elementos relativos à operação “Ametista Real”, não devem ser fornecidos por não dizerem respeito aos factos que estão na origem do auto de corpo de delito.
- A documentação solicitada que não se encontre já elaborada ou não tenha sido difundida pelas repartições, não deve ser fornecida por estar fora das atribuições das repartições a sua elaboração, mormente numa situação de manifesta carência de pessoal.
- Os documentos classificados já apensos ao corpo de delito, como é óbvio, não devem ser fornecidos.”

Em 08AGO73, o Sr. Chefe de Estado-Maior do Comando-Chefe das Forças Armadas da Guiné, através de uma guia de entrega, enviou ao Sr. Oficial da Polícia Judiciária Militar (PJM), Sr. Brigadeiro Leitão Marques, 124 documentos, para serem juntos ao auto do corpo de delito, o que aconteceu em 10AGO73.

O Sr. Oficial Da PJM – Sr. Brigadeiro Leitão Marques, nem sequer cumpriu o que o Sr. General Comandante-Chefe determinara : “...Os documentos classificados... devendo o Major Coutinho e Lima deles tomar conhecimento através daquele oficial.” Foi mais uma prepotência que o Sr. Brigadeiro entendeu tomar. De facto, não me foi dado conhecimento do documento referido (se o tivesse lido nessa altura, não deixaria de fazer mais um requerimento, em termos contundentes, como se impunha, a solicitar explicações sobre o assunto.

O Extracto do Relatório de Interrogatório n.º 108, transcrito atrás, era o n.º 105 da lista de entrega referida. Não se percebe que, tal documento, altamente comprometedor para o Comando-Chefe e seu Estado-Maior, pelas razões indicadas nos comentários que fiz sobre o seu conteúdo, tenha sido junto ao processo. Em minha opinião isso aconteceu, pela forma negligente como foi elaborado o auto o corpo de delito, pois, nem o Sr. Chefe do Estado-Maior Int.º, Sr. Tenente-Coronel do CEM do CTIG, António Hermínio de Sousa Monteny, (que autenticou a cópia daquele documento), nem o Sr. Chefe do Estado-Maior do Comando-Chefe (que assinou a guia de entrega), nem o Sr. Oficial da PJM (que ordenou a sua junção após autos), se devem ter apercebido do seu conteúdo; se alguma das entidades indicadas o tivesse feito, seguramente teria sido retirado daquela lista de 124 documentos. Ainda bem que assim aconteceu, porque, em caso contrário, tal documento não seria conhecido.

Com efeito, se eu tivesse sido julgado (e isso não aconteceu, apenas por ter sucedido o 25 de Abril de 1974), o meu Advogado, Sr. Dr. Manuel João da Palma Carlos, (que se deslocou a Bissau), requereu em 18 de Fevereiro de 1974 autorização para consultar o processo (o que foi autorizado), seguramente tomou conhecimento do já referido “Relatório de Interrogatório” e no julgamento não deixaria de exigir explicações sobre o conteúdo do mesmo, o que causaria grande desconforto ao Comando-Chefe e seu Estado-Maior, que seriam responsabilizados pelo que não fizeram (e deviam ter feito), no que ao tal documento dizia respeito.

Do mesmo modo se pode entender a amnistia, que permitiu o arquivo do um processo e poderia não ter sido, bastando por exemplo limitar a sua aplicação a crimes cuja moldura penal não excedesse 2 anos de prisão.


2.2 - Reunião de Comandos realizada em 15MAI73

Em 15MAI73, realizou-se no Quartel-General do Comando-Chefe das Forças Armadas da Guiné, uma Reunião de Comandos, presidida pelo Sr. Comandante-Chefe, Sr. General ANTÓNIO DE SPÍNOLA, estando presentes o Sr. Comandante-Adjunto Operacional, Sr. Brigadeiro LEITÃO MARQUES (viria pouco tempo depois a ser nomeado Oficial da Polícia Judiciária Militar, encarregado de me instaurar auto de corpo de delito, na sequência da Retirada de Guileje), Senhores Comandantes-Adjuntos, Comodoro ANTÓNIO HORTA GALVÃO DE ALMEIDA BRANDÃO, Comandante da Defesa Marítima da Guiné); Brigadeiro ALBERTO DA SILVA BANAZOL, Comandante Territorial Independente da Guiné; Coronel Piloto Aviador GUALDINO MOURA PINTO, Comandante da Zona Aérea de Cabo Verde e Guiné. Tomaram igualmente parte na reunião, o Chefe do Estado-Maior do Comando-Chefe, Coronel do Corpo de Estado-Maior (CEM) HUGO RODRIGUES DA SILVA e os Chefes das Repartições de Informações e Operações do QG do Comando-Chefe, respectivamente, Tenente-Coronel de Infantaria ARTUR BATISTA BEIRÃO e Tenente-Coronel do CEM MÁRIO MARTINS PINTO DE ALMEIDA.

Nos trabalhos de pesquisa para escrever o meu livro A RETIRADA DE GUILEJE, encontrei, no Arquivo Histórico-Militar do Exército, a ACTA dessa Reunião de Comandos, com 62 páginas. Dessa acta, transcrevo o que considero mais significativo, no que se relaciona com Guileje.

- Da intervenção do Sr. Comandante-Adjunto Operacional, Sr. Brigadeiro LEITÃO MARQUES:

“[...]
No mínimo, e disso não restam quaisquer dúvidas, o In está a preparar as necessárias condições para conquista e destruição de guarnições menos apoiadas por dificuldade de acesso (GUIDAGE, BURUNTUMA, GUILEJE, GADAMAEL, etc), a fim de obter os êxitos indispensáveis à sua propaganda internacional e manobra psicológica – isto está já ao alcance das suas possibilidades militares. Quanto às vantagens para manobra psicológica In, não podemos esquecer que qualquer êxito pode conduzir à captura de prisioneiros em número tal que possa constituir um elemento de pressão psicológica sobre a Nação Portuguesa. A dar-se este facto e aceitando que a orientação comunista prevalecerá, tal elemento será aproveitado ao máximo para desmoralizar a retaguarda e manter-se-á até serem atingidos os objectivos finais em todas as PU. Assisti ao pressionamento psicológico do povo americano por causa dos seus prisioneiros no Vietnam.do Norte durante quatro anos; e senti em toda a sua profundidade o efeito desmoralizador desse pressionamento, o qual, em larga medida, juntamente com o elemento económico, levou à agitação interna das massas e à capitulação, apesar de todo o poderio militar americano.

O que acontecerá se tivermos de enfrentar situação semelhante? ...O In não perderá a oportunidade e tem experiência técnica para a aproveitar ao máximo. É aqui na Guiné onde o problema é mais agudo e o In sabe isso; o seu esforço será aqui realizado.
[...]”

(Nota – os sublinhados são meus).

- Da intervenção do Sr. Chefe da Repartição de Informações (REP/INFO), Sr. Ten-Cor. de Inf.ª BATISTA BEIRÃO:

“Na ZONA SUL, ...o In ameaça directamente as guarnições de GADAMAEL e GUILEJE a partir da REP GUINÉ, para o que concentrou meio sobre a fronteira dentre os quais se destacam os carros de combate referenciados em KANDIAFARA, a cuja acção aquelas guarnições se apresentam particularmente expostas.
[...]
No imediato, julga-se que o IN:
[...]
- intente uma acção de tipo convencional com carros de combate contra GADAMAEL, GUILEJE e/ou BURUNTUMA, tirando partido da vulnerabilidade destes pontos a esse tipo de acções e visando o aniquilamento ou captura das guarnições.
[...]
Num futuro próximo, prevê-se ainda que o In....
- tente a eliminação sistemática das guarnições mais expostas sobre a fronteira, em acções de tipo convencional.
[...]
Resta referir, a finalizar, que o quadro dispersivo do largo potencial referenciado e a elevada capacidade de manobra do In não permitem, como se desejaria, uma melhor objectivação do esforço do In atenta a fluidez com que se revelam e o quadro geral que se desenha; e apenas pode concluir-se por uma situação na qual todo o TO, sem qualquer exclusão, acaba por constituir uma vasta zona de preocupação, na qual dificilmente se podem, de momento, visualizar priorizações.”

(Nota – os sublinhados são meus)

Este último parágrafo é incoerente com o que consta nas transcrições anteriores. Vamos ver se nos entendemos: se não se podem visualizar priorizações, como se afirma as intenções do In , no imediato e num futuro próximo?

- Da intervenção do Sr. Chefe da Repartição de Operações (REP/OPER), Sr. Ten-Cor. do CEM – PINTO DE ALMEIDA

“...Assim, considera-se essencial:

a. reforçar os efectivos das guarnições mais isoladas ou às quais o In tem maior facilidade de impedir a chegada de reforços, em particular as situadas sob a fronteira.

Para este reforço computam-se as necessidades em:
Sector Sul... 3 Companhias
[...]

3. ...Se não forem concedidos os reforços solicitados... julga-se que será necessário remodelar o dispositivo, reforçando guarnições que sob o ponto de vista militar se consideram essenciais...”

Certamente que o Sr. Chefe da REP/OPER, de acordo com as transcrições feitas, tinha em mente, entre outras, a guarnição de Guileje.

3. - O que se esperava que o Comando-Chefe fizesse, (face ao constante na Acta da Reunião de Comandos de 15MAI73)

Considerando as intervenções:

- Do Sr. Brigadeiro Leitão Marques:
“ ... o In está a preparar as necessárias condições para conquista e destruição de ...Guileje ...Isto está já ao alcance das suas possibilidades militares...”

- Do Sr. Chefe da REP/INFO:
No imediato, julga-se que o IN:
[...]
“- intente uma acção de tipo convencional com carros de combate contra ...GUILEJE... visando o aniquilamento ou captura da guarnição...”

- Do Sr. Chefe da REP/OPER:
“a. reforçar os efectivos das guarnições mais isoladas ou às quais o In tem maior facilidade de impedir a chegada de reforços, em particular as situadas sob a fronteira.”

O Comando-Chefe, ao constatar, em 18MAI73, quando o IN iniciou as flagelações a Guileje, que se concretizava a sua intenção de um ataque em força, que conhecia desde 27DEZ72 (Relatório de Interrogatório n.º 108, referido atrás), deveria, de imediato accionar o conveniente reforço da guarnição de Guileje , conforme preconizara o Sr. Chefe da REP/OPER.E não se argumente que o Comando-Chefe não tinha meios para reforçar o COP 5, porque se assim fosse revelava uma incompetência total.

Para accionar o reforço imediato, dispunha da Companhia de Paraquedistas n.º 121, que segundo as declarações do Sr. Chefe da REP/OPER, (quando ouvido como testemunha em 27AGO73), “encontrava-se em Bissau em descanso”, desde 20ABR73. Esta Companhia podia embarcar na noite de 18MAI, chegando a Gadamael na manhã do dia 19 e a Guileje no mesmo dia. Esteve a reforçar Guidage, desde 23 a 30MAI (mesma informação do Chefe da REP/OPER); possivelmente não seguiu para Guileje, porque já estava “prometida” ao COP 3 (Guidage)!... Além disso, estavam na Península do Cantanhez, outras 2 Companhias de Paraquedistas que, com facilidade poderiam deslocar-se directamente, por terra, para Guileje; estas Companhias foram mais tarde reforçar Gadamael. Não tenho a certeza de que se o COP 5 tivesse sido reforçado, em tempo oportuno, isso resolveria o problema. Não tenho qualquer dúvida que, se esse reforço tivesse sido accionado, não teria decidido a retirada.

O não reforço só poderá entender-se, com grande esforço de boa vontade, se o Sr. Chefe da REP/OPER, estivesse à espera das 3 Companhias, vindas da Metrópole, para reforçar o Sector Sul. Se foi assim, bem podia esperar sentado...

O Sr. Comandante-Chefe decidiu deixar à sua sorte a guarnição de Guileje, demonstrando total insensibilidade, relativamente a centenas de pessoas, cujas vidas estavam em perigo e desresponsabilizou-se da sua obrigação, passando toda a responsabilidade para o Comandante do COP 5, que teve que decidir o que fazer.


3. - Conclusão

O teor do Documento de Interrogatório n.º 108 (27 de Dezembro de 1972) e da Acta da Reunião de Comandos de 15 de Maio de 1973 reforçam a justeza da minha decisão.

Oportunamente farei uma reflexão escrita do que teria acontecido, se a minha decisão tivesse sido esperar pela chegada do Sr. Coronel Paraquedista, RAFAEL DURÃO, novo Comandante do COP 5.

Quando regressei a Guileje, em 21 de Maio de 1973, de regresso de Bissau, onde expus ao Sr. Comandante-Chefe a necessidade de reforço de uma Companhia de Tropa Especial (já solicitado por mensagem) e face à situação encontrada, fiquei perante a oportunidade, mas também a grande responsabilidade de ter que decidir sobre o destino de centenas de vidas humanas (militares e civis).

Ciente das consequências que me esperavam, com incidências imediatas para minha vida militar, não hesitei decidir a retirada, de todo o pessoal que estava em Guileje. Pela minha ousadia paguei um preço bem caro, (um ano de prisão preventiva), mas VALEU A PENA.

A responsabilidade material da retirada foi minha, mas a responsabilidade moral foi do Sr. Comandante-Chefe, Sr. General Spínola (o Comandante é sempre o responsável por tudo que se faz ou deixa de fazer) e do seu Estado-Maior.

Alexandre da Costa Coutinho Lima
(Coronel de Artilharia Reformado
Único Comandante do COP 5, em Guileje)
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Nota do editor

Último poste da série de 31 de outubro de 2017 > Guiné 61/74 - P17919: Dossiê Guileje / Gadamael (30): O Comando-Chefe das Forças Armadas da Guiné e a Retirada de Guileje (2) (Coutinho e Lima)

Guiné 61/74 - P18674: Recortes de imprensa (95): A notícia do trágico acidente, ocorrido no Rio Corubal, no Cheche, na sequência da Op Mabecos Bravios (retirada de Madina do Boé) só é dada no "Diário de Lisboa", dois dias e meio depois, em 8 de fevereiro de 1969







Citação:
(1969), "Diário de Lisboa", nº 16573, Ano 48, Sábado, 8 de Fevereiro de 1969, CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_7148 (2018-5-24)


Fonte: Instituição: Fundação Mário Soares | Pasta: 06597.135.23237 | Título: Diário de Lisboa | Número: 16573 | Ano: 48 | Data: Sábado, 8 de Fevereiro de 1969 | Directores: Director: António Ruella Ramos | Edição: 2ª edição | Observações: Inclui supl. "Diário de Lisboa Magazine". | Fundo: DRR - Documentos Ruella Ramos | Tipo Documental: IMPRENSA.


1. A notícia chegou tarde às redações dos jornais. O vespertino "Diário de Lisboa" deu-a em caixa alta só na 2ª edição. E nesse sábado, dia 8 de fevereiro de 1969, fez uma 3ª edição.  O jornal era "visado pela censura" e a grande maioria dos portugueses (e nomeadamente os da nossa geração, nascida no Estado Novo) não sabia o que era isso de liberdade de imprensa... 

A notícia do "desastre na Guiné" (sic)  causou alarme e consternação: 47 mortos (militares, em rigor 46 militares e 1 civil guineense) era o balanço do "trágico acidente". A notícia era dada pela agência oficiosa L [usitânia], com proveniência de Bissau e data de 8... Chegava com dois e meio de atraso... Sabemos hoje que o "acidente" ocorreu na manhã de 5ª feira, dia 6 de fevereiro de 1969, no final da Op Mabecos Bravios, ou na seja, na sequência da retirada do aquartelamento de Madina do Boé. (*)

O balanço era, de facto, trágico: na lista das 47 vítimas, por afogamento, constavam: (i) 2 furriéis milicianos; (ii) 7 1ºs cabos; e (iii) 38 soldados (na realidade, um dos nomes era de um civil). Mas os termos da notícia eram lacónicos, como era habitual nos comunicados oficiais ou oficiosos em assuntos "melindrosos" como este:

 "Na passagem do rio Corubal, na estrada para Nova Lamego, afundou-se a jangada que transportava uma força militar, havendo a lamentar, em consequência deste acidente, a morte, por afogamento, de 47 militares".

Para não dar azo a especulações, o ministro do Exércitofoi nomeou (e mandou de imediato paar o CTIG) o cor cav Fernando Cavaleiro, o "herói da ilha do Como" (1964), a fim de instruir localmente o processo de averiguações. Não sabemos quanto tempo levou a instrução do processo, mas temos um resumo das conclusões preliminares do cor cav Fernando Cavaleiro, publicado no jornal "Província de Angola", em data desconhecida, conforme recorte que nos foi enviado pelo nosso camarada José Teixeira (**).

Ainda não tivemos acesso ao relatório original, mas tudo indica que há nele erros factuais graves, permitindo ytirar conclusões enviesadas que acabam por escmotear, ignorar ou branquear a responsabilidade do 2º comandante da operação, que ultrapassou o oficial de segurança, o alf mil Diniz. Na última e trágica viagem, em vez de 2 pelotões, a jangada levou o dobro, contrariamente as regras estabelecidas pelo alf mil Diniz... Mas este era o "ejo mais fraco" da cdeia hierárquica e acabou por ser o "bode expiatório" de toda esta história que ainda continua mal contada...

Daqui a menos de 9 meses,  comemora-se os 50 anos deste trágico evento... E muita água ainda há-se passar sob as pontes do rio Corubal até que se saiba a verdade ou toda a verdade sobre esta tragédia que ensombrou o primeiro ano do consulado do Spínola. (***)

Para já temos prometido um encontro com o ex-alf mil José Luís Dumas  Diniz (, da CART 2338), responsável pela segurança da jangada que fazia a travessia do rio Corubal, em Cheche, aquando  da retirada de Madina do Boé.  Tenho os seus contactos, a data do nosso encontro ainda foi maracad mas é apenas uma questão de mútua conveniência. O ex-alf mil Diniz mostrou-se interessado em contar, ao nosso blogue, a sua versão dos acontecimentos. Bem haja!... Porque, afinal, o que nos move é a procura da verdade e só da verdade...
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Notas do editor:




Vd. também 29 de março de 2010 > Guiné 63/74 - P6063: Recortes de imprensa (23): O desastre do Cheche, no Rio Corubal: excertos de artigo de Teresa Firmino, Público, 6/12/2009